Pilar caminha pelos Pirineus
     por Paulo Coelho
      Seu amigo lhe conta uma história
- Você conhece o exercício do Outro? Ele faz parte de uma história escrita há cem anos, cujo autor...
- Esqueça o autor, e me conte a história -pede, enquanto andam pela única praça de Saint-Savin.
- Um sujeito está em um bar com o seu grupo, quando entra um velho amigo que vivia tentando acertar
   na vida, sem resultado.
   "Vou ter que dar uns trocados para ele", pensa.
   Acontece que, naquela noite, o tal amigo está rico e veio expressamente para pagar todas as dívidas
   que havia contraído no decorrer dos anos.
   Além de reembolsar os empréstimos que lhe foram feitos, ele manda servir uma rodada de bebida para
   todos. Quando lhe indagam a razão de tanto êxito, responde que até dias atrás estava vivendo o
   Outro.
- O que é o Outro? -perguntam.
- O Outro é aquele que me ensinaram a ser, mas que não sou eu. O Outro acredita que a obrigação do
   homem é passar a vida inteira pensando em como ter segurança para não morrer de fome quando ficar
   velho. Tanto faz planos, que só descobre que está vivo quando seus dias estão quase terminando.
- E você, quem é?
- Eu sou o que qualquer um de nós é, se assim desejar: uma pessoa que se deslumbra diante do mistério
  da vida. Só que o Outro, com medo de decepcionar-se, não me deixava agir.
- Mas existe sofrimento -dizem as pessoas no bar.
- Ninguém escapa do sofrimento. Por isso, é melhor perder alguns combates na luta por seus sonhos
  que ser derrotado sem sequer saber por que você está lutando.
  "Quando descobri isso, acordei decidido a ser o que realmente sempre desejei. O Outro ficou ali, no
   meu quarto, me olhando. No começo, não aceitou sua condição e vivia insistindo para voltar a
   possuir minha alma. Mas eu não o deixei mais entrar -embora tenha procurado me assustar algumas
   vezes, me alertando para os riscos de não pensar no futuro. A partir do momento em que expulsei o
   Outro da minha vida, a energia divina operou seus milagres."
     Seu amigo lhe fala de um filósofo
 
  Quando estão tomando café no único bar de Saint-Savin, seu amigo lhe pergunta se conhece o filósofo
   Bozorgmehr. Pilar acena negativamente com a cabeça.
- É um velho místico iraniano e costumava dizer:
  "Eu já estive diante de muitos inimigos, mas nenhum deles foi mais difícil de derrotar do que o inimigo que
   carrego  dentro de mim."
  "Já lutei com muitos rivais, mas os piores foram aqueles que se diziam meus amigos."
  "Já comi muitas coisas deliciosas, e já me apaixonei muito, mas a melhor coisa que me aconteceu foi ter uma
   saúde boa."
  "Já fui atacado e ferido muitas vezes, mas os ferimentos mais dolorosos vieram da boca de pessoas que
   considerava nobres."
  "Fiquei muito contente porque a vida me permitiu estar ao lado de reis, que me deram presentes generosos; mas
   fiquei mais contente ainda porque a vida me permitiu afastar-me deles sem deixar mágoas, e então pude
   usufruir os meus dias da maneira que escolhi."


REVISTA DE SAÚDE MENTAL
Nº42

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DIRETOR ADMINISTRATIVO
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CONSULTOR EDITORIAL
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COLABORADORES PERMANENTES
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JORNALISTA RESPONSÁVEL
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CAPAS E ILUSTRAÇÕES
Eduardo Robillard de Marigny
COLABORADORES
Sérgio Perazzo,
Ida Maria Mello Schivitz, 
Sérgio
Gomes,  Armando Correa de Siqueira Neto, Maria Beatriz Ribolla Marise Vale Girão

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ENTREVISTA COM O AUTOR:   Croemas
HOJE:       Homens Infames
ABORDAGENS:     Ensaio Homoerótico
PONTO DE VISTA:   Art Brincar
ESTADO DE ALERTA: O Olhar Psicopedagógico
ALTERNATIVOS:  Esperar o Fazer Acontecer
ACONTECE:   Qual é a Erva?
AGENDA
PLANO DE VIVÊNCIA
Editorial


    Sergio Perazzo

     

CROEMAS

 Catharsis: O que levou você, um psicodramatista conhecido e autor de vários livros de psicodrama, a escrever um livro de poesias?

 Sergio Perazzo:  Na verdade escrevo poesias desde criança. Sempre me acostumei também a  responder, até hoje, todas as cartas que já recebi. Com certeza é o meu talento mais antigo. A minha primeira publicação aconteceu na revista da escola onde eu estudava, no Rio de Janeiro, aos 12 anos de idade. Era uma poesia toda rebuscada e cheia de ordens indiretas, metrificada em versos alexandrinos. É muito divertido reler o que escrevi naquela ocasião, o que me enche de ternura pela época e por mim mesmo. Depois disso, minha adolescência foi pautada por uma inflação de versos arrebatados, lamentosos e apaixonados que, infelizmente, um arroubo de censura juvenil me fez lançá-los na lata de lixo. Não guardei nenhum, o que acho uma pena ou, quem sabe, o leitor foi sabiamente poupado de “narcisos brancos” ou “dálias amarelecidas”, coisas no gênero. Muito mais tarde, em 1972, já formado médico e em trasição da gastrenterologia para a psiquiatria e nos meus primeiros contatos com o psicodrama, voltei a escrever poesias sobre temas do cotidiano. Escrevia para mim mesmo sem mostrar para ninguém até que um grande amigo meu, o Ismail Xavier, professor da ECA(Escola de Comunicações e Artes da USP) e, atualmente, um dos mais respeitados teóricos de cinema e autor de vários livros, me flagrou escrevendo e me deu uma tremenda bronca, quase me obrigando a mostrar a minha poesia para os amigos. Não parei mais de escrever, sempre de vez em quando, sempre nas horas vagas,mas escrevendo. Este exercício acabou me ajudando muito na construção e elaboração dos meus livros e artigos de psicodrama que fui escrevendo ao longo de todos estes anos. Um belo dia, em 1998,acho, resolvi participar, pela primeira vez, de um concurso de poesias promovido pela Associação Paulista de Medicina e acabei ganhando um prêmio com minha poesia “Quês”. Na semana seguinte fui convidado a integrar o quadro de associados da SOBRAMES(Sociedade Brasileira de Médicos Escritores),que eu nem sabia que existia, e ao qual pertenço até hoje. A SOBRAMES, aliás, é um capítulo à parte. Vocês imaginam que nos dias de hoje, numa cidade como São Paulo, existam pessoas que se reúnem uma vez por mês numa pizzaria(“Pizza Literária”, como chamamos) para lerem suas poesias, contos e crônicas? Pois bem, isto existe. Além disso é editado um jornalzinho mensal que publica nossos trabalhos e um livro, uma antologia anual, com toda esta produção literária.Com tudo isso, no fim do ano passado, reuni as minhas poesias destes últimos 30 anos e constatei que tinha um livro pronto de 400 páginas. Foi só publicar. Não tive a intenção, enquanto escrevia, de publicar um livro, simplesmente, um dia, descobri que tinha um, prontinho da silva. É essa a história.

 Catharsis: Por que o nome “Croemas”?   

 Sergio Perazzo:  No início do livro eu explico “esse versejar cotidiano, não sei se crônica ou poema”. Isso acabou dando uma confusão danada. Acabou ficando engraçado. Há quem interprete tratar-se de um livro de crônicas e de poemas. Há quem já me disse que fui injusto comigo mesmo porque é um belo livro de poesias e que a idéia de crônicas diminui o valor da obra, que o título por isso é ruim,etc. Confesso que fiquei surpreso com as diversas reações, já que,para mim, tudo era tão claro. Não tenho nenhuma dúvida que escrevi um livro apenas de poesias. Mas como eu gosto de poetar sobre os temas do dia –a –dia, como um sapato, um ponto de ônibus, um domingo,etc, fiz uma brincadeira com o nome do livro. Não que eu não saiba que se trata de poesia, é claro, mas o que estou querendo dizer é que a poesia está sempre presente nas coisas mais simples. É só querer ver. Isto tudo acaba refletindo uma coisa que,nós, psicodramatistas já estamos carecas de saber, que é a questão da co-criação. Ou seja, toda obra,toda produção humana, uma vez escapada da mão do autor ela é recriada pelo outro. E é isto que eu estou constatando na prática. Minha poesia não mais me pertence, cada um é capaz de recriá-la à sua própria imagem e semelhança. Uma outra coisa me fez juntar, no nome, crônicas e poemas. Sempre adorei poetas e cronistas. Nos anos 50 eu já devorava as crônicas de Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Henrique Pongetti, publicadas na revista “Manchete”(pasmem!) e ouvia no rádio o Paulo Autran no programa “Quadrante” ler, interpretando com a sua emoção, as crônicas diárias destes mesmos autores (exceto o Pongetti) e mais de Carlos Drummond de Andrade,  Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Dinah Silveira de Queirós. Melhor que Big Brother, não acham?

 Catharsis: Como você organizou o livro?

 Sergio Perazzo:  Em ordem cronológica. Num primeiro momento pensei em selecionar apenas as que considero as melhores. Mas depois, pensando bem, resolvi não recair no erro da adolescência e publiquei tudo. A razão é simples. São pedaços de mim. O livro é um presente meu para os amigos. Para as pessoas que amo. Que seja,então, como eu realmente sou. Minha emoção está de fato ali. Da forma bruta. E não me arrependi. O retorno das pessoas queridas tem sido incrível. Outro dia, uma amiga me recebeu declamando uma poesia minha que ela adorou e decorou e era uma daquelas que eu quase não inclui no livro e da qual quase não me lembrava. Um outro grande amigo meu do Rio de Janeiro ficou meio estupidificado. Ele sempre adorou poesias e não tinha a mínima idéia que eu era capaz de escrevê-las. Me cobra isso toda semana por e-mail cada vez que tem tempo de ler mais uma das minhas. Anteontem recebi uma carta de uma menina estudante do primeiro grau, de Jaboti, Paraná, linda, comovente, me pedindo o livro. Não tenho a menor idéia de como sua professora, que lhe recomendou o livro, ficou sabendo da publicação. Sempre tive muito prazer em escrever meus livros e artigos de psicodrama, mas é inegável que este livro de poesias me deu e tem dado uma satisfação triplicada.

 Catharsis: Como é ser poeta?

 Sergio Perazzo: Todos nós temos um artista dentro do coração. Somos o cantor que canta no chuveiro. O dançarino dos musicais da Metro diante do espelho quando ninguém está olhando. O grande chef quando enfeitamos a salada. O grande bardo quando fazemos uma declaração de amor. É só deixar sair. É só se permitir ver assim. Para mim a grande doença do mundo é a doença da sensibilidade humana. Se a cada um fosse permitido desde criança expressar a sua arte, seja qual for, todos nós teríamos outros olhos para os outros num mundo de muito mais amor e menos violência e miséria. A consciência social é fruto direto do afinamento da nossa sensibilidade humana. Todos somos poetas. Quem sabe, um dia, o programa de todas as escolas do universo possam priorizar a poesia, a música, o teatro, a dança que brotam de cada uma das crianças que constroem e que amarram a esperança de mundo? Isto é compartilhar o ser poeta.

 Sergio Perazzo – Psiquiatra Psicodramatista autor de vários livros
  Serzzo@terra.com.br
 Croemas – Poesias
 O livro pode ser adquirido na Livraria e Loja Virtual Asabeça  www.asabeca.com.br



   
     Ida Maria Mello Schivitz

HOMENS INFAMES

ESTUPRADORES, ABUSADORES E PEDOFÍLICOS

                            “Só me interessa o quê não é meu
   Lei do homem.
                                 Lei do antropófago”
               Oswald de Andrade, 1928

     INTRODUÇÃO

Tem chamado especial atenção para estudo, considerando o lado da defesa do gênero feminino, os homens condenados e presos por crimes contra os costumes,  Título VI, do “Código Penal Brasileiro”.

Constata-se, que em geral eles não representam quantidade expressiva de presos. Inclusive na “Primeira Delegacia Penitenciária” do Rio Grande do Sul (1a DRP), segundo levantamentos realizados pela equipe de técnicos (1996), que lá trabalham, perfazem apenas 12% da população apenada.

Acredita-se, que esses crimes pelo contexto social vigente, têm sido proporcionalmente pouco denunciados, pois se pode pensar concordando com Heilborn que:  “a concepção de violência inscreve-se num quadro, que estipula direitos como atributos inalienáveis da pessoa, direitos que possuem  representação de cunho  ainda  restrito na sociedade brasileira. (apud Velho, 1996, p.94)

 Por outro lado, culturalmente, pode-se considerar, que o homem da América Latina carrega traços de organização moral, comuns ao mundo mediterrâneo, onde existe muito machismo, ou idéia de prestígio e extremado poder masculinos, cujo exercício manifesta-se na centralidade da moral, pelo controle das mulheres, jovens e crianças. Machismo, que se expressa pela possibilidade de uso de intimidação e violência inclusive sexual, intimidação que serve de entrave, para as denúncias policiais e conseqüentes julgamentos e detenções.

Em relação à aplicação do poder instituído jurídico, de encarceramento, especificamente para esses casos em pauta, aceita-se o pensamento dos cientistas sociais Bourdieu e  J. Ellul. (Bourdieu,2000, p 245), quando propõem:

“Mesmo um conjunto de regras aplicadas por coerção, um certo tempo, nunca deixam o corpo social intacto, pois criam um certo número de hábitos jurídicos e morais”, que também são importantes para a boa convivência entre os gêneros.

Num quadro teórico foucaulniano, entende-se, que todo abuso, estupro e/ou pedofilia, trás como substrato uma noção de "poder e de falta de auto-disciplinamento", a qual possibilita conduzir à transgressão.

Aceitando-se o que expõe Veiga Neto (1996, p. 275), baseado em Foucault, pode-se dizer que:

"O corpo de cada sujeito moderno é também um corpo político e que pelo corpo chega-se à instância política", que se agrega, conduz à lei, norma e conseqüente penalização, quando transgredida.

Ainda expõe esse professor: "Não podemos pensar numa sem nos remetermos à outra”.  Nesse ponto recoloca Foucault, quando o filósofo faz articulações entre as disciplinas individuais do corpo e as regulações populacionais, ao citar que antes, não havia senão indivíduos anônimos - sujeitos jurídicos de quem o poder soberano podia retirar os bens e até a vida, mas que, cada vez mais, passam a existir sujeitos nominados e populações. A partir desse momento, o poder se desloca de uma esfera exclusivamente jurídica, para vir apreender o sujeito, seu corpo e seu pensamento.

 "A vida entra no domínio do poder, numa mutação capital. Sem dúvida, uma das mais importantes na história das sociedades humanas". (Foucault, apud Veiga Neto, 1996, p 275).

Agora, não se trata só da vida do corpo; trata-se também da vida das populações. A própria idéia de população é uma invenção moderna. E, o que o importante pensador social, Foucault, coloca como ponto de articulação entre as disciplinas individuais, do corpo, e as regulações da população, é o sexo. O sexo, visto como instrumento de disciplinamento, já que passa a ser uma dobradiça, que liga a anátomo-política com a biopolítica. Agora o sexo passa a fazer o nexo. Ou, em outras palavras, "o sexo é acesso à vida da espécie, por isso, servimo-nos dele como matriz das disciplinas e como principio das regulações" (Foucault, apud Veiga Neto,1996,  p. 275).

Ainda, nesse tema, ligado a sexo, violência e violência sexual, cabe ressaltar Foucault, quando falava em “estilos de vida”, ou na vida conduzida como obra de arte, numa estética, que engloba a ética.

Ética para Foucault,  é considerada diferentemente de moral, pois ética, para ele, é:

 
“...um conjunto de regras facultativas, que fixam o valor do que se faz, do que se diz, segundo o modo de existência, que isso implica”; ...“Há coisas, que não se podem fazer ou dizer, a não ser por baixeza da alma, por uma vida odiosa, ou por vingança contra a vida. E são os ‘estilos de vida’, que estão sempre implicados nos gestos e nas palavras, que nos constituem como este ou como aquele.... Quanto à moral, ela se apresenta como um conjunto de regras, que coagem, regras de um tipo especial, que consistem em julgar as ações e as intenções a partir de valores transcendentes. (está bem, está mal...)”. (Deleuse, 1996, p. 79;80)


              Sob o aspecto sociológico, considerando Adorno, a violência em geral e a sexual em particular, situam-se na sociedade, através de relações de poder, que se disseminam por todo tramado social, se apresentando  como uma resolução de conflitos baseada no uso da força ou da coerção, estabelecendo  relações sociais inegociáveis, opostas ao diálogo, à convicção e à negociação. (Adorno; Santos, apud Viscardi, 1999, p. 188)

Considerando os pressupostos abordados, observa-se que na modernidade, com o advento dos movimentos femininos; com a independência da mulher e a conseqüente valorização desse gênero, através de políticas e leis, que conduziram à criação das "Delegacias da Mulher"; com os cuidados crescentes com o corpo, sob aspecto ético e estético, de forma gradativa e cada vez mais intensa, os "estupros, abusos, pedofilias e exploração"  devem ser  cada vez mais notificados nas agências de controle,  sendo des-cobertos e conseqüentemente melhor controlados socialmente.

Nesse sentido, entendeu-se que uma boa forma de caracterização do estado da "violência sexual" cometida na realidade hodierna, pudesse ser fornecida através dos conteúdos verbais, que constituem representações sociais, apresentadas pelos próprios autores delituosos, utilizando-se também para melhor entendimento  uma  ótica  foucaultiana e o resultado do teste projetivo “Szondi Trieb”.

Entre outros temas foram expostos aos encarcerados, para discussão: sexo, prazer, poder, disciplina, respeito e moral. Nas verbalizações efetuadas, verificou-se, que vários conceitos tratados por Foucault, foram apresentados coincidentemente pelos apenados, exemplificando-se com colocações como: “monstro e verdade”, termos que fazem um ponto de articulação.

Quanto ao título, deste trabalho, buscou-se sentido em Foucault, com a titulação fornecida por ele, apresentada em seu artigo "La Vie des Hommes Infâmes" editado no "Les Chaiers du Chemin", em 1977. Foucault também fala nos “homens infames” na “História da Sexualidade”, no  livro “Uso dos Prazeres” onde expõe que:

“Para Xenofonte, os homens apaixonados pelos corpos dos rapazes, eram, declarados infames...”;

Deleuse (1988, p.102), em seu livro “Foucault”, expõe o pensamento foucaultiano, sobre os homens infames, ressaltando quando ele dizia:

“O que resta então nessas vidas anônimas, que só se manifestam em choque com o poder, debatendo-se com ele, trocando com ele - palavras breves e estridentes - antes de voltar para a noite” – “a vida dos homens infames” - e ele dizia, que “devíamos respeita-los em função de sua infelicidade, sua raiva ou sua incerta loucura”. “Estranhamento, inverossimilhança: é essa infâmia, que ele próprio reivindica”.

Para o substrato desse estudo, sobre homens infames, além da ótica foucautiana, ingressou-se em Moscovici, (1994) com a sua teoria das " Representações Sociais”.

Segundo Maritza Monteiro (s/d), “a Teoria da Representação Social de Moscovici, poderia ser enquadrada na perspectiva do interacionismo”. A mesma que segue Foucault, embora dentro da vertente crítica.

Diz ela, ainda:

 “Construir representações sociais envolve ao mesmo tempo a proposição de uma identidade e de uma interpretação da realidade. Isso significa que, quando sujeitos sociais constroem e organizam campos representacionais, eles o fazem de forma a dar sentido à realidade, a apropriá-la e interpretá-la. Ao assim fazê-lo, também dizem quem são, como entendem a si mesmos e a outros, como se situam no campo social e, quais são os recursos cognitivos e afetivos que lhes são acessíveis, em um dado momento histórico”.

As representações sociais, portanto, expressam a identidade de quem está envolvido no trabalho representacional, pois não há trabalho representacional sem um limite identificatório entre o Eu e o não Eu".

Jovchelovitch, outra autora, que tem trabalhado com representações sociais, propõe classificações ao dizer, que:

 "As representações sociais são estruturas que envolvem, simultaneamente a cognição, afetos e  ação".

A cognição, porque as representações sociais envolvem certo modo de conhecer o mundo. Elas são saberes sociais, isto é, formas de saber e fazer que circulam em uma sociedade, que fazem parte da cultura popular, erudita e científica, que se mesclam e penetram umas nas outras e, emergem como recursos que uma comunidade dispõe para dar sentido a sua realidade entender seu cotidiano.

Os afetos, porque saber envolve o desejo de saber ou o desejo de não saber, envolve investimento e paixão, em relação ao objeto do saber e ao ato do saber. Na esfera do afeto, a autora, proponente deste estudo em questão, acrescentaria o desejo do poder.

A ação, porque a cognição e os afetos são atividades, que envolvem sujeitos, que falam, relacionam-se, engajam-se, atuam. Logo estas atividades são práticas sociais e elas envolvem fazeres de várias ordens" 

Partindo desses pensamentos, objetivou-se estudar o substrato comum representacional dos homens, que se apropriam indevidamente dos corpos de outros, pelo estupro, pelo abuso ou pedofilia, através de uma pesquisa, na qual se pretendeu levantar na vertente investigatória a "representação social", que eles portam, sobre "violência" e "violência sexual", operacionalizadas em ação, cognição, afetos, opiniões e valores, tentando utilizar uma ótica interpretativa fundamentada em Foucault. Também foi despertada a curiosidade investigatória para saber qual a estrutura da personalidade desses homens, lançando-se mão para tanto, do teste projetivo “Szondi Trieb”.

MÉTODO

Como amostra foram sujeitos dez presos (10%) pelos artigos 213/214, pelo Código Penal Brasileiro CPB. O universo de presos da 1a DRP varia entre 800 a 900 encarcerados e desses, 12% são tipificados pelo Título VI, constituindo um grupo de aproximadamente 108 pessoas. Foram selecionados pelo critério acidental, dentre os encaminhados por esses artigos, para “Exame Criminológico” pelo Judiciário, para a equipe técnica desta Delegacia, localizada na cidade de São Leopoldo, Rio Grande do Sul, Brasil.

Os sujeitos foram todos indivíduos presos, julgados e condenados, cumprindo pena em algum dos presídios da Primeira Delegacia Regional Penitenciária (1a DRP) da Superintendência dos Serviços Penitenciários, do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, (SUSEPE) situados nas cidades de Canoas, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Taquara, São Francisco de Paula, Montenegro, Gravataí, Osório e Torres.

Os instrumentos utilizados para a coleta de dados foram:

- Uma ficha com registro, com aplicação individual, de questionário aplicado, semi-estruturado e das colocações ou depoimentos fornecidos ante os conceitos apresentados, todos analisados sob as categorias propostas no estudo.

- Ficha com registro da aplicação do “Szondi Trieb Test” (Teste psicológico projetivo)

-Também se utilizou o “Processo de Execução Penal” PEC, do preso para averiguação de seu histórico penal. (Denúncia, Julgamento e Vida prisional)

A coleta de dados foi realizada nos presídios da região da 1a DRP. A mesma foi lenta, demorada, pois no universo de presos existem poucos por este tipo penal enfocado. Muitas vezes em atividades de execução de entrevistas, para elaboração de laudos, não aparecia nenhuma pessoa incluída na expectativa. Há, que se considerar, entretanto, que nos presídios, das Delegacias Penitenciárias, do interior, não é evidenciado o tipo penal, ao qual os encarcerados respondem, mantém-se em oculto seu delito. Portanto, se não acontecer na hora do “exame criminológico”, torna-se difícil realizar alguma investigação, que tente evidenciar o tipo penal.

Para o levantamento do questionário e das colocações ou depoimentos fornecidos, ante as categorias apresentadas, foi utilizada a análise de conteúdos, na forma qualitativa (Bardin, 1977) com uma analogia interpretativa sob a ótica de Foucault

GARIMPAGEM

O material foi avaliado pelas respostas fornecidas ao questionário, elaborado segundo categorias, que serviram como processo de ancoragem, da “violência” e especificamente da “violência sexual”.

As quatro categorias utilizadas foram: a - Cognição; b - Afeto; c - Ação; d - Opiniões e Valores.

a - CATEGORIA: COGNIÇÃO

O que pensas hoje em relação ao acontecido?

Surgiram verbalizações críticas: "Arrependimento", "vergonha", "hoje pensar diferente".

Esta representação crítica surgiu em primeiro plano, demonstrando representação social dentro dos padrões de nosso código moral vigente.

Também colocações de: "Auto referência, ou de prejuízo pessoal"; “Pensamento sobre a vítima e familiares”; "Negação do cometido"

Verificou-se, que a representação social de moral e da adequada convivência está presente nestes apenados, bem como surge o pensamento de auto-referência com o prejuízo pessoal sofrido como conseqüência do ato insólito e sobre o prejuízo da vítima e de seus familiares. 

 O que pensas em relação ao futuro?

Foram emitidos conteúdos, que denotam representação social de cunho moral. "Trabalhar". O pensamento "trabalhar para melhorar de vida”, aparece em primeiro plano ; “Dedicar-se à companheira e aos filhos”; "Desejo de retornar à comunidade"; "Recuperar-se" também é expresso

Constatou-se, que o desejo de “reinserção social” através do trabalho e recuperação aparece como senso comum desses presos e a necessidade de dedicar-se a alguém, como companheira e filhos.  Aparece uma noção inerente ao dito, a de “repressão”, noção que para Foucault  faz parte de um esquema entre luta e submissão.  Nesta relação entre forças, o apenado expressa sua manifestação de desejo de “submissão” ao código moral. (Machado, 1998, p. 177)

b - CATEGORIA: AFETO

O que sentiu no momento do crime?

Verificou-se, que dois detentos evadiram-se de expor seus sentimentos.   (Ficando no não dito, ou no ocultamento); "Não sabe se amor ou ódio" (Sentimentos ambivalentes); "Prazer", "Arrependimento com conotação de desvalorização para a ação e auto-referência” (Me arrependi muito de ter feito isso aí); "Algo explosivo, inexplicável"; “O mundo ia desmoronar sobre mim” (auto-referência).

Constatou-se, que as respostas forneceram considerações sobre emoções, sentimentos explosivos, ambivalentes, ou de auto-referência, com noção de prejuízo pessoal. É de notar-se a evasão de respostas acontecidas, que significa o ocultar os sentimentos ou permanecer no “não dito”. Este “não dito”, para Foucault significa “o negar-se a um exame de consciência e negar-se a transformá-lo em um discurso confessional”. Em Foucault, também se encontra em seu estudo sobre “Uso dos Prazeres” que “no afeto de si para consigo voga o prazer, ou melhor, o desejo” que nos casos em pauta desses detentos, se expressaram em práticas advindas de fortes desejos e emoções, conforme verbalizaram. (Deleuse, 1998 p. 113) Verifica-se uma instância na qual a força do sentimento encontra-se no pólo pessoal, num modus egoístico, sem consideração para com o outro. Constata-se uma relação de alteridade, onde o outro é paciente da violência da ação resultante de um descontrole emocional.

TEMA: RELACIONAMENTOS

 Com a mãe: "Bem" sete detentos ou a maioria; "Avó criou. Dava-se bem" (Um apenado); "Mal, por que ela me exigia". (Um detento); “Tia criou. Dava-se bem". (Um apenado).

Em expressiva maioria, ou nove detentos relacionavam-se bem com a mãe ou figura materna, apenas um não se relacionava a contento, porque se sentia revoltado com as exigências maternas. Logo, não aparece, não é explicitada revolta com a figura materna. 

 Com o pai. "Bem". (sete presos). "Mal" com a figura paterna na figura de padrasto, por que bebia muito, (um preso); "Evade-se" de responder. (dois presos).

Verificou-se que, na grande maioria os presos relacionavam-se bem com a figura paterna. Os que se evadem talvez quisessem esconder problemas, com a figura parental. Mas denota-se em geral, que aparece maior problemática com a figura paterna, que com a materna.

 Com irmãos: "Bem". (oito presos);"Sem relacionamento". (dois presos).

Constatou-se que a maioria relaciona-se bem com os irmãos.

 Com filhos: "Bem". (seis presos); "Não tem".(quatro presos).

Observou-se, que mesmo o pai que estava condenado por tentativa de estupro da filha relata, que se dava bem com os filhos. Esse seus entendimentos.

 Com a mulher "Bem". (sete presos). "Não tem" (um preso) "Relacionamento frio”.(um preso); “Mal”. (um preso).

O que tem relacionamento frio, responde "Mulher..., não é doutora"; O pai que tentou estuprar a filha respondeu: "Bem, a mesma companheira, há vinte e dois anos"; "A gente se dá bem. Mas não é mais como era antes, ela não me perdoou"; Um assume que: "Dava-se mal com as companheiras, que teve".

Na maioria, responderam ter bom relacionamento com a companheira, ou assim acreditavam ser. Com essa resposta, demonstraram uma representação social em relação ao gênero feminino impregnada de desvalia, pois embora considerem bom o relacionamento, não deixaram de praticar violência sexual contra mulher.

Sendo que, no caso do pai, que tentou estuprar a filha, ao ser entrevistada sua companheira, ela demonstrou grande apreço por ele. E observou-se, que ela o colocava como um “bom companheiro” porque é um “companheiro provedor” e culpava a filha por ele estar preso.

Na realidade, na prática de avaliação criminológica, encontra-se muito esse tipo de reação, principalmente em mulheres dependentes emotiva e economicamente.

Com as respostas dadas, observa-se neste relacionamento a opressão, o poder ou a força exercitada pelo homem, que continua em nossa era, século XXI, quando a maioria das mulheres ainda não ingressou na “luta da resistência” a que Foucault chama também de “movimento revolucionário“.

Um movimento, que segundo ele historía, apareceu com a causa da revolução proletária, juntando mulheres, prisioneiros, soldados, doentes nos hospitais e homossexuais, que iniciaram uma luta específica contra uma forma particular de poder, de coerção, de controle, que se exerce sobre eles”(Machado,  1998 p. 78) 

c - CATEGORIA: AÇÃO

 Já foi abusado? "Não". (oito presos); "Sim" Pelas empregadas um preso; por colegas, entre crianças, um preso.

Constatou-se, que na maioria dos presos entrevistados, tanto para esta pesquisa, bem como os demais, quando no “exame criminológico”, não passaram pela experiência de terem sofrido abuso sexual.

 Tem abusador na familia? “Não". Todos. Verificou-se que tanto neste estudo quanto em geral, nos exames criminológicos os apenados por "Crime Contra os Costumes", não tem familiar nesta condição de delito.

 Alguém da família já foi abusado ou estuprado? "Não". Todos

Apareceu como uma constante, o fato de não haverem pessoas que tenham sido vítimas sexuais nas famílias dos presos em questão, bem como nos que se entrevista no geral, dos presos por esse delito.

Estas três últimas perguntas dão conta da não existência de “herkunft” que segundo Foucault “é o pertencer a um grupo, de sangue, da tradição, de ligação entre aqueles da mesma altura ou da mesma baixeza”. E o lugar da “herkunft” é o corpo, superfície da inscrição dos acontecimentos. Lugar de dissociação do Eu. Ela forma uma análise da proveniência, que está no ponto de articulação do corpo com a história. No caso em pauta não existe uma história pessoal significativa arruinando o corpo desses apenados. Ou não existe “herkunft”  nesses presos violentadores sexuais.( Machado,  1998, p. 21).

O que o levou a isso? "Drogas e bebida, bobeira". (oito presos); "Vítima culpada" (três presos) ou “Vítimas que se insinuaram; "Nega o delito". (um preso).

Nesta pergunta também são evidenciadas  as seguintes respostas:

"O guri, 6 anos, estava pelado, eu fui mudar roupa dele, eu embriagado, ele insistiu, aí eu cometi o erro".

"Minha bebida. A mulher e a sobrinha dormiam no mesmo quarto, a casa era pequena. nem pensei  na mulher que estava dormindo”...

”Foi sedução dela ,saí com amigos, não tinha nada programado"

Verificou-se uma representação com atribuição de responsabilidade jogada em cima de circunstância, ou ambiente, numa tentativa de defesa pessoal e psicológica.

Mas para Foucault, recai no “afeto de si” carregado pelo desejo de prazer, por um ato egoísta, onde a pessoa do outro não voga.

 Já havia feito isso antes?  "Não". Dez responderam negativamente.

Chamou atenção as respostas lacônicas. "Não. Não senhora" Demonstrando “repressão”, ocultamento, para responder ou confessar, “para fazer um exame de consciência e transforma-lo em discurso” (Machado, 1998, p. 230).

Um apenado disse.

"Não, nunca. Eu ia na zona." 

Inclue-se nesta resposta negativa ao pai, que tentou estuprar a filha. Sendo que no presídio corria o boato, de que ele já havia estuprado outra filha, a mais velha, agora casada e vivendo em outro estado.

d - CATEGORIA: OPINIÕES E VALORES

TEMA: VIOLÊNCIA

Exposição genérica: “País desestruturado". Um preso (Jogando a responsabilidade para o país). “É tudo. Violência gera violência"; ”Nunca tive problemas em festas, com amigos"; "Ë assustadora... É horrível... As coisas estão sérias, fico apavorado..."; "Violência...Crueldade...A pessoa tem noção da coisa"; "Sou contra a violência"

Auto referência: “Não leva a nada. A gente leva prejuízo” (auto-referência); "Errado, ruim quem comete vem para a cadeia"; "Não brigar, não roubar mais, não fazer o que fiz, que é violência pesada"

Verificou-se, que os apenados expressaram suas “representações sociais” dentro de linhas familiares pois : numa forma genérica, conduzindo para o país e numa  idéia de auto-referência. Apenas uma pessoa afunilou para o ato praticado.

Eles deixaram transparecer claramente, a “noção de dobra” de Foucault, a qual ele conceitua como: “mostra como o Outro, o longínquo é também o mais próximo. (moral)... a dobra é como a feitura de um forro na costura, torcendo, dobrando, cerzindo para dentro a noção moral vigente”. ( Deleuse, 1998,  p 105)

Os presos usaram dobra para a representação social de moral com crítica para violência.

TEMA: VIOLÊNCIA SEXUAL   

   Duque Treze  [1]

Todos os apenados demonstram ter conhecimento de que a “violência sexual” é um interdito e uma agressão. Surgiram respostas como: ”Nesse dia fui um monstro”. Eu prejudiquei uma família, deixei uma adolescente com a vida estragada...  Fui chamado de “Duque 13[1]” no Central e fiquei em galeria separada”; “Não penso mais nada errado, sobre violência sexual...Fazer como muitos fazem é errado, não tem necessidade disso...”; “Acho, que não deve pegar a mulher à força...hoje o cara fica com ela, ela diz que foi á força...o cara tem que ficar um tempo namorando para ver como é a pessoa, não ficar logo...”; “...A gente tem filha, fica apavorado, vê as coisa acontecendo...”; “Um delito dos mais ordinários, dos piores contra a sociedade...”; “Eu cometi um delito desses, mas acho bárbaro, estou arrependido do que fiz”...; “Acho que é abuso. Se um não quer, dois não fazem, para que brigar, né”...; “É errado, hoje estou seguindo a religião eu estive muito errado na vida”...

“Aí eu não sei... mas ter um diálogo, para lhe dizer”.; “Um ato que ninguém deve fazer, sou contra por princípio. Totalmente contra”...; “Foi o que aconteceu comigo... é inexplicável...a gente teve clima, mas ela colocou limites...eu sei que era moça que andava na rua, de madrugada, ela estava sozinha no baile, como outras”...

Constatou-se, que a “representação social”, de interdito, de violência encontra-se presente em todos esses apenados, delituosos no sexo.

Logo, tem-se outra perfeita “representação social” expressa pelo termo “Duque 13” que encerra uma forte questão de rechaço por parte dos demais presos, em relação aos apenados por violência sexual, ao ponto de terem esses criminosos, que formar uma galeria particular no “Presídio Central” de Porto Alegre e em outros grandes presídios do Rio Grande do Sul. Nos pequenos cárceres do interior, o delito praticado permanece oculto na convivência dos presos.

Mas, apesar da representação moral formada, expressa pelo rótulo de “Duque 13” para os violentadores, pode-se dizer que eles deixaram-se seguir pela lei da alma, quando em sua ação abusiva, lembrando Foucault (1999, p.146), quando em seus estudos sobre a relação da alma e do corpo, na tradição médico-filosófica antiga lhe dá importância ao expor:

 “O regime proposto, para os prazeres sexuais, parece estar centrado inteiramente sobre o corpo: seu estado, seu equilíbrio, suas afeições e as disposições gerais ou passageiras em que se encontra. Todos aparecem como variáveis principais, que devem determinar as condutas. De certa forma, é o corpo que faz a lei para o corpo. Contudo, a alma tem seu papel a desempenhar, pois é ela que incessantemente se arrisca a levar  o corpo além de sua mecânica própria e de suas necessidades elementares, é ela que incita a escolher momentos, que não são apropriados, a agir em circunstâncias suspeitas e a contrariar as disposições naturais” .

Vale ainda relacionar o dito pelos apenados, considerando as relações de poder e de abuso de força, na área sexual, realizadas por eles, com Foucault (Deleuse 1998, p. 38):

“As relações de poder se inserem em todos os lugares, onde existem singularidades, ainda que minúsculas, relações de forças como  discussões entre vizinhos brigas de pais e crianças, excessos alcoólicos e sexuais, rixas públicas e tantas paixões secretas... o poder agiria por violência ou por ideologia, ora reprimindo, ora enganado ou iludindo... bem pode acontecer que a violência esteja na sala ou mesmo na rua...” 

Em relação ao termo empregado “fui um monstro”, verifica-se como esse preso usa o termo numa dimensão similar à enfocada por Foucault, em seu livro “Os Anormais” (2001, p. 70) onde se lê:

“O campo da aparição do monstro é um domínio que podemos dizer pertencente ao jurídico-biológico... Dizemos que o monstro é aquele que combina o impossível e o interdito. Daí, um certo número de equívocos que vão continuar e é por isso que eu gostaria de insistir um pouco mais acerca deste ponto - ao freqüentar desde muito tempo a figura do homem anormal, o conheceria tal como estaria constituído na prática e no saber do século XVIII, e após, quando teria reduzido, confiscado ou absorvido de alguma maneira, os traços próprios do monstro. O monstro, com efeito, contradiz a lei. Ele é infração, é infração levada ao seu ponto máximo, é infração no seu estado bruto”.

Pode-se dizer que, o que faz a força e a capacidade de inquietude do monstro é que, ao violar a lei, ele a deixa sem voz. Ele embosca a lei que está em vias de infringir. No fundo, isso que suscita o monstro, no momento mesmo em que, por sua existência, ele viola a lei, não é a reposta da lei em si, mas é uma outra coisa. Isso será a violência, será a vontade de supressão pura e simples, ou ainda esses serão os cuidados médicos, ou ainda isso será a piedade. Mas não é a lei em si, que responde àquele ataque, que representa, entretanto, contra ela, a existência do monstro.

O monstro é uma infração, que se coloca automaticamente fora da lei e está aí um dos primeiros equívocos. O segundo é que o monstro é, de qualquer forma, a forma espontânea,  brutal, mas por conseqüência, a forma natural da contra-natureza. É o modelo grosseiro, a forma desenvolvida pelo jogo da natureza mesma, de todas as irregularidades possíveis” 

Também ressalta na observação do dito pelos apenados, a tentativa de imputar à vítima a culpabilidade, utilizando a noção de vítima provocadora, tal como aparece nos estudos de Mendelsohn  (Schivitz, 1999. p. 15)

E, ainda a colocação, de que antes do ato sexual, deve haver diálogo, o que não impede a ação agressiva posterior. Essa é uma colocação ingênua onde o preso, demonstra que sua prisão aconteceu porque não teve diálogo, antes do relacionamento sexual, como se seu poder de convencimento através do discurso, fosse mudar a reação negativa da vítima.

TEMA: SEXO

Verificou-se respostas como: Evocando afeto, amor: “Normal. Com quem a gente gosta é a melhor coisa que tem”; Evocando o casamento: “Dentro do casamento não causa constrangimento...”, “Fazer sexo, marido, mulher...”; Evocando diálogo:  “Tem que ter tempo para conversar..”; Evocando concordância: “É bom quando concordam um com o outro...”, “Deve ser prazer para ambos igual...”; Evocando normalidade : “Acho que “fazeria” uma parte, no caso do ser humano...”; “Necessário para viver...”.

Observou-se, que os apenados evocam afeto ou amor, casamento ou “dispositivo de aliança”, diálogo, novamente com idéia persuasiva, concordância, para não haver agressão, normalidade em sua prática humana, mas sem excluir o poder do macho.

Há que se considerar, que na prática delituosa, esses apenados fizeram o exercício do desejo de prazer e do poder, através do sexo.


[1] Duque 13”. O termo duque refere-se á nota de dinheiro em papel, com valor de 2,  que trazia a imagem de Duque de Caxias. Representando simbolicamente dinheiro de baixo valor, um duplo, coisa  material, bem de troca,desvalorizada.Também Duque representa a soberania, o poder de vida ou morte, a onipotência. Dois ou duzentos, associado ao  13 que representa o final do tipo penal 2(13). Então fica configurado simbolicamente  Duque e treze, o Artigo 213. Um artigo que fala em relação de troca material, onde o algoz tem o poder de soberania e ao outro cabe a submissão. Duques ou homens infames?

__________________________

TEMA: PRAZER

Constatou-se verbalizações: Ligando à transgressão e auto domínio: “Algo bom, desde que não me leve a transgredir. A gente tem que ter domínio”, “Não fazer nada errado na rua, comete se quer... “; Evadem-se de responder:  -“Não sei o quê dizer...”, “O quê dizer...” ; Questão de normalidade: “Uma coisa normal...”, “O cara estar de bem com a pessoa, não estar bêbado não estar nada...” (refere-se a drogado possivelmente); Expressando alteridade:  “Viver com minha companheira...”.

Constatou-se então, que o prazer nesses presos está vinculado, a representações de auto-domínio, normalidade, alteridade, permanecendo em nível oculto ou sem confissão, para os que não respondem.

Novamente ressalta-se com  Foucault  a relação do “cuidado de si”, “ do auto-dominio”  ou da “ auto-governabilidade” e das “ relações sexuais com o dispositivo de aliança, ou dentro do casamento ou união”,  mas relação que  também carrega a noção do monopólio ou  posse unilateral pelo lado do gênero masculino.

Retorna-se a Foucault (1998), quando expõe:

  “Podemos reconhecer o desenvolvimento de uma arte, de uma estética da existência (técnica de si) dominada pelo cuidado de si. Essa arte de si mesmo, já não insiste tanto sobre os excessos aos quais é possível entregar-se e que conviria dominar para exercer sua dominação sobre os outros”.


TEMA: PODER

Quanto ao poder, se constatou respostas como:

Representação Social ligada a aquisição de bens, ou colocada em coisa objetiva: “Trabalhar, ter saúde...”; “Lugar para morar, trabalhar...”; “Quem tem dinheiro, tem poder...”; Ligado a fatores psicológicos e de auto governabilidade:  “Sair de cabeça levantada...”; “Ter personalidade, ter poder para raciocinar...”; “Força de vontade...”; “Levar a vida certo...”; “Conquistar com o próprio suor, as próprias palavras...”; “Uns querem ser mais que os outros...”; Ligação negativa: “Não tenho nenhum..”;.Ligação alternada: “Umas pessoas tem poder, outras não”; Dimensão religiosa: “Na terra ninguém tem poder. Poder é Deus”...

Verifica-se, que ressaltam representações com relações de poder sociais, relações de poder individuais (ou consigo próprio) como as estudadas por Moscovici e uma dimensão de relação de poder religiosa, que também pertence ao corpo da representação coletiva, descrita por Durkheim. Ainda nas representações sociais expostas, verificou-se também a busca pelo poder, pelo lado material ou o de conforto.

Observam-se também representações individuais, além das sociais, efetuadas qual  uma dobra foucaultiana, pois considerando a ação cometida e a representação manifestada nas entrevistas verifica-se, que houve uma resistência. Ou que na “relação consigo”, no “afeto de si para consigo”, a força que foi dobrada, vergada, foi resistente  aos códigos e aos poderes externos e gerou uma “relação consigo”, que formou um “ponto de resistência” em relação á moral vigente. (Deleuse, 1998, p. 111).

TEMA: DISCIPLINA

Quanto à disciplina, verificou-se:

 Dimensão de ação correta, com enfoque individual e de espaço, principalmente enfocando o mecanismo disciplinar existente na cadeia, tanto do sistema disciplinar jurídico, quanto entre os apenados: “Fazer tudo certo, como eu, na cadeia...”; “Eu aprendi na cadeia...”; “O que eu tenho dentro do sistema;. na cadeia”; “Comportamento sério...” (na cadeia?); “Respeitar ao próximo para ser respeitado...”; “Na alimentação...”; “Saber conversar...”; Dimensão com enfoque social: “Respeito ao próximo...”; “Respeitar as crianças...”; “Educação, boa conduta”.

Então, quanto á disciplina verifica-se, que passa por relações de corpos e noção de espaço. Ou, que as representações de relação de disciplina, realizadas pelos detentos, enfocam as dimensões social e a centrada na pessoa e sempre através de um corpo dócil, submisso, no presídio (Foucault, 1995)

E, passam pela noção foucaultiana de “espaço”, ou especificamente do espaço - cadeia. Noção, que está implicitamente ligada ao poder, pois Foucault também propõe a disciplina como uma “técnica de poder” já que ela implica numa vigilância perpétua e constante dos indivíduos. Vigilância, que pela auto-governabilidade transita pela auto- vigilância desses presos enquanto na cadeia, convivendo com outros delinqüentes, de quem eles são temerosos, bem como o são do sistema administrativo. A prisão é onde se exerce o poder...(Machado, 1998, p.107)

De outro lado, falam dos propósitos de seguirem as normas de boa convivência no corpo social externo ao presídio, para onde retornarão, após cumprirem suas penas.

 

TEMA: RESPEITO

Constatou-se as assertivas com senso comum de: “Respeitar para ser respeitado...”;  “O mesmo que disciplina...”; “Respeitar não importa quem seja, drogado, prostituta...”; “Se as pessoas respeitassem mais uns aos outros a criminalidade seria menor...”

A Representação Social, dos apenados sobre respeito transita por relações de respeito, auto-governabilidade, disciplina, sociabilidade indiscriminada e menor criminalidade. A noção de respeito para os presos, transita circularmente com outras noções foucaultianas, expostas nos demais temas expostos.

TEMA: MORAL

Surgem representações como: Enunciados afirmativos: “Ter educação...”; “A verdade de um homem, a moral de um homem”..; “Acho que é seriedade, ser honesto...”; Enunciados negativos: “Se não tem moral é coisa á toa...”;“Não sei o que dizer, não sei o significado certo de moral... acho que é seriedade, ser honesto...”; “O que a gente não tem quando erra... aí acaba a auto-estima..”; “O que eu tive antes desse período...”;“O que eu fiz, foi um fato sem moral...”; “Não falar palavrão...”

Quanto à moral, surge uma representação afirmativa e uma negativa, relacionada á ação cometida. Cabe lembrar Foucault (1988, p.282), quando escreve: “La Mothe Le Vayer” e expõe:

 “Que o governo de si mesmo, diz respeito á moral; que a arte de governar bem uma família diz respeito à economia; a ciência de bem governar um Estado, diz respeito à política. E que há uma continuidade ascendente pois aquele, que quer governar um Estado deve primeiro saber se governar, governar sua família, seus bens, seu patrimônio”. 

Também propõe Foucault, que “a moral é a arte ou a estética de bem viver”.

Quanto à verdade, representação também colocada por um preso, verifica-se com o pensador social, que ela é a outra face do poder e que a verdade não existe fora dele, do poder. 

Constata-se, que se tratam de noções circulares, que surgem em dispersão, expostas pelos presos infames. Noções circulares de relação, pois segundo Foucault, as relações em geral são formadas sobre estratos do saber; as relações de força ao nível do diagrama poder e as  com o lado de fora (que englobam a não relação – ou negativas) pelo pensamento, e é através dele que se efetiva a dobra, para si.

Quanto à personalidade desses homens, avaliada pelo “Szondi Trieb Test”, verificou-se que cinco apenados possuíam sexualidade normal, enquanto outros cinco apresentavam elevação dessa energia, elevação que chegava a  alcançar estados patológicos; um sujeito apresentava masoquismo, um mania e  três, psicopatia.  Todos apresentavam fragilidade ética, bem como em todos se encontrou  manifestado “afã pelo poder”.


CONCLUSÃO

            Numa análise ampla verificou-se, que as representações sociais expostas a partir das  categorias e temas propostos, em torno de  violência e violência sexual, por homens  golpeadores dos costumes, são ancoradas em forma análoga às consideradas pela população. Entretanto, também verifica -se que é na “alma” desses apenados, que se encontra o ponto de resistência á moral, que gera a ação carregada de baixeza ética, fortificada pelo “afã de poder”, ou  manifestações através de  sexualidade “machista”.

            Também se passa a entender o por quê, que através de comunicações, discursos, diálogos, enunciados, entrevistas ser muito difícil conhecer-se a subjetividade real das pessoas, pois elas evidenciam representações sociais, em geral de senso comum.  Já que é na alma, na personalidade, que se aloja a rocha de sua resistência. E que apenas essas pessoas (antropófagas) sentem-se e conhecem-se em suas tendências e necessidades, mas que podem explodir em manifestações agressivas.

Finaliza-se:

Esses são sujeitos, que não conseguiram dizer não, para a sua “natureza”.

São sujeitos nos quais a “dobra da moral” não conseguiu deter o ato “antropofágico”;

Esses são todos sujeitos, que possuem existências singulares e homogêneas, quanto ao delito criminoso cometido, que os configura como “homens infames”.

Logo:

“Não adianta dizer o quê é representado (individual ou socialmente), o quê se representa muitas vezes, não habita o quê se faz”.

“Só me interessa o quê não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”.

Oswald de Andrade.1928


  Ida Maria Mello Schivitz -
   Psicóloga . CRP 07/524
  Mestre em Psicologia Educacional/UFRGS
  Especialização em “Ciências Criminológicas”/UFRGS
  Professora de “Psicologia Social /ULBRA”
  Pesquisa patrocinada pela ULBRA/RGS    
  Apresentada no “Congresso Nacional de Psicologia Social”
  E-MAIL :  schivitz@cpovo.net



   
    Sergio Gomes

ENSAIOS HOMOERÓTICOS I

O Homoerotismo na antigüidade clássica

(...) “Sejamos mais precisos: melhor que de homossexualidade, deveríamos falar de relações entre pessoas do mesmo sexo. Deveríamos, então, empregar o termo homofilia. De fato, sem exacerbar o sentido do paradoxo, poderíamos até mesmo afirmar que a homossexualidade não existe na Grécia”.

Jean-Philippe Catonné

   A sexualidade, ontem e hoje


No conjunto de ensaios que se seguirão a este, pretendo analisar historicamente com vocês como as várias (homo) sexualidades se configuraram ao longo do tempo através do uso da linguagem. Nesta jornada, iremos verificar como nossas crenças acerca das múltiplas sexualidades participaram na construção de um ideário lingüístico com força performativa, para falar da verdade do sujeito homoerótico contemporâneo.

Partindo desta concepção, penso que de todos os seres vivos, o ser humano é o único que possui, entre tantas, duas características básicas que o distingue dos outros seres: a capacidade de raciocínio e a habilidade da fala, através da linguagem.

A linguagem nos propicia a comunicação seja através da palavra escrita, falada ou através de códigos, gestos ou sinais. Somos capazes, então, de nomear o que ainda não tem nome, de modificar e redescrever o que já foi nomeado, ou de dizer aquilo que não queremos dizer, já que “não somos senhores nem mesmo na nossa própria casa”.

Para aquilo que ainda não possui nome, logo, logo, conseguimos inventar palavras novas para determinados objetos, atos ou situações do cotidiano, de acordo com a nossa crença e moral vigentes, e compreendê-los a partir de então como uma verdade única e universal. E quando não temos a compreensão científica de determinado fenômeno, nossa tendência é procurar de imediato uma explicação lógica e daí, ou o aceitamos ou o reprimimos, afastando-nos o mais que possível, senão, exterminando-o.

Na época da inquisição, que se estendeu do século XIV até o século XVII, para aquilo que cientificamente ainda não se tinha compreensão causal do fato de algumas mulheres apresentarem comportamentos estranhos à maioria da população, a acusação era de bruxaria ou  possessão diabólica contra essas mulheres, condenando-as a morrerem queimadas na fogueira.

No início do século XX, os mesmos fenômenos antes concebidos como bruxaria ou manifestações do diabo, poderiam ser explicados, por exemplo, como “ataques histéricos”, após o advento da psicanálise. O mesmo fato e duas explicações.

De acordo com o psicanalista Jurandir Freire Costa, em seu artigo “Homoerotismo: a palavra e a coisa”, “toda época produz crenças sobre a “natureza” do bem e do mal, do sujeito e do mundo, que aos olhos dos contemporâneos,  sempre aparecem como óbvias e indubitáveis. Os séculos XIV, XV, XVI e XVII criaram as feiticeiras. E, porque a crença na bruxaria existia, existiam bruxas. As bruxas eram um efeito da crença na bruxaria. Sem a crença em bruxas, não haveriam mulheres que sentissem, agissem, se reconhecessem e fossem reconhecidas como bruxas”. Para compreender o que o autor fala, vejam o filme As Bruxas de Salém.  


                         No que compete à sexualidade, a compreensão do fato se dá de modo semelhante.  

Desde o século XIX acreditamos na divisão dos sujeitos em “homossexuais, bissexuais e heterossexuais”. Passamos a acreditar que há algo de universal em pessoas com determinadas características desejantes, e passamos a reclassificar a antigüidade a partir da compreensão do vocabulário sexual criado no século XIX.

Ora, na antigüidade greco-romana não havia a compreensão do sexo a partir do que aprendemos nos últimos 200 anos. Portanto, enganamo-nos ao projetar hábitos mentais do presente na relação pederástica que havia na Grécia, semelhante à moderna relação homossexual dos nossos dias.

Na Grécia antiga não existiam palavras para designar o que chamamos de “homossexualidade” e “heterossexualidade” porque simplesmente não existia a idéia de “sexualidade”. A sexualidade é uma construção cultural recente (...). No mundo helênico havia um eros múltiplo e heterogêneo, sem contrapartida no imaginário de hoje. Assim, o eros da “pederastia” era, em sua “natureza”, diverso do eros presente entre homens e mulheres ou mulheres e mulheres (e eu acrescentaria entre homens e homens). Por princípio era virtuoso, ao contrário da “homossexualidade” contemporânea, tida como vício, doença, “degeneração” ou perversão, desde que foi inventada pelas ideologias jurídico-médico-psiquiátricas do seculo XIX”, conforme nos informa Jurandir Freire em seu artigo “Os gregos antigos e o prazer homoerótico”.

O que estava em jogo era a educação do cidadão e toda conduta que evocasse excesso ou passividade entre o erastes e o erômeno, era considerada indigna, sem valor, podendo inclusive, no caso deste último, perder o “status” social que possuía.

O eraste, “pedagogo”, “amante” ou “homem adulto”, como queiram, jamais poderia ser “passivo” na relação amorosa, e isso significava não poder ser penetrado, pressionado física ou moralmente a ceder os avanços sexuais do erômeno ou erômenes, ou de nenhum outro cidadão, nem muito menos de um escravo, ou ser subordinado com presentes, promessas ou com dinheiro. A virilidade era reforçada, os atos dos amantes deviam ser comedidos, evitando exageros apaixonados. O prazer devia estar a serviço do cidadão da polis grega, já que a vida pública era destinada à política, ou seja, entre dois homens adultos, era impensável que se mantivesse contatos físicos, coito anal e manifestações apaixonadas, pois a pederastia era a forma mais nobre de amor entre os gregos.  


Jean-Philippe Catonné, em seu livro “Sexualidade: ontem e hoje”, ainda complementaria nosso pensamento, ao afirmar que “para um cidadão, a passividade sexual é que representa problema. Desde então, o amor entre rapazes confronta-se a uma situação contraditória, que Foucault qualificou de “antinomia do rapaz”. O amado, o eromenes, o rapaz, ocupa uma posição passiva, e o homem adulto, o amante, o erastes, uma posição ativa. Ora, a função social da pederastia é a de ensinar ao rapaz a tornar-se um cidadão, consequentemente, um homem sexualmente ativo, por meio de uma situação paradoxal de passividade na relação amorosa. A contradição se resolve na distribuição dos prazeres. O rapaz é levado a dar e a não obter, ou, ao menos, não muito ostensivamente. Além disso, ela se desfaz num processo de passagem determinando a idade. A relação cessa quando o jovem rapaz deixa de sê-lo: o sinal da metamorfose é indicado pelo surgimento de pêlos, no queixo e nas pernas. Via de regra, se é rapaz entre os doze anos, a idade da flor, e os dezessete, a idade dos pêlos”.

A pederastia, era então, um rito de iniciação daquela sociedade, que demarcava a passagem da infância para adolescência, e desta, para o mundo adulto.  


                        Veja-se, por exemplo, a produção artística grega, através dos achados antropológicos, e notem que toda forma de contato entre dois homens dava-se entre um mais velho e outro mais jovem, antes mesmo que os pêlos do rosto ou do corpo pudessem ser notados, e isto não fazia do erastes ou do erômeno mais ou menos homem ou cidadão, conforme a ideologia machista que predomina em nossa cultura, em nossa época.

O que grande parte da literatura nos mostra é que o amor na forma de eros era buscado da forma mais sublime, na virilização dos corpos, na contemplação do belo, nas múltiplas formas de se alcançar eros, e esta busca estava dedicada diretamente à população masculina, já que a mulher, assim como os escravos, crianças ou serviçais, gozavam de menos prestígio e estava a serviço da reprodução da casta grega. No que compete à civilização romana, poucas mudanças poderíamos notar na dinâmica dos papeis masculinos e femininos.

Deste modo, assim como não existia uma homossexualidade inerente aos gregos, da forma como a compreendemos hoje, bem entendido, onde há definições e escolhas dos papéis dicotômicos ativo/passivo, desejo sexual, amor e respeito mútuo entre os(as) parceiros(as), valorização dos atos e jogos afetivos, fantasias ou qualquer outra manifestação amorosa que também sirva para descrever a pluralidade da vida afetiva e sexual entre um homem e uma mulher, a sociedade greco-romana era uma sociedade predominantemente “masculinista”, ou seja, onde só os homens gozavam dos direitos enquanto cidadão (apesar de haver relatos acerca da comunidade formada por mulheres na ilha de Lesbos – no qual resultou a derivação do termo lesbianismo/lésbica, para referir-se à homossexualidade feminina – e que tinha na poetisa Safo sua principal representante).

Vimos, assim, que o uso dos prazeres na antigüidade devia estar a serviço da honra do cidadão, pois era impensável na Grécia antiga uma liberdade sexual privada na forma como as múltiplas homossexualidades são vividas na contemporaneidade.

A “homossexualidade” grega, retomando as palavras de Jurandir Freire, era uma sociedade onde “a pederastia era não só recomendada como louvável e praticada por toda a elite moral, intelectual, política, artística, guerreira e religiosa de uma sociedade culturalmente sofisticada como a grega”.

Portanto, cair no erro crasso de nomear a pederastia grega do que hoje compreendemos como sendo a mesma homossexualidade vista por juristas, médicos, psiquiatras e higienistas do século XIX, é cair no mesmo erro crasso de se pensar que na antigüidade existia uma patologia ou um distúrbio sexual inerente dos desejos afetivos e sexuais do erastes e do erômeno, concebendo-os como seres desviantes, doentes, “perversos”, “degenerados”, de personalidade “anormal” e passíveis de cura.

Precisamos ter cuidado com as armadilhas que a cultura do sexo rei nos preparou e possibilitar ver o mais longe quanto possível as armadilhas “lingüísticas” que “a vontade do saber” nos deu como legado.

Mas isso é uma história para o nosso próximo ensaio.

  Sergio Gomes é Psicólogo, com Especialização em Sexualidade Humana pelo Centro de Educação da UFPB, e
  Especializando em Direitos Humanos pelo Departamento de Filosofia do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes
  da UFPB. 
  Psicólogo CRP 13/2768
  Email: sergiogsilva1@bol.com.br



   
      Armando Correa de Siqueira Neto

O BRINCAR NO CONTEXTO DA PSICOLOGIA PREVENTIVA

Há na natureza uma sabedoria própria, um constante ensinar sobre aquilo que é natural e parte de nós seres humanos, o caminho essencial, que pode ter o mesmo número de configurações quanto de personalidades diferentes das pessoas. Este caminho natural, do desenvolvimento humano, tem características próprias, ao mesmo tempo em que é flexível frente às mudanças e conseqüentes adaptações das quais nos submetemos constantemente, porém, até o momento, uma delas tem se   

mostrado fundamentalmente convicta de sua própria existência, competente nos seus efeitos, simples em seu conceito e dinâmica, e complexa no que se refere a sua atuação no ser humano, esta estrutura invisível, o brincar, tem todo este acervo de conteúdos em seu bojo, oferecendo a quem dele se utilizar, possibilidades naturais de sermos mais naturais, principalmente, na infância, onde construímos a nossa base principal, suporte para toda uma vida. Ser natural nos possibilita o melhor acesso a nós mesmos durante a vida, para que possamos nos observar, ora externa, ora internamente, e nessa alternância de constante re-conhecimento de si mesmo, lidemos com boa parte de nossos conteúdos, para que, finalmente, estejamos sempre nos permitindo continuar o caminhar do nosso desenvolvimento. 
 
O brincar é essencial às crianças e nos revela de diversas formas que tem poder terapêutico natural, além de constituir auxílio na boa formação infantil, nas esferas emocional, intelectiva, social, volitiva e física. Esquecer-se do brincar é também esquecer de viver com qualidade de vida, e, ao oferecermos às crianças a possibilidade de brincar, oferecemos muito mais do que o ato em si mesmo, estendemos uma perspectiva de vida melhor, um desenvolvimento mais natural e eficiente, uma socialização decorrente de tão somente brincar, e ainda mais, a possibilidade de se reconhecer como ser, na terapia constante do expressar e concretizar criativamente os recursos internos de que dispomos.
  Armando Correa de Siqueira Neto - Psicólogo


   
    Maria Beatriz Ribolla
O OLHAR PSICOPEDAGÓGICO 
Para a contrução  tridimencional

A construção do olhar psicopedagógico não se encerra no conhecimento das questões cognitivas, mas no diálogo do afeto e da cognição experimentadas pelo corpo. Mais do que buscar respostas para a dificuldade em aprender, de uma criança, o psicopedagogo deve estar muito aberto a perceber o que a criança sabe e, de forma amorosa lhe propiciar a possibilidade de ter consciência conhecer  do seu conhecimento,  de poder sentir a sua emoção sem medo e de conseguir corporificar as percepções.

                Uma maneira de ressignificar a dor das crianças que não conseguem aprender, é a utilização das construções tridimensionais, como formas de intervenção. Pode-se utilizar qualquer material, como o barro, a pedra, o papel, o concreto celular, enfim, matérias de naturezas diversas e que propiciam vivências e formas de atuações diferentes.

                Trabalhar com as matérias, em sua diversidade, é poder experimentar os processos de assimilação e acomodação, no nível da reversibilidade operatória (Allessandrini, 1996, p.121-122), fazendo e desfazendo, construindo e destruindo, buscando reconstituir os fenômenos, seja mentalmente ou manualmente.

Simultaneamente, é também a possibilidade de entrar em relação com o seu próprio corpo e suas formas de contato, é mobilizar uma energia capaz de transformar a matéria bruta em um objeto cheio de intencionalidade e símbolos próprios e, consequentemente, transformar-se no dinamismo das construções.

                No momento em que a criança, diante dos materiais, realiza escolhas perguntando:

- Como fazer? 
- Quais ferramentas?
- Qual a forma?
- Você me ajuda? ... – Eu não sei...
- Será que é assim?
- O que eu quero fazer?
-Eu posso...?,

ela está optando por uma ação, está escolhendo entre várias alternativas o que ela pode realizar de acordo com o seu desejo e suas possibilidades, além de estar também percebendo a sua vontade como algo legítimo. Então, ela passa a criar relações, intervir, destruir, se arriscar, construir, comparar e transformar.

Quantas vezes vemos crianças realizando estas ações sem o medo de errar e sentindo prazer em descobrir que do erro pode nascer uma nova possibilidade, quem sabe até melhor do que aquela que era imaginada. Acho que poucas... o que normalmente vemos são crianças que querem respostas prontas, imediatas e corretas e que por medo de errarem ou não conseguirem concretizar o seu desejo logo desistem das atividades.

As mesmas crianças, “amarradas” por sua rigidez, acreditam, muitas vezes, estimuladas pela própria escola, que as respostas são únicas, não podendo existir um universo amplo de possibilidades e deixam de investigar, curiosamente, tornando-se mais passivas diante da aprendizagem. 

Para realizar essas “pesquisas”, que são as ações interrelacionadas de transformação entre sujeito e objeto, é necessário que a criança tenha em primeiro lugar o desejo da investigação, para que aprimore suas competências cognitivas, que são suas habilidades e recursos para realizar as tarefas .

Estas competências, podem ser desenvolvidas no fazer plástico tridimensional e na consciência deste fazer, pois criando, a criança antecipa suas ações, experimenta, concretiza, desmancha, pensa, enfim, amplia seus esquemas de ação diante dos materias.

As habilidades e os recursos para realizar suas ações, vão sendo mobilizadas pelas novas organizações majorantes dos esquemas que estão em constante interação e transformação e que resultam em novas operações mentais passíveis de serem generalizadas à outras situações, caracterizando o que se pode chamar de aprendizagem.

Na argila, ou na modelagem da massa, o processo de construção e destruição é menos frustrante, ou seja, há a possibilidade de reverter a forma com maior facilidade, enquanto no concreto celular, na pedra ou na madeira, a atuação precisa ser planejada, antecipada e mediada por um instrumento, o que impõe uma ação premeditada e mais carregada de intencionalidade. Logo, pode vir acompanhada de maior frustração se a realização não resultar no esperado. Mas com certeza, pode ser menos doloroso experimentar a frustração com os materiais, do que em situações formais de ensino-aprendizagem.

Esse espaço - tempo para suportar maior ou menor quantidade de frustração, frente ao desejo não concretizado, é também o espaço para o reconhecimento e a percepção das emoções envolvidas nas situações de aprendizagem e que acabam por mostrar também o comportamento da criança frente às suas dificuldades.  Como ela as enxerga, como mostra para o outro e como pensa solucionar sua dificuldade em lidar com o não saber ou o não conseguir. Aos poucos vai aprendendo a solucionar suas dificuldades, ou ao menos reconhecê-las, tornando-se consciente de seus limites e ações.

Outra questão relevante de caráter cognitivo da intervenção tridimensional é que durante o processo pode-se observar se a construção ocorre por análise ou síntese. Isto demonstra como a criança realiza seu contato com o conhecimento e suas interações com os objetos, ou ainda se é capaz de passar da parte para o todo e do todo para as partes. Este é um procedimento que utilizamos em todas as nossas ações do cotidiano, quando percebemos somente partes de um acontecimento, ou quando somente o captamos de forma global, sem compreender as relações entre as partes.

Se, a criança realiza sua ação, construindo as partes fragmentadamente e não realiza o movimento de ordenar o todo, ela elabora através de análise. Se, finaliza seu trabalho somente com a construção de partes, esta atitude pode significar que há uma dificuldade em reconhecer o todo durante o processo de aprendizagem, ou ainda, que não consegue criar ou percebê-lo. Esta característica, em sua ação diante das matérias,  pode apontar que ela apresenta dificuldade em estabelecer relações entre as partes para configurar suas experiências, e nesse sentido não consegue compreender as configurações.

Mas, de forma contrária, se a criança constrói seu trabalho como um todo, não atentando para as partes, sua maneira de apreender o objeto é através da síntese. Esse procedimento pode mostrar uma dificuldade em discrimar os elementos que compõem suas experiências, assim como, as relações que estes estabelecem. De forma semelhante, a criança não consegue compreender como identificar, modificar, reordenar e desvincular as partes de suas experiências, levando também à construção da dificuldade em aprender.

Logo, a possibilidade de trabalhar com a expressão tridimensional, auxilia o percurso do caminho cognitivo e afetivo entre a síntese e a análise e da análise para a síntese de uma forma mais lúdica, pois o trabalho vai dando a chance do construtor estabelecer novas relações e vivenciar novas atitudes de observação e percepção, podendo transferi-las para outras atividades do seu dia-a-dia.

Além das questões cognitivas, dentro do processo de construções tridimensionais, há também as maneiras como cada criança se apropria dos materiais e do seu fazer, que são, normalmente, muito semelhantes das formas que experimentam o mundo e o conhecimento.

Muitas vezes, a criança pode mostrar em sua atitude com o material uma liberação de energia através da ação e do movimento. A construção tem o papel de estimular a ação e facilitar a resposta motora, permitindo que se descarregue ou surja a energia. Durante a ação a criança pode vir a reconhecer seu potencial energético e afetivo, pois existe uma similaridade entre a ação do movimento externo e do interno, já levantada pelos primeiros pesquisadores da Teoria da Forma, à respeito do isomorfismo.

Durante o trabalho, que são momentos extremamente sensoriais, pode-se observar  se ela apresenta uma ação que demonstre o desejo de transformar o objeto ou não, ou ainda como é esta transformação, se há agressividade ou não, passividade ou intencionalidade. Aqui pode-se perceber a utilização de alguns movimentos energéticos, que correspondam externamente ao seu movimento interno, trazendo informações sobre a sua forma de se apropriar do conhecimento.

Outra questão muito interessante em relação às construções, é a mobilização do afeto diante das criações, pois as vivências artísticas são altamente projetivas e mobilizadoras de identificações, podendo vir acompanhadas emoções intensas que são representadas pelo corpo e pelas verbalizações diante do fazer, gerando muitas vezes comportamentos violentos e de destruição do produto realizado.

A abstração e a simbolização, neste momento, são os meios de criar um distanciamento quando a interferência afetiva é muito forte. Podem ser formas de diminuir o envolvimento afetivo conflitante para a realização das representações.

O sonho, o faz-de-conta, o imaginário, o objeto que pode ser tudo ao mesmo tempo, traz a “brincadeira” do esconde – aparece que hora mostra a emoção, hora esconde, hora faz parte da criança, hora é do mundo, às vezes do mundo real outras da fantasia.

Logo, há um constante diálogo entre a criança, os materiais e sua construção tridimensional, pois cada matéria tem o papel de atuar como intermediária entre o interno e o externo, pois são transformadores, no sentido em que permitem a exploração e a internalização das propriedades do outro (material) e também a habilidade da criança em compreender o que se pode fazer com ele ou não.

Transformar, significa mudar e a medida em que as mudanças vão se tornando mais conscientes para a criança, ou seja suas interações geram representações com outras qualidades e elas vão se explicitando. Isto é, a consciência de novas organizações e possibilidades de atuação acabam sendo a fonte da mudança interna .

Acredito que a mudança interna para o trabalho psicopedagógico é fundamentalmente a credibilidade de que se pode aprender, ou seja,  a transformação da relação de figura e fundo, onde a figura que esteja emergindo seja aquela que traga a percepção da capacidade em aprender, o desejo de conhecer e não a incapacidade e a intolerância diante do conhecimento.

Então, como psicopedagoga procurando “fórmulas” e “formas” para resgatar o que há de mais saudável nas crianças que nos procuram, encontro instrumentos mediadores capazes de estimular a construção cognitiva e tocar o ser afetivo, mas o contato só é possível quando também eu estou receptiva, amorosa e criativa para perceber e me manter inteira na relação, o que em si já é um ato de coragem , mas necessário para quem quer estar com o outro de forma plena.

  Maria Beatriz Ribolla -  Psicóloga, psicopedagoga, arte-terapeuta
  Mestranda do Programa de Distúrbios do Desenvolvimento – Mackenzie
  Profa. de Psicologia da Educação e Psicologia da Percepção – FAAP
  e-mail: mbrib@ig.com.br


   
    Marise Vale Girão

ESPERAR OU FAZER ACONTECER?

  Certo dia, conversávamos eu e meu esposo sobre os ditados “quem espera sempre alcança”, defendido vorazmente por ele, e “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, praticado por mim. Na ocasião, a questão ficou em aberto,mas perdurou e passou a exigir maior aprofundamento. E hoje eis-me aqui, no labirinto de tantas indagações.     Mas será que quem espera sempre alcança, ou seria isso uma forma de fatalismo, a ‘desculpa dos acomodados’? Sim, porque, nesse caso, imagina-se que “o que tiver de ser, será” e, sendo assim, não se precisaria mover-se para se atingir os objetivos. Tudo viria por determinação divina. É o que chamam Destino, tal qual o fio da vida humana, tecido pelas parcas na
mitologia grega. Mas aqueles que assim pensam acabam por desmerecer o livre
arbítrio, ou mesmo aniquilá-lo, tornando-o totalmente dispensável, pois ‘se o que tiver de ser fatalmente e inevitavelmente o será’, obviamente que ‘aquilo que não tiver de ser, não o será’, não obstante os mais hercúleos
esforços. Conseqüentemente, todas as batalhas, todas as lutas, tornar-se-iam descabidas e levariam apenas ao desgaste da energia vital. A bíblia a isso se refere, quando diz: “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam”, e ainda, “aquietai-vos e sabei que eu sou Deus”.

    Carl Gustav Jung, psicólogo suíço, mencionou certa vez que sua vida ‘foi  realização de seu
inconsciente’, do ‘si-mesmo’. O inconsciente, o Eu mais profundo, teria, pois, a capacidade de se auto-realizar. Talvez isso seja o
mesmo que “entregar nosso caminho a Deus” – pois, se existe um inconsciente, foi Deus quem o criou. Citando mais um exemplo, ainda na bíblia, lê-se:
  
“entrega o teu caminho ao Senhor, confia nEle, e Ele tudo fará”. 
  Esse contexto trata da inação, que se distingue, porém, da omissão. Quando uma
ação faz-se necessária e não é executada, ocorre a omissão. Nesse caso, os que não lutam, não pensem que estão a salvo das responsabilidades, porque a omissão é igualmente uma ação, só que negativa, e precisa ser considerada.

  Os que se omitem são tão responsáveis quanto os que agem erroneamente, com a diferença que não são acusados pelo erro; no máximo, pela covardia. Mas há uns raros que se omitem por pura sabedoria, reconhecendo que em tudo há um momento, e há o tempo de agir, e o tempo de se omitir.

  Por outro lado, no Existencialismo, Sartre defende que a inevitável condição humana é de sermos ‘condenados à liberdade’. Essa condição, mesmo em pequena escala – se considerarmos que nunca somos totalmente livres - gera em nós uma imensa responsabilidade sobre nossas vidas. Por isso foi
tratada como uma ‘condenação’. Nós somos livres, e não temos escolha quanto
a isso. É nessa liberdade que se encontram as razões daqueles que não se permitem esperar. Com base nesse fundamento, há os que lutam incansavelmente, julgando que o resultado final sempre dependerá de sua
intervenção; esses, mesmo julgando-se homens de fé, não conseguem
simplesmente “entregar”. Precisam fazer algo por si mesmos.

  E quanto àqueles que ‘fazem a hora e não esperam acontecer’? Será que realmente ‘sabem’? Não seria esta luta demasiada uma fraqueza do espírito? Acaso a verdadeira força não estaria naquele que consegue e ‘sabe’ esperar? Pois quem espera, mesmo não atingindo o objetivo desejado, alcança o domínio de si próprio, e quem aprendeu a dominar-se já está na paz, e isso é afinal o que todos buscam. Essa questão é essencial, porque antes de se fazer algo, faz-se mister ter sabedoria para agir. Não adianta atuar de qualquer maneira.

  É fato, há os que não conseguem esperar tempo algum, e saem ‘des-esperada-mente’ em busca de seus ideais, o que às vezes os leva a tropeçar logo no início, e com o tropeço vem a desistência. Há os que tropeçam muitas vezes, mas não desistem nunca, não se acomodam e lutam obstinadamente, e ficam sempre ‘dando um jeitinho’, ‘mexendo os pauzinhos’ ... E acabam conseguindo um bocadinho de coisas com isso, embora de algumas se arrependam, às vezes sem ter como remediar. Ainda, há os que sempre esperam, e nunca arriscam e, se nada ganham, também não se culpam pelo que perderam. São os verdadeiramente acomodados. Finalmente, há aqueles – gloriosos! - que sabem, ao mesmo tempo, esperar e reconhecer o momento de fazer acontecer, e estes são verdadeiramente abençoados, têm uma intuição que geralmente os leva a agir corretamente e a alcançar as maiores alturas na realização de seus sonhos. Esses devemos, com certeza, tomar comoexemplo.

  Mas a vida é um caleidoscópio de múltiplos fatores, alguns totalmente imprevistos. No dizer de Guimarães Rosa, ‘é mutirão de todos’, cada um com o seu jeito, acomodado, lutador, ou sábio. Por isso, nem sempre teremos êxito, por mais que saibamos esperar e reconhecer o momento. Por vezes, justamente na espera é que erramos, e perdemos o bonde de nossos sonhos... Porque era necessário, justo naquele momento, lançar-nos sem medo. Alguns, no entanto, de tanta pressa, adiantam-se, e acabam por pegar o bonde errado. A sabedoria, porém, contribui para se chegar na hora certa.

  Ó intrincada, emaranhada, paradoxal condição humana! Que fazer com a liberdade, a não ser aprender a usá-la? E para aprender, às vezes se erra, pois se é simplesmente humano... E muitas vezes um erro gigantesco leva a um acerto fenomenal. Já diz o provérbio: ‘há quedas que provocam ascensões
maiores’. Sim, há quedas que provocam verdadeiros triunfos. Porque às vezes
se aprende tanto com os próprios erros até se recriar, numa verdadeira ‘conversão’, uma Fênix a renascer das cinzas.

  É-nos impossível dominar a realidade profunda dos acontecimentos. Não se controla o futuro – como diz Toquinho, ele é apenas ‘uma astronave que tentamos pilotar’. Mas há sempre algo que podemos fazer, no seu devido tempo. Ao contrário do que muitos pensam, a vida não gira em círculos, não é
uma eterna repetição. Existe algo de novo na vida, um ‘fator x’, algo que
depende de nós, e é por isso que precisamos ‘fazer acontecer’!

  Ser ou não ser, agir ou esperar. Uma questão que se coloca em um abismo de múltiplas possibilidades, em que uns podem cair, mas que a outros ensina a voar. O vôo da verdadeira humanidade, da realização de potencialidades inimagináveis. O eterno ‘vir-a-ser’, o arriscar, o realizar, o esperar, o superar. O ‘salto quântico’ do ser humano.

  Deus concedeu-nos a liberdade (mesmo que pequena, se aceitarmos a existência de um ‘inconsciente’) e, assim, dotou-nos com a característica da transcendência, que é justamente o que nos torna humanos e não nos faz apenas sujeitos aos acontecimentos, mas também, sujeitos dos acontecimentos!

  Concedeu-nos também a consciência, para através dela alcançar-mos o sábio uso dessa liberdade, quanto ao seu modo e seu tempo.

   Portanto, no agir da ação ou no agir da espera (pois lembremos que a sábia espera também é uma ação), demos o melhor de nós, deixemos as omissões e a mediocridade, e embarquemos numa viagem de encontro aos infinitos modos de sermos e de vivermos.

 Marise Vale Girão, com a colaboração de Thomas Boyadjian Neto.
Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará
e acadêmica de Psicologia pela Universidade de Fortaleza.   Servidora Pública Federal do Ministério da Fazenda
mvg@noolhar.com.br


   

QUAL É A DA ERVA ???

Estudo recente questiona a eficácia do antidepressivo natural conhecido como erva de São João.
                                                                                                   Frederic Golden

De um amarelo vivo e formato de estrela, o fruto do arbusto perene Hypericum perforatum produz, quando esmagado, uma seiva vermelha que lembrava ao europeu da Idade Média o sangue de São
João Batista. Celebrada por miraculosos poderes medicinais, a
erva de São João (popularmente conhecida em português como milfurada) é usada desde a Grécia antiga para o tratamento de males
hepáticos e intestinais. E ainda para a histeria, obesidade
e insônia.

A erva só atingiu o estrelato, porém, em 1984, quando as
autoridades sanitárias na Alemanha, de posse de estudos in vitro, colocaram a planta na lista dos chamados inibidores de MAO e autorizaram sua administração como antidepressivo natural de efeito moderado. A procura disparou tanto na Alemanha, onde a erva de São João bate fácil medicamentos controlados como o Prozac, como nos Estados Unidos, país em que os extratos da planta viraram pilares de uma efervescente indústria de medicina
alternativa.

Até o ano passado, quando veio à tona o aviso de que a erva seria capaz de alterar o efeito de certos remédios - sobretudo os usados nos tratamentos da aids e de cardiopatias, além de antibióticos e anticoncepcionais administrados por via oral-, a venda anual do produto tinha chegado a 310 milhões de dólares.

Hoje, perto de 1,5 milhão de norte-americanos usam regularmente o extrato na tentativa de combater o sofrimento da alma.

Mas essa turma talvez precise agora encontrar algo diferente para animar o espírito, já que há uma suspeita de que a flor tenha perdido o notório viço. Na semana passada, uma equipe médica concluiu que o extrato é praticamente nulo no combate à depressão crônica. Até hoje, é de longe o estudo mais decisivo sobre a eficácia da milfurada.

Com base nas conclusões, publicadas no Journal of the American Medical Association, Richard Shelton, psiquiatra da Universidade Vanderbilt e principal autor do estudo, foi taxativo ao dizer que
não indicaria a erva de São João a nenhum de seus pacientes.
Shelton engrossa o coro dos especialistas para quem os cerca de 30 estudos que até agora atribuíam à planta um certo valor
terapêutico foram mal-projetados, eram inadequados ou,
simplesmente, estavam cheios de furos.

Num momento em que as autoridades norte-americanas estariam prestes a controlar com mais rigor os chamados suplementos alimentares, a divulgação do estudo toca num ponto nevrálgico da ala que vê na medicina herbácea uma via mais natural e menos invasiva para a cura. O American Botanical Council, organização sem fins lucrativos, apressou-se em responder às notícias e circulou na imprensa um comunicado cáustico no qual tachava a pesquisa de ambígua.

E o Council for Responsible Nutrition, que representa a indústria de vitaminas, disse que nada na pesquisa indicava que a erva de São João não surtirira efeito em casos de depressão leve ou moderada. John Cordaro, presidente do grupo, argumenta: "Uma pastilha pode ser ineficaz contra uma infecção na garganta e ideal para a simples dor de garganta".

Shelton, porém, não arreda o pé. A idéia da investigação surgiu quando começou a receber uma enxurrada de pacientes com depressão crônica que havia tentado, em vão, a cura via erva de São João.
Ao descobrir que colegas da psiquiatria vinham registrando um
fluxo semelhante de pacientes, Shelton recrutou médicos em cerca de uma dúzia de centros clínicos para testar, a seu lado, a eficácia da erva no combate à depressão.

Com a generosa ajuda financeira da Pfizer, fabricante tanto do antidepressivo Zoloft quanto de um extrato da milfurada, a equipe recrutou 200 voluntários. Do grupo, quase dois terços eram mulheres na faixa dos 40. Todos lutavam há pelo menos quatro semanas contra uma forte depressão. Para alguns, era difícil sair da cama ou cuidar dos filhos.  Divididos em dois grupos, e sem saber a qual pertenciam, os pacientes foram tratados com a erva ou com uma pílula inócua. A dose inicial? Três comprimidos de 300 miligramas por dia, dosagem que subiu para quatro pílulas depois de quatro semanas quando o quadro não melhorou. Embora a turma que tomou a milfurada tenha progredido ligeiramente comparada à do placebo (27 por cento contra 19 por cento), ao final das oito semanas do estudo a equipe médica considerou estatisticamente insignificante a diferença. No caso de antidepressivos convencionais, a recuperação costuma acontecer com dois terços dos pacientes.

Shelton e companhia admitem que o assunto está longe de encerrado. Tal final, porém, pode chegar ainda este ano, quando a agência federal norte-americana National Institutes of Health concluir um estudo de três anos. Mais abrangente, não terá uma das falhas atribuídas ao da Universidade Vanderbilt. Em vez de dividir simplesmente os pacientes em dois grupos - um para a erva de São João, outro para a pílula de farinha -, o estudo contará com uma terceira turma, a do antidepressivo com receita médica.

Até lá, qual a saída para quem toma ou pensa em tomar a erva de São João? "Aguardar", diz Shelton, e considerar o uso de um dos mais de 20 antidepressivos no mercado, de eficácia clinicamente comprovada.

Fonte: www.cnn.com.br


   

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