Câncer e Qualidade de Vida


Alguns tipos de câncer têm maior incidência em pessoas com menor poder aquisitivo, isso ocorre pelas condições sociais vivenciadas por boa parte da população dos países sub-desenvolvidos.

Qualidade de vida, hábitos alimentares e condição social podem estar ligados ao surgimento ou não, de alguns tipos de câncer. O oncologista Hakaru Tadokoro, da Oncoterapia, de São Paulo, adverte que a falta de recursos financeiros contribui para o aparecimento de alguns tipos de tumores, entre eles podem ser citados os cânceres de colo uterinos, de pênis, de boca e de estômago.

O câncer é uma doença celular, do ponto de vista biológico e médico, já que os diversos tipos de tumores malignos mantêm um ponto comum: a perda do controle da divisão celular. Porém, pode também expressar as condições de vida das populações e de desenvolvimento das sociedades.  “A má alimentação ou ingestão de alimentos inadequados, a falta de higiene e de condições sanitárias, o consumo de cigarro e bebidas em excesso, a falta de diagnósticos precoces podem contribuir para desencadear alguns tipos de tumores”, afirma Tadokoro.

Entre os tipos diagnosticados percebe-se que os tumores próprios dos adultos jovens, como cânceres de boca e pênis são mais encontrados nas regiões menos desenvolvidas. “Essa ligação se dá pelo fato dos grupos sociais terem diferentes expectativas de vida e se submetem a diversos fatores de risco”, alega o médico.

O câncer de estômago também é um indicador da situação da saúde de sociedades menos desenvolvidas. “Regiões pobres que preservam os alimentos com sal por não disporem de métodos de conservação adequados como geladeiras, sofrem com um grande número de casos de câncer de estômago e de esôfago. A alimentação inadequada pode ajudar a desencadear algum tipo de câncer, é preciso estar atento ao que se consome”, diz o oncologista.

Pesquisas revelaram uma relação entre hábitos sexuais e o aparecimento de alguns tipos de câncer. Promiscuidade sexual, falta de higiene, ingresso precoce na vida sexual, bem como variedade de parceiros e a não utilização de preservativos contribuiriam para o aparecimento do câncer do colo do útero. O herpes vírus tipo II e principalmente o papilomavírus humano (HPV) são os vírus mais comumente associados ao câncer do colo do útero. “A cada ano surgem cerca de 500 mil novos casos de câncer de colo uterino no mundo e 80% das mortes acontecem em países em desenvolvimento. São estatísticas alarmantes, uma vez que o exame ginecológico rotineiro permite identificar o problema numa fase em que o tratamento oferece 100% de cura”, alega o médico.

“O câncer de boca também é próprio de pessoas de baixa renda, tabagistas e alcoólatras. Ele teria diagnóstico mais precoce, caso essas pessoas tivessem melhor instrução, alimentação adequada e maior acesso à assistência médica”, comenta o oncologista.

REVISTA DE SAÚDE MENTAL   Nº45

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HOJE.. A Contribuição da Literatura Infantil para a Criança Hospitalizada

ABORDAGENS...Repercussões Psíquicas da Histerectomia por Miomatose Uterina

ESTADO DE ALERTA.. Pensando a Globalização, a Violência e o Ser Humano

PONTO DE VISTA.. O Anjo dos Excluídos

ALTERNATIVOS..  Paradigma Estético e a Psicologia: Ressonâncias

PONTO DE VISTA.. Para Não Matar Outros Pais

ACONTECE.. Crianças em tempo de violência

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     Editorial 

                                                                                                                          Capa

   

A Contribuição da Literatura Infantil Para a Criança Hospitalizada

   Claudete Maria Schüssler de Souza
   Lucimar Soranzo Marques

O presente artigo tem como objeto as crianças internadas em hospitais, sem nenhum tipo de acompanhamento pedagógico ou emocional. Foi feita uma prática pedagógica no Hospital Regional de Rio do Sul, onde foram contadas histórias infantis, uma vez que é constatado que o momento de contar histórias é fonte de prazer para a criança e é grande a contribuição que oferece para o seu desenvolvimento.

Tendo-se preocupação com estas crianças internadas, muitos objetivos surgem, tais como, conseguir nos momentos de literatura infantil, um equilíbrio na criança, um momento de relaxamento, de descontração, proporcionando assim, um tempo para o sistema imunológico agir e recuperá-la mais rapidamente; propiciar um espaço dentro do hospital onde a literatura infantil possa contribuir para o bem estar da criança hospitalizada, promovendo o seu bem estar físico, emocional, intelectual e social; despertar na criança ( indiretamente ) o prazer de ler, pois formar leitores é ensinar a gostar de ler, mesmo antes de ensinar a ler. E, como objetivos mais específicos, ouvir histórias; relacionar situações das histórias com situações de seu cotidiano; estimular as crianças, através da literatura infantil, a sua recuperação; manter a autoconfiança da criança; orientar os pais sobre o projeto de literatura e sua importância; conversar, auxiliar e informar os pais no que for necessário; possibilitar informações constantes, junto aos prontuários médicos, sobre a enfermidade da criança; envolver a criança e seu acompanhante no projeto, tornando esses momentos agradáveis.

Esta prática, fundamenta-se nos  teóricos Abramovich, Baquero, Bettelheim, Gillig, Veer e Valsiner, onde salienta-se a relevância da leitura, a ludicidade, o despertar a imaginação e, na concepção vygotskyana sobre o pensamento e a linguagem.

 Introdução
As crianças internadas no Hospital Regional de Rio do Sul só têm atendimento na área da saúde. Elas sentem-se fragilizadas, pois muitas vezes se encontram longe de seus familiares, de seus amigos, da escola e, portanto, necessitam de atenção, carinho e diversão. Existe a necessidade de um profissional competente, como um pedagogo ou um psicopedagogo, para implantar projetos educacionais. De maneira geral, os hospitais não têm contemplado esta questão com a significação merecida.

A Literatura Infantil é um caminho a ser usado para envolver corpo e mente. Não se pode correr risco de improvisar, usar a história apenas como um preenchimento de tempo, faz-se necessário um planejamento das ações. O roteiro possibilita transformar o improviso em técnica, fundir a teoria à prática. O momento de contar histórias é de carinho e aconchego de pais com os filhos e, é vital para o bem estar da família.

Ela pode proporcionar à criança hospitalizada, este momento de descontração, de relaxamento, de prazer, de aprendizagem e de elevação de sua auto-estima. Conseqüentemente a recuperação física pela energia da felicidade.

A Contribuição da Literatura Infantil Para a Criança Hospitalizada

O ato de ler não se restringe a decifrar um texto escrito, seja qual for sua modalidade. Ler é compreender as diversas formas de expressões através das múltiplas linguagens. Como um  texto   escrito,   um   filme,  uma   música,   pessoas,   ambientes, etc.

O professor deve estabelecer a ligação afetiva e prazerosa entre a criança e o texto. Estimulando sua imaginação, de espaço, ambiente, cultura, modo de ser e vestir da sociedade em que vive, propiciando oportunidades para que ela se torne um leitor.

Para despertar e motivar o hábito da leitura procura-se trabalhar a literatura infantil, com o propósito de divertir a criança, estimulando-lhe a imaginação e a criatividade, dentro de um clima agradável e interessante onde os alunos podem dramatizar, criar, reproduzir, modificar, trazendo para sua realidade as histórias lidas.

Alcançando esse objetivo o aluno enriquecerá seu vocabulário e ampliará seus conhecimentos; pois este é o momento e o espaço privilegiado para aprimorar e buscar cada vez mais novas informações.

O homem através dos tempos cria, aperfeiçoa e desenvolve objetos, conhecimentos e comportamentos sociais, os quais são transmitidos a outras gerações e constituem o que chamamos de cultura. A transmissão e a modificação da cultura só são possíveis graças a uma outra criação do homem: A linguagem oral.

A literatura é a expansão máxima de um povo, e é através da linguagem oral, que ela, a literatura, realiza-se. Daí a estreita relação entre língua, cultura e literatura.

Contar histórias para crianças pequenas é uma atividade muito comum em várias culturas e é muito difícil uma criança que não se interesse, por exemplo, por ouvir histórias e não expresse um interesse lúdico pelas palavras.É imprescindível e vital um redimensionamento de tais relações, de modo a transformá-la eventualmente no ponto de partida para um novo e saudável diálogo entre o livro e seu destinatário: a criança.   

É através duma história que se pode descobrir outro lugar, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outra ética, outra ótica... É ficar sabendo História, Geografia, Filosofia, Política, Sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula... Porque, se tiver, deixa de ser literatura, deixa de ser prazer e passa a ser Didática, que é outro departamento (não tão preocupado em abrir as portas da compreensão do mundo). (ABRAMOVICH, 1994, p.17).

É importante ressaltar que ao ouvir histórias, contos, fábulas, ou mesmo fatos do dia-a-dia, a criança já esta assimilando alguns aspectos da aprendizagem literária, constituindo-se assim um importante recurso no processo ensino/aprendizagem. A aprendizagem ocorre quando existe motivação, desafio, quando acontece o querer saber para reorganizar o pensamento e estabelecer conexões entre o contexto cultural a qual a criança está inserida.

A ação pedagógica deve ser envolvente, cativante. E a literatura infantil trabalhada de forma lúdica, criativa e “gostosa”, desperta não só o interesse pelo mistério, pelo sonho e magia, mas, sobretudo o gosto em criar, reproduzir, compreender e analisar suas formas bem como a intencionalidade dos fatos.

Bettelheim (1978), diz que o conto de fadas é psicologicamente mais convincente do que a narrativa realista, porque coloca a criança diante de uma situação-problema cuja solução ela encontrará graças à sua capacidade de imaginar. Trata-se de um equilíbrio da personalidade, onde o conto lhe convida a não se deixar abater pelo real e a lutar contra as dificuldades da vida. Ajudam-nas a resolver os seus medos, identificando-se com os heróis que sempre se saem bem e a criança fica então tranqüilizada. Sozinhas elas seriam incapazes de inventar histórias com o material imaginativo, as  imagens, que os contos lhes proporcionam  para ajudar a resolver seus problemas.

 A ludicidade faz a criança criar uma situação ilusória e imaginária, como forma de satisfazer seus desejos não realizáveis. A criança brinca pela necessidade de agir em relação ao mundo mais amplo dos adultos e não apenas ao universo dos objetos a que ela tem acesso.  “No brinquedo é como se ela fosse maior do que é na realidade” (VYGOTSKY, 1933, citado em Veer & Valsiner, 1996:373).

Vygotsky diz, (Baquero,1998), que mesmo havendo uma significativa distância entre o comportamento na vida real e o comportamento no brinquedo, a atuação no mundo imaginário e o estabelecimento de regras a serem seguidas criam uma zona  de  desenvolvimento proximal, na medida em que impulsionam conceitos e processos em desenvolvimento.

A literatura infantil como arte a ser desenvolvida na sala de aula deve ocorrer em nível de sensibilidade e emoção, como expressão de sentimentos, como exercício contínuo de descoberta, aguçando a curiosidade, abrindo espaço para fluir o pensamento divergente, onde não existe o certo e o errado ou simplesmente resposta única.

Através dos livros e com a leitura, fazer com que a criança perceba que a história está na cabeça de quem lhes contou e que na cabeça de cada uma criança haverá uma história diferente. Segundo Gillig (1999), os livros ajudam a criança a entender a sua realidade.

O papel das histórias infantis é abrir novas perspectivas para a criança a fim de que se torne leitor da escrita e dela para o mundo e para a vida alargando seus horizontes. Nesse sentido, o papel do professor é o de mediador entre os alunos e o texto, promovendo a discussão, o entendimento, o debate de diferentes opiniões, a argumentação e a reflexão do grupo.

O aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento que , de outra forma, seriam impossíveis de acontecer.  (VYGOTSKY, 1934, citado em Veer & Valsiner, 1996:372).

É através da coincidência entre o mundo representado no texto e o contexto do qual participa seu destinatário que emerge a relação entre a obra e o leitor. A literatura infantil sintetiza, por meio dos recursos da ficção, uma realidade que tem amplos pontos de contato com o que o leitor vive cotidianamente. A escola e a literatura podem provar sua utilidade quando se tornarem o espaço para a criança refletir sobre sua condição pessoal.

A descoberta do lúdico na linguagem literária sensibiliza a criança, ampliando o domínio da linguagem e conseqüentemente a sua capacidade de construção e conhecimento do mundo. Vygotsky diz, ( Baquero, 1998), que o pensamento e a fala podem-se comparar a uma nuvem descarregando uma chuva de palavras. O pensamento se concretiza no ato da fala.

A criança sentirá muito mais vontade de ir para uma escola onde ela pode expressar-se, onde suas idéias são respeitadas, onde se faz trabalho em equipe, onde se aprende a ler e a escrever, faz o que ela mais gosta, que é brincar; brincar de fazer-de-conta que é autor, cantor, desenhista, ator...

Freud afirmava, e depois também Bettelheim, ( Gillig, 1999 ), que o conto representa a maior parte de nossos desejos, de nossas angústias e dos mecanismos gerais do funcionamento da nossa psique, por isso seu uso na psicopedagogia   revela-se precioso tanto no campo terapêutico como no educativo.

O Uso do Conto Para a Criança Hospitalizada

Segundo Gillig (1999), o conto é um mediador entre o mundo do inconsciente e o da cultura, entre o imaginário da criança e o simbolismo dos sistemas de comunicação convencionais.

O trabalho psicopedagógico não visa compensar um déficit instrumental, mas restaurar inicialmente o desejo de aprender que pode, contra a corrente, desbloquear os recursos psíquicos de uma criança para favorecer o funcionamento de um instrumento, se trata de uma ajuda com finalidade psicoterápica ou caráter terapêutico. 

Os efeitos terapêuticos em trabalhos psicopedagógicos quando se faz uso do conto, segundo Bettelheim, (Gillig,1999), o que o conto expressa está relacionado com o inconsciente, porque leva a fantasiar, mas também a resolver, por um processo que corre do pré-consciente para o consciente, os problemas psicológicos da criança. O conto permite evadir-se do real através da ficção, não para fugir deles, mas para melhor trata-los, pois o fim feliz do conto constitui, no nível da fantasia, uma resposta a um conflito real. 

O conto libera a criança de sua angústia e de seu medo de não se sair bem. Muitos contos maravilhosos nos ensinam que o mais insignificante dos seres pode ter êxito. 

No trabalho psicopedagógico o conto é terapêutico em si, não somente porque permite à criança restaurar sua capacidade de se projetar para diante e querer crescer, é também porque lhe oferece a possibilidade de tranqüilizar-se e de vencer seus medos. 

Narrativa de algumas práticas realizadas (Obs: Os nomes dos pacientes são fictícios).

segunda-feira – período matutino
Foi começado o trabalho de mediação no Hospital Regional, onde primeiro foi feita a recepção no departamento de recursos humanos e depois o encaminhamento para a enfermeira responsável pela pediatria, a qual orientou e apresentou às demais enfermeiras. A recepção foi muito boa e a curiosidade por conhecer as crianças era enorme. A enfermeira levou ao corredor onde via-se cada rostinho pelo vidro. Haviam umas quinze crianças internadas, na faixa etária de 2 meses a 13 anos. Logo foi passado de quarto em quarto e conversado com as crianças e as pessoas que as acompanhavam. Em seguida foi lido os prontuários médicos para haver inteiração das enfermidades das crianças.

No quarto 408 estava Maria, de 2 anos e 3 meses, com sua mãe, residentes no Bairro Boa Vista. Ela havia sido internada no dia 21/07 com crise convulsiva (sofre de epilepsia), com amigdalite aguda e febre. Estava com uma tala com soro na mão esquerda. Logo foi percebido que tinha algum problema, algum retardo no desenvolvimento, então foi resolvido começar por ela. Foi pego um fantoche de  mão e conversado, ela quase não falava. Depois foi mostrado com fantoches de vara, como se cuida dos dentes, ela já começou a participar. Então foi perguntado se ela queria ouvir a história dos três porquinhos. Ela disse que sim. Ficou muito empolgada, participava, ria. Foi perguntado se queria desenhar a historinha. Num instante pegou o papel e desenhou - rabiscou. Sua mãe que estava o tempo todo junto, ficou admirada. Foi escrito o nome dela na folha e colado seu “quadro” na cabeceira. Depois foi entregue uma lembrancinha da história em forma de um cartãozinho de um porquinho, e um pirulito onde dizia “Você é importante!”. Foi feita a despedida  prometendo-se voltar. 

segunda-feira – período vespertino
No período da tarde foi-se ao quarto 405 onde estava o João, um menino de 3 anos, muito lindo e calmo, de Dona Emma, com tala de soro nas duas mãos. Estava com sua mãe, uma pessoa amável. Foi internado dia 14/07 com vômito, diarréia, dor abdominal, uma provável infecção intestinal. Foi começado a conversar com fantoche de mão e depois, com fantoche de vara mostrado como se cuida dos dentes. Ele queria que contasse mais. Então foi contada a história da dona baratinha, com fantoches e pedia-se para ele fazer os sons dos bichos. Ele ria e foi muito divertido. Então, foi dada uma lembrancinha em forma de cartãozinho da dona baratinha. Ele disse que queria desenhar a história  porém não podia. Disse-lhe que outro dia seria feito.

Foi-se ao quarto 408 onde se encontrava Flávia de 1 ano e 10 meses, uma criança ativa, porém muito pálida, estava com uma sonda nasogástrica e uma tala de soro no braço esquerdo. Sua mãe disse que eram de Pouso Redondo e que ela havia sido internada dia 20/07 com vômito, diarréia e dor abdominal. Logo apareceu a enfermeira contando que a criança havia expulsado uma grande quantidade de áscaris. Foi aproveitada a chance de conversar com a mãe sobre higiene. Então foi contada a história da dona baratinha, com fantoches de vara. Flávia gostou muito. “Desenhou”, pintou e pendurou-se seu “quadro” na cabeceira. Ela disse que ia mostrar para o papai. Foi dada a lembrancinha e o pirulito, e feita a despedida. 

terça-feira – período matutino
Hoje se chegou ao hospital e soube-se que a Maria havia recebido alta. Foi-se, então ao quarto 406 conversar com o Pedro, um menino de 11 anos, de Rio do Sul, acompanhado de seu tio, admitido em 19/07, com febre e o corpo hiperimeado – manchado. Foi perguntado se queria ouvir histórias, ele disse que sim. Escolheu O Patinho Feio e depois Chapeuzinho Vermelho. Foram contadas as historinhas com bastante entonação e mostrado as figuras. Ele gostou muito. Havia dito que queria desenhar, porém observou-se que suas bochechas estavam vermelhas, é que a febre voltara a subir. Deixou-se o desenho para outro momento.

O quarto 412 é de isolamento, perguntou-se às enfermeiras se podia entrar, ela disseram que sim. Lá estava uma menininha de 1 ano e 7 meses, chamada Ana, de Pouso Redondo, na companhia de sua mãe. Havia sido transferida de Joinville e dado entrada em 20/07 aqui em Rio do Sul. O aparelho de ar condicionado estava ligado para que a temperatura ficasse agradável, pois ela não podia vestir da cintura para cima. Estava com queimadura de segundo e terceiro graus, no queixo, face, pescoço, tórax anterior e mão esquerda. Usava um curativo fechado, uma espécie de colete. A mãe contou que foram visitar a avó em Joinville e a criança entornou sobre si uma xícara de café quente. Ana é bastante esperta e gosta muito de música. Então se convidou para cantar e dançar. Foi colocado o CD Todo Mundo é Bicho, onde as músicas falam de vários bichinhos. Ela escutou com atenção, cantou e dançou. Na despedida, foi dado um pirulito e percebeu-se que sua recuperação está sendo rápida.

terça-feira – período vespertino
À tarde foi-se ao quarto 401-1 para conhecer o Paulo, um menino de 7 anos, aqui do Bairro Canta Galo, que havia sido admitido ontem dia 23/07, para realizar uma cirurgia de septoplastia e cornetos. Estava na companhia da mãe, uma senhora bastante simpática. Foi perguntado se estava passando bem e se queria ouvir uma historinha. Ele disse que sim e escolheu Chapeuzinho Vermelho. Gostou muito. Escolheu um cartãozinho e disse que estava cansado pois  estava sob efeito de medicamentos.

Soube-se que no quarto 407 havia sido admitido hoje, 24/07, um menino de 6 anos chamado Marcos, de Vidal Ramos, e que estava em companhia dos avós pois sua mãe teve bebê recentemente. Havia feito cirurgia de uma hernia e retirado também um espinho da mão esquerda. Ele era um menino muito lindo, apesar de estar bastante pálido. A princípio foi pensado que ele não iria querer ouvir historinhas, pois havia feito cirurgia não fazia muito tempo, mas ele disse que queria ouvir a do Gato de Botas. Foi contada a historinha, ele olhava bastante tempo as figuras e pediu que voltasse para contar outras.

No quarto 408 estava um menino chamado Mário, de 3 anos, do Bairro Boa Vista, acompanhado pela avó durante o dia e à noite pela mãe. Foi internados dia 20/07 com febre alta, que oscila há mais de um mês. A criança estava pálida, chorosa e com medo de tudo. Os médicos suspeitavam de leucemia. Os exames de acompanhamento mostraram ser uma anemia aguda. Mas está em observação. Os pais de Mário estão separados e ele sente muita falta de seu pai que reside em Florianópolis. Está ansioso esperando pela visita do pai. Ia-se visitá-lo ontem à tarde, mas quando foi visto pela janela, que seu pai estava com ele, deixou-se para outro dia. Então hoje, ele estava muito feliz, completamente diferente do dia anterior. Foi sentado ao seu lado e dito que seria contada uma historinha de um patinho que era muito feio. Foi-se contando e mostrando as figuras no livro, ele se entusiasmava, participava e estava curioso para saber o final. Gostou tanto que queria desenhar o patinho. Desenhou, pintou e todo orgulhoso ajudou a pendurar seu “quadrinho” na cabeceira.

Obs.: Muitas outras práticas foram realizadas nesse período no Hospital Regional.

Considerações Finais
Após a aplicação desse projeto, concluiu-se que diante do proposto, foi conseguido atingir as metas e ir além do esperado. 

Houve a necessidade de visitar o hospital algumas vezes para conhecer o tipo de clientela que se iria encontrar hospitalizada na ala infantil e constatou-se que era a mais variada possível e imaginável. Foi conversado com várias pessoas internadas e também funcionárias do hospital, tais como  a assistente social, pessoas dos recursos humanos, enfermeiras, médicos,foi lido todos os prontuários dos pacientes, enfim, conhecida a prática realizada para recuperação. Pode-se perceber que não havia nada relacionado à recuperação emocional, social, psíquica e, somente direcionado ao físico. 

Iniciou-se com dúvidas quanto se as atividades propostas e as metodologias seriam adequadas. Com o decorrer das práticas, porém o entusiasmo e a participação das crianças demonstraram estar-se no caminho certo.

Através da literatura infantil foi conseguido mexer com o imaginário das crianças e manter uma cumplicidade nestas viagens à fantasia, tornando o contador de histórias e o ouvinte bons amigos e fazendo com que essas crianças esquecessem por momentos, que estavam hospitalizadas. 

A total liberdade de ações, dada pelos funcionários do hospital, pelos médicos, muito contribuiu para o êxito do projeto. Havendo um sentimento de valorização e estímulo para se fazer o melhor. 

O gratificante neste trabalho foi o benefício às crianças internadas e também as suas famílias, e saber que momentos agradáveis foram vividos, em meio a tanta pobreza , dor, desinformação e tristeza. 

O diferente foi desafiado e abre-se caminho para outros pedagogos e psicopedagogos que queiram atuar numa área onde há muito a ser feito.

Claudete Maria Schüssler de Souza: Pedagoga- Unidavi - Rio do Sul – SC – Psicopedagoga –  Faculdades  Integradas de Amparo
 Lucimar Soranzo Marques – Pedagoga- Unidavi - Rio do Sul – SC – Psicopedagoga – Faculdades
  Integradas de Amparo

Referências Bibliográficas
ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione; 1994.
BAQUERO, Ricardo. Vygotsky e a aprendizagem escolar. Porto Alegre:Artes Médicas, 1998.
BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
GILLIG, Jean-Marie. O conto na psicopedagogia. Porto Alegre: Artmed, 1999
VEER, René Van Der e VALSINER, Jaan. Vygotsky: uma síntese. 2.ed. São Paulo:  Edições Loyola, 1996.
Referências de Apoio
CUNHA, Maria Antonieta. Literatura infantil: teoria e prática. São Paulo: Ática, 1983.
LAJOLO, Marisa ; ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira: história e histórias. São Paulo: Ática,1988.
ZILBERMAN, Regina. A Literatura infantil na escola. 8ª ed. São Paulo: Global, 1994.
 _____. A leitura em crise na escola: as alternativas do professor. Porto Alegre: 1985.

   

Repercussões Psíquicas da Histerectomia por Miomatose Uterina

    Karina Batista de Paula

Resumo: Este artigo se originou de uma monografia do Aprimoramento em Psicologia Hospitalar no Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros, com o objetivo de discutir através de informações e experiência clínica as repercussões psíquicas que acometem as mulheres numa cirurgia de retirada do útero. Os dados foram colhidos no grupo de internação, atendimento psicológico em enfermaria de ginecologia e no ambulatório. Os resultados indicaram que, de uma forma geral, existe a presença da angústia e do sofrimento psíquico numa cirurgia de retirada do útero. As pacientes submetidas a esta perda precisam lidar com uma situação difícil do ponto de vista psíquico, que são as repercussões relacionadas a sexualidade e o valor simbólico do útero na sua história de vida.

O estudo permitiu ainda constatar que a literatura existente fornece um referencial médico mais abrangente do que o psicológico, o que sugere a importância do estudo psicológico desta questão.

Palavras-chave: sexualidade feminina, aspectos psíquicos da histerectomia, aspectos psíquicos da menopausa, mioma.

Abstract: This article originated from a monograph entitled improving Hospital Psychology in the Leonor Mendes de Barros Hospital and Maternity with the object of discussing, through information and clinical experience, psychological repercussions which affect women undergoing surgery for the removal of their uterus. The data were collected from the post-surgery patient group, the gynaecology ward (psychological attendance) and clinics. The results showed that, generally, there is a certain psychological distress when undergoing a surgery to remove the uterus. The patients submitted to this loss need to deal with the psychological difficulties, related to sexuality and the symbolic value of the uterus in their lives.

The sudy also affirms that the existing literature covers more about the medical aspects of this issue than the psychological, which suggests that the latter needs to be studied further.

Key Words: female sexuality, psychological aspects of hysterectomy and surgically imposed menopause.

            De acordo com o referendado pela ciência biomédica, a histerectomia por miomatose uterina é uma cirurgia de retirada do útero por mioma, assim deferido por Frederickson, (1992:37) “o mioma também chamado de fibromioma ou leiomioma é um tumor uterino benigno, composto de músculo liso e de elementos do tecido conectivo”. Quando a paciente apresenta vários miomas trata-se de uma miomatose uterina.

            Quanto aos sintomas, existem miomas grandes praticamente assintomáticos, outros de tamanho variado que podem provocar dor, pressão e aumento do sangramento uterino. Dependendo da localização, pode produzir sintomas urinários ou queixas retais, se está na parede do útero pode produzir sangramento anormal, infertilidade e aumento do fluxo menstrual ocasionando hemorragias sucessivas que podem levar a mulher a um quadro de anemia crônica. Além disso, os miomas podem complicar a gravidez, causando abortamentos e trabalho de parto prematuro.

            Segundo Greer, (1994) o mioma ocorre em mulheres durante a idade de reprodução e em geral diminui de tamanho ou desaparece com a involução do útero depois de encerradas as funções ovarianas.

            O tratamento cirúrgico é necessário se os miomas estão suficientemente grandes para preencher toda a pelve, se o sangramento não pode ser controlado pela terapia clínica, e também devem ser removidos se crescem após a menopausa.

            A cirurgia ainda é o método de tratamento mais comum. A miomectomia que é uma cirurgia para a retirada do mioma, preserva o útero, ou seja, a função menstrual e reprodutiva da mulher e pode ser realizada quando está em questão a infertilidade, caso contrário, a histerectomia total é o tratamento mais utilizado.

            O médico Lemgruber, (1995) informa que existem quatro tipos de histerectomia:  a histerectomia total que trata-se da retirada de todo o órgão, isto é, do corpo uterino e do colo, parte que fica em contato com a vagina. Esta cirurgia poderá ou não incluir a retirada dos anexos, ou seja, ovários e trompas; a histerectomia subtotal que é a remoção do corpo uterino, com a conservação do colo; a histerectomia radical onde além do corpo uterino, remove-se também parte da vagina, trompas e gânglios linfáticos e se indica geralmente em casos de câncer e por fim a histerectomia fúndica, trata-se de uma cirurgia conservadora em que se retira apenas o fundo do útero (parte do corpo), permanecendo, assim, a função menstrual do órgão.

            Para Jeffcoate, (1979) alguns ginecologistas consideram que uma vez completada a família da mulher, o útero é um corpo estranho “ninho de bebês ou de câncer” que deve ser removido. Em sua opinião, mesmo para a mulher que não deseja mais ter filhos o útero não é um órgão a ser descartado levianamente. O médico Lemgruber assim também considera, não ter sentido a retirada do útero por prevenção contra um possível câncer.

            As fontes desse artigo se encontram em nossa experiência clínica, o questionamento notadamente surgiu do discurso de alguns profissionais da área da saúde e repetido por algumas pacientes de que o útero “não serve para nada” apenas para “gerar filhos e ter câncer”.

            A partir disso, começamos a questionar; além da procriação e do caminho para uma doença degenerativa como é o câncer, existe outro significado para esse órgão? Qual seria nos significados  psíquico?

            Tratando-se de um órgão que supostamente “não serve para nada”, nos questionamos do porque muitas se demonstravam angustiadas pela sua retirada.

Metodologia

            Nesta reflexão, os sujeitos foram as pacientes e seus acompanhantes que passaram pelo grupo de internação no ambulatório do setor de ginecologia durante o período pré-operatório, totalizando 380 participantes. Foram realizados 60 atendimentos psicológicos compreendendo as pacientes internadas na enfermaria de ginecologia no período pré e pós-operatório, atendimentos durante os retornos pós-cirúrgico feitos no ambulatório e no Serviço de Triagem da Psicologia localizado no ambulatório do Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros, período de março de 2000 à fevereiro de 2001.

            O grupo era considerado heterogêneo, com pacientes que iriam se submeter a cirurgias referentes a ginecologia geral (retirada do útero por mioma, prolapso uterino, patologias de ovário, patologias relacionadas a perda urinária, sangramento etc.) e pacientes com câncer de mama e ginecológico. Cabe aqui salientar que nos deteremos à respeito da retirada do útero por mioma, que é o objetivo deste trabalho.

            Os instrumentos utilizados no grupo de internação foram informações e orientações a cerca da cirurgia, com o auxílio de cartazes ilustrados, foram proferidas palestra sobre o funcionamento do aparelho reprodutor feminino. Este grupo foi realizado durante quatro dias da semana, sendo coordenado por uma psicóloga e demais profissionais (assistente social, enfermeira e nutricionista), com 1 hora e meia de duração.

            Foi feito registro das falas dos participantes do grupo de internação, considerado um espaço em que as pacientes falaram sobre o mioma, os sintomas e o que pensaram que aconteceria após a operação, falaram o que já ouviram a respeito de mulheres que retiraram o útero, dos medos e das fantasias que cercam esta cirurgia. Durante o grupo, percebemos no discurso das pacientes a necessidade do atendimento psicológico individual quando a paciente se mostrava mobilizada, ou seja, em seu discurso trazia medos, fantasias acerca da retirada do útero.

            Do mesmo modo, foi feito registro dos atendimentos na enfermaria e no ambulatório do setor de ginecologia. Nas enfermarias e ambulatórios foram realizados atendimento psicológico de suporte e alguns atendimentos psicoterápicos no ambulatório.

Discussão

            As impressões das falas das participantes e dos atendimentos levou-nos a perceber que para algumas pacientes o diálogo com o marido é um pouco mais aberto, eles acompanharam suas esposas e chegaram a participar do grupo junto com elas. Os maridos mostraram-se preocupados com esta questão e alguns disseram que ao tomarem conhecimento da necessidade da retirada do útero de suas esposas, conversando com os amigos de futebol, por exemplo, os mesmos falaram que “suas mulheres não são mais as mesmas” depois de terem passado pela operação, e outros que “nada influenciou no desempenho sexual” chegando até a melhorar, pois deixaram de ter a preocupação com a concepção e a utilização de métodos contraceptivos. Torna-se então uma dúvida para o casal. Melhora ou piora o desempenho sexual?

            Percebemos nestes casos de dúvidas do casal, a importância da informação acerca da sexualidade, no discurso as pacientes mostram-se temerosas para contarem sobre a necessidade da retirada do útero, talvez porque elas também tivessem dúvidas se o prazer sexual acontece no útero ou não.

            Algumas pacientes do grupo não tiveram filhos, algumas eram virgens e durante a consulta com o médico, cansadas dos sintomas hemorrágicos e das dores causadas pelo mioma, faziam o pedido de que o útero fosse retirado mesmo tendo um mioma pequeno e assintomático. A angústia emergente de acabar com os sintomas, expectativa de com a cirurgia evitar os transtornos menstruais ou mesmo o incomodo de vir ao ginecologista todo ano. 

            O acompanhamento ginecológico foi vivenciado de forma extremamente constrangedora, com muito receio e vergonha pela paciente. Muitas pacientes perguntam pouco, relatam sentirem-se envergonhadas ao exame ginecológico, feito por “um médico tão novo” sic, se referindo aos residentes. A dificuldade de compreender o que é dito pelo médico aumenta a ansiedade da paciente frente ao seu estado de saúde. Não sabem bem o que seja um mioma, motivo pelo qual perderá o útero, associam-no ao câncer uterino, como algo extremamente grave e que poderá levá-las a morte. Neste contexto a paciente solicita ao médico que faça a cirurgia.

            Greer (1994) afirma que os médicos aceitam a “ansiedade” da paciente sobre o útero e seu potencial para desenvolver câncer como justificativas para a cirurgia. “Após a última gravidez programada, o útero torna-se inútil, sangra, produz sintomas, é um órgão potencialmente canceroso, devendo ser retirado” (1994:43). As mulheres solicitam aos médicos numa necessidade que seja retirado o útero, muitas vezes são mulheres que têm disfunções uterinas relativamente sem importâncias para uma histerectomia.

            Notamos que este discurso aparece realmente em algumas pacientes e a retirada torna-se então justificada não apenas pelas pacientes como também pelos médicos. Entendemos que se deixa de lado a subjetividade, não se levando em conta a dor psíquica, o quadro orgânico predomina em detrimento do psíquico. Na medida que as pacientes são orientadas de que o mioma não é câncer uterino, a angústia associada a questão da morte por causa de um câncer, diminui de intensidade. Acreditamos que o útero antes de ser um órgão, considerado “um ninho de bebês ou de câncer uterino”, simboliza o feminino e remete a sexualidade.

            Enfatizamos nesta nossa reflexão, que o tratamento não é de um mioma uterino, mas uma mulher portadora deste mioma. No referencial do médico, pode ser apenas a perda da função reprodutora, mas para a mulher a ser operada a retirada desse órgão pode significar a supressão da feminilidade, da sexualidade e do estado de saúde. Dessa forma, notamos que antes de acontecer a cirurgia e após a retirada do útero, existe a presença de sofrimento psíquico, ligadas a questões da sexualidade feminina. A retirada do útero é encarada de formas diferentes pelas pacientes, pois remete a importância que cada uma deposita nesse órgão.

            Observamos em algumas pacientes que o fato de pensarem na possibilidade da retirada do útero, leva-as a achar que ficarão “ocas”, “vazias”, “mulheres macho”, e que seus maridos vão ficar pouco atraídos por elas. Passamos a questionar se traziam esse discurso apenas no momento próximo da operação, das conversas nos corredores enquanto aguardavam para passar no médico, ou se prolongava no período pós-operatório. Confirma-nos realmente que esta angústia não era aliviada com a retirada do útero.

Caso 1
           
Apresentaremos o caso de uma paciente que a reflexão indica fantasias envolvendo o mioma.

            Foi realizado atendimento em uma paciente que se encontrava no período pré-operatório de uma provável histerectomia por miomatose uterina, o médico havia informado-a sobre o tamanho do mioma e o risco de perder o útero. A paciente era viúva, estando no seu segundo relacionamento, com um homem poucos anos mais jovem do que ela, que dizia ama-lá. Ambos manifestando desejo de uma gravidez.

            Durante o atendimento, a paciente relatou que no passado submeteu-se a uma laqueadura por conta do número de filhos que havia tido e  pelos maus tratos que recebia do falecido marido.

            Naquele momento, se encontrava aguardando a operação e no seu discurso, trazia a angústia pelo temor da esterilidade com a perda do útero. Ao falar, culpava o mioma por não ter engravidado novamente,  na sua fantasia acreditava que havia engravidado e o mioma havia comido o seu bebê. Neste discurso fantasioso, parece desconsiderar a laqueadura realizada há 12 anos, acreditando que estivera grávida do atual companheiro.

            O mioma para esta paciente é considerado como sendo um bicho que come bebês e que é responsável, pelo possível infortúnio que seria a não possibilidade de poder gratificar com um bebê o homem que a trata bem e diz amá-la. Percebemos que essa situação é vivida como algo difícil, pois é como se ela tivesse dentro de seu útero bichos que andam, etc, que repercutem na sua saúde e no relacionamento com o marido, que como ela, não entende o que se passa, dificultando ainda a relação sexual do casal.

            As pacientes demonstravam vergonha a respeito do que pensavam ser o mioma, falavam do mioma também como sendo um “bicho cabeludo”, uma “bola de pelos”, um “sapo peludo”, etc, do qual iriam operar. Percebemos fantasias que existem por trás da cirurgia de retirada do útero de que ficaram “ocas”, “frias”, “vazias”, que tem como pano de fundo questões inconscientes ligadas a sexualidade.

            Algumas pacientes omitem o fato da retirada do útero para seus esposos, por motivo da fantasia que “não serão mais as mesmas mulheres”, no âmbito sexual do casal.

Caso 2 
            Apresentaremos o caso de uma paciente que a reflexão indica ter relação com a sexualidade feminina.

            Uma  paciente atendida no ambulatório, casada e com filhos, e que se submetera à uma histerectomia anteriormente, fora encaminhada sobre a queixa de diminuição da libido.

            Em atendimento, a paciente falou que se soubesse que ficaria assim não teria deixado retirar o seu útero, lamentou o fato de que após um ano da cirurgia se encontrava sem vontade de ter relação sexual e dizia ter dó do marido que amava, pois sempre foi amoroso e até antes da operação tinham bom desempenho sexual. Se encontrava preocupada com o fato dele estar notando ela diferente, com medo que pensasse em traição ou que viesse a questionar e então teria que contar sobre a operação que culminou na retirada do seu útero.

            Acreditamos que um dos motivos que levam a paciente a omitir seja o medo de que seu marido pense como ela, ou seja, de que se tornou fria, oca por dentro, portanto, impossibilitada de ser penetrada e proporcionar prazer ao parceiro. Relatam que o pênis do marido “baterá no oco”, durante a relação sexual, como se o canal vaginal e o útero formassem canal extenso e com a retirada do útero, ao pênis sobrasse o “vazio”, “o oco”. 

            A mulher operada procura elaborar em maior ou menor grau o luto pela perda do seu útero. Em alguns casos, o trabalho de luto torna-se difícil e a paciente não consegue voltar a plena satisfação sexual que antes gozava, talvez pelo significado dado ao órgão perdido e pela dificuldade em se separar dele.

            Freud (1914) considera que o trabalho de luto envolve a elaboração da perda de alguém ou um ideal de alguém que seria o objeto idealizado e que não existe mais. O desligamento do objeto identificado – ligar e se desligar dos objetos é um movimento penoso – é proporcional ao investimento, pois toda a libido investida é retirada de suas ligações com o objeto. Freud postulou que o trabalho de luto envolve graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, e, após certo tempo, o indivíduo retoma suas relações e investimentos afetivos.

            Portanto, a consideração de que a paciente não sofre perda com a retirada do útero é questionável. No momento da constatação da necessidade de uma cirurgia, ou mesmo após sua realização, existe a necessidade de elaboração de um luto, seja a nível sexual, ligado a fantasia de que é um órgão que gera prazer, seja no quanto a questões de maternidade.

            Quanto a sexualidade feminina, Volich (1995) no artigo O eclipse do seio na teoria freudiana – A recusa do feminino, constata que o papel desempenhado pelos seios no psiquismo da mulher, como sendo um órgão que tem um caráter fundamental na identidade feminina, é negligenciado pela teoria psicanalítica. Esta negligencia, para o autor, tem como base o caráter problemático das concepções psicanalíticas referentes à feminilidade.

            Concordamos com o autor, e acrescentamos a negligência quanto à importância do útero. Percebemos o quanto é difícil falar sobre a importância do útero para as mulheres, do ponto de vista psíquico. Na pesquisa bibliográfica realizada para fundamentar este trabalho, percebemos que o significado do útero para as mulheres acaba sendo pouco discutido, acreditamos que isto se deva ao fato de que, dentro da teoria psicanalítica o referencial não é o feminino, mas sim o masculino.

            Segundo Volich, Freud expressou sua dificuldade em compreender a feminilidade, qualificando-a de “pouco acessível”, “continente negro”, “enigmática”, descrevendo também seus conhecimentos neste campo como “lacunares” ou “insuficientes”. Acreditamos que as idéias de Freud, acerca da feminilidade, como sendo alguma coisa obscura, difícil de ser atingida, difícil de ser compreendida, reflete no quanto é difícil trabalhar com as questões que envolvem o feminino. O quanto é difícil falar da mulher, sobre um referencial feminino dentro da teoria psicanalítica.

            Para a menina sair da sexualidade infantil e atingir a sexualidade adulta, ela tem que passar por etapas, que a levarão a atingir a identidade feminina. Então, a menina tem que renunciar a primeira zona genital erógena – o clitóris, e, na puberdade, a masturbação clitoridiana deve ser recalcada e então a menina teria que transferir a sua capacidade de excitabilidade à vagina. Segundo alguns autores da psicanálise, a vagina do ponto de vista simbólico, é inexistente durante a infância.

            Volich cita também que, para a menina ter acesso à identidade feminina é preciso recalcar as tendências ativas-masculinas primárias, cuja manifestação mais importante é a masturbação clitoridiana. Através deste recalque a menina seria capaz de realizar o “duplo movimento” do qual depende o seu acesso à feminilidade: a passagem da excitabilidade clitoridiana à excitabilidade vaginal, e a mudança da mãe, objeto primário, para o pai, novo objeto de investimento libidinal.

            Neste caminho de desenvolvimento sexual feminino, a vagina é negligenciada, do ponto de vista inconsciente, só passa a existir na vida adulta. Para Freud, a vagina é uma coisa inexistente e a menina só passa a percebe-la na puberdade.

            Alguns autores da psicanálise contemporânea procuram falar acerca da sexualidade feminina dentro de um referencial feminino, como por exemplo, Silvestre (2000) no artigo A questão feminina, refere que alguns psicanalistas chegaram a postular o conhecimento da vagina no inconsciente, ou seja, a especificidade feminina do inconsciente. Acreditamos que o útero também deve ter uma representação inconsciente. Anzieu (1992) da psicanálise contemporânea, em seu livro Mulher sem qualidade, faz a citação do útero como sendo uma “cavidade” psíquica, fala que as crianças brincam simbolizando uma caixinha, e o quanto que o útero está presente no universo feminino. A “cavidade”, que seria a representação simbólica do útero está presente no psiquismo da menina. Postula que a mulher tem a sua experiência de vida solidificada no homem, é “um ser sem palavras, inconsistência da feminilidade frente à falicidade”(p. 04).

            Considera que a mulher tem sido encarada como um ser destituído de qualidade própria. Isto é, como não possuindo outra qualidade senão a que lhe é atribuída a partir da referência ao masculino, ao falo. Neste contexto, a identidade feminina tornou-se enclausurada social e culturalmente nos parâmetros do masculino (como única qualidade que lhe é admissível). A mulher é tomada como negativo do homem, não responde pela natureza íntima de si mesma.

            Percebemos que a mulher, encarada como um ser faltante, na concepção fálica, é impedida de perceber seus atributos femininos, como o útero, por exemplo, porque ao discutir sobre o feminino, se enfatiza a falta e não a presença.  

            Anzieu postula que o ser mulher após Freud levou ao pensamento de que: “os homens pensam a mulher, e acham simples retirar-lhe um pênis. E depois, essa perspectiva evoca possibilidades inquietantes: a contragosto eles se defendem por uma construção teórica – reivindicação, castração, falta. Como se ser mulher fosse um defeito, uma doença, uma tendência do não-ser” (1992:03).

             Assim sendo, usando a teoria psicanalítica como referencial  teórico para este trabalho, concluímos o quanto realmente é difícil a constatação do útero como representante simbólico do universo feminino para a teoria psicanalítica.

Caso 3
            Apresentaremos o caso de uma paciente que a reflexão indica ter relação com a psicossomática psicanalítica.

            Uma  paciente atendida no período pré-operatório de uma histerectomia no leito de enfermaria da ginecologia, viúva, seu marido havia falecido de câncer no reto há três anos. Dizia estar preocupada com seus dois filhos que moravam no Japão e que haviam deixado os pais muito antes do falecimento por necessidades financeiras como também pela dificuldade de relacionamento com o pai, que fora um pai e marido agressivo para com a família. A paciente relatou situações severas de maus tratos durante os vinte anos de relacionamento conjugal.

            A preocupação maior era com o filho mais velho que deixou no Brasil, a esposa e a filha de 6 anos. O irmão fez contado com a mãe e a cunhada e contou que o irmão estava tendo um relacionamento extraconjugal e manifestando interesse em se separar da cunhada. A paciente ao tomar conhecimento do fato passou a ter fortes hemorragias que após um mês levou a histerectomia por mioma. Em seu discurso falava que o filho não poderia fazer isto com a esposa tão boa para ele, para a filha como também para a mãe, preocupa-se com o futuro da neta e também com o dela mesma, relatava morar com a nora e receber dela todos os cuidados de que precisava.

            Quanto a psicossomática psicanalítica, o autor Volich (2000) refere que o psíquico pode afetar o somático, como o somático pode afetar o psíquico. Considera que o psiquismo tem uma função na manutenção do equilíbrio vital do ser humano tão importante quanto a do somático. O psiquismo oferece recursos mais evoluídos para lidar com os conflitos aos quais o funcionamento psicossomático está constantemente submetido, ou seja, a interação é permanente entre a psique e o soma, e diante de uma situação traumática, onde há uma dificuldade de se lidar com o plano psíquico pode haver uma resposta somática no lugar de uma elaboração psíquica.

            Marty (1985) apud Vieira (1997) aborda que a função fundamental da mente humana está na assimilação dos traumatismos que a vida apresenta. A mente, em certas condições, pode não assimilar uma determinada situação traumática, e, nesse caso, haverá uma sobrecarga sobre o soma, que resultará em somatização.

            O trabalho do luto é uma assimilação do traumatismo da perda de uma pessoa querida, ou de algo significativo para quem perde, e com isso, evita a somatização. A melancolia igualmente, se bem que através de mecanismos mentais patológicos. Seja qual for, luto ou melancolia, a somatização é evitada: a mente deu conta, de uma maneira ou outra, do traumatismo.

            Diante da dificuldade de assimilar uma situação traumática, a pessoa poderá ter uma doença. A capacidade de assimilação mental tem limites, e estes são maiores ou menores conforme a história de vida de cada um.

            A capacidade de assimilação mental de um indivíduo, em um determinado momento, é denominada por Marty “mentalização”. O que é uma boa mentalização? É aquela que protege satisfatoriamente o indivíduo das somatizações.

            A escuta atenta ao reconhecimento da participação do mundo mental no equilíbrio psicossomático, possibilitou-nos entrar em contato com pacientes que somatizaram diante de uma situação traumática, pela dificuldade de elaboração psíquica.

            O relato das pacientes a cerca da história da doença, nos levou a perceber que o aparecimento do mioma uterino em algumas delas vinha após um trauma psíquico. Em outras, o mioma estava durante um certo tempo assintomático, e após o conflito passaram a ter aumento do fluxo menstrual, por causa de hemorragia, levando algumas a anemia crônica. A forma que a psique vai enfrentar as situações difíceis e angustiantes será através do pensamento. Diante da não possibilidade de pensar e simbolizar a situação conflitiva, não angustiando-se diante do sofrimento a via torna-se somática – o corpo adoece. Neste sentido o adoecimento do corpo segundo Volich (2000:25) “...seria um apelo a resposta menos evoluída, da ordem do comportamento”.

            Dependendo como a cirurgia é encarada pela paciente e sua família num primeiro momento, pode levar a um alívio dos transtornos da patologia ginecológica do ponto de vista manifesto, ou, a um prolongamento dos transtornos só que agora do ponto de vista do sofrimento psíquico. Se encontrar sem o útero pela dificuldade de elaboração psíquica, podem ocorrer fenômenos psicossomáticos como queixas de depressão, algia pélvia, frigidez, etc. Para Jeffcoate (1979), após realizada a cirurgia de histerectomia, algumas mulheres permanecem cronicamente inválidas e cheias de queixas tais como cefaléia, depressão, náuseas, dores pélvicas, frigidez, dispareunia, desarmonia conjugal, etc.

Considerações Finais

            Durante os momentos em que a paciente passa pelo ambulatório, estando no período pré-operatório cirúrgico, é fundamental que seja acolhida e encaminhada para participar de grupos com outras pacientes que vão se submeter a uma histerectomia por miomatose uterina. Neste grupo, a presença do psicólogo junto com a enfermagem, a assistente social, nutrição, enfim, toda a equipe multiprofissional favorece-a ser ouvida e torna-se fundamental este acolhimento.

            A informação contribui para diminuir as fantasias que envolvem a paciente e o companheiro, porém percebemos que estas informações não são suficientes para aliviar a dor psíquica, ou seja, é necessário um trabalho de elaboração da perda.

            A consideração de que a mulher não sofre nenhuma perda, que o útero “não serve para nada” é um discurso que não leva em consideração o mundo psíquico e a sexualidade de cada paciente. A afirmação de que é um órgão com risco de desenvolvimento do câncer uterino, pode levar a muitas mulheres a solicitar a retirada do útero, porém, a medida que a paciente e o médico estabelecem uma comunicação com clareza, a decisão por uma histerectomia ou por uma miomectomia, ocasionando perda ou não do útero é compartilhada. A angústia é aliviada pela informação, e neste caso, a paciente tem a possibilidade de entender e melhor elaborar os motivos pelos quais sofreu a perda do seu útero.  

            Percebemos que as pacientes que passam por uma psicoterapia durante o período pré-operatório, o momento cirúrgico é encarado de uma maneira mais tranqüila. Por outro lado, as pacientes que não passam pelo grupo, ou que não são encaminhadas à psicoterapia podem passar por dificuldades psíquicas, a não elaboração desta situação
pode retornar através de somatizações e a paciente passa a queixar-se de uma dor orgânica tendo como pano de fundo a dor psíquica.

 Karina Batista de Paula: Psicóloga Aprimoranda em Psicologia Hospitalar no Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros no ano 2000. Especialização em Adolescência para Equipe Multidisciplinar pela Escola Paulista de Medicina/UNIFESP no ano 2001.  psicokarina@uol.com.br
Notas não bibliográficas
I -  Brun, D. (1989). Figurações do feminino. São Paulo: Escuta.
II - Gendron, L. (1970). A menopausa – os seus problemas físicos e psicológicos.  Publicações Europa – América Ltda: Arte de Viver.
III - Halbe, H. W. (1987). Tratado de ginecologia. vol. 1: Ed. Roca.
IV - Smirgel, J. C. et al.
(1998). Sexualidade Feminina – uma abordagem psicanalítica
  contemporânea
. Porto Alegre, RS: Artes Médicas.
Referências Bibliográficas
Anzieu, A . (1992). A mulher sem qualidade – estudo psicanalítico da feminilidade.  São Paulo: Casa do Psicólogo, pp.3-04.
Frederickson, H. M. & Wilkins, H. L. (1992). Segredos em ginecologia e 
obstetrícia. Trad. Cília Beatriz Fischmann. Porto Alegre, RS: Artes Médicas, pp. 37.
Freud, S. (1970). Luto e melancolia. vol XIV, (1917{1915}). Edição Standart  Brasileira das obras completas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora.
Greer, G. (1994). Mulher – maturidade e mudança. São Paulo: Augustus, pp. 43- 45.
Jeffcoate, S. N. (1979). Princípios de ginecologia. 4º ed.: Manole.
Lemgruber, I. (1995). Cuidado com histerectomias desnecessárias. Manchete Saúde, 109, 10-11.
Silvestre, D. (2000). A questão feminina. Insight Psicoterapia e Psicanálise, 105.
Vieira, W. C. (1997). A psicossomática de Pierre Marty. Em et. al, Psicossoma: Psicossomática Psicanalítica (pp.15-16). São Paulo: Casa do Psicólogo.
Volich, R. Marcelo. (2000). O corpo psicossomático. Insight Psicoterapia e 
Psicanálise,109, 23-29. 
____. (1995). O eclipse do seio na teoria freudiana – a recusa do feminino. Percurso,14, 55-64.

   

  PARA NÃO MATAR OUTROS PAIS...

  Antonio de Andrade*

 
  
    A sociedade brasileira ficou chocada com a notícia de que uma moça de 19 anos, estudante de Direito, de família rica, mandou o namorado e seu irmão matarem os pais dela, no mês passado, porque eles não concordavam com o seu namoro. E eles foram mortos com pancadas de ferro em suas cabeças. E depois como se nada tivesse acontecido ela saiu com o namorado para um motel... Essa triste realidade nos faz refletir e aprender algumas coisas para que outros pais não sejam assassinados por filhos frustrados, filhos que deveriam ser mais saudáveis.

     Uma das características das pessoas saudáveis é saber tolerar as frustrações da vida, reagindo a elas com atitudes ponderadas e equilibradas e não com violência ou vontade de eliminar pessoas que causaram as frustrações, como foi o caso daquela moça. Quando se aprendeu a ser "gente com qualidades", geralmente não se reage com violência assassina, não se ultrapassam os limites sadios da convivência civilizada com as outras pessoas. Em vez de agredir, violentar ou matar outros seres humanos, enfrenta-se as dificuldades com mais equilíbrio e com atitudes que permitam resolver as dificuldades com melhores comportamentos.

     Mas quando uma pessoa não aprendeu a ser pessoa "civilizada" ela geralmente irá ser violenta, não saberá reagir adequadamente às situações. Para pessoas assim, será mais fácil agredir e ser violenta do que manter um diálogo franco e aberto para analisar a situação e encontrar a melhor solução. Essa triste realidade de pessoas sem controle e sem saber os limites existentes para a convivência sadia com os outros é uma realidade encontrada na sociedade atual. Para constatar essa realidade, basta ver os noticiários da TV ou folhear os jornais, vendo-se as notícias ou as estatísticas de homicídios, de estupros, de violências as mais variadas que ocorrem todo dia. Quando se vê notícias como essas e outras como a da moça que mandou assassinar seus pais, as pessoas ficam assustadas, com medo.

     Mas raramente essas pessoas têm a reação de se perguntarem: - O que eu como cidadão posso fazer para mudar essa situação? E se cada pessoa da sociedade fizesse a mesma pergunta e agisse, poderia haver mudanças significativas na sociedade obtendo-se, no conjunto, uma diminuição dos índices de violência, de assassinatos, de estupros e outras violências.

    Uma ação que cada adulto poderá fazer é mudar as suas atitudes colaborando para uma melhor educação das atuais e das novas gerações, não só criando os filhos, agindo mais como provedores, mas procurando agir como educadores. Se cada adulto tiver melhores atitudes como educadores poderá influenciar a mudança do rumo e da marcha da história do ser humano neste planeta Terra, já que as crianças e os jovens de hoje serão os futuros pais e mães, os futuros educadores ou dirigentes de Escolas e Universidades, os futuros dirigentes de empresas, os futuros administradores de cidades, Estados ou nações e os futuros cidadãos. As crianças e os jovens de hoje são a esperança de um mundo melhor no amanhã, um mundo com menos violência e mais harmonia entre as pessoas, uma sociedade mais humana onde as pessoas sigam princípios éticos e saudáveis de relacionamento.

     Mas, para que a sociedade humana chegue a uma situação melhor e menos violenta, é preciso, que as pessoas evoluam de modo mais sadio, com melhores condições emocionais, com maior responsabilidade, independência, que saibam respeitar os limites e reagir adequadamente às frustrações, e tenham muitas outras características saudáveis de seres humanos. Enfim, sejam "gente com qualidades"! Pais e educadores conscientes têm como objetivo fazer de tudo para que a educação das crianças e dos jovens lhes assegure condições de chegarem a ser adultos felizes e obterem êxito na vida. Mas deveriam também se preocupar em não só que eles "tenham" condições materiais, mas que "sejam"  seres humanos sadios, com personalidades bem formadas para que possam, quando adultos, contribuírem para uma sociedade melhor e menos violenta. Os pais e educadores conscientes querem desenvolver nos jovens valores realmente importantes como maior consciência como pessoas, maior equilíbrio, maior harmonia emocional, física e espiritual e, em especial, colaborarem para que a criança desenvolva uma auto-imagem positiva que seja estimuladora para uma vida mais realizadora e feliz. 

    Mas a realidade mostra que nem sempre os pais e os educadores têm claro como ter as atitudes adequadas para educar as crianças e os jovens, como formar personalidades saudáveis ou como estimular uma auto-imagem que leve os jovens a desenvolver a autonomia, independência e responsabilidade e um maior equilíbrio emocional (chamado atualmente de Inteligência Emocional). Os adultos possuem muitas dúvidas sobre quais as melhores atitudes que devem ter para com as crianças para que elas evoluam de modo sadio, conhecendo os seus direitos como seres humanos, mas também os seus limites e seus deveres. Muitos pais e educadores acham que estão educando bem as crianças e os jovens quando ensinam, por exemplo, com suas próprias atitudes ou através das mensagens que dão a eles, mensagens que os incentivam a seres pessoas esforçadas, a fazerem depressa ou com perfeição, a serem pessoas fortes, ou até incentivando-os a serem pessoas impacientes, ansiosas, irritáveis ou fazendo tudo por eles, deixando-os dependentes, impedindo assim que as crianças e os jovens assumam a cada dia maior independência, ou abafando as suas emoções e suas criatividades.

     Muitos pais conscientes querem mudar suas atitudes para educarem com melhores resultados os seus  filhos e eles possam ter um sadio desenvolvimento, para que sejam seres humanos mais adaptáveis às novas realidades deste mundo. Mas eles não sabem o que mudar e como mudar. Não sabem muitas vezes como serem pais ou educadores que dão estímulos de ternura e amor, de presença, de confiança, de segurança, de paciência, de ajuda, de cooperação, de solidariedade, de entusiasmo e de alegria de viver. Muitos pais, em especial, não sabem como vencer as barreiras dos tabus e dos preconceitos e chegarem a dar um abraço em um filho/a ou um beijo, ou não sabem fazer um carinho sem ficarem constrangidos, não sabem dizer coisas que farão, certamente, um tremendo bem à saúde emocional dos filhos. 

    Existem muitos livros que podem auxiliar, grupos de estudos de pais, reuniões de pais com educadores nas escolas e outras tantas orientações que os pais podem ter. Caso o leitor esteja em busca de um desses livros, poderá encontrar no site www.editora-opcao.com.br um dos nossos livros, "Criança Feliz, Adulto Feliz: O Poder Emocional da Auto-Imagem". É um verdadeiro Guia Prático para os pais e educadores poderem formar crianças e jovens saudáveis e com um maior equilíbrio emocional e, assim, chegarem a ser pessoas adultas que saberão ter reações mais saudáveis e menos violentas.  Apresenta os caminhos e as opções disponíveis para formar pessoas saudáveis e felizes e uma sociedade mais equilibrada. Muitas das afirmações apresentadas são acompanhadas de citações científicas, o que torna o livro importante não só para os pais e educadores, mas também para estudiosos, estudantes de Pedagogia e Psicologia e pessoas que lidam com jovens.

     Como autor desse livro eu acredito ser possível realizar as mudanças necessárias para se criar uma sociedade onde as pessoas possam viver de modo saudável e feliz, mais conscientes das suas necessidades e das suas fontes de satisfação e vivenciando melhor as suas emoções, consigo mesmo e com os outros, seja no trabalho, na vida conjugal, familiar ou social. Acredito que a sociedade humana poderá ser mais equilibrada do que a atual, poderá ter melhores seres humanos SE os adultos de hoje repensarem as mensagens que estão sendo dadas às novas gerações e formando as suas personalidades. E em especial, SE todos os setores que cuidam da educação dos jovens desejam formar cidadãos responsáveis, mais equilibrados e felizes e uma sociedade mais civilizada. As opções estão nas mãos dos pais e dos educadores! O mundo de amanhã será melhor, terá adultos felizes, SE hoje os adultos desempenharem, do melhor modo possível, as suas missões de educadores. Que tal você começar a fazer bem a sua parte? Assim, poder-se-á evitar que outros filhos assassinem os seus pais...

 
* Os livros, Artigos, Cursos e Palestras de Antonio de Andrade estão no site www.editora-opcao.com.br
* Relacionado ao tema deste artigo, leia no site, em especial os artigos "A (in)disciplina e a sobrevivência da sociedade", "A auto-imagem como causa da violência", "Um novo enfoque para a violência", "Crianças, que futuro?". 

   

O ANJO DOS EXCLUÍDOS

 Marlene Rodrigues

Célia Sodré Dória é uma pessoa humana gigantesca.

Sua morte há cinco anos, em 16 de novembro de 1997, aos 81 anos, não fez e nem fará cessar o fluxo de sua extraordinária contribuição à preservação dos direitos humanos no País.

Nascida em abastada família paulista, ela exerceu desde menina a compaixão e o fez por toda a vida. Em criança, preocupava-se com o destino dos que tinham demais e dos que tinham de menos. Por que a fartura para uns? Por que a privação para tantos?

Seus sentimentos de menina levaram-na a optar, quando moça, pela transformação das instituições e o fez, jovem, muito jovem, quando escolheu formar-se em Pedagogia e ingressar numa ordem religiosa. Tornou-se, anos depois, Madre Cristina, cônega de Santo Agostinho em São Paulo e luta viva pela justiça social e contra qualquer espécie de arbítrio.

Heróica, o hábito não a manteve à distância da militância política: desde muito antes do Golpe de Estado que, em março de 1964 e por mais de vinte anos, lançou a nação em regime de arbítrio e vergonha, ela já lutava pelos direitos plenos à cidadania de todos e o fazia discutindo e reunindo no Sedes Sapientiae da Rua Caio Prado, em São Paulo, os perseguidos de todos os matizes: eram os comunistas de então, nem todos partidários mas que proclamavam os direitos de todos à igualdade de oportunidades; os que lutavam pelo direito às idéias, como os sociólogos de então que não tinham a profissão reconhecida, os físicos e biólogos que queriam uma ciência autônoma gerida por brasileiros e livre do colonialismo e os que queriam uma música e arte fundamentalmente brasileiras; os que defendiam sua negritude, como Solano Trindade o fazia, a qualquer custo pessoal, por amor às suas origens; os que queriam para a mulher o mesmo direito do homem ao trabalho e às carreiras profissionais; os que lutavam pela divisão mais equânime da terra e dos bens sociais; os que sofriam na carne e na alma a ausência do pão, da saúde, do emprego, da moradia e da educação na vida de tantos.

Audaciosa, o hábito não a manteve na clausura e nas igrejas, não a impediu de pichar os muros de São Paulo contra a ditadura, sempre acompanhada dos estudantes e operários que ela amou incondicionalmente, luta por luta, derrota a derrota, avanço por avanço.

Incansável, o hábito não a impediu de esconder os perseguidos, de proteger os militantes, de exigir tratamento humanitário aos presos políticos, de localizá-los nos Departamentos de Organização Política e Social ― DOPS e, com suas visitas que jamais autoridade alguma conseguiu impedir, não se sabe porque desígnio, tentar minimizar a tortura e abreviar as prisões. Ela parecia inatingível e ainda que o estudante mineiro Carlos Moraes da Matta Machado tenha sido torturado até a morte no DOI-CODI para que a denunciasse em ações subversivas que permitissem à repressão incriminá-la, o que heroicamente ele não fez, Madre Cristina não se intimidou, como não a intimidaram as sucessivas ameaças de morte feitas ao longo da negra noite de então. Ao contrário, a morte brutal do estudante não lhe permitiu mais nenhum descanso.

Anjo dos perseguidos, Madre Cristina, indiferente aos riscos, não restringiu a sua ação política à defesa dos presos políticos do Brasil. Ampliou-a também para fora dos limites do País. Na Argentina, durante os tenebrosos anos 70, muitos dos presos políticos argentinos, entre eles psicólogos e psicanalistas defensores das liberdades essenciais, receberam a visita solidária da “freira comunista”.

Ela saiu ilesa das prisões e dos embates. Quem poderá explicar a razão?

Célia Sodré Dória é mesmo uma pessoa gigantesca. Justamente porque lutava pelos direitos humanos, não se descuidou de sua participação como educadora e cientista. Sua atuação nesses campos foi intensa e profunda. Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, ela escreveu várias obras de importância no conjunto da produção científica nacional, abordando a psicologia geral, a psicopatologia, a psicologia educacional e os ajustamentos neuróticos; participou ativamente da implantação da primeira clínica psicológica do País em 1940; da criação na década de 60 dos cursos de Psicologia no Brasil e da regulamentação da profissão de psicólogo. Sua luta, então, era a de abrir espaços para consumar a intervenção da Psicologia na sociedade. Assim, ela criou o novo Sedes Sapientiae, um espaço inteiramente aberto para quem quisesse realizar projetos virtualmente capazes de provocar transformações sociais. Hoje, o Sedes trabalha, através da Clínica, do Movimento de Educação Popular e de seus inúmeros e diversificados cursos na área da psicologia clínica, da educação e do trabalho com a Pastoral da Terra, o Movimento Sem-Terra, o Pró-Índio e as campanhas contra a fome e a favor do trabalhador e da criança.

E se Madre Cristina queria o Sedes Sapientiae assim, centro de excelência em Psicologia e Educação e espaço aberto à atuação política pelos direitos humanos, também esse era o seu desejo para a Psicologia e a Educação: áreas científicas sim, mas fundamentalmente espaços políticos em que se pense e se pratique uma sociedade mais humana e, portanto, mais justa. Enfim, caminhos de um trânsito incomum: o da dignidade e reverência incondicional à Vida.

 Marlene Rodrigues: Psicóloga (CRP-08/5877), Educadora e introdutora na Universidade Brasileira da
  área  de estudos denominada Ecopsicologia ― Ética e Estética das Paixões

   

PENSANDO A GLOBALIZAÇÃO, A VIOLÊNCIA E O SER HUMANO

  Marina S. Rodrigues Almeida

INTRODUÇÃO:

O presente artigo tem como objetivo compartilhar algumas reflexões, sobre a conexão entre a globalização, o aumento da violência e o ser humano.

Na realidade, encontramos entre os três elementos alguma forma de interligação, porém é um engano pensar numa forte causalidade entre elas, onde a violência seria conseqüência final.

Somos acostumamos  a ir por  raciocínios de modelos de explicações causais, e o que é pior geralmente são generalizadas para outras situações, realidades, pessoas, etc... Um exemplo disso: Um maior consumo de álcool na Alemanha não é a causa de maior acidentes de trânsito no Brasil. Contudo, ambos aumentam com o tempo e com o tempo aumentam a renda mundial que permite consumir mais álcool e comparar mais carros.

A GLOBALIZAÇÃO E SEUS EFEITOS EM NÓS

A globalização trouxe principalmente os progressos (desejáveis) nos meios de comunicação, a melhor circulação de pessoas, de mercadorias, de capitais e opções para todos.Todos se beneficiam com a globalização, entretanto o beneficio não é igual para todos. Quanto maior a estruturação da sociedade maior o benefício, quanto menor for a estruturação maior “prejuízo”. Como conseqüência encontramos as desigualdades sociais cada vez mais visíveis.

Para minimizar precisamos de uma estruturação social, política, econômica e financeira, o que encontramos como  variável interveniente é a velocidade da globalização frente ao desenvolvimento dos setores citados em cada estrutura social.

A globalização não é uma opção de sociedade, é inevitável, é imposta pela própria evolução de mundo, precisamos ter uma visão um pouco mais  ampliada para poder entendê-la.

Poucos conseguem perceber as influências da globalização em todos os níveis de nossas vidas: pessoal, familiar, na cidade/estado ou país. Neste novo contexto sócio-econômico-cultural, a informação passa a ter um papel central, constituindo-se atualmente no maior poder de inter-relação existente, tendo inclusive, suplantado o poder econômico e tecnológico.

O poder da informação se faz através de livros, revistas, jornais especializados, TV a cabo em escala mundial e internet - a qual se quadruplicou em um ano e continua crescendo. A informação duplicando-se, em progressão geométrica, a cada 3 a 5 anos, logo se constituirá em um universo esmagador.

A capacidade de saber onde, como, com quem e a forma mais rápida de adquirir informações, analisá-las e aplicá-las adequadamente será o grande diferencial competitivo.

A globalização não vem trazer soluções para os problemas do mundo, contudo podemos ter a esperança de que alguns problemas sejam resolvidos que é muito diferente de esperar por algo mágico, onipotente e onisciente.

A globalização não se propõe a nada, é apenas uma “fatalidade” que deve ser pensada e compreendida para não sermos pegos de surpresa pelas forças de desestruturação. A própria desestruturação pode ser um fator de progresso, para repensarmos a realidade, mas também de violência e sofrimento humano.

Precisamos estar atentos para não achar que a melhor maneira de enfrentar a globalização seja a unificação, a perda de culturas regionais próprias de cada lugar, como a dissolução das características individuais e particulares, ficaríamos sem nossa história, cultura e identidade! Isto é muito sério. Desta forma a humanidade, em sua história já passou por diversas revoluções e sempre se beneficiou dos seus progressos,  o que sabemos é que alguns grupos humanos se beneficiaram mais do que outros.

A VIOLÊNCIA, ESPETÁCULO MIDIÁTICO, COM PÚBLICO E TORCIDA ORGANIZADA...

Outro aspecto que precisamos pensar é sobre a violência, que  virou espetáculo midiático, com público assíduo e torcida organizada!

A violência é inerente ao ser humano, entre outras coisas é uma forma que o homem utiliza por força exercer controle e procurar introduzir mudanças.

A palavra violência vem do latim vis que significa “força”, também dá origem aos vocábulos “vigor”, “vida” de vis, “vita”, e “vitalidade”. Segundo o psicanalista David Zimerman (2001), explica que a transição de um estado mental de vigor para o de uma violência é a mesma que se processa entre o de uma agressividade sadia  para o de  uma agressividade destrutiva.

A violência  faz parte de nosso cotidiano, e estamos hoje  em mais segurança  do que em tempos longínquos, embora não pareça.

Ela é o preço que estamos pagando para usufruir alguns benefícios, mas consideramos também que são profundas e abrangentes as causas etiopatogênicas responsáveis pela eclosão da violência da forma atual.

A primeira questão nos remete a responsabilidade, um desafio a cada um de nós, a família, a sociedade e aos órgãos governamentais. Nestes últimos a responsabilidade da segurança pública, justiça social, emprego, saúde física e mental, educação, distribuição de renda , etc..

Podemos nos reportar a vários tipos de violência: violência de natureza  sócio-política-econômica, violência moral, violência sexual, violência no ensino, violência  na família, além dessas sofremos pressões externas como é o caso da cultura onde o grupo de adolescentes está inserido e é o mais afetado, estando sujeito a modelos estéticos, a mídia, apologia a falsa liberdade, religiões, etc...

E O SER HUMANO NISTO TUDO?

Então quais os fatores que determinariam que um ser  humano possa ser mais destrutivo ou criativo?

Uma tentativa de entendermos este mecanismo psíquico, será o de considerar que todo ser humano está vulnerável a forças externas e internas (chamamos em psicanálise de predisposições constitucionais e  bio-psico-sociais), consideramos também  o estado de angústia do bebê, o desamparo vivido nos primeiros meses de vida, falhas de maternagem, abandonos prematuros dos pais ou de um deles , excesso de estímulos de toda ordem que a psique da criança não tem condições de processar, etc... Dependendo de como foram experimentados na psique, determinarão por toda vida deste ser  humano os  seus impulsos  e como serão canalizados, se mais agressivos, destrutivos  ou construtivos.

Enfim, para  falar de violência estamos falando também de desamparo, do ser humano, das crianças, dos jovens, dos pais e da sociedade como um todo, portanto é  necessário falar de prevenção, e isto deverá ser começado em casa, na família, com os pais.

Os pais contemporâneos não são mais os modelos de outrora, encontramos hoje várias formações de casais que fazem parte do novo cenário familiar Pós-Moderno: casais de homossexuais, mães solteiras, pais solteiros, aumento crescente de casais divorciados, fertilização assistida, barriga de aluguel, banco de sêmen e óvulos, adoções internacionais, etc.

A família atual neste conceito ampliado, continua sendo o primeiro grupo de vital importância  que o ser humano se relaciona tendo sua função biológica e social.

Segundo a psicanalista Ruth Blay Levisky (2001), lembra que a família atual está modificada, os pais bastante confusos e nos perguntamos se a família está em crise.

Em psicanálise estar em crise nos leva a ressignificar conteúdos novos, é um processo de dor e sofrimento, desequilíbrio, leva tempo, até que a mente amadureça e suporte um novo olhar, um novo sentido.

O trabalho com grupos de pais ou grupos de família, tem ajudado muito a dar suporte a estas angústias, ao desamparo, buscam  encontrar saídas mais apropriadas para seus problemas, a identificar-se com outras pessoas que passam por situações semelhantes mas mantém a esperança viva.

Violência não se restringe apenas  aos assaltos, drogas, transgressões físicas, morais, sociais, etc... mas é uma conseqüência de uma falta, de um vazio, que a família e a sociedade estão colaborando não só para seu crescimento, bem como para sua cristalização.

MUDANÇA DE OLHAR E PENSAR  PODEM SER A SAÍDA...

Se não  encararmos com seriedade e responsabilidade estes fatos, em busca de pensarmos a amplitude desta situação que nos apresenta, só arrumaremos culpados, ficaremos paralisados, empobrecidos, romperemos os vínculos afetivos, buscaremos isolamentos individuais com uma aparência de independência e bem estar.

Acredito que para buscarmos nosso bem estar precisamos aprender a pensar nossos pensamentos, nossas atitudes violentas, agressivas, amorosas, etc... só depois  conseguiremos entender  nosso semelhante ao invés de julgá-lo ou buscar explicações causais.

Para sermos um ser humano digno, precisamos de saúde mental, respeito, afeto e paz.

Se começarmos a refletir deste agora, algo mudará em nós!

Marina S. Rodrigues Almeida: Psicóloga, Pedagoga e Psicopedagoga marina@iron.com.br

Bibliografia:
COSTA, Jurandir Freire. Psicanálise, ciência e cultura. Rio de Janeiro: Ed. Zahar, 1994.
____________ Narcisismo em Tempos Sombrios . in BIRMAN, Joel (org.) “Percursos na história da psicanálise”. Rio de Janeiro: Taurus Ed., 1988.
LEVISKY, David Léo (org.) . Adolescência e Violência: ações comunitárias na prevenção. São Paulo: Ed. Casa do psicólogo, 2001.
WINNICOTT, Donald W. Natureza Humana. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1990
____________Textos Selecionados da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro: Livraria Francisco
 Alves, 1994.
____________ Tudo Começa em casa. São Paulo: Ed. Martins fontes, 1995.
BIRMAN, J .Mal Estar da Atualidade. Rio de Janeiro: Ed.Civilização Brasileira, 1998.
DUPAS, G. Economia Global e Exclusão social.

   

O PARADIGMA ESTÉTICO E A PSICOLOGIA: RESSONÂNCIAS

Vilene Moehlecke

Resumo: Como bailarina e psicóloga, problematizo o “Fazer Psi”, traçando ressonâncias entre Paradigma Estético e Psicologia. Procuro mapear movimentos teóricos e práticos, cartografando experiências e falando de auto-implicação. Deleuze e Guattari discorrem sobre a existência como obra de Arte, criações ético-estéticas, constituintes de modos de existência ou estilos de vida. É o que Nietzsche descobria como a operação artista da vontade de potência, a invenção de novas "possibilidades de vida". Proust fala do tempo redescoberto que há na Arte, como possibilidade de transmutação. Do mesmo modo, discuto a "Psicologia Estética", apostando em sua plasticidade e diversidade, o que nos propicia diferentes formas de intervir. Simulando ensaios, lanço-me ao proibido! E que nos seja permitido cair, para que o novo possa surgir daí.

Palavras-Chave: Psicologia Estética, Plasticidade, Ensaio, Intervenção, Arte, Vontade de Potência, Ética, Tempo Redescoberto.

Abstract: As a dancer and a psychologist, I intend to discuss about the “Work in Psychology”, looking for ressonances between Art and Psychology. I’m trying to identify theories and practices, talking about experiences and self understanding. Deleuze and Guattari argument about the life as an art criation, the new existences development or life styles. Nietzsche compare that with the eager of power. Proust talk about the time in discovering who existis on the art, like a new possibility of transmutation. Thinking like that, I discuss the “Estetic Psychology”, beliving in her difference and flexibility: it bring us different ways of working. Training, we must try special things! And it may allow us to fall, in order to create something new in phychology.

Key Words: Estetic Psychology, Plasticity, Training, Work, Art, Eager of Power, Ética, Time in discovering.

 
Vilene Moehlecke: Psicóloga e Bailarina

Ensaiando uma entrada


No início da formação acadêmica, minha concepção sobre "Psi" era de uma personagem séria, correta, neutra, com lugares muito definidos. Paralelo a isso, minha inserção na Arte já era uma paixão antiga – dança e teatro. De um lado, estava a personagem séria da "Psi", do outro, a Arte, com todo o seu fervor. Mais do que isso: minha impressão era de que, em algum momento, eu teria que optar. Ou partiria para os territórios definidos do fazer "Psi", ou me lançaria nas intensidades da Arte. Entretanto, a personagem “Séria Psi” foi se transformando: ao invés do traçado definido, permitir-se mais maleável, andarilha, polimorfa; em lugar de neutralidade, implicar-se no processo e nas intervenções. A partir daí, fui compondo um “fazer” no “entre”: Psicologia e Arte. Em nossos estágios, usamos diversos dispositivos artísticos para intervir. Isso possibilitou um fazer mais híbrido, mais envolvente, instigante, novo...

A Arte me fascina através de sua porosidade, seu criar incessante, sua efervescência. Ela é impossível de existir, sem que haja paixão, envolvimento, coragem, subversão, graça, simplicidade, sofrimento. Também podemos falar de uma Psicologia que produz calor, sensibilidade, invenção, vida. Psicologia e Arte: caos, rompimento,  criação, absurdo. O homem contemporâneo, segundo Nietzsche (1995), é extremamente racional - um culto da linguagem verbal, uma procura por verdades.Um homem contido em seus ressentimentos, naquilo que quisera ter feito e não o fez, no que gostaria de ter sido e não o foi. Subjetividades repleta de reminiscências... Em meio a isso,  Arte e Psicologia podem propiciar subversões, já que rompem com a razão e a moral vigentes, permitindo-nos chegar ao plano das intensidades. Possibilita-se, então, um pensar fora das leis e das certezas, abrindo espaços para os momentos imprevisíveis, para o inusitado. Assim, uma intervenção Ético-Estética parece-me interessante para lidarmos com os desafios de nossa contemporaneidade. 

A Arte - Um valor de criação

Na primeira fase de sua obra, Nietzsche faz a oposição entre Arte e conhecimento racional. A ciência, vista como um "valor superior", uma "verdade absoluta",  um "ideal" a ser alcançado, procura instituir uma dicotomia de valores entre a verdade e o erro. A Arte Trágica, por sua vez, é apontada como um modelo alternativo para a racionalidade. Portanto, a posição de Nietzsche, firmada no primeiro momento de sua obra, era a seguinte: a Arte é mais importante do que a ciência; a única relação possível entre o homem e o mundo é a estética. Buscando viver com alguma segurança, o homem se esquece de que é sujeito da criação artística. Ao invés de lançar-se nas intensidades da Arte, o homem busca conhecer o seu mundo, na tentativa de poder explicá-lo. O propósito de "O Nascimento da Tragédia" era justamente examinar a ciência a partir da ótica do artista e a Arte, a partir da ótica da vida. Nesse sentido, Nietzsche (1992) salienta a idéia de metafísica do artista. Ou seja, o mundo só se justificaria como fenômeno estético. O artista estaria por trás de todo o acontecer, completamente inconsiderado e amoral, desejando construir e descontruir. O mundo visto como a eterna possibilidade do criar, do vir a ser. O mundo, como sendo eterna nova visão do ser mais sofredor, mais antitético, mais contraditório, que só na aparência, na Arte, sabe redimir-se. A metafísica de artista é uma concepção de que apenas a Arte possibilita uma experiência da vida plena, como sendo no fundo das coisas indestrutivelmente poderosa e alegre.  

Entretanto, Nietzsche(1992) questiona o que ele mesmo havia dito. Assim, a metafísica do artista poderia ser considerada arbitrária e fantástica. O essencial, contudo, é que ela denuncia uma possibilidade que vai contra a interpretação e a significação morais da existência. Denuncia-se, pois, um pessimismo que vai além do bem e do mal. Abre-se uma visão que desmistifica a moral e a verdade vigentes. Se, por um lado, a metafísica da Arte pode assumir essa postura de subversão da ordem, o que a tornaria, então, arbitrária e fantástica? Talvez, quando, inicialmente, Nietzsche a coloca como única possibilidade de subversão. Porém, no momento em que o autor a vê como uma possibilidade de, uma alternativa, então, nesse caso, já não se corre o risco de cair em radicalidades.

Traçando um paralelo à Psicologia Estética, também esta se propõe a abrir espaços à alteridade, não tendo nenhuma pretensão de buscar a verdade ou a moral. Trata-se de mapeamentos, cartografias, interpretações de movimentos em cada intervenção "Psi". O PsicoArte – intervenção realizada no meu curso de Psicologia -  busca conexões entre Psicologia e Arte. Esta surge como dispositivo. Tal ‘fazer’ foge às regras, criando possibilidades outras de subversão, mais sutis, raras, arteiras. Assim, procura-se trabalhar com a auto-gestão e auto-análise do grupo que intervém. Busca-se uma ação diferente:
intervir nos próprios alunos de Psicologia. Criamos um fazer extremamente singular em cada uma de suas nuances. Muitas foram as conquistas através dessa intervenção. Por múltiplas formas, produzimos desassossegos. Seja em quaisquer umas das intervenções - Oficinas, Esquetes, Sarau - rompemos com uma imagem cristalizada, de um psicólogo individual, neutro, envolto em seu saber solitário. Procuramos, então, um fazer envolvente, um pensar e construir em equipe, longe das utopias de neutralidade. Uma "Psi" que se afeta, possibilitando usinas de criação, questionando seu próprio fazer. Quebramos a imagem da psicanálise intacta, compacta, dona de uma verdade, indo em direção a uma prática nova, híbrida, cheia de possibilidades, em movimentos de transmutação. Saímos da imagem do "Psi médico" para um "Psi Arteiro...” Rompemos, também, com a imagem do estudante de Psicologia puramente racional e técnico. E não se trata de negar o racional, mas sim de poder incorporar a ele aspectos do plano intensivo. Abrimos espaços para o estudante artista, no sentido de se envolver em seu fazer, de sentir, sim, por que não? Vivenciamos um estudante que quer inventar, compor. Não se trata de abandonar os livros e o computador, mas de acrescentar o teatro, a dança, a poesia, o choro, o riso, a lágrima, a sensibilidade, o afetamento, o humano. 

Nietzsche (1995) problematiza a questão da Arte. Que importância tem ela para a vida? Que relação poderia manter com a força e a fraqueza? No que implica a Arte trágica? Para ir a fundo em tais questões, ele faz uma reflexão sobre a Grécia arcaica, já que, em tal civilização, há uma sensibilidade exacerbada para o sofrimento e uma extraordinária sensibilidade artística. O grego é capaz de grande sofrimento, extrema sensibilidade e significativa vulnerabilidade à dor. A Arte e a Filosofia podem ser meios de afirmação da vida que cresce, mas isso pressupõe sofrimento. Há os que sofrem de abundância de vida, que querem uma Arte dionisíaca e uma visão e compreensão trágica da vida. Há, também, os que sofrem de empobrecimento de vida, procurando repouso, quietude, mar liso. Contra a dor, o sofrimento, a morte, diviniza-se a vida criando a beleza. Dessa forma, os gregos criam os deuses olímpicos para tornar a vida possível ou desejável. A criação da Arte apolínea reflete uma necessidade de sobreviver em um mundo tão hostil. A Arte apolínea é a Arte da beleza. Se os deuses olímpicos não são necessariamente bons ou verdadeiros, eles são belos.Nietzsche (1992) nos fala sobre a imagem divina de Apolo, com sua tranqüilidade, beleza, exuberância, dignas da divindade da luz. Através da Arte apolínea, os gregos produzem outras formas de lidar com seus mundos. Trata-se de uma beleza necessária, pois não significa apenas ocultar o sofrimento, encobri-lo, mas uma libertação, a libertação da dor pela aparência, pela beleza, intensificando as forças de vida.

Há, também, outro instinto estético: o dionisíaco. O indivíduo caía no esquecimento de si e perdia completamente a memória dos preceitos apolíneos. A desmesura, a contradição e a volúpia nascida da dor se expressavam de forma intensa. A Arte dionisíaca, em sua embriaguez, expressava todo o seu sofrimento e sua dor. A experiência dionisíaca assinala um sentimento místico de unidade, ao invés de individualidade. Ao invés de autoconsciência, ocorre uma desintegração do eu. Em vez de calma, tranqüilidade, surge um êxtase, um enfeitiçamento, uma extravagância. Em vez de sonho, visão onírica, é embriaguez, experiência orgiástica. Há, também, um pesar, um desgosto pela existência, o sentimento de que tudo é absurdo e impossível, que aparece com a volta ao estado de consciência. Ao invés de escravidão ao sistema, o estado dionisíaco significa homem livre, rompimento das barreiras rígidas e hostis estabelecidas pela sociedade ou pela 'moda':

Apesar das diferenças entre Apolo e Dionísio, ocorre a integração. Mérito este da Arte. Dessa forma, a Arte dionisíaca, a Arte trágica é um jogo com a embriaguez, sem a perda da lucidez. Ou seja, não se trata de alternância embriaguez - lucidez, mas, sim, de simultaneidade, em que se encontra o estado estético apolínio-dionisíaco. A Arte trágica, união entre aparência e essência, possibilita uma experiência trágica da essência do mundo. Isso é estabelecido através de uma integração: o apolíneo e o dionisíaco.

Essa valorização dos instintos sobre a consciência é a afirmação de que a perspectiva da vida é fundamentalmente a perspectiva dos instintos, de um sistema hierarquizado de forças em relação. Mais do que isso: fala-se de um perspectivismo do conhecimento, que nega o caráter objetivo e neutro do conhecer. Conhecer, pois, não seria explicar, e sim, interpretar. Sendo assim, não há, pois, uma única interpretação possível e legítima.Não há uma verdade universal. Portanto, se não há uma única interpretação, se o conhecimento é perspectivo e as perspectivas são variadas, ao conhecimento não cabe atingir uma verdade. Critica-se, pois, a visão positivista, objetiva e neutra da ciência e do conhecimento. O perspectivismo de Nietzsche vai ao encontro de um fazer em Psicologia que não é neutro, mas se implica no processo, buscando espaços ao plano intensivo da diferença. Um fazer que não se limita ao plano racional, mas que busca a produção de novos sentidos às intensidades inconscientes. Um fazer para além do bem e do mal: havendo espaço para afetos, desejos, paixões, vontade. Na base do conhecimento, se encontra a perspectiva da vida definida como vontade de potência. Falar de um conhecimento perspectivo seria, então, falar de um saber que permite o interpretar, o compor, juntamente ao sentir, ao vir a ser. Falamos, pois, de um saber e um fazer plástico, híbrido, múltiplo, que supõe criação. Isso não seria uma possibilidade de um saber estético aliado a um saber racional? Ou, uma tentativa de produzir um conhecimento aliado às sensações de quem o constrói? Referimo-nos a alternativas, e não a uma única saída. Afinal, estamos falando de perspectivas...

Os Signos Da Arte – Impressões

Proust (1994) revela um modo de pensar a Arte enquanto fluxo, abrangendo impressões, percepções e sensações. Ele explicita diferentes signos, a matéria que os constitui, seus efeitos, sua multiplicidade, suas relações com o sentido e com as formas temporais nele implicadas: salienta o tempo enquanto redescoberta, mas não de um tempo passado, e sim do tempo puro, original. Os signos seriam variadas formas de mundos, com suas peculiaridades, seus modos, suas relações com diferentes temporalidades. Eles se organizam em círculos e se cruzam em certos pontos, formando unidade e pluralidade ao mesmo tempo: signos mundanos, signos do amor, signos das impressões e signos da Arte. Os signos mundanos seriam os signos vazios, estereotipados. Eles substituem ação ou pensamento. O aprendizado seria imperfeito e até mesmo impossível se não passasse por eles, pois adquire uma perfeição ritual, um formalismo, que é necessário no convívio social. Por outro lado, são os signos da futilidade e da mesmice. Através deles, somos facilmente "adaptados ao sistema". Os signos do amor, por sua vez, exprimem a intensidade dos afetos, o pluralismo das almas e dos mundos contidos em cada ser amado. Não são signos vazios como os mundanos, mas são mentirosos. Ou seja, não podem dirigir-se a nós senão escondendo o que exprimem, isto é, a origem dos mundos desconhecidos, das ações e dos pensamentos desconhecidos que lhes dão sentido. Tais signos trazem o sofrimento. Os terceiros signos falam das impressões ou das qualidades sensíveis. Trata-se de signos verídicos, que imediatamente nos dão uma sensação de alegria incomum. Após essa alegria inicial, passamos a uma fase de sentimento de obrigação, com o intuito de procurar sentidos no signo. E, finalmente, sentidos podem surgir daí. Por fim, Proust discorre sobre os signos da Arte. Estes seriam imateriais. Os outros signos, por sua vez, são materiais. Os signos da Arte se conectariam às essências. O mundo revelado da Arte reage com todos os outros signos, principalmente com os signos sensíveis. Mais do que isso: o plano estético integra o plano intensivo, dando-lhes o colorido de um sentido estético e penetrando no que eles tinham ainda de opaco. Isso significa dizer que, através da Arte, pode-se dar um espaço expressivo para o plano das intensidades, o plano da diferença.

Proust traz, também, outra questão: o tempo perdido e o tempo redescoberto. O tempo perdido não é apenas o tempo que passa, mas o tempo que se perde. E isso significa dizer que não é um tempo enquanto criação e invenção, mas um tempo que passa, sem maiores produções. Já o tempo redescoberto caracteriza-se por um tempo que redescobrimos no âmago do tempo perdido e que nos revela a imagem da eternidade. É, também, um tempo original e absoluto. E essa eternidade pode se afirmar na obra de Arte. Seria o tempo enquanto criação, enquanto produtor de diferença. A cada signo corresponderia uma temporalidade específica.

Embora cada signo tenha relação com um tempo em particular, isso não ocorre de forma separada. Ou seja, na realidade, os tempos e os signos se intercruzam, compondo variadas dimensões de tempo e sentido. O tempo que se perde prolonga-se no amor e mesmo nos signos sensíveis. O tempo perdido dos signos mundanos também pode surgir nos signos sensíveis. O tempo que se redescobre reage sobre o tempo que se perde e sobre o tempo perdido. Finalmente, é no tempo absoluto da obra de Arte que todas as outras dimensões se unem. Deleuze e Guattari (1992) argumentam que a memória intervém pouco na Arte. Não se comemora um passado, mas um bloco de sensações presentes que só devem a si mesmas sua própria conservação.Tais autores dizem que a fabulação criadora nada tem a ver com uma lembrança, mesmo ampliada, nem com um fantasma. O artista excede os estados perceptivos e as passagens afetivas do vivido. É um vidente, alguém que se torna. Da mesma forma, pode-se ficar preso a uma subjetividade que se faz de memórias e reminiscências, que seria o "sujeito-escravo" de Nietzsche (1994). Um modo de subjetivação que está sempre "remoendo" o que não se fez, o que não se teve, o que não se conquistou. Por outro lado, pode-se compor formas de existência que vão para além da memória e das reminiscências, aproximando-se das formas de criação presentes na Arte. Isso seria o sujeito-nobre de Nietzsche (1994), o tempo redescoberto do qual Proust nos fala. Essa diferença proustiana seria algo da ordem qualitativa da maneira pela qual encaramos o mundo, da mesma forma como Nietzsche nos fala da possibilidade da Arte trágica, como um prazer no desconstruir, como um criar incessante, com sofrimento e gozo, caos e estética, nas intensidades das sensações.  A diferença, sem Arte, sem Psicologia, talvez seria o eterno segredo de cada um de nós.

O tempo redescoberto, enquanto criação, rompe com o tempo que passa, perdido, sem sentido, contido em reminiscências, como nos diz Nietzsche. Dessa forma, é preciso "esquecer" para criar. O esquecimento que Nietzsche nos fala tem relação com o que Proust argumenta do tempo redescoberto, no sentido de possibilitar o vir a ser, rompendo com a ruminação, criando outros percursos. Psicologia e Arte surgem como possibilidades desse tempo que se redescobre.

Na Arte, fala-se em "ensaios", e não em treinos. Este último implicaria uma repetição mecânica, buscando atingir um objetivo pré-definido. Em esportes, treina-se com o intuito de vencer o jogo. Ao ensaio, por sua vez, cabe a repetição que busca a diferença. O ensaio permite invenção, possibilidade de transmutar o que se repete. Não há uma objetividade da ação, algo se repete e, ao mesmo tempo, de forma diferente. Isso seria o paradoxo entre diferença e repetição na Arte e no fazer "Psi". Numa intervenção em Psicologia, algo pode se repetir em relação a outras, mas, cada fazer é singular. Dessa forma, estamos constantemente "ensaiando" em nosso modo de intervir "Psi". Estamos constantemente "intervindo" e "sendo intervidos"...

O Paradigma Estético Na Psicologia - Ensaiar É Preciso

Guattari (1996) discorre sobre o “novo paradigma estético” em nossa contemporaneidade, colocando-o numa posição privilegiada dentro dos agenciamentos coletivos de enunciação de nossa época. Para ele, o termo mais adequado seria o "Paradigma proto-estético", visto que não se pretende falar de uma Arte Institucionalizada. Isto é, não se tem o intuito de discorrer sobre as obras artísticas enquanto tal, mas sim sobre uma dimensão da criação em seu estado nascente, potência que tem a capacidade de emergir às aleatoriedades das intenções de materializar universos imateriais. Ou seja, trata-se de agenciar modos de virtualização, dar espaços à diferença. Isso vem ao encontro do que Nietzsche e também Proust discorrem sobre a possibilidade da via estética dar formas de criação e expressão às multiplicidades.

Nesse sentido, Psicologia e Arte podem ter ressonâncias. A Psicologia estética advém da tentativa de potencializar a diferença, o devir. Trata-se de um intervir que vai se compondo e recompondo, inventando formas de ação micropolíticas, no sentido de subverter as linhas duras de existência. Esse fazer vai sendo construído aos poucos, pelas bordas, visto que precisamos de ensaios para irmos compondo novos territórios: uma "Psi" que possibilite espaços à mutação, a formas de existência jamais vistas, jamais pensadas. Ou seja, esse espaço a novos sentidos, existente na Arte, pode estar presente numa determinada concepção de pensar e agir "Psi". Procurando, pois, escapar às modelizações adaptativas, engendrando-se nas mutações de nossa época, a psicanálise procura abrir seu campo de sentimento e de ação, buscando maior plasticidade em seu fazer. Através de maior maleabilidade, nossas ações "Psi" podem ser capazes de transformações políticas do desejo em nossa contemporaneidade. Como diria Nietzsche, um fazer para além do bem e do mal.

A questão do privilégio dado à palavra, por exemplo, não está só no campo da análise, mas acaba ocorrendo em muitas práticas "Psi". O que se discute, aqui, não é a abolição da palavra. Afinal, somos seres humanos e, portanto, falamos. Entretanto, esse não é o único modo de comunicação, de produção de subjetividade. Precisamos estar abertos a outros jeitos de existência, além da verbal. Nietzsche já nos disse que o homem contemporâneo produz em excesso uma subjetividade extremamente racional, dando importância em demasia às palavras, restando poucos espaços a outras vias de expressão. Proust, por sua vez, argumenta que os signos da Arte seriam primordiais e estariam regidos por impressões, sensações, fluxos intensos. A Psicologia Estética procura acessar não somente o plano racional, mas também o plano intensivo, das sensações, dos fluxos, das impressões, do desejo, do corpo. Isso explicaria por que se pretende uma intervenção polimorfa, múltipla, variada. Portanto, o novo paradigma estético tem implicações ético-políticas, no momento em que a criação remete à responsabilidade da instância criadora com respeito ao criado. Possibilitar, pois, uma expressão de alteridade é, também, transformar as linhas de desejo no campo social.

Poderíamos pensar nas linhas de desejo das quais Rolnik (1989) nos fala. A primeira seria a dos afetos, do desassossego, das intensidades. A segunda linha seria a dos ensaios, experimentações, tentativas. Já a terceira seria a dos territórios. Na Arte, muitos podem ser os afetos agenciados. Falar de perda de território é entrar na questão da intensidade de algo que é, ao mesmo tempo, dor e plenitude - um processo que pode ser potencializante. Quando nos propomos a realizar uma intervenção em Psicologia que saia de um fazer mais tradicional, standard, somos tomados por inúmeras dúvidas, incertezas, não sabendo muitas vezes ao certo onde está o "lugar da psi".

Rolnik (1989) questiona o que fazer, então, com o afetamento. Explicita-se, então,  a segunda linha de vida, que seria o campo da experimentação, dos ensaios.Trata-se de um vaivém incessante, inconsciente e ilimitado, que nos possibilita inventar outras formas de ser. O ensaio não é repetir, mas criar, ir a fundo no campo das intensidades. Possibilitar a expressão dos afetos, ainda que a expressão seja diferente do afeto em si, pode potencializar um engendramento de novas formas. Isso tem relação com o que Proust nos fala da diferença e da repetição, sendo estas a potência da essência. Isto é, através delas, ensaia-se novas possibilidades, novos sentidos.  Da mesma forma, Nietzsche argumenta sobre a Arte trágica como possibilidade de ensaiar a união entre aparência e essência, dando espaços à diferença, ao devir.

A terceira linha seria a dos territórios. Trata-se de uma linha finita e limitada. Uma segmentação dura, com territórios bem discriminados e formas definidas. Rolnik (1989) nos fala que apenas essa poderia ser considerada uma linha, pois é a única visível e mais estável. As outras seriam fluxos intensos, que se movimentam incessantemente.

Assim, a formação do desejo no campo social se dá através do exercício ativo dessas três linhas. Entretanto, isso não ocorreria de forma linear. Elas podem ser emaranhadas, imanentes umas às outras. Por exemplo, podemos estar na linha de um território e, de repente, perdê-la, ficando totalmente desterritorializados.Em nossa contemporaneidade, o que acaba ocorrendo freqüentemente é um salto da primeira linha à terceira: do plano dos afetos pula-se diretamente aos territórios. Onde ficaria a simulação, o ensaio? Nesse caso, podemos nos sentir num 'abismo', 'no vácuo', 'oco de sentidos', como nos diria Fernando Pessoa (1980). O homem contemporâneo parece não se permitir lançar-se aos ensaios, às incertezas, à imprevisibilidade da existência. Ele quer apenas contar com o certo, com o previsível, com o já demarcado. A linha dos ensaios permitiria exatamente esse pensar fora das leis e das certezas, abrindo espaços ao inusitado, às tentativas de produzir diferença.

Proponho pensar uma Psicologia que abre espaços ao plano da simulação. Guattari (1996) fala de uma Psicologia mutante. É preciso, pois, ensaiar, experimentar, até que algo novo se constitui. Podemos traçar um paralelo quando assistimos a ensaios de um movimento artístico e saímos com a impressão de que "cada ensaio foi igual ao anterior, mas, ao mesmo tempo, diferente." Entretanto, não se trata de um fazer de qualquer jeito, como se não fossêmos levar em conta nenhuma concepção teórica, caindo em "achismos". Há concepções teóricas que vão sustentar o fazer, mas a intervenção vai para além do teórico, ensaiando novos passos, de acordo com cada realidade.

Retomo o PsicoArte – intervenção feita em estágio. Dentro deste, nós criamos uma peça teatral que problematizava a própria Psicologia. Nosso grupo estava envolvido nesse fazer, que ia se compondo nos variados momentos em que foi sendo apresentada. Em cada intervenção, a peça nascia e morria. Num outro momento que a apresentássemos, ela já seria outra, já falaria de outras formas, sobre outras coisas. O grupo também já seria outro. Nas primeiras apresentações, os movimentos eram mais rígidos, cada um sabia o caminho a seguir, com o roteiro muito bem ensaiado e pré-estabelecido. Aos poucos, entretanto, fomos discutindo e percebendo que a peça poderia ser mole, Arteira, no sentido de estar em constante mutação. Sendo assim, as apresentações seguintes passaram a ser mais flexíveis, os movimentos mais soltos, imprevisíveis até. O que percebemos, daí, é que nossa intervenção passava de um "endurecimento" anterior, para uma possibilidade de criação perante o inusitado. Além disso, passamos a interagir mais um com o outro, diferentemente do início, quando cada um 'dava a sua fala', de forma desconectada. As sensações que se engendravam na equipe eram intensas. O grupo intervinha ao mesmo tempo em que era intervindo. Seguidamente, surgiam discussões: era uma intervenção "Psi", ou simplesmente teatro? Onde ficaria o lugar da Psicologia? O que realmente produzíamos? Dessa forma, partir para uma ação não estereotipada, quase inédita, não é tarefa fácil, já que difere do que se aprende e do que se espera de 'estagiários de Psicologia'. Guattari (1996) argumenta sobre uma política de ética de singularidade, que possa romper com consensos, com 'seguranças infantis' provenientes da subjetividade dominante. Os dogmatismos serviriam apenas para bloquear os pontos de criacionismo que buscam sentido onde aparentemente não há sentido, nas manifestações de curto-circuito entre a complexidade e o caos.

Foucault in Deleuze (1992) discorre sobre a existência como obra de Arte, regras que são éticas e estéticas, constituintes de modos de existência ou estilos de vida. É o que Nietzsche (1992) descobria como a operação artista da vontade de potência, a invenção de novas "possibilidades de vida". Proust nos fala do tempo redescoberto que há na Arte, como possibilidade de transmutação. Do mesmo modo, penso numa "Psicologia estética", no sentido de descobrir outras existências, outras formas de intervir, outros sentidos para o que se estuda e discute.Entretanto, seria a Arte sempre produtora de diferença? Ou, de outro modo, há a possibilidade de ela também ser capturada em nossa época? Quais seriam os rumos desta numa era homogeneizante? E a Psicologia? Como tem se produzido em nosso contexto social?

Nietzsche apud Marton (1983), no início de sua obra, já fazia críticas às instituições teatrais da Europa. De um lado, havia os espectadores, demandando somente prazer e diversão. De outro, os artistas, pretensiosos e preconceituosos. Além disso, aos empresários restava uma preocupação única com lucros. A cultura encontrava-se subjugada pelas exigências do momento, pelos caprichos da moda, pelos ditames da opinião pública.Portanto, a Arte havia se tornado mercadoria de luxo à disponibilidade de uma sociedade de luxo. As salas eram freqüentadas por tolos e fúteis, que nunca se preocupavam com o povo, ou com questões sociais. O que havia de mais puro na Arte havia sido esquecido: seus mitos, melodias e danças. Esse conjunto de fatores compunham a atmosfera morna e nociva dos meios artísticos.

De certa maneira, isso ainda ocorre. O acesso à Arte continua sendo mercadoria de luxo. A uma minoria restrita fica a possibilidade de freqüentar um teatro, cinema, ou atelier. Quem pode se dar ao luxo de freqüentar aulas de dança, poesia ou Artes plásticas? Isso nos diz o quanto a Arte acaba sendo possibilidade de uma minoria. Por outro lado, e a Psicologia? Muitas vezes, também esta se torna artigo de luxo. Quem pode se "beneficiar" de tal intervenção? Também não se trata de uma maioria.

Apesar das dificuldades, encontramos possíveis subversões. Isso significa dizer que, tanto na Arte como na Psicologia, procura-se encontrar formas desses paradigmas não ficarem restritos a um número reduzido de formas de atuação. Se pensarmos na Arte, existem os artistas de rua, o teatro de rua, os programas de ensino vinculados com algum tipo de ensino-aprendizagem ligados à Arte. Em relação à Psicologia, também podemos buscar intervenções que não se produzam apenas na elite, mas em todas as esferas sociais. Pensamos, então, nos programas vinculados com prefeituras e universidades, visando um estudo e um fazer que envolva os membros da comunidade.  Apesar dos esforços nesse sentido, tudo ainda se dá de forma reduzida, havendo, pois, a necessidade de se aumentar as possibilidades de produção em Arte e/ou em Psicologia.

Além disso, discute-se a questão das capturas no campo da Arte e da "Psi". Seria a Arte sempre ponto de mutação, de ruptura, ou ela também está sujeita a capturas em nossa sociedade capitalística? Poderíamos pensar, pois, que é difícil de se entrar na discussão do que seria realmente Arte, ou, de outra forma,  o que seria mera reprodução de subjetividades já capturadas pelo sistema.

Concebemos, então, a possibilidade de diferentes graus de intensidade produzidos numa obra de Arte. Há produções, por exemplo, que mais parecem imitações, que se tornam muito iguais a outras formas já vigentes. Existem criações artísticas que parecem estar longe de um processo de criação, caindo na mesmice e na futilidade de nosso contexto atual. É como se estas nada dissessem, nada subvertessem. Assim também podemos encontrar fazeres em Psicologia que nada transformam, indo apenas ao encontro dos interesses do sistema, sendo completamente capturados pelas formas vigentes e morais.

Há, porém, as rupturas: um processo artístico que realmente crie, rompa com padrões, num ato micropolítico de transformação. Podemos pensar numa Psicologia que também se propõe micropolítica. Uma intervenção "Psi" que procura abrir espaços às intensidades, possibilitando formas de atualização às virtualidades:mutação de valores e existências já envelhecidas e enrijecidas pelas formas de captura de nossa contemporaneidade. É a isso que a "Psicologia estética" se propõe!

Simulando Uma Saída

“É esse o vírus que eu sugiro que você contraia: na procura pela cura da loucura”,
Quem tiver cabeça dura vai morrer na praia". (DJAVAN/ GABRIEL 'O PENSADOR', 1998)

Assim, precisamos pensar e discutir sobre um fazer em Psicologia mais ético-estético, abrindo mão do 'politicamente correto', dos cientificismos e tecnicismos, 'para não morrer na praia': não procurar por 'curas', mas sim, por possibilidades de se potencializar a diferença. Optar por uma Psicologia não pronta, híbrida, porosa, fala também de uma forma própria de acreditar na transmutação do mundo e das coisas, de preferir lidar com o inusitado, embora sabendo 'na pele' o quão complicado isso possa ser. Acreditar na multiplicidade da Psicologia significa acreditar na multiplicidade do mundo, das formas de existência, na plasticidade da saúde, na vida trágica. Sair de um dualismo: "Psi" ou "Arte", optando por um fazer em Psicologia plástico. Isso foi um processo que me demandou muitos e muitos ensaios, que ainda me demanda e que continuará em movimento.

Para além de uma leitura das dicotomias, fui construindo vários sentidos que passaram a percorrer meu 'mar' de sensações e conhecimentos.Entre incontáveis simulações, pude ir descobrindo que a dualidade das coisas não passa de uma ilusão de nossa contemporaneidade, de nossa cultura. Ao invés de optar entre o certo e o errado, entre o correto do profisssional ou o avesso da Arte, fui descobrindo uma forma de compor no "entre". Em vez de "ruminar o tempo perdido", procurar a potencialidade que pode haver no tempo redescoberto, no tempo da criação de Proust. Ao invés de procurar "regras", buscar a "ética".

Estudar e viver Psicologia como uma Arte, sentindo as intensidades frenéticas no corpo, nas dobras que vão se compondo. Não deixar que o tempo passe, sem sentido, mas produzi-lo como criação, vivendo o trágico de cada intervenção, cada forma de existência. Portanto, lancemo-nos ao intempestivo de uma "Psi' Artística. Arrisquemo-nos em problematizar uma intervenção que produza momentos de incubação de novas línguas, de novos modelos de subjetivação. A prática da "Psi" é, também, uma prática política, podendo possibilitar realidades sociais diferentes. Como simular saídas? Difícil de responder. Precisamos, pois, pensar nas múltiplas respostas que pode haver, questionando conhecimentos e formas de intervenções. Simulando ensaios, lancemo-nos ao proibido! E que nos seja permitido cair, para que o novo possa surgir daí...

"A QUEDA
Da minha idéia do mundo
Caí ...
Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali ...
Vácuo em si-próprio, caos
De ser pensado como ser...
Escada absoluta sem degraus...
Visão que não se pode ver..." (PESSOA,  1980, p.80


Vilene Moehlecke Osvaldo Aranha, 110 B.Centro. CEP 93010-040. São Leopoldo/RS
Fone: 14 -5924405 E-mail: vicarte7@hotmail.com

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a Filosofia. Rio de Janeiro:Ed Rio, 1976. 
-- & GUATTARI, Félix, O que é a Filosofia? Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
-- Proust e os Signos. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987. 
-- Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992. 
DJAVAN & Gabriel O Pensador. A Carta. Bicho Solto. Rio de Janeiro, Sony Music, 1998.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 3a. ed. 1982.
GUATTARI, Félix. O Novo Paradigma Estético.
In: SCHNITMAN, Dora Fried. Novos Paradigmas, Cultura e Subjetividade. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. 
MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
MARTON, Scarlett. Friedrich Nietzsche. São Paulo: brasiliense, 1983.
NAFFAH NETO, Alfredo. O Inconsciente como Potência Subversiva. São Paulo: Escuta, 1991. 
--- A Psicoterapia em Busca de Dioniso - Nietzsche visita Freud. São Paulo: Escuta, 1994.
NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo - Como Alguém se Torna o que é. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
---. O Nascimento da Tragédia, ou Helenismo e Pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
PELBART, Peter Pál. Da Clausura do Fora Ao Fora da Clausura - Loucura e Desrazão. Ed brasiliense, 1989. 
PESSOA, Fernando. O Eu profundo e os outros Eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
PROUST, Marcel. Nas Trilhas da Crítica. São Paulo: Imaginário, 1994.
ROLNIK, Sueli. Cartografia Sentimental: transformações políticas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 1989.
-- Cidadania e alteridade: o psicólogo, o homem da ética e a reinvenção da democracia. Fala proferida da mesa redonda "Cidadania e Alteridade", no IV Encontro Regional de Psicologia Social da ABRAPSO, em 30/05/92, na PUC, São Paulo.

   

CRIANÇAS EM TEMPO DE  VIOLÊNCIA

Rita Trevisan
Pablo Assolini


Pesquisa comandada pela psicóloga e pedagoga Luana Carramillo Going revelou que as crianças com cerca de dez anos punem qualquer transgressão de maneira muito dolorosa, como se fazia na época Medieval. A experiência feita em salas de aula, com alunos na faixa de 9 a 14 anos, trouxe resultados surpreendentes. O estudo revelou, ainda, que as crianças mais velhas analisavam o problema dentro de uma concepção arraigada aos direitos humanos.

Mas afinal, de onde vem tanta violência? Essa pergunta, tão atual em nossos dias, foi que levou a também professora da Universidade Metodista de São Paulo a defender uma tese sobre como as crianças punem. Os resultados diferentes para cada faixa etária, ela explica: “A violência é natural do ser humano mas com o tempo, ele tende a adquirir uma consciência moral, o que acaba barrando esses instintos”. Segundo a psicóloga, o que acontece é que muitas crianças não evoluem desta fase medieval de punição severa para uma fase de consciência de autonomia maior, de consciência abstrata, justamente porque não conhecem os conceitos morais capazes de embasar esta autonomia.

Mas como se constrói essa consciência moral que garantiria uma sociedade mais harmônica? Esse é um estudo complexo ao qual Luana continuará se dedicando no laboratório de ciências da cognição – LACIC, vinculado ao Núcleo de Estudos de Psicologia Aplicada – NEPAP – da Universidade Metodista de São Paulo. Ela acredita que essa construção moral deve ser trabalhada na escola, na família, em todos os âmbitos sociais: os conceitos de respeito mútuo e cooperação, os limites individuais dentro dos interesses do grupo. Para Luana, se esses conceitos fossem melhor trabalhados, as relações na sociedade seriam mais fáceis.

Luana apresentou seu doutorado no dia 3 de maio na USP. Ela é professora do curso de psicologia e pedagogia na Universidade Metodista e autora do livro “Contos para Escrever-se”, no qual descreve experiências de alfabetização a partir da literatura dos contos de fada. Luana formou-se em psicologia em 1975 e em pedagogia, em 1981. Especializou-se em psicopedagogia e em grupos operativos em Buenos Aires. Apresentou mestrado na Metodista defendendo a tese que deu origem a seu primeiro livro acima citado.

Rita Trevisan: e-mail: ritatrevisan@uol.com.br
Pablo Assolini: e-mail:  pabloassolini@hotmail.com
Este trabalho foi desenvolvido na disciplina de Assessoria de Comunicação Integrada do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo.

 

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