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Câncer e Qualidade de Vida
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Alguns tipos de câncer têm maior incidência em pessoas com
menor poder aquisitivo, isso ocorre pelas condições sociais
vivenciadas por boa parte da população dos países
sub-desenvolvidos.
Qualidade de
vida, hábitos alimentares e condição social podem estar ligados
ao surgimento ou não, de alguns tipos de câncer. O oncologista
Hakaru Tadokoro, da Oncoterapia, de São Paulo, adverte que a
falta de recursos financeiros contribui para o aparecimento de
alguns tipos de tumores, entre eles podem ser citados os cânceres
de colo uterinos, de pênis, de boca e de estômago.
O câncer é
uma doença celular, do ponto de vista biológico e médico, já
que os diversos tipos de tumores malignos mantêm um ponto comum:
a perda do controle da divisão celular. Porém, pode também
expressar as condições de vida das populações e de
desenvolvimento das sociedades.
“A má alimentação ou ingestão de alimentos
inadequados, a falta de higiene e de condições sanitárias, o
consumo de cigarro e bebidas em excesso, a falta de diagnósticos
precoces podem contribuir para desencadear alguns tipos de
tumores”, afirma Tadokoro.
Entre os tipos
diagnosticados percebe-se que os tumores próprios dos adultos
jovens, como cânceres de boca e pênis são mais encontrados nas
regiões menos desenvolvidas. “Essa ligação se dá pelo fato
dos grupos sociais terem diferentes expectativas de vida e se
submetem a diversos fatores de risco”, alega o médico.
O câncer de
estômago também é um indicador da situação da saúde de
sociedades menos desenvolvidas. “Regiões pobres que preservam
os alimentos com sal por não disporem de métodos de conservação
adequados como geladeiras, sofrem com um grande número de casos
de câncer de estômago e de esôfago. A alimentação inadequada
pode ajudar a desencadear algum tipo de câncer, é preciso estar
atento ao que se consome”, diz o oncologista.
Pesquisas
revelaram uma relação entre hábitos sexuais e o aparecimento de
alguns tipos de câncer. Promiscuidade sexual, falta de higiene,
ingresso precoce na vida sexual, bem como variedade de parceiros e
a não utilização de preservativos contribuiriam para o
aparecimento do câncer do colo do útero. O herpes vírus tipo II
e principalmente o papilomavírus humano (HPV) são os vírus mais
comumente associados ao câncer do colo do útero. “A cada ano
surgem cerca de 500 mil novos casos de câncer de colo uterino no
mundo e 80% das mortes acontecem em países em desenvolvimento. São
estatísticas alarmantes, uma vez que o exame ginecológico
rotineiro permite identificar o problema numa fase em que o
tratamento oferece 100% de cura”, alega o médico.
“O câncer de boca também é próprio de
pessoas de baixa renda, tabagistas e alcoólatras. Ele teria diagnóstico
mais precoce, caso essas pessoas tivessem melhor instrução,
alimentação adequada e maior acesso à assistência médica”,
comenta o oncologista. |
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REVISTA
DE SAÚDE MENTAL
Nº45
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A
Contribuição da Literatura Infantil Para a Criança
Hospitalizada
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Claudete Maria Schüssler de Souza
Lucimar Soranzo Marques
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O presente artigo tem como objeto as crianças internadas em
hospitais, sem nenhum tipo de acompanhamento pedagógico ou
emocional. Foi feita uma prática pedagógica no Hospital Regional
de Rio do Sul, onde foram contadas histórias infantis, uma vez
que é constatado que o momento de contar histórias é fonte de
prazer para a criança e é grande a contribuição que oferece
para o seu desenvolvimento.
Tendo-se preocupação
com estas crianças internadas, muitos objetivos surgem, tais
como, conseguir nos momentos de literatura infantil, um equilíbrio
na criança, um momento de relaxamento, de descontração,
proporcionando assim, um tempo para o sistema imunológico agir e
recuperá-la mais rapidamente; propiciar um espaço dentro do
hospital onde a literatura infantil possa contribuir para o bem
estar da criança hospitalizada, promovendo o seu bem estar físico,
emocional, intelectual e social; despertar na criança (
indiretamente ) o prazer de ler, pois formar leitores é ensinar a
gostar de ler, mesmo antes de ensinar a ler. E, como objetivos
mais específicos, ouvir histórias; relacionar situações das
histórias com situações de seu cotidiano; estimular as crianças,
através da literatura infantil, a sua recuperação; manter a
autoconfiança da criança; orientar os pais sobre o projeto de
literatura e sua importância; conversar, auxiliar e informar os
pais no que for necessário; possibilitar informações
constantes, junto aos prontuários médicos, sobre a enfermidade
da criança; envolver a criança e seu acompanhante no projeto,
tornando esses momentos agradáveis.
Esta prática,
fundamenta-se nos teóricos Abramovich, Baquero, Bettelheim, Gillig, Veer e
Valsiner, onde salienta-se a relevância da leitura, a ludicidade,
o despertar a imaginação e, na concepção vygotskyana sobre o
pensamento e a linguagem.
Introdução
As
crianças internadas no Hospital Regional de Rio do Sul só têm
atendimento na área da saúde. Elas sentem-se fragilizadas, pois
muitas vezes se encontram longe de seus familiares, de seus
amigos, da escola e, portanto, necessitam de atenção, carinho e
diversão. Existe a necessidade de um profissional competente,
como um pedagogo ou um psicopedagogo, para implantar projetos
educacionais. De maneira geral, os hospitais não têm contemplado
esta questão com a significação merecida.
A Literatura Infantil é
um caminho a ser usado para envolver corpo e mente. Não se pode
correr risco de improvisar, usar a história apenas como um
preenchimento de tempo, faz-se necessário um planejamento das ações.
O roteiro possibilita transformar o improviso em técnica, fundir
a teoria à prática. O momento de contar histórias é de carinho
e aconchego de pais com os filhos e, é vital para o bem estar da
família.
Ela pode proporcionar à criança hospitalizada, este momento de
descontração, de relaxamento, de prazer, de aprendizagem e de
elevação de sua auto-estima. Conseqüentemente a recuperação física
pela energia da felicidade.
A Contribuição da
Literatura Infantil Para a Criança Hospitalizada
O
ato de ler não se restringe a decifrar um texto escrito, seja
qual for sua modalidade. Ler é compreender as diversas formas de
expressões através das múltiplas linguagens. Como um
texto escrito,
um filme,
uma música,
pessoas, ambientes,
etc.
O
professor deve estabelecer a ligação afetiva e prazerosa entre a
criança e o texto. Estimulando sua imaginação, de espaço,
ambiente, cultura, modo de ser e vestir da sociedade em que vive,
propiciando oportunidades para que ela se torne um leitor.
Para
despertar e motivar o hábito da leitura procura-se trabalhar a
literatura infantil, com o propósito de divertir a criança,
estimulando-lhe a imaginação e a criatividade, dentro de um
clima agradável e interessante onde os alunos podem dramatizar,
criar, reproduzir, modificar, trazendo para sua realidade as histórias
lidas.
Alcançando
esse objetivo o aluno enriquecerá seu vocabulário e ampliará
seus conhecimentos; pois este é o momento e o espaço
privilegiado para aprimorar e buscar cada vez mais novas informações.
O homem através
dos tempos cria, aperfeiçoa e desenvolve objetos, conhecimentos e
comportamentos sociais, os quais são transmitidos a outras gerações
e constituem o que chamamos de cultura. A transmissão e a
modificação da cultura só são possíveis graças a uma outra
criação do homem: A linguagem oral.
A
literatura é a expansão máxima de um povo, e é através da
linguagem oral, que ela, a literatura, realiza-se. Daí a estreita
relação entre língua, cultura e literatura.
Contar
histórias para crianças pequenas é uma atividade muito comum em
várias culturas e é muito difícil uma criança que não se
interesse, por exemplo, por ouvir histórias e não expresse um
interesse lúdico pelas palavras.É imprescindível e vital um
redimensionamento de tais relações, de modo a transformá-la
eventualmente no ponto de partida para um novo e saudável diálogo
entre o livro e seu destinatário: a criança.
É
através duma história que se pode descobrir outro lugar, outros
tempos, outros jeitos de agir e de ser, outra ética, outra ótica...
É ficar sabendo História, Geografia, Filosofia, Política,
Sociologia, sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos
achar que tem cara de aula... Porque, se tiver, deixa de ser
literatura, deixa de ser prazer e passa a ser Didática, que é
outro departamento (não tão preocupado em abrir as portas da
compreensão do mundo). (ABRAMOVICH, 1994, p.17).
É importante
ressaltar que ao ouvir histórias, contos, fábulas, ou mesmo
fatos do dia-a-dia, a criança já esta assimilando alguns
aspectos da aprendizagem literária, constituindo-se assim um
importante recurso no processo ensino/aprendizagem. A aprendizagem
ocorre quando existe motivação, desafio, quando acontece o
querer saber para reorganizar o pensamento e estabelecer conexões
entre o contexto cultural a qual a criança está inserida.
A ação pedagógica
deve ser envolvente, cativante. E a literatura infantil trabalhada
de forma lúdica, criativa e “gostosa”, desperta não só o
interesse pelo mistério, pelo sonho e magia, mas, sobretudo o
gosto em criar, reproduzir, compreender e analisar suas formas bem
como a intencionalidade dos fatos.
Bettelheim (1978),
diz que o conto de fadas é psicologicamente mais convincente do
que a narrativa realista, porque coloca a criança diante de uma
situação-problema cuja solução ela encontrará graças à sua
capacidade de imaginar. Trata-se de um equilíbrio da
personalidade, onde o conto lhe convida a não se deixar abater
pelo real e a lutar contra as dificuldades da vida. Ajudam-nas a
resolver os seus medos, identificando-se com os heróis que sempre
se saem bem e a criança fica então tranqüilizada. Sozinhas elas
seriam incapazes de inventar histórias com o material
imaginativo, as imagens,
que os contos lhes proporcionam
para ajudar a resolver seus problemas.
A
ludicidade faz a criança criar uma situação ilusória e imaginária,
como forma de satisfazer seus desejos não realizáveis. A criança
brinca pela necessidade de agir em relação ao mundo mais amplo
dos adultos e não apenas ao universo dos objetos a que ela tem
acesso. “No
brinquedo é como se ela fosse maior do que é na realidade” (VYGOTSKY,
1933, citado em Veer & Valsiner, 1996:373).
Vygotsky diz, (Baquero,1998),
que mesmo havendo uma significativa distância entre o
comportamento na vida real e o comportamento no brinquedo, a atuação
no mundo imaginário e o estabelecimento de regras a serem
seguidas criam uma zona de
desenvolvimento proximal, na medida em que impulsionam
conceitos e processos em desenvolvimento.
A literatura
infantil como arte a ser desenvolvida na sala de aula deve ocorrer
em nível de sensibilidade e emoção, como expressão de
sentimentos, como exercício contínuo de descoberta, aguçando a
curiosidade, abrindo espaço para fluir o pensamento divergente,
onde não existe o certo e o errado ou simplesmente resposta única.
Através dos livros
e com a leitura, fazer com que a criança perceba que a história
está na cabeça de quem lhes contou e que na cabeça de cada uma
criança haverá uma história diferente. Segundo Gillig (1999),
os livros ajudam a criança a entender a sua realidade.
O papel das histórias
infantis é abrir novas perspectivas para a criança a fim de que
se torne leitor da escrita e dela para o mundo e para a vida
alargando seus horizontes. Nesse sentido, o papel do professor é
o de mediador entre os alunos e o texto, promovendo a discussão,
o entendimento, o debate de diferentes opiniões, a argumentação
e a reflexão do grupo.
O
aprendizado adequadamente organizado resulta em desenvolvimento
mental e põe em movimento vários processos de desenvolvimento
que , de outra forma, seriam impossíveis de acontecer.
(VYGOTSKY, 1934,
citado em Veer & Valsiner, 1996:372).
É através da
coincidência entre o mundo representado no texto e o contexto do
qual participa seu destinatário que emerge a relação entre a
obra e o leitor. A literatura infantil sintetiza, por meio dos
recursos da ficção, uma realidade que tem amplos pontos de
contato com o que o leitor vive cotidianamente. A escola e a
literatura podem provar sua utilidade quando se tornarem o espaço
para a criança refletir sobre sua condição pessoal.
A descoberta do lúdico
na linguagem literária sensibiliza a criança, ampliando o domínio
da linguagem e conseqüentemente a sua capacidade de construção
e conhecimento do mundo. Vygotsky diz, ( Baquero, 1998), que o
pensamento e a fala podem-se comparar a uma nuvem descarregando
uma chuva de palavras. O pensamento se concretiza no ato da fala.
A criança sentirá
muito mais vontade de ir para uma escola onde ela pode
expressar-se, onde suas idéias são respeitadas, onde se faz
trabalho em equipe, onde se aprende a ler e a escrever, faz o que
ela mais gosta, que é brincar; brincar de fazer-de-conta que é
autor, cantor, desenhista, ator...
Freud afirmava, e
depois também Bettelheim, ( Gillig, 1999 ), que o conto
representa a maior parte de nossos desejos, de nossas angústias e
dos mecanismos gerais do funcionamento da nossa psique, por isso
seu uso na psicopedagogia
revela-se precioso tanto no campo terapêutico como no
educativo.
O Uso do
Conto Para a Criança Hospitalizada
Segundo Gillig
(1999), o conto é um mediador entre o mundo do inconsciente e o
da cultura, entre o imaginário da criança e o simbolismo dos
sistemas de comunicação convencionais.
O trabalho
psicopedagógico não visa compensar um déficit instrumental, mas
restaurar inicialmente o desejo de aprender que pode, contra a
corrente, desbloquear os recursos psíquicos de uma criança para
favorecer o funcionamento de um instrumento, se trata de uma ajuda
com finalidade psicoterápica ou caráter terapêutico.
Os efeitos terapêuticos
em trabalhos psicopedagógicos quando se faz uso do conto, segundo
Bettelheim, (Gillig,1999), o que o conto expressa está
relacionado com o inconsciente, porque leva a fantasiar, mas também
a resolver, por um processo que corre do pré-consciente para o
consciente, os problemas psicológicos da criança. O conto
permite evadir-se do real através da ficção, não para fugir
deles, mas para melhor trata-los, pois o fim feliz do conto
constitui, no nível da fantasia, uma resposta a um conflito real.
O conto libera a
criança de sua angústia e de seu medo de não se sair bem.
Muitos contos maravilhosos nos ensinam que o mais insignificante
dos seres pode ter êxito.
No trabalho
psicopedagógico o conto é terapêutico em si, não somente
porque permite à criança restaurar sua capacidade de se projetar
para diante e querer crescer, é também porque lhe oferece a
possibilidade de tranqüilizar-se e de vencer seus medos.
Narrativa
de algumas práticas realizadas (Obs:
Os nomes dos pacientes são fictícios).
segunda-feira
– período matutino
Foi começado o trabalho de mediação no Hospital Regional, onde
primeiro foi feita a recepção no departamento de recursos
humanos e depois o encaminhamento para a enfermeira responsável
pela pediatria, a qual orientou e apresentou às demais
enfermeiras. A recepção foi muito boa e a curiosidade por
conhecer as crianças era enorme. A enfermeira levou ao corredor
onde via-se cada rostinho pelo vidro. Haviam umas quinze crianças
internadas, na faixa etária de 2 meses a 13 anos. Logo foi
passado de quarto em quarto e conversado com as crianças e as
pessoas que as acompanhavam. Em seguida foi lido os prontuários médicos
para haver inteiração das enfermidades das crianças.
No quarto 408
estava Maria, de 2 anos e 3 meses, com sua mãe, residentes no
Bairro Boa Vista. Ela havia sido internada no dia 21/07 com crise
convulsiva (sofre de epilepsia), com amigdalite aguda e febre.
Estava com uma tala com soro na mão esquerda. Logo foi percebido
que tinha algum problema, algum retardo no desenvolvimento, então
foi resolvido começar por ela. Foi pego um fantoche de
mão e conversado, ela quase não falava. Depois foi
mostrado com fantoches de vara, como se cuida dos dentes, ela já
começou a participar. Então foi perguntado se ela queria ouvir a
história dos três porquinhos. Ela disse que sim. Ficou muito
empolgada, participava, ria. Foi perguntado se queria desenhar a
historinha. Num instante pegou o papel e desenhou - rabiscou. Sua
mãe que estava o tempo todo junto, ficou admirada. Foi escrito o
nome dela na folha e colado seu “quadro” na cabeceira. Depois
foi entregue uma lembrancinha da história em forma de um cartãozinho
de um porquinho, e um pirulito onde dizia “Você é
importante!”. Foi feita a despedida
prometendo-se voltar.
segunda-feira
– período vespertino
No período da tarde foi-se ao quarto 405 onde estava o João, um
menino de 3 anos, muito lindo e calmo, de Dona Emma, com tala de
soro nas duas mãos. Estava com sua mãe, uma pessoa amável. Foi
internado dia 14/07 com vômito, diarréia, dor abdominal, uma
provável infecção intestinal. Foi começado a conversar com
fantoche de mão e depois, com fantoche de vara mostrado como se
cuida dos dentes. Ele queria que contasse mais. Então foi contada
a história da dona baratinha, com fantoches e pedia-se para ele
fazer os sons dos bichos. Ele ria e foi muito divertido. Então,
foi dada uma lembrancinha em forma de cartãozinho da dona
baratinha. Ele disse que queria desenhar a história
porém não podia. Disse-lhe que outro dia seria feito.
Foi-se ao quarto
408 onde se encontrava Flávia de 1 ano e 10 meses, uma criança
ativa, porém muito pálida, estava com uma sonda nasogástrica e
uma tala de soro no braço esquerdo. Sua mãe disse que eram de
Pouso Redondo e que ela havia sido internada dia 20/07 com vômito,
diarréia e dor abdominal. Logo apareceu a enfermeira contando que
a criança havia expulsado uma grande quantidade de áscaris. Foi
aproveitada a chance de conversar com a mãe sobre higiene. Então
foi contada a história da dona baratinha, com fantoches de vara.
Flávia gostou muito. “Desenhou”, pintou e pendurou-se seu
“quadro” na cabeceira. Ela disse que ia mostrar para o papai.
Foi dada a lembrancinha e o pirulito, e feita a despedida.
terça-feira –
período matutino
Hoje se chegou ao hospital
e soube-se que a Maria havia recebido alta. Foi-se, então ao
quarto 406 conversar com o Pedro, um menino de 11 anos, de Rio do
Sul, acompanhado de seu tio, admitido em 19/07, com febre e o
corpo hiperimeado – manchado. Foi perguntado se queria ouvir
histórias, ele disse que sim. Escolheu O Patinho Feio e depois
Chapeuzinho Vermelho. Foram contadas as historinhas com bastante
entonação e mostrado as figuras. Ele gostou muito. Havia dito
que queria desenhar, porém observou-se que suas bochechas estavam
vermelhas, é que a febre voltara a subir. Deixou-se o desenho
para outro momento.
O quarto 412 é de
isolamento, perguntou-se às enfermeiras se podia entrar, ela
disseram que sim. Lá estava uma menininha de 1 ano e 7 meses,
chamada Ana, de Pouso Redondo, na companhia de sua mãe. Havia
sido transferida de Joinville e dado entrada em 20/07 aqui em Rio
do Sul. O aparelho de ar condicionado estava ligado para que a
temperatura ficasse agradável, pois ela não podia vestir da
cintura para cima. Estava com queimadura de segundo e terceiro
graus, no queixo, face, pescoço, tórax anterior e mão esquerda.
Usava um curativo fechado, uma espécie de colete. A mãe contou
que foram visitar a avó em Joinville e a criança entornou sobre
si uma xícara de café quente. Ana é bastante esperta e gosta
muito de música. Então se convidou para cantar e dançar. Foi
colocado o CD Todo Mundo é Bicho, onde as músicas falam de vários
bichinhos. Ela escutou com atenção, cantou e dançou. Na
despedida, foi dado um pirulito e percebeu-se que sua recuperação
está sendo rápida.
terça-feira – período
vespertino
À tarde foi-se ao quarto
401-1 para conhecer o Paulo, um menino de 7 anos, aqui do Bairro
Canta Galo, que havia sido admitido ontem dia 23/07, para realizar
uma cirurgia de septoplastia e cornetos. Estava na companhia da mãe,
uma senhora bastante simpática. Foi perguntado se estava passando
bem e se queria ouvir uma historinha. Ele disse que sim e escolheu
Chapeuzinho Vermelho. Gostou muito. Escolheu um cartãozinho e
disse que estava cansado pois
estava sob efeito de medicamentos.
Soube-se que no
quarto 407 havia sido admitido hoje, 24/07, um menino de 6 anos
chamado Marcos, de Vidal Ramos, e que estava em companhia dos avós
pois sua mãe teve bebê recentemente. Havia feito cirurgia de uma
hernia e retirado também um espinho da mão esquerda. Ele era um
menino muito lindo, apesar de estar bastante pálido. A princípio
foi pensado que ele não iria querer ouvir historinhas, pois havia
feito cirurgia não fazia muito tempo, mas ele disse que queria
ouvir a do Gato de Botas. Foi contada a historinha, ele olhava
bastante tempo as figuras e pediu que voltasse para contar outras.
No quarto 408
estava um menino chamado Mário, de 3 anos, do Bairro Boa Vista,
acompanhado pela avó durante o dia e à noite pela mãe. Foi
internados dia 20/07 com febre alta, que oscila há mais de um mês.
A criança estava pálida, chorosa e com medo de tudo. Os médicos
suspeitavam de leucemia. Os exames de acompanhamento mostraram ser
uma anemia aguda. Mas está em observação. Os pais de Mário estão
separados e ele sente muita falta de seu pai que reside em Florianópolis.
Está ansioso esperando pela visita do pai. Ia-se visitá-lo ontem
à tarde, mas quando foi visto pela janela, que seu pai estava com
ele, deixou-se para outro dia. Então hoje, ele estava muito
feliz, completamente diferente do dia anterior. Foi sentado ao seu
lado e dito que seria contada uma historinha de um patinho que era
muito feio. Foi-se contando e mostrando as figuras no livro, ele
se entusiasmava, participava e estava curioso para saber o final.
Gostou tanto que queria desenhar o patinho. Desenhou, pintou e
todo orgulhoso ajudou a pendurar seu “quadrinho” na cabeceira.
Obs.:
Muitas outras práticas foram realizadas nesse período no
Hospital Regional.
Considerações Finais
Após a aplicação desse
projeto, concluiu-se que diante do proposto, foi conseguido
atingir as metas e ir além do esperado.
Houve a necessidade
de visitar o hospital algumas vezes para conhecer o tipo de
clientela que se iria encontrar hospitalizada na ala infantil e
constatou-se que era a mais variada possível e imaginável. Foi
conversado com várias pessoas internadas e também funcionárias
do hospital, tais como a
assistente social, pessoas dos recursos humanos, enfermeiras, médicos,foi
lido todos os prontuários dos pacientes, enfim, conhecida a prática
realizada para recuperação. Pode-se perceber que não havia nada
relacionado à recuperação emocional, social, psíquica e,
somente direcionado ao físico.
Iniciou-se
com dúvidas quanto se as atividades propostas e as metodologias
seriam adequadas. Com o decorrer das práticas, porém o
entusiasmo e a participação das crianças demonstraram estar-se
no caminho certo.
Através da
literatura infantil foi conseguido mexer com o imaginário das
crianças e manter uma cumplicidade nestas viagens à fantasia,
tornando o contador de histórias e o ouvinte bons amigos e
fazendo com que essas crianças esquecessem por momentos, que
estavam hospitalizadas.
A total liberdade
de ações, dada pelos funcionários do hospital, pelos médicos,
muito contribuiu para o êxito do projeto. Havendo um sentimento
de valorização e estímulo para se fazer o melhor.
O gratificante
neste trabalho foi o benefício às crianças internadas e também
as suas famílias, e saber que momentos agradáveis foram vividos,
em meio a tanta pobreza , dor, desinformação e tristeza.
O diferente foi
desafiado e abre-se caminho para outros pedagogos e psicopedagogos
que queiram atuar numa área onde há muito a ser feito.
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Claudete
Maria Schüssler de Souza: Pedagoga-
Unidavi - Rio do Sul – SC – Psicopedagoga – Faculdades
Integradas de Amparo
Lucimar
Soranzo Marques –
Pedagoga- Unidavi - Rio do Sul – SC – Psicopedagoga –
Faculdades
Integradas de Amparo
Referências Bibliográficas
ABRAMOVICH, Fanny. Literatura
infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione; 1994.
BAQUERO, Ricardo. Vygotsky e a aprendizagem escolar. Porto
Alegre:Artes Médicas, 1998.
BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise
dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
GILLIG,
Jean-Marie. O
conto na psicopedagogia. Porto Alegre: Artmed, 1999
VEER,
René Van Der e VALSINER, Jaan. Vygotsky: uma
síntese. 2.ed. São Paulo: Edições
Loyola, 1996.
Referências de
Apoio
CUNHA, Maria
Antonieta. Literatura
infantil: teoria e prática. São Paulo: Ática, 1983.
LAJOLO, Marisa ; ZILBERMAN, Regina. Literatura
infantil brasileira: história e histórias. São Paulo: Ática,1988.
ZILBERMAN, Regina. A
Literatura infantil na escola. 8ª ed. São Paulo: Global,
1994.
_____. A
leitura em crise na escola: as alternativas do professor.
Porto Alegre: 1985. |
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Repercussões
Psíquicas da Histerectomia por Miomatose Uterina
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Karina Batista de Paula
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Resumo: Este artigo se originou de uma monografia do
Aprimoramento em Psicologia Hospitalar no Hospital e Maternidade
Leonor Mendes de Barros, com o objetivo de discutir através de
informações e experiência clínica as repercussões psíquicas
que acometem as mulheres numa cirurgia de retirada do útero. Os
dados foram colhidos no grupo de internação, atendimento psicológico
em enfermaria de ginecologia e no ambulatório. Os resultados
indicaram que, de uma forma geral, existe a presença da angústia
e do sofrimento psíquico numa cirurgia de retirada do útero. As
pacientes submetidas a esta perda precisam lidar com uma situação
difícil do ponto de vista psíquico, que são as repercussões
relacionadas a sexualidade e o valor simbólico do útero na sua
história de vida.
O estudo permitiu
ainda constatar que a literatura existente fornece um referencial
médico mais abrangente do que o psicológico, o que sugere a
importância do estudo psicológico desta questão.
Palavras-chave:
sexualidade feminina, aspectos psíquicos da histerectomia,
aspectos psíquicos da menopausa, mioma.
Abstract:
This article originated from a monograph entitled improving
Hospital Psychology in the Leonor Mendes de Barros Hospital and
Maternity with the object of discussing, through information and
clinical experience, psychological repercussions which affect
women undergoing surgery for the removal of their uterus. The data
were collected from the post-surgery patient group, the
gynaecology ward (psychological attendance) and clinics. The
results showed that, generally, there is a certain psychological
distress when undergoing a surgery to remove the uterus. The
patients submitted to this loss need to deal with the
psychological difficulties, related to sexuality and the symbolic
value of the uterus in their lives.
The
sudy also affirms that the existing literature covers more about
the medical aspects of this issue than the psychological, which
suggests that the latter needs to be studied further.
Key
Words:
female sexuality, psychological aspects of hysterectomy and
surgically imposed menopause.
De acordo com o referendado pela ciência biomédica, a
histerectomia por miomatose uterina é uma cirurgia de retirada do
útero por mioma, assim deferido por Frederickson, (1992:37) “o
mioma também chamado de fibromioma ou leiomioma é um tumor
uterino benigno, composto de músculo liso e de elementos do
tecido conectivo”. Quando a paciente apresenta vários miomas
trata-se de uma miomatose uterina.
Quanto
aos sintomas, existem miomas grandes praticamente assintomáticos,
outros de tamanho variado que podem provocar dor, pressão e
aumento do sangramento uterino. Dependendo da localização, pode
produzir sintomas urinários ou queixas retais, se está na parede
do útero pode produzir sangramento anormal, infertilidade e
aumento do fluxo menstrual ocasionando hemorragias sucessivas que
podem levar a mulher a um quadro de anemia crônica. Além disso,
os miomas podem complicar a gravidez, causando abortamentos e
trabalho de parto prematuro.
Segundo
Greer, (1994) o mioma ocorre em mulheres durante a idade de
reprodução e em geral diminui de tamanho ou desaparece com a
involução do útero depois de encerradas as funções ovarianas.
O
tratamento cirúrgico é necessário se os miomas estão
suficientemente grandes para preencher toda a pelve, se o
sangramento não pode ser controlado pela terapia clínica, e também
devem ser removidos se crescem após a menopausa.
A
cirurgia ainda é o método de tratamento mais comum. A
miomectomia que é uma cirurgia para a retirada do mioma, preserva
o útero, ou seja, a função menstrual e reprodutiva da mulher e
pode ser realizada quando está em questão a infertilidade, caso
contrário, a histerectomia total é o tratamento mais utilizado.
O médico
Lemgruber, (1995) informa que existem quatro tipos de
histerectomia: a histerectomia
total que trata-se da retirada de todo o órgão, isto é, do
corpo uterino e do colo, parte que fica em contato com a vagina.
Esta cirurgia poderá ou não incluir a retirada dos anexos, ou
seja, ovários e trompas; a histerectomia
subtotal que é a remoção do corpo uterino, com a conservação
do colo; a histerectomia
radical onde além do corpo uterino, remove-se também parte
da vagina, trompas e gânglios linfáticos e se indica geralmente
em casos de câncer e por fim a histerectomia fúndica, trata-se de uma cirurgia conservadora em que
se retira apenas o fundo do útero (parte do corpo), permanecendo,
assim, a função menstrual do órgão.
Para
Jeffcoate, (1979) alguns ginecologistas consideram que uma vez
completada a família da mulher, o útero é um corpo estranho
“ninho de bebês ou de câncer” que deve ser removido. Em sua
opinião, mesmo para a mulher que não deseja mais ter filhos o útero
não é um órgão a ser descartado levianamente. O médico
Lemgruber assim também considera, não ter sentido a retirada do
útero por prevenção contra um possível câncer.
As
fontes desse artigo se encontram em nossa experiência clínica, o
questionamento notadamente surgiu do discurso de alguns
profissionais da área da saúde e repetido por algumas pacientes
de que o útero “não serve para nada” apenas para “gerar
filhos e ter câncer”.
A
partir disso, começamos a questionar; além da procriação e do
caminho para uma doença degenerativa como é o câncer, existe
outro significado para esse órgão? Qual seria nos significados
psíquico?
Tratando-se
de um órgão que supostamente “não serve para nada”, nos
questionamos do porque muitas se demonstravam angustiadas pela sua
retirada.
Metodologia
Nesta
reflexão, os sujeitos foram as pacientes e seus acompanhantes que
passaram pelo grupo de internação no ambulatório do setor de
ginecologia durante o período pré-operatório, totalizando 380
participantes. Foram realizados 60 atendimentos psicológicos
compreendendo as pacientes internadas na enfermaria de ginecologia
no período pré e pós-operatório, atendimentos durante os
retornos pós-cirúrgico feitos no ambulatório e no Serviço de
Triagem da Psicologia localizado no ambulatório do Hospital e
Maternidade Leonor Mendes de Barros, período de março de 2000 à
fevereiro de 2001.
O
grupo era considerado heterogêneo, com pacientes que iriam se
submeter a cirurgias referentes a ginecologia geral (retirada do
útero por mioma, prolapso uterino, patologias de ovário,
patologias relacionadas a perda urinária, sangramento etc.) e
pacientes com câncer de mama e ginecológico. Cabe aqui salientar
que nos deteremos à respeito da retirada do útero por mioma, que
é o objetivo deste trabalho.
Os instrumentos utilizados no grupo de internação foram
informações e orientações a cerca da cirurgia, com o auxílio
de cartazes ilustrados, foram proferidas palestra sobre o
funcionamento do aparelho reprodutor feminino. Este grupo foi
realizado durante quatro dias da semana, sendo coordenado por uma
psicóloga e demais profissionais (assistente social, enfermeira e
nutricionista), com 1 hora e meia de duração.
Foi
feito registro das falas dos participantes do grupo de internação,
considerado um espaço em que as pacientes falaram sobre o mioma,
os sintomas e o que pensaram que aconteceria após a operação,
falaram o que já ouviram a respeito de mulheres que retiraram o
útero, dos medos e das fantasias que cercam esta cirurgia.
Durante o grupo, percebemos no discurso das pacientes a
necessidade do atendimento psicológico individual quando a
paciente se mostrava mobilizada, ou seja, em seu discurso trazia
medos, fantasias acerca da retirada do útero.
Do
mesmo modo, foi feito registro dos atendimentos na enfermaria e no
ambulatório do setor de ginecologia. Nas enfermarias e ambulatórios
foram realizados atendimento psicológico de suporte e alguns
atendimentos psicoterápicos no ambulatório.
Discussão
As
impressões das falas das participantes e dos atendimentos
levou-nos a perceber que para algumas pacientes o diálogo com o
marido é um pouco mais aberto, eles acompanharam suas esposas e
chegaram a participar do grupo junto com elas. Os maridos
mostraram-se preocupados com esta questão e alguns disseram que
ao tomarem conhecimento da necessidade da retirada do útero de
suas esposas, conversando com os amigos de futebol, por exemplo,
os mesmos falaram que “suas mulheres não são mais as mesmas”
depois de terem passado pela operação, e outros que “nada
influenciou no desempenho sexual” chegando até a melhorar, pois
deixaram de ter a preocupação com a concepção e a utilização
de métodos contraceptivos. Torna-se então uma dúvida para o
casal. Melhora ou piora o desempenho sexual?
Percebemos
nestes casos de dúvidas do casal, a importância da informação
acerca da sexualidade, no discurso as pacientes mostram-se
temerosas para contarem sobre a necessidade da retirada do útero,
talvez porque elas também tivessem dúvidas se o prazer sexual
acontece no útero ou não.
Algumas
pacientes do grupo não tiveram filhos, algumas eram virgens e
durante a consulta com o médico, cansadas dos sintomas hemorrágicos
e das dores causadas pelo mioma, faziam o pedido de que o útero
fosse retirado mesmo tendo um mioma pequeno e assintomático. A
angústia emergente de acabar com os sintomas, expectativa de com
a cirurgia evitar os transtornos menstruais ou mesmo o incomodo de
vir ao ginecologista todo ano.
O
acompanhamento ginecológico foi vivenciado de forma extremamente
constrangedora, com muito receio e vergonha pela paciente. Muitas
pacientes perguntam pouco, relatam sentirem-se envergonhadas ao
exame ginecológico, feito por “um médico tão novo” sic, se
referindo aos residentes. A dificuldade de compreender o que é
dito pelo médico aumenta a ansiedade da paciente frente ao seu
estado de saúde. Não sabem bem o que seja um mioma, motivo pelo
qual perderá o útero, associam-no ao câncer uterino, como algo extremamente grave e que poderá levá-las
a morte. Neste contexto a paciente solicita ao médico que faça a
cirurgia.
Greer
(1994) afirma que os médicos aceitam a “ansiedade” da
paciente sobre o útero e seu potencial para desenvolver câncer
como justificativas para a cirurgia. “Após a última gravidez
programada, o útero torna-se inútil, sangra, produz sintomas, é
um órgão potencialmente canceroso, devendo ser retirado”
(1994:43). As mulheres solicitam aos médicos numa necessidade que
seja retirado o útero, muitas vezes são mulheres que têm disfunções
uterinas relativamente sem importâncias para uma histerectomia.
Notamos
que este discurso aparece realmente em algumas pacientes e a
retirada torna-se então justificada não apenas pelas pacientes
como também pelos médicos. Entendemos que se deixa de lado a
subjetividade, não se levando em conta a dor psíquica, o quadro
orgânico predomina em detrimento do psíquico. Na medida que as
pacientes são orientadas de que o mioma não é câncer uterino,
a angústia associada a questão da morte por causa de um câncer,
diminui de intensidade. Acreditamos que o útero antes de ser um
órgão, considerado “um ninho de bebês ou de câncer
uterino”, simboliza o feminino e remete a sexualidade.
Enfatizamos
nesta nossa reflexão, que o tratamento não é de um mioma
uterino, mas uma mulher portadora deste mioma. No referencial do médico,
pode ser apenas a perda da função reprodutora, mas para a mulher
a ser operada a retirada desse órgão pode significar a supressão
da feminilidade, da sexualidade e do estado de saúde. Dessa
forma, notamos que antes de acontecer a cirurgia e após a
retirada do útero, existe a presença de sofrimento psíquico,
ligadas a questões da sexualidade feminina. A retirada do útero
é encarada de formas diferentes pelas pacientes, pois remete a
importância que cada uma deposita nesse órgão.
Observamos
em algumas pacientes que o fato de pensarem na possibilidade da
retirada do útero, leva-as a achar que ficarão “ocas”,
“vazias”, “mulheres macho”, e que seus maridos vão ficar
pouco atraídos por elas. Passamos a questionar se traziam esse
discurso apenas no momento próximo da operação, das conversas
nos corredores enquanto aguardavam para passar no médico, ou se
prolongava no período pós-operatório. Confirma-nos realmente
que esta angústia não era aliviada com a retirada do útero.
Caso
1
Apresentaremos o
caso de uma paciente que a reflexão indica fantasias envolvendo o
mioma.
Foi realizado atendimento em uma paciente que se encontrava
no período pré-operatório de uma provável histerectomia por
miomatose uterina, o médico havia informado-a sobre o tamanho do
mioma e o risco de perder o útero. A paciente era viúva, estando
no seu segundo relacionamento, com um homem poucos anos mais jovem
do que ela, que dizia ama-lá. Ambos manifestando desejo de uma
gravidez.
Durante o atendimento, a paciente relatou que no passado
submeteu-se a uma laqueadura por conta do número de filhos que
havia tido e pelos
maus tratos que recebia do falecido marido.
Naquele momento, se encontrava aguardando a operação e no
seu discurso, trazia a angústia pelo temor da esterilidade com a
perda do útero. Ao falar, culpava o mioma por não ter
engravidado novamente, na
sua fantasia acreditava que havia engravidado e o mioma havia
comido o seu bebê. Neste discurso fantasioso, parece
desconsiderar a laqueadura realizada há 12 anos, acreditando que
estivera grávida do atual companheiro.
O
mioma para esta paciente é considerado como sendo um bicho que
come bebês e que é responsável, pelo possível infortúnio que
seria a não possibilidade de poder gratificar com um bebê o
homem que a trata bem e diz amá-la. Percebemos que essa situação
é vivida como algo difícil, pois é como se ela tivesse dentro
de seu útero bichos que andam, etc, que repercutem na sua saúde
e no relacionamento com o marido, que como ela, não entende o que
se passa, dificultando ainda a relação sexual do casal.
As
pacientes demonstravam vergonha a respeito do que pensavam ser o
mioma, falavam do mioma também como sendo um “bicho
cabeludo”, uma “bola de pelos”, um “sapo peludo”, etc,
do qual iriam operar. Percebemos fantasias que existem por trás
da cirurgia de retirada do útero de que ficaram “ocas”,
“frias”, “vazias”, que tem como pano de fundo questões
inconscientes ligadas a sexualidade.
Algumas
pacientes omitem o fato da retirada do útero para seus esposos,
por motivo da fantasia que “não serão mais as mesmas
mulheres”, no âmbito sexual do casal.
Caso
2
Apresentaremos o
caso de uma paciente que a reflexão indica ter relação com a
sexualidade feminina.
Uma paciente
atendida no ambulatório, casada e com filhos, e que se submetera
à uma histerectomia anteriormente, fora encaminhada sobre a
queixa de diminuição da libido.
Em atendimento, a paciente falou que se soubesse que
ficaria assim não teria deixado retirar o seu útero, lamentou o
fato de que após um ano da cirurgia se encontrava sem vontade de
ter relação sexual e dizia ter dó do marido que amava, pois
sempre foi amoroso e até antes da operação tinham bom
desempenho sexual. Se encontrava preocupada com o fato dele estar
notando ela diferente, com medo que pensasse em traição ou que
viesse a questionar e então teria que contar sobre a operação
que culminou na retirada do seu útero.
Acreditamos
que um dos motivos que levam a paciente a omitir seja o medo de
que seu marido pense como ela, ou seja, de que se tornou fria, oca
por dentro, portanto, impossibilitada de ser penetrada e
proporcionar prazer ao parceiro. Relatam que o pênis do marido
“baterá no oco”, durante a relação sexual, como se o canal
vaginal e o útero formassem canal extenso e com a retirada do útero,
ao pênis sobrasse o “vazio”, “o oco”.
A
mulher operada procura elaborar em maior ou menor grau o luto pela
perda do seu útero. Em alguns casos, o trabalho de luto torna-se
difícil e a paciente não consegue voltar a plena satisfação
sexual que antes gozava, talvez pelo significado dado ao órgão
perdido e pela dificuldade em se separar dele.
Freud
(1914) considera que o trabalho de luto envolve a elaboração da
perda de alguém ou um ideal de alguém que seria o objeto
idealizado e que não existe mais. O desligamento do objeto
identificado – ligar e se desligar dos objetos é um movimento
penoso – é proporcional ao investimento, pois toda a libido
investida é retirada de suas ligações com o objeto. Freud
postulou que o trabalho de luto envolve graves afastamentos
daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, e, após
certo tempo, o indivíduo retoma suas relações e investimentos
afetivos.
Portanto,
a consideração de que a paciente não sofre perda com a retirada
do útero é questionável. No momento da constatação da
necessidade de uma cirurgia, ou mesmo após sua realização,
existe a necessidade de elaboração de um luto, seja a nível
sexual, ligado a fantasia de que é um órgão que gera prazer,
seja no quanto a questões de maternidade.
Quanto
a sexualidade feminina, Volich (1995) no artigo O
eclipse do seio na teoria freudiana – A recusa do feminino,
constata que o papel desempenhado pelos seios no psiquismo da
mulher, como sendo um órgão que tem um caráter fundamental na
identidade feminina, é negligenciado pela teoria psicanalítica.
Esta negligencia, para o autor, tem como base o caráter problemático
das concepções psicanalíticas referentes à feminilidade.
Concordamos
com o autor, e acrescentamos a negligência quanto à importância
do útero. Percebemos o quanto é difícil falar sobre a importância
do útero para as mulheres, do ponto de vista psíquico. Na
pesquisa bibliográfica realizada para fundamentar este trabalho,
percebemos que o significado do útero para as mulheres acaba
sendo pouco discutido, acreditamos que isto se deva ao fato de
que, dentro da teoria psicanalítica o referencial não é o
feminino, mas sim o masculino.
Segundo
Volich, Freud expressou sua dificuldade em compreender a
feminilidade, qualificando-a de “pouco acessível”,
“continente negro”, “enigmática”, descrevendo também
seus conhecimentos neste campo como “lacunares” ou
“insuficientes”. Acreditamos que as idéias de Freud, acerca
da feminilidade, como sendo alguma coisa obscura, difícil de ser
atingida, difícil de ser compreendida, reflete no quanto é difícil
trabalhar com as questões que envolvem o feminino. O quanto é
difícil falar da mulher, sobre um referencial feminino dentro da
teoria psicanalítica.
Para
a menina sair da sexualidade infantil e atingir a sexualidade
adulta, ela tem que passar por etapas, que a levarão a atingir a
identidade feminina. Então, a menina tem que renunciar a primeira
zona genital erógena – o clitóris, e, na puberdade, a masturbação
clitoridiana deve ser recalcada e então a menina teria que
transferir a sua capacidade de excitabilidade à vagina. Segundo
alguns autores da psicanálise, a vagina do ponto de vista simbólico,
é inexistente durante a infância.
Volich
cita também que, para a menina ter acesso à identidade feminina
é preciso recalcar as tendências ativas-masculinas primárias,
cuja manifestação mais importante é a masturbação
clitoridiana. Através deste recalque a menina seria capaz de
realizar o “duplo movimento” do qual depende o seu acesso à
feminilidade: a passagem da excitabilidade clitoridiana à
excitabilidade vaginal, e a mudança da mãe, objeto primário,
para o pai, novo objeto de investimento libidinal.
Neste
caminho de desenvolvimento sexual feminino, a vagina é
negligenciada, do ponto de vista inconsciente, só passa a existir
na vida adulta. Para Freud, a vagina é uma coisa inexistente e a
menina só passa a percebe-la na puberdade.
Alguns
autores da psicanálise contemporânea procuram falar acerca da
sexualidade feminina dentro de um referencial feminino, como por
exemplo, Silvestre (2000) no artigo A
questão feminina, refere que alguns psicanalistas chegaram a
postular o conhecimento da vagina no inconsciente, ou seja, a
especificidade feminina do inconsciente. Acreditamos que o útero
também deve ter uma representação inconsciente. Anzieu (1992)
da psicanálise contemporânea, em seu livro Mulher
sem qualidade, faz a citação do útero como sendo uma
“cavidade” psíquica, fala que as crianças brincam
simbolizando uma caixinha, e o quanto que o útero está presente
no universo feminino. A “cavidade”, que seria a representação
simbólica do útero está presente no psiquismo da menina.
Postula que a mulher tem a sua experiência de vida solidificada
no homem, é “um ser sem palavras, inconsistência da
feminilidade frente à falicidade”(p. 04).
Considera
que a mulher tem sido encarada como um ser destituído de
qualidade própria. Isto é, como não possuindo outra qualidade
senão a que lhe é atribuída a partir da referência ao
masculino, ao falo. Neste contexto, a identidade feminina
tornou-se enclausurada social e culturalmente nos parâmetros do
masculino (como única qualidade que lhe é admissível). A mulher
é tomada como negativo do homem, não responde pela natureza íntima
de si mesma.
Percebemos
que a mulher, encarada como um ser faltante, na concepção fálica,
é impedida de perceber seus atributos femininos, como o útero,
por exemplo, porque ao discutir sobre o feminino, se enfatiza a
falta e não a presença.
Anzieu
postula que o ser mulher após Freud levou ao pensamento de que:
“os homens pensam a mulher, e acham simples retirar-lhe um pênis.
E depois, essa perspectiva evoca possibilidades inquietantes: a
contragosto eles se defendem por uma construção teórica –
reivindicação, castração, falta. Como se ser mulher fosse um
defeito, uma doença, uma tendência do não-ser” (1992:03).
Assim
sendo, usando a teoria psicanalítica como referencial
teórico para este trabalho, concluímos o quanto realmente
é difícil a constatação do útero como representante simbólico
do universo feminino para a teoria psicanalítica.
Caso
3
Apresentaremos
o caso de uma paciente que a reflexão indica ter relação com a
psicossomática psicanalítica.
Uma paciente
atendida no período pré-operatório de uma histerectomia no
leito de enfermaria da ginecologia, viúva, seu marido havia
falecido de câncer no reto há três anos. Dizia estar preocupada
com seus dois filhos que moravam no Japão e que haviam deixado os
pais muito antes do falecimento por necessidades financeiras como
também pela dificuldade de relacionamento com o pai, que fora um
pai e marido agressivo para com a família. A paciente relatou
situações severas de maus tratos durante os vinte anos de
relacionamento conjugal.
A preocupação maior era com o filho mais velho que deixou
no Brasil, a esposa e a filha de 6 anos. O irmão fez contado com
a mãe e a cunhada e contou que o irmão estava tendo um
relacionamento extraconjugal e manifestando interesse em se
separar da cunhada. A paciente ao tomar conhecimento do fato
passou a ter fortes hemorragias que após um mês levou a
histerectomia por mioma. Em seu discurso falava que o filho não
poderia fazer isto com a esposa tão boa para ele, para a filha
como também para a mãe, preocupa-se com o futuro da neta e também
com o dela mesma, relatava morar com a nora e receber dela todos
os cuidados de que precisava.
Quanto
a psicossomática psicanalítica, o autor Volich (2000) refere que
o psíquico pode afetar o somático, como o somático pode afetar
o psíquico. Considera que o psiquismo tem uma função na manutenção
do equilíbrio vital do ser humano tão importante quanto a do somático.
O psiquismo oferece recursos mais evoluídos para lidar com os
conflitos aos quais o funcionamento psicossomático está
constantemente submetido, ou seja, a interação é permanente
entre a psique e o soma, e diante de uma situação traumática,
onde há uma dificuldade de se lidar com o plano psíquico pode
haver uma resposta somática no lugar de uma elaboração psíquica.
Marty
(1985) apud Vieira (1997) aborda que a função fundamental da
mente humana está na assimilação dos traumatismos que a vida
apresenta. A mente, em certas condições, pode não assimilar uma
determinada situação traumática, e, nesse caso, haverá uma
sobrecarga sobre o soma, que resultará em somatização.
O
trabalho do luto é uma assimilação do traumatismo da perda de
uma pessoa querida, ou de algo significativo para quem perde, e
com isso, evita a somatização. A melancolia igualmente, se bem
que através de mecanismos mentais patológicos. Seja qual for,
luto ou melancolia, a somatização é evitada: a mente deu conta,
de uma maneira ou outra, do traumatismo.
Diante
da dificuldade de assimilar uma situação traumática, a pessoa
poderá ter uma doença. A capacidade de assimilação mental tem
limites, e estes são maiores ou menores conforme a história de
vida de cada um.
A
capacidade de assimilação mental de um indivíduo, em um
determinado momento, é denominada por Marty “mentalização”.
O que é uma boa mentalização? É aquela que protege
satisfatoriamente o indivíduo das somatizações.
A
escuta atenta ao reconhecimento da participação do mundo mental
no equilíbrio psicossomático, possibilitou-nos entrar em contato
com pacientes que somatizaram diante de uma situação traumática,
pela dificuldade de elaboração psíquica.
O
relato das pacientes a cerca da história da doença, nos levou a
perceber que o aparecimento do mioma uterino em algumas delas
vinha após um trauma psíquico. Em outras, o mioma estava durante
um certo tempo assintomático, e após o conflito passaram a ter
aumento do fluxo menstrual, por causa de hemorragia, levando
algumas a anemia crônica. A forma que a psique vai enfrentar as
situações difíceis e angustiantes será através do pensamento.
Diante da não possibilidade de pensar e simbolizar a situação
conflitiva, não angustiando-se diante do sofrimento a via
torna-se somática – o corpo adoece. Neste sentido o adoecimento
do corpo segundo Volich (2000:25) “...seria um apelo a resposta
menos evoluída, da ordem do comportamento”.
Dependendo
como a cirurgia é encarada pela paciente e sua família num
primeiro momento, pode levar a um alívio dos transtornos da
patologia ginecológica do ponto de vista manifesto, ou, a um
prolongamento dos transtornos só que agora do ponto de vista do
sofrimento psíquico. Se encontrar sem o útero pela dificuldade
de elaboração psíquica, podem ocorrer fenômenos psicossomáticos
como queixas de depressão, algia pélvia, frigidez, etc. Para
Jeffcoate (1979), após realizada a cirurgia de histerectomia,
algumas mulheres permanecem cronicamente inválidas e cheias de
queixas tais como cefaléia, depressão, náuseas, dores pélvicas,
frigidez, dispareunia, desarmonia conjugal, etc.
Considerações
Finais
Durante
os momentos em que a paciente passa pelo ambulatório, estando no
período pré-operatório cirúrgico, é fundamental que seja
acolhida e encaminhada para participar de grupos com outras
pacientes que vão se submeter a uma histerectomia por miomatose
uterina. Neste grupo, a presença do psicólogo junto com a
enfermagem, a assistente social, nutrição, enfim, toda a equipe
multiprofissional favorece-a ser ouvida e torna-se fundamental
este acolhimento.
A
informação contribui para diminuir as fantasias que envolvem a
paciente e o companheiro, porém percebemos que estas informações
não são suficientes para aliviar a dor psíquica, ou seja, é
necessário um trabalho de elaboração da perda.
A
consideração de que a mulher não sofre nenhuma perda, que o útero
“não serve para nada” é um discurso que não leva em
consideração o mundo psíquico e a sexualidade de cada paciente.
A afirmação de que é um órgão com risco de desenvolvimento do
câncer uterino, pode levar a muitas mulheres a solicitar a
retirada do útero, porém, a medida que a paciente e o médico
estabelecem uma comunicação com clareza, a decisão por uma
histerectomia ou por uma miomectomia, ocasionando perda ou não do
útero é compartilhada. A angústia é aliviada pela informação,
e neste caso, a paciente tem a possibilidade de entender e melhor
elaborar os motivos pelos quais sofreu a perda do seu útero.
Percebemos que as pacientes que passam por uma psicoterapia
durante o período pré-operatório, o momento cirúrgico é encarado
de uma maneira mais tranqüila. Por outro lado, as pacientes que não
passam pelo grupo, ou que não são encaminhadas à psicoterapia podem
passar por
dificuldades psíquicas, a não elaboração desta situação
pode retornar através de somatizações e a paciente passa a
queixar-se de uma dor orgânica tendo como pano de fundo a dor psíquica. |
Karina
Batista de Paula:
Psicóloga Aprimoranda em Psicologia Hospitalar no Hospital e
Maternidade Leonor Mendes de Barros no ano 2000. Especialização
em Adolescência para Equipe Multidisciplinar pela Escola Paulista
de Medicina/UNIFESP no ano 2001.
psicokarina@uol.com.br
Notas
não bibliográficas
I - Brun, D. (1989). Figurações do feminino. São Paulo: Escuta.
II - Gendron, L. (1970). A
menopausa – os seus problemas físicos e psicológicos. Publicações Europa – América Ltda: Arte de Viver.
III -
Halbe, H. W. (1987). Tratado
de ginecologia. vol. 1: Ed. Roca.
IV - Smirgel, J. C. et al. (1998). Sexualidade
Feminina – uma abordagem psicanalítica
contemporânea.
Porto Alegre, RS: Artes Médicas.
Referências
Bibliográficas
Anzieu, A . (1992). A
mulher sem qualidade – estudo psicanalítico da feminilidade.
São Paulo: Casa do Psicólogo, pp.3-04.
Frederickson,
H. M. & Wilkins, H. L. (1992). Segredos
em ginecologia e
obstetrícia. Trad. Cília
Beatriz Fischmann. Porto Alegre, RS: Artes Médicas, pp. 37.
Freud, S. (1970). Luto e
melancolia. vol XIV, (1917{1915}). Edição Standart Brasileira das obras completas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago
Editora.
Greer, G. (1994). Mulher –
maturidade e mudança. São Paulo: Augustus, pp. 43- 45.
Jeffcoate, S.
N. (1979). Princípios
de ginecologia. 4º ed.: Manole.
Lemgruber, I. (1995). Cuidado com histerectomias desnecessárias. Manchete
Saúde, 109, 10-11.
Silvestre, D. (2000). A questão feminina. Insight
Psicoterapia e Psicanálise, 105.
Vieira, W. C. (1997). A psicossomática de Pierre Marty. Em et.
al, Psicossoma: Psicossomática
Psicanalítica (pp.15-16). São Paulo: Casa do Psicólogo.
Volich, R. Marcelo. (2000). O corpo psicossomático. Insight
Psicoterapia e
Psicanálise,109, 23-29.
____. (1995). O eclipse do seio na teoria freudiana – a recusa
do feminino.
Percurso,14, 55-64. |
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PARA
NÃO MATAR OUTROS PAIS...
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Antonio de Andrade*
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A sociedade brasileira ficou chocada com a notícia de que
uma moça de 19 anos, estudante de Direito, de família rica,
mandou o namorado e seu irmão matarem os pais dela, no mês
passado, porque eles não concordavam com o seu namoro. E eles
foram mortos com pancadas de ferro em suas cabeças. E depois como
se nada tivesse acontecido ela saiu com o namorado para um
motel... Essa triste realidade nos faz refletir e aprender algumas
coisas para que outros pais não sejam assassinados por filhos
frustrados, filhos que deveriam ser mais saudáveis.
Uma das características das pessoas saudáveis é saber
tolerar as frustrações da vida, reagindo a elas com atitudes
ponderadas e equilibradas e não com violência ou vontade de
eliminar pessoas que causaram as frustrações, como foi o caso
daquela moça. Quando se aprendeu a ser "gente com
qualidades", geralmente não se reage com violência
assassina, não se ultrapassam os limites sadios da convivência
civilizada com as outras pessoas. Em vez de agredir, violentar ou
matar outros seres humanos, enfrenta-se as dificuldades com mais
equilíbrio e com atitudes que permitam resolver as dificuldades
com melhores comportamentos.
Mas quando uma pessoa não aprendeu a ser pessoa
"civilizada" ela geralmente irá ser violenta, não
saberá reagir adequadamente às situações. Para pessoas assim,
será mais fácil agredir e ser violenta do que manter um diálogo
franco e aberto para analisar a situação e encontrar a melhor
solução. Essa triste realidade de pessoas sem controle e sem
saber os limites existentes para a convivência sadia com os
outros é uma realidade encontrada na sociedade atual. Para
constatar essa realidade, basta ver os noticiários da TV ou
folhear os jornais, vendo-se as notícias ou as estatísticas de
homicídios, de estupros, de violências as mais variadas que
ocorrem todo dia. Quando se vê notícias como essas e outras como
a da moça que mandou assassinar seus pais, as pessoas ficam
assustadas, com medo.
Mas raramente essas pessoas têm a reação de se
perguntarem: - O que eu como cidadão posso fazer para mudar essa
situação? E se cada pessoa da sociedade fizesse a mesma pergunta
e agisse, poderia haver mudanças significativas na sociedade
obtendo-se, no conjunto, uma diminuição dos índices de violência,
de assassinatos, de estupros e outras violências.
Uma ação que cada adulto poderá fazer é mudar as suas
atitudes colaborando para uma melhor educação das atuais e das
novas gerações, não só criando os filhos, agindo mais como
provedores, mas procurando agir como educadores. Se cada adulto
tiver melhores atitudes como educadores poderá influenciar a
mudança do rumo e da marcha da história do ser humano neste
planeta Terra, já que as crianças e os jovens de hoje serão os
futuros pais e mães, os futuros educadores ou dirigentes de
Escolas e Universidades, os futuros dirigentes de empresas, os
futuros administradores de cidades, Estados ou nações e os
futuros cidadãos. As crianças e os jovens de hoje são a esperança
de um mundo melhor no amanhã, um mundo com menos violência e
mais harmonia entre as pessoas, uma sociedade mais humana onde as
pessoas sigam princípios éticos e saudáveis de relacionamento.
Mas, para que a sociedade humana chegue a uma situação
melhor e menos violenta, é preciso, que as pessoas evoluam de
modo mais sadio, com melhores condições emocionais, com maior
responsabilidade, independência, que saibam respeitar os limites
e reagir adequadamente às frustrações, e tenham muitas outras
características saudáveis de seres humanos. Enfim, sejam
"gente com qualidades"! Pais e educadores conscientes têm
como objetivo fazer de tudo para que a educação das crianças e
dos jovens lhes assegure condições de chegarem a ser adultos
felizes e obterem êxito na vida. Mas deveriam também se
preocupar em não só que eles "tenham" condições
materiais, mas que "sejam"
seres humanos sadios, com personalidades bem formadas para
que possam, quando adultos, contribuírem para uma sociedade
melhor e menos violenta. Os pais e educadores conscientes querem
desenvolver nos jovens valores realmente importantes como maior
consciência como pessoas, maior equilíbrio, maior harmonia
emocional, física e espiritual e, em especial, colaborarem para
que a criança desenvolva uma auto-imagem positiva que seja
estimuladora para uma vida mais realizadora e feliz.
Mas a realidade mostra que nem sempre os pais e os
educadores têm claro como ter as atitudes adequadas para educar
as crianças e os jovens, como formar personalidades saudáveis ou
como estimular uma auto-imagem que leve os jovens a desenvolver a
autonomia, independência e responsabilidade e um maior equilíbrio
emocional (chamado atualmente de Inteligência Emocional). Os
adultos possuem muitas dúvidas sobre quais as melhores atitudes
que devem ter para com as crianças para que elas evoluam de modo
sadio, conhecendo os seus direitos como seres humanos, mas também
os seus limites e seus deveres. Muitos pais e educadores acham que
estão educando bem as crianças e os jovens quando ensinam, por
exemplo, com suas próprias atitudes ou através das mensagens que
dão a eles, mensagens que os incentivam a seres pessoas esforçadas,
a fazerem depressa ou com perfeição, a serem pessoas fortes, ou
até incentivando-os a serem pessoas impacientes, ansiosas, irritáveis
ou fazendo tudo por eles, deixando-os dependentes, impedindo assim
que as crianças e os jovens assumam a cada dia maior independência,
ou abafando as suas emoções e suas criatividades.
Muitos pais conscientes querem mudar suas atitudes para
educarem com melhores resultados os seus
filhos e eles possam ter um sadio desenvolvimento, para que
sejam seres humanos mais adaptáveis às novas realidades deste
mundo. Mas eles não sabem o que mudar e como mudar. Não sabem
muitas vezes como serem pais ou educadores que dão estímulos de
ternura e amor, de presença, de confiança, de segurança, de
paciência, de ajuda, de cooperação, de solidariedade, de
entusiasmo e de alegria de viver. Muitos pais, em especial, não
sabem como vencer as barreiras dos tabus e dos preconceitos e
chegarem a dar um abraço em um filho/a ou um beijo, ou não sabem
fazer um carinho sem ficarem constrangidos, não sabem dizer
coisas que farão, certamente, um tremendo bem à saúde emocional
dos filhos.
Existem muitos livros que podem auxiliar, grupos de estudos
de pais, reuniões de pais com educadores nas escolas e outras
tantas orientações que os pais podem ter. Caso o leitor esteja
em busca de um desses livros, poderá encontrar no site www.editora-opcao.com.br
um dos nossos livros, "Criança Feliz, Adulto Feliz: O Poder
Emocional da Auto-Imagem". É um verdadeiro Guia Prático
para os pais e educadores poderem formar crianças e jovens saudáveis
e com um maior equilíbrio emocional e, assim, chegarem a ser
pessoas adultas que saberão ter reações mais saudáveis e menos
violentas. Apresenta
os caminhos e as opções disponíveis para formar pessoas saudáveis
e felizes e uma sociedade mais equilibrada. Muitas das afirmações
apresentadas são acompanhadas de citações científicas, o que
torna o livro importante não só para os pais e educadores, mas
também para estudiosos, estudantes de Pedagogia e Psicologia e
pessoas que lidam com jovens.
Como autor desse livro eu acredito ser possível realizar
as mudanças necessárias para se criar uma sociedade onde as
pessoas possam viver de modo saudável e feliz, mais conscientes
das suas necessidades e das suas fontes de satisfação e
vivenciando melhor as suas emoções, consigo mesmo e com os
outros, seja no trabalho, na vida conjugal, familiar ou social.
Acredito que a sociedade humana poderá ser mais equilibrada do
que a atual, poderá ter melhores seres humanos SE os adultos de
hoje repensarem as mensagens que estão sendo dadas às novas gerações
e formando as suas personalidades. E em especial, SE todos os
setores que cuidam da educação dos jovens desejam formar cidadãos
responsáveis, mais equilibrados e felizes e uma sociedade mais
civilizada. As opções estão nas mãos dos pais e dos
educadores! O mundo de amanhã será melhor, terá adultos
felizes, SE hoje os adultos desempenharem, do melhor modo possível,
as suas missões de educadores. Que tal você começar a fazer bem
a sua parte? Assim, poder-se-á evitar que outros filhos
assassinem os seus pais... |
* Os livros, Artigos, Cursos e Palestras de Antonio de Andrade estão
no site www.editora-opcao.com.br
* Relacionado ao tema deste artigo, leia no site, em especial os
artigos "A (in)disciplina e a sobrevivência da
sociedade", "A auto-imagem como causa da violência",
"Um novo enfoque para a violência", "Crianças,
que futuro?".
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O
ANJO DOS EXCLUÍDOS
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Marlene
Rodrigues
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Célia
Sodré Dória é uma pessoa humana gigantesca.
Sua
morte há cinco anos, em 16 de novembro de 1997, aos 81 anos, não
fez e nem fará cessar o fluxo de sua extraordinária contribuição
à preservação dos direitos humanos no País.
Nascida
em abastada família paulista, ela exerceu desde menina a compaixão
e o fez por toda a vida. Em criança, preocupava-se com o destino
dos que tinham demais e dos que tinham de menos. Por que a fartura
para uns? Por que a privação para tantos?
Seus
sentimentos de menina levaram-na a optar, quando moça, pela
transformação das instituições e o fez, jovem, muito jovem,
quando escolheu formar-se em Pedagogia e ingressar numa ordem
religiosa. Tornou-se, anos depois, Madre Cristina, cônega de
Santo Agostinho em São Paulo e luta viva pela justiça social e
contra qualquer espécie de arbítrio.
Heróica,
o hábito não a manteve à distância da militância política:
desde muito antes do Golpe de Estado que, em março de 1964 e por
mais de vinte anos, lançou a nação em regime de arbítrio e
vergonha, ela já lutava pelos direitos plenos à cidadania de
todos e o fazia discutindo e reunindo no Sedes Sapientiae da Rua
Caio Prado, em São Paulo, os perseguidos de todos os matizes:
eram os comunistas de então, nem todos partidários mas que
proclamavam os direitos de todos à igualdade de oportunidades; os
que lutavam pelo direito às idéias, como os sociólogos de então
que não tinham a profissão reconhecida, os físicos e biólogos
que queriam uma ciência autônoma gerida por brasileiros e livre
do colonialismo e os que queriam uma música e arte
fundamentalmente brasileiras; os que defendiam sua negritude, como
Solano Trindade o fazia, a qualquer custo pessoal, por amor às
suas origens; os que queriam para a mulher o mesmo direito do
homem ao trabalho e às carreiras profissionais; os que lutavam
pela divisão mais equânime da terra e dos bens sociais; os que
sofriam na carne e na alma a ausência do pão, da saúde, do
emprego, da moradia e da educação na vida de tantos.
Audaciosa,
o hábito não a manteve na clausura e nas igrejas, não a impediu
de pichar os muros de São Paulo contra a ditadura, sempre
acompanhada dos estudantes e operários que ela amou
incondicionalmente, luta por luta, derrota a derrota, avanço por
avanço.
Incansável,
o hábito não a impediu de esconder os perseguidos, de proteger
os militantes, de exigir tratamento humanitário aos presos políticos,
de localizá-los nos Departamentos de Organização Política e
Social ― DOPS e, com suas visitas que jamais autoridade
alguma conseguiu impedir, não se sabe porque desígnio, tentar
minimizar a tortura e abreviar as prisões. Ela parecia inatingível
e ainda que o estudante mineiro Carlos Moraes da Matta Machado
tenha sido torturado até a morte no DOI-CODI para que a
denunciasse em ações subversivas que permitissem à repressão
incriminá-la, o que heroicamente ele não fez, Madre Cristina não
se intimidou, como não a intimidaram as sucessivas ameaças de
morte feitas ao longo da negra noite de então. Ao contrário, a
morte brutal do estudante não lhe permitiu mais nenhum descanso.
Anjo
dos perseguidos, Madre Cristina, indiferente aos riscos, não
restringiu a sua ação política à defesa dos presos políticos
do Brasil. Ampliou-a também para fora dos limites do País. Na
Argentina, durante os tenebrosos anos 70, muitos dos presos políticos
argentinos, entre eles psicólogos e psicanalistas defensores das
liberdades essenciais, receberam a visita solidária da “freira
comunista”.
Ela
saiu ilesa das prisões e dos embates. Quem poderá explicar a razão?
Célia
Sodré Dória é mesmo uma pessoa gigantesca. Justamente porque
lutava pelos direitos humanos, não se descuidou de sua participação
como educadora e cientista. Sua atuação nesses campos foi
intensa e profunda. Doutora em Psicologia pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, ela escreveu várias obras
de importância no conjunto da produção científica nacional,
abordando a psicologia geral, a psicopatologia, a psicologia
educacional e os ajustamentos neuróticos; participou ativamente
da implantação da primeira clínica psicológica do País em
1940; da criação na década de 60 dos cursos de Psicologia no
Brasil e da regulamentação da profissão de psicólogo. Sua
luta, então, era a de abrir espaços para consumar a intervenção
da Psicologia na sociedade. Assim, ela criou o novo Sedes
Sapientiae, um espaço inteiramente aberto para quem quisesse
realizar projetos virtualmente capazes de provocar transformações
sociais. Hoje, o Sedes trabalha, através da Clínica, do
Movimento de Educação Popular e de seus inúmeros e
diversificados cursos na área da psicologia clínica, da educação
e do trabalho com a Pastoral da Terra, o Movimento Sem-Terra, o Pró-Índio
e as campanhas contra a fome e a favor do trabalhador e da criança.
E
se Madre Cristina queria o Sedes Sapientiae assim, centro de excelência
em Psicologia e Educação e espaço aberto à atuação política
pelos direitos humanos, também esse era o seu desejo para a
Psicologia e a Educação: áreas científicas sim, mas
fundamentalmente espaços políticos em que se pense e se pratique
uma sociedade mais humana e, portanto, mais justa. Enfim, caminhos
de um trânsito incomum: o da dignidade e reverência
incondicional à Vida.
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Marlene
Rodrigues: Psicóloga (CRP-08/5877),
Educadora e introdutora na Universidade Brasileira da
área de estudos denominada Ecopsicologia ― Ética
e Estética das Paixões |
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PENSANDO
A GLOBALIZAÇÃO, A VIOLÊNCIA E O SER HUMANO
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Marina S. Rodrigues
Almeida
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INTRODUÇÃO:
O presente
artigo tem como objetivo compartilhar algumas reflexões, sobre a
conexão entre a globalização, o aumento da violência e o ser
humano.
Na
realidade, encontramos entre os três elementos alguma forma de
interligação, porém é um engano pensar numa forte causalidade
entre elas, onde a violência seria conseqüência final.
Somos
acostumamos a ir por
raciocínios de modelos de explicações causais, e o que
é pior geralmente são generalizadas para outras situações,
realidades, pessoas, etc... Um exemplo disso: Um maior consumo de
álcool na Alemanha não é a causa de maior acidentes de trânsito
no Brasil. Contudo, ambos aumentam com o tempo e com o tempo
aumentam a renda mundial que permite consumir mais álcool e
comparar mais carros.
A
GLOBALIZAÇÃO E SEUS EFEITOS EM NÓS
A globalização
trouxe principalmente os progressos (desejáveis) nos meios de
comunicação, a melhor circulação de pessoas, de mercadorias,
de capitais e opções para todos.Todos se beneficiam com a
globalização, entretanto o beneficio não é igual para todos.
Quanto maior a estruturação da sociedade maior o benefício,
quanto menor for a estruturação maior “prejuízo”. Como
conseqüência encontramos as desigualdades sociais cada vez mais
visíveis.
Para
minimizar precisamos de uma estruturação social, política, econômica
e financeira, o que encontramos como
variável interveniente é a velocidade da globalização
frente ao desenvolvimento dos setores citados em cada estrutura
social.
A
globalização não é uma opção de sociedade, é inevitável,
é imposta pela própria evolução de mundo, precisamos ter
uma visão um pouco mais ampliada
para poder entendê-la.
Poucos
conseguem perceber as influências da globalização em todos os níveis
de nossas vidas: pessoal, familiar, na cidade/estado ou país.
Neste novo contexto sócio-econômico-cultural, a informação
passa a ter um papel central, constituindo-se atualmente no maior
poder de inter-relação existente, tendo inclusive, suplantado o
poder econômico e tecnológico.
O
poder da informação se faz através de livros, revistas, jornais
especializados, TV a cabo em escala mundial e internet - a qual se
quadruplicou em um ano e continua crescendo. A informação
duplicando-se, em progressão geométrica, a cada 3 a 5 anos, logo
se constituirá em um universo esmagador.
A
capacidade de saber onde, como, com quem e a forma mais rápida de
adquirir informações, analisá-las e aplicá-las adequadamente
será o grande diferencial competitivo.
A
globalização não vem trazer soluções para os problemas do
mundo, contudo podemos ter a esperança de que alguns problemas
sejam resolvidos que é muito diferente de esperar por algo mágico,
onipotente e onisciente.
A
globalização não se propõe a nada, é apenas uma
“fatalidade” que deve ser pensada e compreendida para não
sermos pegos de surpresa pelas forças de desestruturação. A própria
desestruturação pode ser um fator de progresso, para repensarmos
a realidade, mas também de violência e sofrimento humano.
Precisamos
estar atentos para não achar que a melhor maneira de enfrentar a
globalização seja a unificação, a perda de culturas regionais
próprias de cada lugar, como a dissolução das características
individuais e particulares, ficaríamos sem nossa história,
cultura e identidade! Isto é muito sério. Desta forma a
humanidade, em sua história já passou por diversas revoluções
e sempre se beneficiou dos seus progressos,
o que sabemos é que alguns grupos humanos se beneficiaram
mais do que outros.
A
VIOLÊNCIA, ESPETÁCULO MIDIÁTICO, COM PÚBLICO E TORCIDA
ORGANIZADA...
Outro
aspecto que precisamos pensar é sobre a violência, que
virou espetáculo midiático, com público assíduo e
torcida organizada!
A
violência é inerente ao ser humano, entre outras coisas é uma
forma que o homem utiliza por força exercer controle e procurar
introduzir mudanças.
A
palavra violência vem do latim vis que significa “força”,
também dá origem aos vocábulos “vigor”, “vida” de vis,
“vita”, e “vitalidade”. Segundo o psicanalista David
Zimerman (2001), explica que a transição de um estado mental de vigor
para o de uma violência é a mesma que se processa entre o
de uma agressividade sadia para
o de uma agressividade
destrutiva.
A
violência faz parte
de nosso cotidiano, e estamos hoje
em mais segurança do
que em tempos longínquos, embora não pareça.
Ela
é o preço que estamos pagando para usufruir alguns benefícios,
mas consideramos também que são profundas e abrangentes as
causas etiopatogênicas responsáveis pela eclosão da violência
da forma atual.
A
primeira questão nos remete a responsabilidade, um desafio a cada
um de nós, a família, a sociedade e aos órgãos governamentais.
Nestes últimos a responsabilidade da segurança pública, justiça
social, emprego, saúde física e mental, educação, distribuição
de renda , etc..
Podemos
nos reportar a vários tipos de violência: violência de natureza
sócio-política-econômica, violência moral, violência
sexual, violência no ensino, violência
na família, além dessas sofremos pressões externas como
é o caso da cultura onde o grupo de adolescentes está inserido e
é o mais afetado, estando sujeito a modelos estéticos, a mídia,
apologia a falsa liberdade, religiões, etc...
E
O SER HUMANO NISTO TUDO?
Então
quais os fatores que determinariam que um ser
humano possa ser mais destrutivo ou criativo?
Uma
tentativa de entendermos este mecanismo psíquico, será o de
considerar que todo ser humano está vulnerável a forças
externas e internas (chamamos em psicanálise de predisposições
constitucionais e bio-psico-sociais),
consideramos também o
estado de angústia do bebê, o desamparo vivido nos primeiros
meses de vida, falhas de maternagem, abandonos prematuros dos pais
ou de um deles , excesso de estímulos de toda ordem que a psique
da criança não tem condições de processar, etc... Dependendo
de como foram experimentados na psique, determinarão por toda
vida deste ser humano
os seus impulsos
e como serão canalizados, se mais agressivos, destrutivos
ou construtivos.
Enfim,
para falar de violência
estamos falando também de desamparo, do ser humano, das crianças,
dos jovens, dos pais e da sociedade como um todo, portanto é
necessário falar de prevenção, e isto deverá ser começado
em casa, na família, com os pais.
Os
pais contemporâneos não são mais os modelos de outrora,
encontramos hoje várias formações de casais que fazem parte do
novo cenário familiar Pós-Moderno: casais de homossexuais, mães
solteiras, pais solteiros, aumento crescente de casais
divorciados, fertilização assistida, barriga de aluguel, banco
de sêmen e óvulos, adoções internacionais, etc.
A
família atual neste conceito ampliado, continua sendo o primeiro
grupo de vital importância que
o ser humano se relaciona tendo sua função biológica e social.
Segundo
a psicanalista Ruth Blay Levisky (2001), lembra que a família
atual está modificada, os pais bastante confusos e nos
perguntamos se a família está em crise.
Em
psicanálise estar em crise nos leva a ressignificar conteúdos
novos, é um processo de dor e sofrimento, desequilíbrio, leva
tempo, até que a mente amadureça e suporte um novo olhar, um
novo sentido.
O
trabalho com grupos de pais ou grupos de família, tem ajudado
muito a dar suporte a estas angústias, ao desamparo, buscam
encontrar saídas mais apropriadas para seus problemas, a
identificar-se com outras pessoas que passam por situações
semelhantes mas mantém a esperança viva.
Violência
não se restringe apenas aos assaltos, drogas, transgressões físicas, morais,
sociais, etc... mas é uma conseqüência de uma falta, de um
vazio, que a família e a sociedade estão colaborando não só
para seu crescimento, bem como para sua cristalização.
MUDANÇA
DE OLHAR E PENSAR PODEM
SER A SAÍDA...
Se
não encararmos com
seriedade e responsabilidade estes fatos, em busca de pensarmos a
amplitude desta situação que nos apresenta, só arrumaremos
culpados, ficaremos paralisados, empobrecidos, romperemos os vínculos
afetivos, buscaremos isolamentos individuais com uma aparência de
independência e bem estar.
Acredito
que para buscarmos nosso bem estar precisamos aprender a pensar
nossos pensamentos, nossas atitudes violentas, agressivas,
amorosas, etc... só depois conseguiremos
entender nosso
semelhante ao invés de julgá-lo ou buscar explicações causais.
Para
sermos um ser humano digno, precisamos de saúde mental, respeito,
afeto e paz.
Se
começarmos a refletir deste agora, algo mudará em nós!
|
Marina
S. Rodrigues Almeida: Psicóloga,
Pedagoga e Psicopedagoga marina@iron.com.br
Bibliografia:
COSTA,
Jurandir Freire. Psicanálise, ciência e cultura. Rio de Janeiro:
Ed. Zahar, 1994.
____________ Narcisismo em Tempos Sombrios . in BIRMAN, Joel (org.)
“Percursos na história da psicanálise”. Rio de Janeiro:
Taurus Ed., 1988.
LEVISKY,
David Léo (org.) . Adolescência e Violência: ações
comunitárias na prevenção. São Paulo: Ed. Casa do psicólogo,
2001.
WINNICOTT,
Donald W. Natureza Humana. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1990
____________Textos
Selecionados da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro:
Livraria Francisco
Alves, 1994.
____________
Tudo Começa em casa. São Paulo: Ed. Martins fontes, 1995.
BIRMAN,
J .Mal Estar da Atualidade. Rio de Janeiro: Ed.Civilização
Brasileira, 1998.
DUPAS,
G. Economia Global e Exclusão social. |
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O
PARADIGMA ESTÉTICO E A PSICOLOGIA: RESSONÂNCIAS
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Vilene
Moehlecke |
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Resumo: Como bailarina e psicóloga, problematizo o “Fazer Psi”,
traçando ressonâncias entre Paradigma Estético e Psicologia.
Procuro mapear movimentos teóricos e práticos, cartografando
experiências e falando de auto-implicação. Deleuze
e Guattari discorrem sobre a existência como obra de Arte, criações
ético-estéticas, constituintes de modos de existência ou
estilos de vida. É o que Nietzsche descobria como a operação
artista da vontade de potência, a invenção de novas
"possibilidades de vida". Proust fala do tempo
redescoberto que há na Arte, como possibilidade de transmutação.
Do mesmo modo, discuto a "Psicologia Estética",
apostando em sua plasticidade e diversidade, o que nos propicia
diferentes formas de intervir. Simulando ensaios, lanço-me
ao proibido! E que nos seja permitido cair, para que o novo possa
surgir daí.
Palavras-Chave:
Psicologia Estética, Plasticidade, Ensaio, Intervenção, Arte,
Vontade de Potência, Ética, Tempo Redescoberto.
Abstract: As a dancer and a psychologist, I intend to
discuss about the “Work in Psychology”, looking for
ressonances between Art and Psychology. I’m trying to identify
theories and practices, talking about experiences and self
understanding. Deleuze and Guattari
argument about the life as an art criation, the new existences
development or life styles. Nietzsche compare that with the eager
of power. Proust talk about the time in discovering who existis on
the art, like a new possibility of transmutation. Thinking like
that, I discuss the “Estetic Psychology”, beliving in her
difference and flexibility: it bring us different ways of working.
Training, we must try special things! And it may allow us to fall,
in order to create something new in phychology.
Key Words: Estetic Psychology, Plasticity, Training,
Work, Art, Eager of Power, Ética, Time in discovering.
Vilene Moehlecke: Psicóloga e Bailarina
Ensaiando uma entrada
No início da formação acadêmica, minha concepção sobre
"Psi" era de uma personagem séria, correta, neutra, com
lugares muito definidos. Paralelo a isso, minha inserção na Arte
já era uma paixão antiga – dança e teatro. De um lado, estava
a personagem séria da "Psi", do outro, a Arte, com todo
o seu fervor. Mais do que isso: minha impressão era de que, em
algum momento, eu teria que optar. Ou partiria para os territórios
definidos do fazer "Psi", ou me lançaria nas
intensidades da Arte. Entretanto, a personagem “Séria Psi”
foi se transformando: ao invés do traçado definido, permitir-se
mais maleável, andarilha, polimorfa; em lugar de neutralidade,
implicar-se no processo e nas intervenções. A partir daí, fui
compondo um “fazer” no “entre”: Psicologia e Arte. Em
nossos estágios, usamos diversos dispositivos artísticos para
intervir. Isso possibilitou um fazer mais híbrido, mais
envolvente, instigante, novo...
A
Arte me fascina através de sua porosidade, seu criar incessante,
sua efervescência. Ela é impossível de existir, sem que haja
paixão, envolvimento, coragem, subversão, graça, simplicidade,
sofrimento. Também podemos falar de uma Psicologia que produz
calor, sensibilidade, invenção, vida. Psicologia e Arte: caos,
rompimento, criação,
absurdo. O homem contemporâneo, segundo Nietzsche (1995), é
extremamente racional - um culto da linguagem verbal, uma procura
por verdades.Um homem contido em seus ressentimentos, naquilo que
quisera ter feito e não o fez, no que gostaria de ter sido e não
o foi. Subjetividades repleta de reminiscências... Em meio a
isso, Arte e
Psicologia podem propiciar subversões, já que rompem com a razão
e a moral vigentes, permitindo-nos chegar ao plano das
intensidades. Possibilita-se, então, um pensar fora das leis e
das certezas, abrindo espaços para os momentos imprevisíveis,
para o inusitado. Assim, uma intervenção Ético-Estética
parece-me interessante para lidarmos com os desafios de nossa
contemporaneidade.
A Arte - Um valor de criação
Na
primeira fase de sua obra, Nietzsche faz a oposição entre Arte e
conhecimento racional. A ciência, vista como um "valor
superior", uma "verdade absoluta",
um "ideal" a ser alcançado, procura instituir
uma dicotomia de valores entre a verdade e o erro. A Arte Trágica,
por sua vez, é apontada como um modelo alternativo para a
racionalidade. Portanto, a posição de Nietzsche, firmada no
primeiro momento de sua obra, era a seguinte: a Arte é mais
importante do que a ciência; a única relação possível entre o
homem e o mundo é a estética. Buscando viver com alguma segurança,
o homem se esquece de que é sujeito da criação artística. Ao
invés de lançar-se nas intensidades da Arte, o homem busca
conhecer o seu mundo, na tentativa de poder explicá-lo. O propósito
de "O Nascimento da Tragédia" era justamente examinar a
ciência a partir da ótica do artista e a Arte, a partir da ótica
da vida. Nesse sentido, Nietzsche (1992) salienta a idéia de
metafísica do artista. Ou seja, o mundo só se justificaria como
fenômeno estético. O artista estaria por trás de todo o
acontecer, completamente inconsiderado e amoral, desejando
construir e descontruir. O mundo visto como a eterna possibilidade
do criar, do vir a ser. O mundo, como sendo eterna nova visão do
ser mais sofredor, mais antitético, mais contraditório, que só
na aparência, na Arte, sabe redimir-se. A metafísica de artista
é uma concepção de que apenas a Arte possibilita uma experiência
da vida plena, como sendo no fundo das coisas indestrutivelmente
poderosa e alegre.
Entretanto,
Nietzsche(1992) questiona o que ele mesmo havia dito. Assim, a
metafísica do artista poderia ser considerada arbitrária e fantástica.
O essencial, contudo, é que ela denuncia uma possibilidade que
vai contra a interpretação e a significação morais da existência.
Denuncia-se, pois, um pessimismo que vai além do bem e do mal.
Abre-se uma visão que desmistifica a moral e a verdade vigentes.
Se, por um lado, a metafísica da Arte pode assumir essa postura
de subversão da ordem, o que a tornaria, então, arbitrária e
fantástica? Talvez, quando, inicialmente, Nietzsche a coloca como
única possibilidade de subversão. Porém, no momento em que o
autor a vê como uma
possibilidade de, uma
alternativa, então, nesse caso, já não se corre o risco de
cair em radicalidades.
Traçando
um paralelo à Psicologia Estética, também esta se propõe a
abrir espaços à alteridade, não tendo nenhuma pretensão de
buscar a verdade ou a moral. Trata-se de mapeamentos,
cartografias, interpretações de movimentos em cada intervenção
"Psi". O PsicoArte – intervenção realizada no meu
curso de Psicologia - busca
conexões entre Psicologia e Arte. Esta surge como dispositivo.
Tal ‘fazer’ foge às regras, criando possibilidades outras de
subversão, mais sutis, raras, arteiras. Assim, procura-se
trabalhar com a auto-gestão e auto-análise do grupo que intervém.
Busca-se uma ação diferente:
intervir
nos próprios alunos de Psicologia. Criamos um fazer extremamente
singular em cada uma de suas nuances. Muitas foram as conquistas
através dessa intervenção. Por múltiplas formas, produzimos
desassossegos. Seja em quaisquer umas das intervenções -
Oficinas, Esquetes, Sarau - rompemos com uma imagem cristalizada,
de um psicólogo individual, neutro, envolto em seu saber solitário.
Procuramos, então, um fazer envolvente, um pensar e construir em
equipe, longe das utopias de neutralidade. Uma "Psi" que
se afeta, possibilitando usinas de criação, questionando seu próprio
fazer. Quebramos a imagem da psicanálise intacta, compacta, dona
de uma verdade, indo em direção a uma prática nova, híbrida,
cheia de possibilidades, em movimentos de transmutação. Saímos
da imagem do "Psi médico" para um "Psi
Arteiro...” Rompemos, também, com a imagem do estudante de
Psicologia puramente racional e técnico. E não se trata de negar
o racional, mas sim de poder incorporar a ele aspectos do plano
intensivo. Abrimos espaços para o estudante artista, no sentido
de se envolver em seu fazer, de sentir, sim, por que não?
Vivenciamos um estudante que quer inventar, compor. Não se trata
de abandonar os livros e o computador, mas de acrescentar o
teatro, a dança, a poesia, o choro, o riso, a lágrima, a
sensibilidade, o afetamento, o humano.
Nietzsche (1995) problematiza a questão da Arte. Que importância
tem ela para a vida? Que relação poderia manter com a força e a
fraqueza? No que implica a Arte trágica? Para ir a fundo em tais
questões, ele faz uma reflexão sobre a Grécia arcaica, já que,
em tal civilização, há uma sensibilidade exacerbada para o
sofrimento e uma extraordinária sensibilidade artística. O grego
é capaz de grande sofrimento, extrema sensibilidade e
significativa vulnerabilidade à dor. A Arte e a Filosofia podem
ser meios de afirmação da vida que cresce, mas isso pressupõe
sofrimento. Há os que sofrem de abundância de vida, que querem
uma Arte dionisíaca e uma visão e compreensão trágica da vida.
Há, também, os que sofrem de empobrecimento de vida, procurando
repouso, quietude, mar liso. Contra a dor, o sofrimento, a morte,
diviniza-se a vida criando a beleza. Dessa forma, os gregos criam
os deuses olímpicos para tornar a vida possível ou desejável. A
criação da Arte apolínea reflete uma necessidade de sobreviver
em um mundo tão hostil. A Arte apolínea é a Arte da beleza. Se
os deuses olímpicos não são necessariamente bons ou
verdadeiros, eles são belos.Nietzsche (1992) nos fala sobre a
imagem divina de Apolo, com sua tranqüilidade, beleza, exuberância,
dignas da divindade da luz. Através da Arte apolínea, os gregos
produzem outras formas de lidar com seus mundos. Trata-se de uma
beleza necessária, pois não significa apenas ocultar o
sofrimento, encobri-lo, mas uma libertação, a libertação da
dor pela aparência, pela beleza, intensificando as forças de
vida.
Há,
também, outro instinto estético: o dionisíaco. O indivíduo caía
no esquecimento de si e perdia completamente a memória dos
preceitos apolíneos. A desmesura, a contradição e a volúpia
nascida da dor se expressavam de forma intensa. A Arte dionisíaca,
em sua embriaguez, expressava todo o seu sofrimento e sua dor. A
experiência dionisíaca assinala um sentimento místico de
unidade, ao invés de individualidade. Ao invés de autoconsciência,
ocorre uma desintegração do eu. Em vez de calma, tranqüilidade,
surge um êxtase, um enfeitiçamento, uma extravagância. Em vez
de sonho, visão onírica, é embriaguez, experiência orgiástica.
Há, também, um pesar, um desgosto pela existência, o sentimento
de que tudo é absurdo e impossível, que aparece com a volta ao
estado de consciência. Ao invés de escravidão ao sistema, o
estado dionisíaco significa homem
livre, rompimento das barreiras rígidas e hostis
estabelecidas pela sociedade ou pela 'moda':
Apesar
das diferenças entre Apolo e Dionísio, ocorre a integração. Mérito
este da Arte. Dessa forma, a Arte dionisíaca, a Arte trágica é
um jogo com a embriaguez, sem a perda da lucidez. Ou seja, não se
trata de alternância embriaguez - lucidez, mas, sim, de
simultaneidade, em que se encontra o estado estético apolínio-dionisíaco.
A Arte trágica, união entre aparência e essência, possibilita
uma experiência trágica da essência do mundo. Isso é
estabelecido através de uma integração: o apolíneo e o dionisíaco.
Essa
valorização dos instintos sobre a consciência é a afirmação
de que a perspectiva da vida é fundamentalmente a perspectiva dos
instintos, de um sistema hierarquizado de forças em relação.
Mais do que isso: fala-se de um perspectivismo do conhecimento,
que nega o caráter objetivo e neutro do conhecer. Conhecer, pois,
não seria explicar, e sim, interpretar. Sendo assim, não há,
pois, uma única interpretação possível e legítima.Não há
uma verdade universal. Portanto, se não há uma única interpretação,
se o conhecimento é perspectivo e as perspectivas são variadas,
ao conhecimento não cabe atingir
uma verdade. Critica-se, pois, a visão positivista, objetiva e
neutra da ciência e do conhecimento. O perspectivismo de
Nietzsche vai ao encontro de um fazer em Psicologia que não é
neutro, mas se implica no processo, buscando espaços ao plano
intensivo da diferença. Um fazer que não se limita ao plano
racional, mas que busca a produção de novos sentidos às
intensidades inconscientes. Um fazer para além do bem e do mal:
havendo espaço para afetos, desejos, paixões, vontade. Na base
do conhecimento, se encontra a perspectiva da vida definida como
vontade de potência. Falar de um conhecimento perspectivo seria,
então, falar de um saber que permite o interpretar, o compor,
juntamente ao sentir, ao vir a ser. Falamos, pois, de um saber e
um fazer plástico, híbrido, múltiplo, que supõe criação.
Isso não seria uma possibilidade de um saber estético aliado a
um saber racional? Ou, uma tentativa de produzir um conhecimento
aliado às sensações de quem o constrói? Referimo-nos a
alternativas, e não a uma única saída. Afinal, estamos falando
de perspectivas...
Os
Signos Da Arte – Impressões
Proust
(1994) revela um modo de pensar a Arte enquanto fluxo, abrangendo
impressões, percepções e sensações. Ele explicita diferentes
signos, a matéria que os constitui, seus efeitos, sua
multiplicidade, suas relações com o sentido e com as formas
temporais nele implicadas: salienta o tempo enquanto redescoberta,
mas não de um tempo passado, e sim do tempo puro, original. Os
signos seriam variadas formas de mundos, com suas peculiaridades,
seus modos, suas relações com diferentes temporalidades. Eles se
organizam em círculos e se cruzam em certos pontos, formando
unidade e pluralidade ao mesmo tempo: signos mundanos, signos do
amor, signos das impressões e signos da Arte. Os signos mundanos
seriam os signos vazios, estereotipados. Eles substituem ação
ou pensamento. O aprendizado seria imperfeito e até mesmo impossível
se não passasse por eles, pois adquire uma perfeição ritual, um
formalismo, que é necessário no convívio social. Por outro
lado, são os signos da futilidade e da mesmice. Através deles,
somos facilmente "adaptados ao sistema". Os signos do
amor, por sua vez, exprimem a intensidade dos afetos, o pluralismo
das almas e dos mundos contidos em cada ser amado. Não são
signos vazios como os mundanos, mas são mentirosos. Ou seja, não
podem dirigir-se a nós senão escondendo o que exprimem, isto é,
a origem dos mundos desconhecidos, das ações e dos pensamentos
desconhecidos que lhes dão sentido. Tais signos trazem o
sofrimento. Os terceiros signos falam das impressões ou das
qualidades sensíveis. Trata-se de signos verídicos, que
imediatamente nos dão uma sensação de alegria incomum. Após
essa alegria inicial, passamos a uma fase de sentimento de obrigação,
com o intuito de procurar sentidos no signo. E, finalmente,
sentidos podem surgir daí. Por fim, Proust discorre sobre os
signos da Arte. Estes seriam imateriais.
Os outros signos, por sua vez, são materiais.
Os signos da Arte se conectariam às essências. O mundo revelado
da Arte reage com todos os outros signos, principalmente com os
signos sensíveis. Mais do que isso: o plano estético integra o
plano intensivo, dando-lhes o colorido de um sentido estético e
penetrando no que eles tinham ainda de opaco. Isso significa dizer
que, através da Arte, pode-se dar um espaço expressivo para o
plano das intensidades, o plano da diferença.
Proust traz, também,
outra questão: o tempo perdido e o tempo redescoberto. O tempo
perdido não é apenas o tempo que passa, mas o tempo que se
perde. E isso significa dizer que não é um tempo enquanto criação
e invenção, mas um tempo que passa, sem maiores produções. Já
o tempo redescoberto caracteriza-se por um tempo que redescobrimos
no âmago do tempo perdido e que nos revela a imagem da
eternidade. É, também, um tempo original e absoluto. E essa
eternidade pode se afirmar na obra de Arte. Seria o tempo enquanto
criação, enquanto produtor de diferença. A cada signo
corresponderia uma temporalidade específica.
Embora
cada signo tenha relação com um tempo em particular, isso não
ocorre de forma separada. Ou seja, na realidade, os tempos e os
signos se intercruzam, compondo variadas dimensões de tempo e
sentido. O tempo que se perde prolonga-se no amor e mesmo nos
signos sensíveis. O tempo perdido dos signos mundanos também
pode surgir nos signos sensíveis. O tempo que se redescobre reage
sobre o tempo que se perde e sobre o tempo perdido. Finalmente, é
no tempo absoluto da obra de Arte que todas as outras dimensões
se unem. Deleuze e Guattari (1992) argumentam que a memória
intervém pouco na Arte. Não se comemora um passado, mas um bloco
de sensações presentes que só devem a si mesmas sua própria
conservação.Tais autores dizem que a fabulação criadora nada
tem a ver com uma lembrança, mesmo ampliada, nem com um fantasma.
O artista excede os estados perceptivos e as passagens afetivas do
vivido. É um vidente, alguém que se torna. Da mesma forma,
pode-se ficar preso a uma subjetividade que se faz de memórias e
reminiscências, que seria o "sujeito-escravo" de
Nietzsche (1994). Um modo de subjetivação que está sempre
"remoendo" o que não se fez, o que não se teve, o que
não se conquistou. Por outro lado, pode-se compor formas de existência
que vão para além da memória e das reminiscências,
aproximando-se das formas de criação presentes na Arte. Isso
seria o sujeito-nobre de Nietzsche (1994), o tempo redescoberto do
qual Proust nos fala. Essa diferença proustiana seria algo da
ordem qualitativa da maneira pela qual encaramos o mundo,
da mesma forma como Nietzsche nos fala da possibilidade da Arte trágica,
como um prazer no desconstruir, como um criar incessante, com
sofrimento e gozo, caos e estética, nas intensidades das sensações.
A diferença, sem Arte, sem Psicologia, talvez seria o
eterno segredo de cada um de nós.
O tempo
redescoberto, enquanto criação, rompe com o tempo que passa,
perdido, sem sentido, contido em reminiscências, como nos diz
Nietzsche. Dessa forma, é preciso "esquecer" para
criar. O esquecimento que Nietzsche nos fala tem relação com o
que Proust argumenta do tempo redescoberto, no sentido de
possibilitar o vir a ser, rompendo com a ruminação, criando
outros percursos. Psicologia e Arte surgem como possibilidades
desse tempo que se redescobre.
Na Arte, fala-se em
"ensaios", e não em treinos. Este último implicaria
uma repetição mecânica, buscando atingir um objetivo pré-definido.
Em esportes, treina-se com o intuito de vencer o jogo. Ao ensaio,
por sua vez, cabe a repetição que busca a diferença. O ensaio
permite invenção, possibilidade de transmutar o que se repete. Não
há uma objetividade da ação, algo se repete e, ao mesmo tempo,
de forma diferente. Isso seria o paradoxo entre diferença e
repetição na Arte e no fazer "Psi". Numa intervenção
em Psicologia, algo pode se repetir em relação a outras, mas,
cada fazer é singular. Dessa forma, estamos constantemente
"ensaiando" em nosso modo de intervir "Psi".
Estamos constantemente "intervindo" e "sendo
intervidos"...
O Paradigma Estético
Na Psicologia - Ensaiar É Preciso
Guattari (1996)
discorre sobre o “novo paradigma estético” em nossa
contemporaneidade, colocando-o numa posição privilegiada dentro
dos agenciamentos coletivos de enunciação de nossa época. Para
ele, o termo mais adequado seria o "Paradigma proto-estético",
visto que não se pretende falar de uma Arte Institucionalizada.
Isto é, não se tem o intuito de discorrer sobre as obras artísticas
enquanto tal, mas sim sobre uma dimensão da criação em seu
estado nascente, potência que tem a capacidade de emergir às
aleatoriedades das intenções de materializar universos
imateriais. Ou seja, trata-se de agenciar modos de virtualização,
dar espaços à diferença. Isso vem ao encontro do que Nietzsche
e também Proust discorrem sobre a possibilidade da via estética
dar formas de criação e expressão às multiplicidades.
Nesse sentido,
Psicologia e Arte podem ter ressonâncias. A Psicologia estética
advém da tentativa de potencializar a diferença, o devir.
Trata-se de um intervir que vai se compondo e recompondo,
inventando formas de ação micropolíticas, no sentido de
subverter as linhas duras de existência. Esse fazer vai sendo
construído aos poucos, pelas bordas, visto que precisamos de
ensaios para irmos compondo novos territórios: uma "Psi"
que possibilite espaços à mutação, a formas de existência
jamais vistas, jamais pensadas. Ou seja, esse espaço a novos
sentidos, existente na Arte, pode estar presente numa determinada
concepção de pensar e agir "Psi". Procurando, pois,
escapar às modelizações adaptativas, engendrando-se nas mutações
de nossa época, a psicanálise procura abrir seu campo de
sentimento e de ação, buscando maior plasticidade em seu fazer.
Através de maior maleabilidade, nossas ações "Psi"
podem ser capazes de transformações políticas do desejo em
nossa contemporaneidade. Como diria Nietzsche, um fazer para além
do bem e do mal.
A questão do
privilégio dado à palavra, por exemplo, não está só no campo
da análise, mas acaba ocorrendo em muitas práticas "Psi".
O que se discute, aqui, não é a abolição da palavra. Afinal,
somos seres humanos e, portanto, falamos. Entretanto, esse não é
o único modo de comunicação, de produção de subjetividade.
Precisamos estar abertos a outros jeitos de existência, além da
verbal. Nietzsche já nos disse que o homem contemporâneo produz
em excesso uma subjetividade extremamente racional, dando importância
em demasia às palavras, restando poucos espaços a outras vias de
expressão. Proust, por sua vez, argumenta que os signos da Arte
seriam primordiais e estariam regidos por impressões, sensações,
fluxos intensos. A Psicologia Estética procura acessar não
somente o plano racional, mas também o plano intensivo, das sensações,
dos fluxos, das impressões, do desejo, do corpo. Isso explicaria
por que se pretende uma intervenção polimorfa, múltipla,
variada. Portanto, o novo paradigma estético tem implicações ético-políticas,
no momento em que a criação remete à responsabilidade da instância
criadora com respeito ao criado. Possibilitar, pois, uma expressão
de alteridade é, também, transformar as linhas de desejo no
campo social.
Poderíamos pensar
nas linhas de desejo das quais Rolnik (1989) nos fala. A primeira
seria a dos afetos, do desassossego, das intensidades. A segunda
linha seria a dos ensaios, experimentações, tentativas. Já a
terceira seria a dos territórios. Na Arte, muitos podem ser os
afetos agenciados. Falar de perda de território é entrar na
questão da intensidade de algo que é, ao mesmo tempo, dor e
plenitude - um processo que pode ser potencializante. Quando nos
propomos a realizar uma intervenção em Psicologia que saia de um
fazer mais tradicional, standard,
somos tomados por inúmeras dúvidas, incertezas, não sabendo
muitas vezes ao certo onde está o "lugar da psi".
Rolnik (1989)
questiona o que fazer, então, com o afetamento. Explicita-se, então,
a segunda linha de vida, que seria o campo da experimentação,
dos ensaios.Trata-se de um vaivém incessante, inconsciente e
ilimitado, que nos possibilita inventar outras formas de ser. O
ensaio não é repetir, mas criar, ir a fundo no campo das
intensidades. Possibilitar a expressão dos afetos, ainda que a
expressão seja diferente do afeto em si, pode potencializar um
engendramento de novas formas. Isso tem relação com o que Proust
nos fala da diferença e da repetição, sendo estas a potência
da essência. Isto é, através delas, ensaia-se novas
possibilidades, novos sentidos.
Da mesma forma, Nietzsche argumenta sobre a Arte trágica
como possibilidade de ensaiar a união entre aparência e essência,
dando espaços à diferença, ao devir.
A terceira linha
seria a dos territórios. Trata-se de uma linha finita e limitada.
Uma segmentação dura, com territórios bem discriminados e
formas definidas. Rolnik (1989) nos fala que apenas essa poderia
ser considerada uma linha, pois é a única visível e mais estável.
As outras seriam fluxos intensos, que se movimentam
incessantemente.
Assim, a formação
do desejo no campo social se dá através do exercício ativo
dessas três linhas. Entretanto, isso não ocorreria de forma
linear. Elas podem ser emaranhadas, imanentes umas às outras. Por
exemplo, podemos estar na linha de um território e, de repente,
perdê-la, ficando totalmente desterritorializados.Em nossa
contemporaneidade, o que acaba ocorrendo freqüentemente é um
salto da primeira linha à terceira: do plano dos afetos pula-se
diretamente aos territórios. Onde ficaria a simulação, o
ensaio? Nesse caso, podemos nos sentir num 'abismo', 'no vácuo',
'oco de sentidos', como nos diria Fernando Pessoa (1980). O homem
contemporâneo parece não se permitir lançar-se aos ensaios, às
incertezas, à imprevisibilidade da existência. Ele quer apenas
contar com o certo, com o previsível, com o já demarcado. A
linha dos ensaios permitiria exatamente esse pensar fora das leis
e das certezas, abrindo espaços ao inusitado, às tentativas de
produzir diferença.
Proponho pensar uma
Psicologia que abre espaços ao plano da simulação. Guattari
(1996) fala de uma Psicologia mutante. É preciso, pois, ensaiar,
experimentar, até que algo novo se constitui. Podemos traçar um
paralelo quando assistimos a ensaios de um movimento artístico e
saímos com a impressão de que "cada ensaio foi igual ao
anterior, mas, ao mesmo tempo, diferente." Entretanto, não
se trata de um fazer de qualquer jeito, como se não fossêmos
levar em conta nenhuma concepção teórica, caindo em "achismos".
Há concepções teóricas que vão sustentar o fazer, mas a
intervenção vai para além do teórico, ensaiando novos passos,
de acordo com cada realidade.
Retomo o PsicoArte
– intervenção feita em estágio. Dentro deste, nós criamos
uma peça teatral que problematizava a própria Psicologia. Nosso
grupo estava envolvido nesse fazer, que ia se compondo nos
variados momentos em que foi sendo apresentada. Em cada intervenção,
a peça nascia e morria. Num outro momento que a apresentássemos,
ela já seria outra, já falaria de outras formas, sobre outras
coisas. O grupo também já seria outro. Nas primeiras apresentações,
os movimentos eram mais rígidos, cada um sabia o caminho a
seguir, com o roteiro muito bem ensaiado e pré-estabelecido. Aos
poucos, entretanto, fomos discutindo e percebendo que a peça
poderia ser mole, Arteira, no sentido de estar em constante mutação.
Sendo assim, as apresentações seguintes passaram a ser mais flexíveis,
os movimentos mais soltos, imprevisíveis até. O que percebemos,
daí, é que nossa intervenção passava de um
"endurecimento" anterior, para uma possibilidade de criação
perante o inusitado. Além disso, passamos a interagir mais um com
o outro, diferentemente do início, quando cada um 'dava a sua
fala', de forma desconectada. As sensações que se engendravam na
equipe eram intensas. O grupo intervinha ao mesmo tempo em que era
intervindo. Seguidamente, surgiam discussões: era uma intervenção
"Psi", ou simplesmente teatro? Onde ficaria o lugar da
Psicologia? O que realmente produzíamos? Dessa forma, partir para
uma ação não estereotipada, quase inédita, não é tarefa fácil,
já que difere do que se aprende e do que se espera de 'estagiários
de Psicologia'. Guattari (1996) argumenta sobre uma política de
ética de singularidade, que possa romper com consensos, com
'seguranças infantis' provenientes da subjetividade dominante. Os
dogmatismos serviriam apenas para bloquear os pontos de
criacionismo que buscam sentido onde aparentemente não há
sentido, nas manifestações de curto-circuito entre a
complexidade e o caos.
Foucault in
Deleuze (1992) discorre sobre a existência como obra de Arte,
regras que são éticas e estéticas, constituintes de modos de
existência ou estilos de vida. É o que Nietzsche (1992)
descobria como a operação artista da vontade de potência, a
invenção de novas "possibilidades de vida". Proust nos
fala do tempo redescoberto que há na Arte, como possibilidade de
transmutação. Do mesmo modo, penso numa "Psicologia estética",
no sentido de descobrir outras existências, outras formas de
intervir, outros sentidos para o que se estuda e
discute.Entretanto, seria a Arte sempre produtora de diferença?
Ou, de outro modo, há a possibilidade de ela também ser
capturada em nossa época? Quais seriam os rumos desta numa era
homogeneizante? E a Psicologia? Como tem se produzido em nosso
contexto social?
Nietzsche apud
Marton (1983), no início de sua obra, já fazia críticas às
instituições teatrais da Europa. De um lado, havia os
espectadores, demandando somente prazer e diversão. De outro, os
artistas, pretensiosos e preconceituosos. Além disso, aos empresários
restava uma preocupação única com lucros. A cultura
encontrava-se subjugada pelas exigências do momento, pelos
caprichos da moda, pelos ditames da opinião pública.Portanto, a
Arte havia se tornado mercadoria de luxo à disponibilidade de uma
sociedade de luxo. As salas eram freqüentadas por tolos e fúteis,
que nunca se preocupavam com o povo, ou com questões sociais. O
que havia de mais puro na Arte havia sido esquecido: seus mitos,
melodias e danças. Esse conjunto de fatores compunham a atmosfera
morna e nociva dos meios artísticos.
De certa maneira,
isso ainda ocorre. O acesso à Arte continua sendo mercadoria de
luxo. A uma minoria restrita fica a possibilidade de freqüentar
um teatro, cinema, ou atelier. Quem pode se dar ao luxo de freqüentar
aulas de dança, poesia ou Artes plásticas? Isso nos diz o quanto
a Arte acaba sendo possibilidade de uma minoria. Por outro lado, e
a Psicologia? Muitas vezes, também esta se torna artigo de luxo.
Quem pode se "beneficiar" de tal intervenção? Também
não se trata de uma maioria.
Apesar das
dificuldades, encontramos possíveis subversões. Isso significa
dizer que, tanto na Arte como na Psicologia, procura-se encontrar
formas desses paradigmas não ficarem restritos a um número
reduzido de formas de atuação. Se pensarmos na Arte, existem os
artistas de rua, o teatro de rua, os programas de ensino
vinculados com algum tipo de ensino-aprendizagem ligados à Arte.
Em relação à Psicologia, também podemos buscar intervenções
que não se produzam apenas na elite, mas em todas as esferas
sociais. Pensamos, então, nos programas vinculados com
prefeituras e universidades, visando um estudo e um fazer que
envolva os membros da comunidade.
Apesar dos esforços nesse sentido, tudo ainda se dá de
forma reduzida, havendo, pois, a necessidade de se aumentar as
possibilidades de produção em Arte e/ou em Psicologia.
Além disso,
discute-se a questão das capturas no campo da Arte e da "Psi".
Seria a Arte sempre ponto de mutação, de ruptura, ou ela também
está sujeita a capturas em nossa sociedade capitalística? Poderíamos
pensar, pois, que é difícil de se entrar na discussão do que
seria realmente Arte, ou, de outra forma,
o que seria mera reprodução de subjetividades já
capturadas pelo sistema.
Concebemos, então,
a possibilidade de diferentes graus de intensidade produzidos numa
obra de Arte. Há produções, por exemplo, que mais parecem imitações,
que se tornam muito iguais a outras formas já vigentes. Existem
criações artísticas que parecem estar longe de um processo de
criação, caindo na mesmice e na futilidade de nosso contexto
atual. É como se estas nada dissessem, nada subvertessem. Assim
também podemos encontrar fazeres em Psicologia que nada
transformam, indo apenas ao encontro dos interesses do sistema,
sendo completamente capturados pelas formas vigentes e morais.
Há, porém, as
rupturas: um processo artístico que realmente crie, rompa com
padrões, num ato micropolítico de transformação. Podemos
pensar numa Psicologia que também se propõe micropolítica. Uma
intervenção "Psi" que procura abrir espaços às
intensidades, possibilitando formas de atualização às
virtualidades:mutação de valores e existências já envelhecidas
e enrijecidas pelas formas de captura de nossa contemporaneidade.
É a isso que a "Psicologia estética" se propõe!
Simulando Uma Saída
“É esse o vírus que eu sugiro que você contraia: na procura
pela cura da loucura”,
Quem tiver cabeça dura vai morrer na praia". (DJAVAN/
GABRIEL 'O PENSADOR', 1998)
Assim, precisamos
pensar e discutir sobre um fazer em Psicologia mais ético-estético,
abrindo mão do 'politicamente correto', dos cientificismos e
tecnicismos, 'para não morrer na praia': não procurar por
'curas', mas sim, por possibilidades de se potencializar a diferença.
Optar por uma Psicologia não pronta, híbrida, porosa, fala também
de uma forma própria de acreditar na transmutação do mundo e
das coisas, de preferir lidar com o inusitado, embora sabendo 'na
pele' o quão complicado isso possa ser. Acreditar na
multiplicidade da Psicologia significa acreditar na multiplicidade
do mundo, das formas de existência, na plasticidade da saúde, na
vida trágica. Sair de um dualismo: "Psi" ou
"Arte", optando por um fazer em Psicologia plástico.
Isso foi um processo que me demandou muitos e muitos ensaios, que
ainda me demanda e que continuará em movimento.
Para além de uma
leitura das dicotomias, fui construindo vários sentidos que
passaram a percorrer meu 'mar' de sensações e
conhecimentos.Entre incontáveis simulações, pude ir descobrindo
que a dualidade das coisas não passa de uma ilusão de nossa
contemporaneidade, de nossa cultura. Ao invés de optar entre o
certo e o errado, entre o correto do profisssional ou o avesso da
Arte, fui descobrindo uma forma de compor no "entre". Em
vez de "ruminar o tempo perdido", procurar a
potencialidade que pode haver no tempo redescoberto, no tempo da
criação de Proust. Ao invés de procurar "regras",
buscar a "ética".
Estudar e viver
Psicologia como uma Arte, sentindo as intensidades frenéticas no
corpo, nas dobras que vão se compondo. Não deixar que o tempo
passe, sem sentido, mas produzi-lo como criação, vivendo o trágico
de cada intervenção, cada forma de existência. Portanto,
lancemo-nos ao intempestivo de uma "Psi' Artística.
Arrisquemo-nos em problematizar uma intervenção que produza
momentos de incubação de novas línguas, de novos modelos de
subjetivação. A prática da "Psi" é, também, uma prática
política, podendo possibilitar realidades sociais diferentes.
Como simular saídas? Difícil de responder. Precisamos, pois,
pensar nas múltiplas respostas que pode haver, questionando
conhecimentos e formas de intervenções. Simulando ensaios,
lancemo-nos ao proibido! E que nos seja permitido cair, para que o
novo possa surgir daí...
"A QUEDA
Da minha idéia do mundo
Caí ...
Vácuo além de profundo,
Sem ter Eu nem Ali ...
Vácuo em si-próprio, caos
De ser pensado como ser...
Escada absoluta sem degraus...
Visão
que não se pode ver..." (PESSOA,
1980, p.80 |
Vilene
Moehlecke:
Osvaldo Aranha, 110 B.Centro. CEP 93010-040. São Leopoldo/RS
Fone: 14 -5924405 E-mail: vicarte7@hotmail.com
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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-- & GUATTARI, Félix, O que é a Filosofia? Rio de
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FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro:
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GUATTARI, Félix. O Novo Paradigma Estético. In:
SCHNITMAN, Dora Fried. Novos
Paradigmas, Cultura e Subjetividade.
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MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade. São Paulo: Paz e
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NAFFAH NETO, Alfredo. O Inconsciente como Potência Subversiva.
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São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
PELBART,
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do Fora Ao Fora da Clausura - Loucura e Desrazão.
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PESSOA, Fernando. O Eu profundo e os outros Eus. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
PROUST, Marcel. Nas Trilhas da Crítica. São Paulo: Imaginário,
1994.
ROLNIK, Sueli. Cartografia Sentimental: transformações políticas
do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 1989.
--
Cidadania e alteridade: o psicólogo, o homem da ética e a
reinvenção da democracia. Fala proferida da mesa redonda
"Cidadania e Alteridade", no IV Encontro Regional de
Psicologia Social da ABRAPSO, em 30/05/92, na PUC, São Paulo. |
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CRIANÇAS
EM TEMPO DE VIOLÊNCIA
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Rita
Trevisan
Pablo Assolini
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Pesquisa comandada pela psicóloga e pedagoga Luana Carramillo
Going revelou que as crianças com cerca de dez anos punem
qualquer transgressão de maneira muito dolorosa, como se fazia na
época Medieval. A experiência feita em salas de aula, com alunos
na faixa de 9 a 14 anos, trouxe resultados surpreendentes. O
estudo revelou, ainda, que as crianças mais velhas analisavam o
problema dentro de uma concepção arraigada aos direitos humanos.
Mas afinal, de onde
vem tanta violência? Essa pergunta, tão atual em nossos dias,
foi que levou a também professora da Universidade Metodista de São
Paulo a defender uma tese sobre como as crianças punem. Os
resultados diferentes para cada faixa etária, ela explica: “A
violência é natural do ser humano mas com o tempo, ele tende a
adquirir uma consciência moral, o que acaba barrando esses
instintos”. Segundo a psicóloga, o que acontece é que muitas
crianças não evoluem desta fase medieval de punição severa
para uma fase de consciência de autonomia maior, de consciência
abstrata, justamente porque não conhecem os conceitos morais
capazes de embasar esta autonomia.
Mas como se constrói
essa consciência moral que garantiria uma sociedade mais harmônica?
Esse é um estudo complexo ao qual Luana continuará se dedicando
no laboratório de ciências da cognição – LACIC, vinculado ao
Núcleo de Estudos de Psicologia Aplicada – NEPAP – da
Universidade Metodista de São Paulo. Ela acredita que essa
construção moral deve ser trabalhada na escola, na família, em
todos os âmbitos sociais: os conceitos de respeito mútuo e
cooperação, os limites individuais dentro dos interesses do
grupo. Para Luana, se esses conceitos fossem melhor trabalhados,
as relações na sociedade seriam mais fáceis.
Luana
apresentou seu doutorado no dia 3 de maio na USP. Ela é
professora do curso de psicologia e pedagogia na Universidade
Metodista e autora do livro “Contos para Escrever-se”, no qual
descreve experiências de alfabetização a partir da literatura
dos contos de fada. Luana formou-se em psicologia em 1975 e em
pedagogia, em 1981. Especializou-se em psicopedagogia e em grupos
operativos em Buenos Aires. Apresentou mestrado na Metodista
defendendo a tese que deu origem a seu primeiro livro acima
citado.
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Rita Trevisan: e-mail:
ritatrevisan@uol.com.br
Pablo Assolini: e-mail:
pabloassolini@hotmail.com
Este
trabalho foi desenvolvido na disciplina de Assessoria de Comunicação
Integrada do curso de Jornalismo da Universidade Metodista de São
Paulo. |
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