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Há
muitas dúvidas, mistérios
e superstições envolvidas nas experiências e emoções
vividas pela mãe gestante na formação da personalidade da criança.
Nossos avós intuitivamente já
percebiam e reconheciam as influências em relação ao
estado de ansiedade materna e o medo sobre o bebê.
Durante
certo período da história humana, valorizou-se muito tudo aquilo
que podia ser concreto (visto,tocado, verificado) o que livrou a
Medicina de superstições, instituindo-se um modelo científico
de investigação dos fenômenos humanos. Por outro lado, esse
cientificismo, por estar aprisionado ao sensorial, fez-se
acompanhar de uma suspeita irracional de tudo o que não pudesse
ser medido, pesado, verificado a luz da ciência empírica. Nesse
mundo racional, os
sentimentos e as emoções eram vistos como algo enganoso, místico,
religioso, ou nas mais favoráveis considerações como uma visão
poética ou romântica.
Com
as descobertas de Freud por volta do início do século XX,
trouxeram novas concepções sobre os fenômenos humanos
imprecisos e invisíveis , através do estudo dos sonhos, dos atos
falhos, das emoções (estudo sobre a histeria) e da sexualidade.
Acreditavam
que o feto e a criança recém-nascida, até 2 ou 3 anos, não
experimentavam emoções, consideravam que a personalidade não
tinha se desenvolvido o suficiente
para algum tipo de relação com o mundo. Freud demonstrou que
esta observação não tinha mais sentido, mesmo porque tanto os
bebês como as crianças não só sentiam o que acontecia em a sua
volta, mas tinham uma sexualidade latente. Demonstrou também que
as emoções afetavam a saúde física, o que fez surgir à noção
de doenças psicossomáticas.
Nos
anos 60, com o advento das tecnologias em obstetrícia, foi possível
estudar o bebê no útero, e tornou-se incontestável a evidencia
fisiológica de que o feto ouve, tem sensações, faz experimentações,
reage ao estresse, defende-se, tem medo, sente-se vivo. Portanto o
bebê é um ser emocional, intelectual e fisicamente mais
capacitado do que imaginávamos.
AS
DESCOBERTAS DO DESENVOLVIMENTO DO PSIQUISMO PRÉ E PERI NATAL
Com
os estudos sobre psiquismo Pré e Peri-Natal, e as confirmações
dos estudos psicanalíticos de Bion, Melanie Klein e outros
autores contemporâneos, verificamos o surpreendente mundo uterino
que o bebê esta inserido:
No
início do 2o. mês há um repertório de ações
reflexas. No final desse mês, o feto movimenta a cabeça, os braços
e o tronco representando uma forma de linguagem primitiva,
demonstrando o que lhe da prazer e o que lhe é desagradável,
seus gestos são através de
sacudidelas e pontapés. Se por exemplo beliscarmos a
barriga da mãe, o bebê se torce numa atitude de protesto.
Aparece o primeiro órgão do sentido, o olfato, consegue perceber
aromas e reage a eles, posteriormente ao nascer reconhecerá o
“cheirinho” da mãe.
A
partir do 4o. mês surgem as expressões faciais, o
feto pode franzir sobrancelhas, olhar de lado, fazer careta,
passar a mão nos olhos ou na boca e sugar.
Tudo
isto alternado com momentos de repouso, sono e movimentos motores.
No
5o. ao 7o. mês ele é sensível ao toque.
Se sua cabeça é tocada no exame de ultra-sonografia, ele move
rapidamente. Reage também a água fria, visto que a temperatura
no útero é mantida sempre por volta de 36O..
Durante
esse período desenvolve
sua habilidade gustativa, prova sabores diferentes do líquido
amniótico,que muda dependendo da ingestão alimentar da mãe. Se
injetarmos sacarina ao líquido amniótico, o feto dobra sua cota
de ingestão, mas se colocamos
óleo lipidol (de gosto desagradável), ele faz caretas e ingere
menos.
No
6o. mês, ele ouve o tempo todo, mesmo porque o abdome
grávido e útero são
muito barulhentos. Os sons audíveis
que vem de fora do útero materno, como o tom da
voz da mãe, pai, são percebidos
mais para graves do que agudos pela proteção das camadas
da placenta e pele. Desenvolvem neste período uma capacidade
adaptativa a lugares barulhentos, experiências realizadas com bebês
que estavam sendo gerados próximos a aeroportos, ao nascerem seu
sono continuava sendo tranqüilo; bebês expostos a estes lugares
estranhavam e choram, não conseguiam dormir. Mas o som que
predomina o mundo do bebê é dos batimentos cardíacos, o ritmo
dos batimentos cardíacos da mãe é regular, a criança conhece e
lhe transmite um sentimento de segurança.
Basta
observar um bebê recém-nascido que para se acalmar ou dormir
basta coloca-lo no peito do lado do coração materno, ou
confortado no colo pelo batimento de um relógio.
Descobriram
também preferências musicais, como os gustativos. Há um
interesse por musicas de Mozart e Vivaldi,e um desagrado em relação
a Brahms, Beethoven ou rock.
A
capacidade visual desenvolve lentamente, embora o ventre não seja
totalmente escuro, mas não é um lugar para se praticar a visão.
Isto não significa que ele não veja, já no 4o. mês
o feto é sensível a luz, sendo capaz de distinguir um banho de
sol que a mãe esteja exposta e um foco de luz agressivamente
dirigido ao ventre materno, reagindo de forma sobressaltada.
Portanto
o recém nascido demora mais para adaptar sua visão no mundo
externo, pelo fato de ter passado 9 meses sem ter podido praticar
de forma mais intensa.
A
evolução das reações do bebê, desde os movimentos globais do
corpo até respostas sofisticadas, nos leva a concluir que seu
aprendizado é através dos sentidos. A formação da
personalidade requer mais, necessita um mínimo de consciência,
ou melhor, uma mente, um aparelho psíquico, ainda que rudimentar
(em psicanálise chamamos de rudimentos de ego), que o capacite a
entender os sentimentos e pensamentos da mãe, e não somente
apenas capta-los pelo sensorial.
As
pesquisas indicam que por volta do 7o. e 8o.
mês de gestação, esses rudimentos começariam a existir no
feto, quando os circuitos neuronais estariam prontos e o córtex
cerebral já amadureceu o suficiente para suportar
uma mente, um psiquismo,
sendo o que é mais característico de um ser humano, o que
o distinguirá dos demais animais, a capacidade de pensar, sentir
e lembrar.
No
7o. mês, por exemplo, testes de ondas cerebrais captam
um determinado ritmo característico do estado de sonho. Ele
poderia sonhar com seus pés, suas mãos, com os barulhos,
ou quem sabe com o sonho da mãe, de modo que o sonho da mãe
fosse o seu sonho. A capacidade de lembrar, a memória (mais
difícil de ser determinada e ser pesquisada, mas alguns
psicanalistas encontram indícios disto em
pacientes em psicoterapia) surgiria aproximadamente entre o
6o. e 8o. mês.
A
EXISTÊNCIA DE UM ESTADO PRIMITIVO DE CONSCIÊNCIA DE MUNDO
Admitimos
as sensações e a existência de
um estado primitivo de consciência,
um psiquismo rudimentar já esteja presente, a discussão
surge quando consideramos como um bebê no útero, poderia sentir
ou perceber os pensamentos e sentimentos maternos, e quais
os mecanismos envolvidos? Como o bebê conseguiria
decodificar as mensagens maternas de
“amor”, “ódio”, “conforto”, “desconforto”,
quando ele ainda não saberia o significado desses sentimentos?
Descobertas
em 1925, notaram que o medo e a ansiedade poderiam ser induzidos numa pessoa através
da injeção de catecolaminas, substancias que estimulam o sistema
nervoso autônomo, levando o organismo da pessoa a um estado de
alarme. No caso do feto, essas mesmas substâncias são produzidas
naturalmente pelo organismo materno, quando ela está perturbada
ou está em alguma situação de tensão. Estas substâncias
atravessam a placenta e atingem o bebê, produzindo nele reações
de medo e ansiedade. Porém até aqui explicaríamos do ponto de
vista de uma reação puramente fisiológica, os efeitos dos hormônios
maternos sobre o feto e não sobre a mente. Consideramos isto como
um processo, ao qual essas substâncias começam a estimular um
primitivo estado de consciência de si mesmo e a percepção do
estado emocional. Neste ciclo de cada onda de hormônio lançado
sobre o bebê, o tiraria de
um estado de ‘vazio’, e passaria para uma receptividade.
Progressivamente o bebê poderia se perguntar o que está
acontecendo, e assim começaria um primitivo estado de
consciência de si mesmo. Paulatinamente, a medida que o
sistema nervoso amadurece, o bebê vai começando a encontrar
respostas não só para o aspecto físico dos estados e
sentimentos maternos, mas do ponto de vista emocional.
Enfim,
a descrição acima seria uma concepção sustentada numa base
neurofisiológica, que evoluiria para fisiológico ao emocional.
Outra
questão que poderíamos pensar seria a respeito da intensidade e
freqüência de estresse que
a mãe gestante estaria exposta
e suas conseqüências no feto. Pesquisas que estudaram gestantes
em períodos de guerra, demonstraram que o aumento da produção
de hormônios em extrema ansiedade determina um aumento da
suscetibilidade biológica do bebê ao sofrimento emocional. Também
descobriram que as mulheres se tornam mais propensas a engravidar,
como uma defesa emocional em favor a vida. Portanto há evidências
de fatores físicos e emocionais entrelaçados. O bebê estaria
emocionalmente mais sensível porque o funcionamento de seu corpo
seria significativamente alterado no útero pelo fluxo excessivo
de neuro-hormônios maternos. Contudo, não impedirá o seu
crescimento e desenvolvimento, mas poderão ocorrer dificuldades
causadas biologicamente por essas experiências pré-natais. Há
possibilidades de alterações fisiológicas produzirem
dificuldades psicológicas, sendo assim processos fisiológicos
afetando a estruturação da personalidade.
Devemos
atentar que mãe e filho, cada um possui seu cérebro e sistema
nervoso autônomos, mas possuem inter-relações neuro-hormonais
que é provavelmente o meio de comunicação emocional entre mãe
e bebê.
O
mais importante é verificarmos
como está a relação de amor da mãe com seu bebê, a freqüência,
a intensidade e qualidade
de impactos causados por perturbações de estresse, poderão ser
minimizados com o escudo afetivo da relação materno-filial. É
importante também considerar o relacionamento do casal e os
conflitos decorrentes durante a gravidez. A gravidez é um momento
para ser vivido a três: pai, mãe e bebê.
O
que precisamos considerar é que o ventre materno é o primeiro
mundo humano, e como irá
experimenta-lo se amistoso ou hostil, poderá contribuir
para as determinações do caráter e da personalidade futura da
criança.
AS
EMOÇÕES MATERNAS
Agora
vamos levar em consideração as emoções, os sentimentos da mãe
e não somente descargas hormonais. Sentimentos como amor, rejeição,
etc... podem marcar a vida do bebê. As emoções não envolvem
somente sensações, mas a capacidade de dar um sentido a elas, o
que se torna possível por volta do 6o. e 7o.
mês, quando o feto começa
a desenvolver uma consciência de si mesmo, chamamos de ego pré-natal.
O
ego é o produto daquilo que nós, como indivíduos, pensamos e
sentimos sobre nós mesmo: nossas forças, impulsos, desejos,
vulnerabilidade, insegurança, tudo isso
formando o “eu”. A medida que o bebê
se desenvolve e é capaz de sentir e lembrar, ou seja , ser
marcado pela experiência, seu ego está se formando e ao longo
deste desenvolvimento vai sendo capaz de decodificar as mensagens
maternas.
As
emoções desagradáveis da mãe, como raiva, ansiedade, depressão,
etc.. dentro de certos limites, contribuem para o desenvolvimento
do bebê porque perturbam seu isolamento, propiciando uma consciência
de si mesmo. As mudanças emocionais exigem do bebê uma reação, o força a criar mecanismos de defesas contribuindo para a
percepção de si mesmo.
O
NASCIMENTO
A
experiência do nascimento é considerada de grande importância,
não só para os pais, mas incrivelmente para o bebê, pois
influenciará sua personalidade. A maneira como o bebê nasce: com
suavidade, sofrimento,
suave, fácil, violento, etc...tem implicações de como será e
verá o mundo.
O
nascimento é momento de separação, de mudança de estado, ele
sai do mundo aquático para o aéreo, é o primeiro choque físico
e emocional que a criança é submetida. Durante o parto, o bebê
experimenta momentos de grande prazer sensual, seu corpo é
massageado pelos músculos e líquidos maternos, alternados com
muita dor e medo. Há alternância
entre prazer e dor, é uma espécie de precursor da sexualidade
adulta.
Curiosamente
não nos lembramos do próprio nascimento, há uma amnésia
posterior em relação ao fato. Recentes estudos demonstraram que
a ocitocina (principal hormônio feminino que induz as contrações
uterinas e a lactação) produz amnésia em animais de laboratório.
Talvez possamos atribuir este mesmo efeito nos seres humanos.
Freud atribui o esquecimento das pessoas em relação a
sexualidade infantil e aos primeiros anos de vida, a repressão
dos impulsos sexuais.
Chamamos
muitas vezes equivocadamente de “trauma do nascimento”, porém
Winnicott, nos adverte para a “extrema variabilidade de graus em
que o episódio do nascimento será traumático para o bebê”
como também para
“sua capacidade ou incapacidade de lidar com as grandes
mudanças que ocorrem naquele momento”. O mesmo autor
ressalta que é o próprio bebê quem provoca o nascimento,
em função de sua própria vitalidade e de já estar pronto para
a mudança. Ele já está apto para respirar, sendo o bebê um
participante ativo do próprio nascimento.
É
importante considerar todas as variáveis que possam estar no
interjogo do nascimento, condições da gravidez, tipo de parto,
atendimento médico, aspectos psicológicos da mãe,
etc... para não cairmos em
conclusões inadequadas ou idealismos morais.
Destacamos
a importância de um parto normal, porém são inegáveis as
vantagens da tecnologia em obstetrícia
e seu uso é absolutamente necessário, mas que sejam
usados com limitação
e sabedoria.
O
estado emocional da gestante ao longo da gravidez é muito
determinante no momento do parto tanto quanto a sua saúde física:
as emoções que foram sendo despertadas durante os meses da
gravidez, as expectativas em relação ao bebê, expectativa em
relação ao sexo do bebê, condições de saúde, relacionamento
da própria mãe e avó
da criança, seus conflitos, ansiedades, medos, preocupações
habituais, etc...tudo deve ser considerado com atenção e
cuidado.
O
MOMENTO DO PARTO E OS CUIDADOS POSTERIORES
Uma
prática inadequada que ainda persiste nos meios médicos ao
realizarem um parto, apesar de toda gama de informação, é o
momento da separação mãe-bebê após o nascimento. A maneira
como muitos bebês são introduzidos ao mundo: luzes desagradáveis,
excesso de barulho, pessoas estranhas em torno, frieza e uso
desnecessário de intervenções tecnológicas, separação
abrupta da mãe e bebê, sendo levados para o berçário em meio
muitas vezes de outras crianças chorando e gritando que
também estão assustadas.
Sabemos
com propriedade que mãe e bebê precisam estar juntos neste
momento tão delicado e emocionante de suas vidas, necessitam
serem acariciados,
aconchegados, confortados, olhar e ouvir um ao outro e ir se
conhecendo.
A
ausência de contato humano significativo nessa hora crítica
poderá prejudicar o bebê, afetando seus sentimentos em relação
a mãe, ao pai, e a outros futuros relacionamentos sociais.
DESENVOLVIMENTO
EMOCIONAL DO BEBÊ
Ao
nascer o bebê se movimenta no sentido de alcançar algo, em algum
lugar, embora não saiba o quê. Em função de sua própria
vitalidade e tensão instintiva este comportamento aparece.
Temos
então de um lado um bebê com crescente tensão instintiva, e de
outro lado uma mãe biologicamente orientada para atender o bebê.
Ocorre então a primeira mamada. Se a primeira mamada for satisfatória
, se estabelece um contato e um padrão das mamadas a partir dessa
experiência. Se as primeiras mamadas forem muito tensas e
carregadas de conflitos, medos etc.., poderá ocorrer um padrão
duradouro de insegurança no relacionamento entre a dupla mãe-bebê.
Geralmente aparecem: a dificuldade
do bebê sugar o seio, baixa produção de leite, rachaduras no
mamilo, o bebê chora muito, etc. É necessário destacar que
o aleitamento não é um mero fornecimento de alimento, mas
se trata de relação vincular afetiva entre ambos, mesmo se for
preciso utilizar uma mamadeira (nos casos atuais de mães com HIV
positivo, são impedidas de amamentar seus bebês).
O
contato inicial de uma mãe e seu bebê pode ser visto como uma
brincadeira, um jogo, onde um precisa conhecer o outro, mas que de
certa forma já possuem uma familiaridade. É claro que o bebê
precisa do leite materno, mas nem sempre é isto que ele quer e
também não é só o leite que a mãe tem a oferecer. Às vezes
a dupla precisa
somente de uma
brincadeira com o seio, um aconchego, um carinho, uma troca de
olhar, uma manipulação
do corpo, sentir o calor, o cheiro e batimento cardíaco da mãe!
Ao
nascer o bebê tem contato com o ar, com a gravidade,
mas o primeiro contato significativo é com a mãe, com o
seio, mais particularmente com o mamilo, um contato ativo,
excitado.
Winnicott,
refere-se a esse momento como sendo um estado criativo. O bebê
cria o seio, ou melhor, a mãe permite que ele tenha a ilusão de
que ele cria o seio. Evidentemente, o bebê não cria o seio que a
mãe oferece, mas a mãe por uma adaptação delicada às
necessidades do bebê permite este estado, que chamamos de onipotência
consentida temporária.
Desta
maneira estamos nos
referindo de como a
“realidade” é apresentada a uma criança, de como se inicia o
estabelecimento de um senso de realidade. Não é através de uma
imposição, de uma insistência da mãe ou de qualquer
pessoa, mas da importância da Ilusão de criar algo ou
alguma coisa. Posteriormente nasce uma área intermediária
(objetos transicionais) são vitalmente importantes para o bebê
na hora de dormir, por exemplo, o apego a uma fralda, a um ursinho
de pelúcia, etc. Estes objetos transicionais
são usados como uma defesa
contra a ansiedade, especialmente do tipo depressivo , e se
este estado de transição não lhe for permitido podemos
encontrar perturbações no desenvolvimento emocional.
Com
o tempo, esses objetos são descartados e jogados
fora , simplesmente porque perdem o significado e isso se
deve ao fato de que os fenômenos transicionais
se difundiram entre a realidade psíquica interna e
o mundo externo real como percebido por duas pessoas, o que
chamamos de campo cultural: o brincar, a criatividade e a
apreciação de obras de artísticas, o sentimento religioso, o
viver imaginativo, o trabalho científico criador e mesmo pequenas
loucuras e idiossincrasias toleradas em adultos.
A
Desilusão e a
perda de onipotência, vem gradativamente através do desmame,
quando o bebê vai
descobrindo que tem alguém que está permitindo e cuidando disto
para ele, a mãe aos poucos irá
proporcionado seu crescimento emocional, que aparece através
do início da criação
de símbolos e sua utilização.
Quando
a mãe falha nesta segunda fase da função materna, o bebê acaba
não podendo conseguir o controle das coisas boas que estão
acontecendo. Sobram para a criança duas alternativas: permanece
num estado permanente de regressão e ficará
fundido com a mãe ou encenará uma total rejeição a ela.
A falha ambiental aqui, pode causar patologias, ou distúrbios
anti-sociais. A tendência anti-social é um sintoma que surge
naqueles que sofreram severas privações e ficaram despreparados,
passando a necessitar desesperadamente de cuidados e sentirem-se
incluídos, mas fazem o possível para destruir qualquer forma de
oportunidade saudável quando encontram.
O
desmame não é só o término da alimentação ao seio, mas a
tarefa de aceitação da realidade que nunca é completada de um
modo absoluto, e o alívio dessa tensão é propiciada pela área
intermediária, que facilitará a discriminação
entre fatos e fantasias.
É
através das frustrações da mãe
( algum atraso das mamadas, disposição da mãe,
atendimento não tão imediato) que o bebê vai perdendo esse
controle mágico de desejar o seio (ou a mãe)
e ele(a) aparecer “criado” imediatamente.
Winnicott
se refere ao cuidado de maternagem como sendo de uma mãe
suficientemente boa, portanto nem tão boa nem tão má, nem muito
mesmo perfeita, mas disponível o suficiente para ter
flexibilidade ao atendimento das necessidades do bebê. Portanto
nesse período a mãe também precisa ser cuidada e precisará do
marido e da família para poder se dedicar inteiramente ao seu bebê.
No
decorrer do desenvolvimento o bebê
vai sentindo confiança em que o objeto do desejo (o seio)
pode ser encontrado e isso significa que o bebê gradualmente
passa a tolerar a ausência do objeto, e dessa forma se inicia a
concepção da realidade externa, um lugar de onde os objetos
aparecem e desaparecem.
QUANTO
AS COISAS NÃO SAEM TÃO BEM
Em
termos concretos, quando um bebê falha em estabelecer um genuíno
contato com a realidade externa não necessariamente morre, mas
também pode morrer ou pode desenvolver um quadro de doença
mental muito grave, ao qual chamamos de esquizofrenia.
Pela
persistência dos que cuidam do bebê, ele é seduzido a
alimentar-se a viver, ainda
que a base para esse viver não seja muito consistente ou esteja
mesmo ausente. A falha nesse ponto exacerba em vez de curar a cisão
(separação, divisão da personalidade) na pessoa do bebê.
Assim,
o desenvolvimento da criança em vez de ter um
relacionamento com a realidade externa atenuado pela
utilização da onipotência temporária e ilusória auxiliada
pela mãe, desenvolve-se dois tipos diferentes de relações
objetais (relacionamento com as pessoas e com o mundo). O
equilíbrio psíquico fica separado um do outro, daquilo
que ele realmente é, o seu “verdadeiro
self” (a vida privada,
na qual os relacionamentos têm por base a sua capacidade de
criar), daquilo que ele realmente aparenta ser pelo controle
maciço do mundo externo, chamamos de “falso self” (se
desenvolve sobre uma base de submissão e se relaciona com as exigências
da realidade externa de forma passiva). Por exemplo, o bebê pode mamar de modo inteiramente passivo,
submetendo-se apenas a realidade externa e ao desejo da mãe ao
alimentá-lo., mas não estabelece vínculo afetivo.
Eventualmente
o verdadeiro “self” pode ser observado apenas quando o bebê
recusa o alimento. No caso da submissão, o bebê permanece vivo e
as pessoas satisfeitas, mas o falso “self” se organiza
com a intenção de manter o mundo à distância, enquanto
um outro e mais verdadeiro “self” se mantém escondido dos
observadores, e portanto, protegido.
Estamos
falando do desenvolvimento emocional primitivo, ou seja, o que
acontece com o bebê antes dele conhecer a si mesmo e ao outros
como pessoas totais.
Melanie
Klein estabeleceu dois estados mentais que irão variar ao longo
da vida mental do ser humano, chamou de posição esquizoparanóide
– objetos parciais (um estado mental aonde o mundo é
sentido em partes que podem atacar, perseguir, ferir, sufocar,
envenenar, etc..) e posição
depressiva - objetos totais (um estado
mental aonde o mundo pode ser sentido em sua totalidade,
como menos assustador, mais amoroso, há presença de culpa com
possibilidades de reparação, etc...).
Nos
primeiros meses após o nascimento
o bebê por volta do 1o. ao 5o. mês
imerso num estado esquizoparanóide (o mundo e as pessoas – mãe,
pai, quem cuida, são
sentidos como partes do bebê). Ao alcançar aproximadamente o 5o.
ao 6o. mês em diante, isto pode variar de caso para
caso, o bebê já pode perceber a mãe como um todo, e os demais
elementos ao redor dele. Por exemplo: consegue perceber que a
mãe que cuida dele é a mesma que o frustra, que a mãe é
diferente do pai, e que ele é um terceiro na relação....
Portanto
começa a perceber que têm coisas no seu interior e coisas vindas
de fora, incorpora (física e psiquicamente) o que pode, e
livra-se de alguma coisa quando já conseguiu tirar dela o que
queria. Quando um ser humano sente que é uma pessoa que se
relaciona com outras, ele já andou um longo caminho no seu
desenvolvimento primitivo.
A
tendência do bebê a se integrar (a não se sentir em “pedaços”)
seria ajudada por dois conjuntos de experiências: de um lado o
cuidado infantil, a existência de uma mãe suficientemente boa
que o ajude a juntar os “pedaços” (manter a temperatura,
manipulação delicada, banho, nomeá-lo, etc...) fazendo se
sentir uma pessoa inteira; por outro lado a colaboração das próprias
experiências pulsionais agudas do bebê, que tendem a tornar a
personalidade inteira, una, a partir do seu interior.
Gradualmente
rostos vistos, sons ouvidos, cheiros sentidos são reunidos em um
ser total, a ser
chamado mãe.
O
outro processo importante é o da personalização, o
desenvolvimento do sentimento de que se está dentro do próprio
corpo. Aqui são importantes as experiências pulsionais do bebê
e as repetidas e tranqüilas experiências de cuidado corporal que
propiciam a construção de uma personalidade satisfatória.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
A
saúde mental do ser humano é estabelecida pela mãe durante o
cuidado com o bebê. Freud diz que o bebê só existe porque
existe a mãe. O desenvolvimento psíquico tem início dentro de
um determinado ambiente que , se tudo corre bem, atinge um estágio
no processo de desenvolvimento ao qual o individuo passa
gradualmente da dependência para a independência, que nunca é
absoluta.
A
configuração de um ser humano se estabelece antes dele existir e
está sujeito à subjetividade paterna e materna, aquilo que
esperam para aquele bebê “sonhado”.
A
história do sujeito criança tem início
muito antes de seu nascimento. Ela está inserida num mito
familiar determinante que o constituirá como sujeito. Este
discurso é dirigido não para ele, mas para o personagem que ele
viverá na cena familiar. A criança tem um lugar no inconsciente
materno, enquanto objeto de desejo, muito antes dela própria
existir.
A
partir do momento em que a mulher sabe que está grávida, esta
relação mãe-bebê se acentua com a instauração de uma relação
imaginária na qual o bebê não é apenas um embrião em
desenvolvimento no corpo materno, mas um corpo completo em
desenvolvimento. É a primeira inserção no imaginário materno
enquanto corpo sexuado e
autônomo.
A
mãe adequada, é aquela que tem a capacidade de exercer uma função
materna, gerando um bebê independente, em condição de realizar
seus próprios desejos, vai possibilitar a essa criança um lugar
de ser. Começa a se relacionar não com o feto, mas com um ser.
Para essa mãe, o bebê passa a ter nome,
projeto, lugar, presença na vida mental dos familiares.
Este
ser humano estará completamente inserido na cultura: é um ser
antes de nascer! |