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Pilar
caminha pelos Pirineus
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| Seu amigo lhe conta uma história | |||||||||||
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- Você conhece o exercício do Outro? Ele faz
parte de uma história escrita há cem anos, cujo autor... - Esqueça o autor, e me conte a história -pede, enquanto andam pela única praça de Saint-Savin. - Um sujeito está em um bar com o seu grupo, quando entra um velho amigo que vivia tentando acertar na vida, sem resultado. "Vou ter que dar uns trocados para ele", pensa. Acontece que, naquela noite, o tal amigo está rico e veio expressamente para pagar todas as dívidas que havia contraído no decorrer dos anos. Além de reembolsar os empréstimos que lhe foram feitos, ele manda servir uma rodada de bebida para todos. Quando lhe indagam a razão de tanto êxito, responde que até dias atrás estava vivendo o Outro. - O que é o Outro? -perguntam. - O Outro é aquele que me ensinaram a ser, mas que não sou eu. O Outro acredita que a obrigação do homem é passar a vida inteira pensando em como ter segurança para não morrer de fome quando ficar velho. Tanto faz planos, que só descobre que está vivo quando seus dias estão quase terminando. - E você, quem é? - Eu sou o que qualquer um de nós é, se assim desejar: uma pessoa que se deslumbra diante do mistério da vida. Só que o Outro, com medo de decepcionar-se, não me deixava agir. - Mas existe sofrimento -dizem as pessoas no bar. - Ninguém escapa do sofrimento. Por isso, é melhor perder alguns combates na luta por seus sonhos que ser derrotado sem sequer saber por que você está lutando. "Quando descobri isso, acordei decidido a ser o que realmente sempre desejei. O Outro ficou ali, no meu quarto, me olhando. No começo, não aceitou sua condição e vivia insistindo para voltar a possuir minha alma. Mas eu não o deixei mais entrar -embora tenha procurado me assustar algumas vezes, me alertando para os riscos de não pensar no futuro. A partir do momento em que expulsei o Outro da minha vida, a energia divina operou seus milagres." |
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| Seu amigo lhe fala de um filósofo | |||||||||||
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Quando estão tomando café no único bar de Saint-Savin, seu amigo lhe pergunta se conhece o filósofo Bozorgmehr. Pilar acena negativamente com a cabeça. - É um velho místico iraniano e costumava dizer: "Eu já estive diante de muitos inimigos, mas nenhum deles foi mais difícil de derrotar do que o inimigo que carrego dentro de mim." "Já lutei com muitos rivais, mas os piores foram aqueles que se diziam meus amigos." "Já comi muitas coisas deliciosas, e já me apaixonei muito, mas a melhor coisa que me aconteceu foi ter uma saúde boa." "Já fui atacado e ferido muitas vezes, mas os ferimentos mais dolorosos vieram da boca de pessoas que considerava nobres." "Fiquei muito contente porque a vida me permitiu estar ao lado de reis, que me deram presentes generosos; mas fiquei mais contente ainda porque a vida me permitiu afastar-me deles sem deixar mágoas, e então pude usufruir os meus dias da maneira que escolhi." |
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CROEMAS |
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Catharsis:
O que levou você, um psicodramatista conhecido e autor de vários
livros de psicodrama, a escrever um livro de poesias? Sergio
Perazzo: Na verdade escrevo poesias desde criança. Sempre me
acostumei também a responder,
até hoje, todas as cartas que já recebi. Com certeza é o meu talento
mais antigo. A minha primeira publicação aconteceu na revista da escola
onde eu estudava, no Rio de Janeiro, aos 12 anos de idade. Era uma poesia
toda rebuscada e cheia de ordens indiretas, metrificada em versos
alexandrinos. É muito divertido reler o que escrevi naquela ocasião, o
que me enche de ternura pela época e por mim mesmo. Depois disso, minha
adolescência foi pautada por uma inflação de versos arrebatados,
lamentosos e apaixonados que, infelizmente, um arroubo de censura juvenil
me fez lançá-los na lata de lixo. Não guardei nenhum, o que acho uma
pena ou, quem sabe, o leitor foi sabiamente poupado de “narcisos
brancos” ou “dálias amarelecidas”, coisas no gênero. Muito mais
tarde, em 1972, já formado médico e em trasição da gastrenterologia
para a psiquiatria e nos meus primeiros contatos com o psicodrama, voltei
a escrever poesias sobre temas do cotidiano. Escrevia para mim mesmo sem
mostrar para ninguém até que um grande amigo meu, o Ismail Xavier,
professor da ECA(Escola de Comunicações e Artes da USP) e, atualmente,
um dos mais respeitados teóricos de cinema e autor de vários livros, me
flagrou escrevendo e me deu uma tremenda bronca, quase me obrigando a
mostrar a minha poesia para os amigos. Não parei mais de escrever, sempre
de vez em quando, sempre nas horas vagas,mas escrevendo. Este exercício
acabou me ajudando muito na construção e elaboração dos meus livros e
artigos de psicodrama que fui escrevendo ao longo de todos estes anos. Um
belo dia, em 1998,acho, resolvi participar, pela primeira vez, de um
concurso de poesias promovido pela Associação Paulista de Medicina e
acabei ganhando um prêmio com minha poesia “Quês”. Na semana
seguinte fui convidado a integrar o quadro de associados da
SOBRAMES(Sociedade Brasileira de Médicos Escritores),que eu nem sabia que
existia, e ao qual pertenço até hoje. A SOBRAMES, aliás, é um capítulo
à parte. Vocês imaginam que nos dias de hoje, numa cidade como São
Paulo, existam pessoas que se reúnem uma vez por mês numa
pizzaria(“Pizza Literária”, como chamamos) para lerem suas poesias,
contos e crônicas? Pois bem, isto existe. Além disso é editado um
jornalzinho mensal que publica nossos trabalhos e um livro, uma antologia
anual, com toda esta produção literária.Com tudo isso, no fim do ano
passado, reuni as minhas poesias destes últimos 30 anos e constatei que
tinha um livro pronto de 400 páginas. Foi só publicar. Não tive a intenção,
enquanto escrevia, de publicar um livro, simplesmente, um dia, descobri
que tinha um, prontinho da silva. É essa a história. Catharsis: Como você organizou o livro? Sergio Perazzo: Em ordem cronológica. Num primeiro momento pensei em selecionar apenas as que considero as melhores. Mas depois, pensando bem, resolvi não recair no erro da adolescência e publiquei tudo. A razão é simples. São pedaços de mim. O livro é um presente meu para os amigos. Para as pessoas que amo. Que seja,então, como eu realmente sou. Minha emoção está de fato ali. Da forma bruta. E não me arrependi. O retorno das pessoas queridas tem sido incrível. Outro dia, uma amiga me recebeu declamando uma poesia minha que ela adorou e decorou e era uma daquelas que eu quase não inclui no livro e da qual quase não me lembrava. Um outro grande amigo meu do Rio de Janeiro ficou meio estupidificado. Ele sempre adorou poesias e não tinha a mínima idéia que eu era capaz de escrevê-las. Me cobra isso toda semana por e-mail cada vez que tem tempo de ler mais uma das minhas. Anteontem recebi uma carta de uma menina estudante do primeiro grau, de Jaboti, Paraná, linda, comovente, me pedindo o livro. Não tenho a menor idéia de como sua professora, que lhe recomendou o livro, ficou sabendo da publicação. Sempre tive muito prazer em escrever meus livros e artigos de psicodrama, mas é inegável que este livro de poesias me deu e tem dado uma satisfação triplicada. Catharsis: Como é ser poeta? Sergio
Perazzo: Todos nós temos um artista dentro do coração. Somos o
cantor que canta no chuveiro. O dançarino dos musicais da Metro diante do
espelho quando ninguém está olhando. O grande chef quando enfeitamos a
salada. O grande bardo quando fazemos uma declaração de amor. É só
deixar sair. É só se permitir ver assim. Para mim a grande doença do
mundo é a doença da sensibilidade humana. Se a cada um fosse permitido
desde criança expressar
a sua arte, seja qual for, todos nós teríamos outros olhos para os
outros num mundo de muito mais amor e menos violência e miséria. A
consciência social é fruto direto do afinamento da nossa sensibilidade
humana. Todos
somos poetas. Quem
sabe, um dia, o programa de todas as escolas do universo possam priorizar
a poesia, a música, o teatro, a dança que brotam de cada uma das crianças
que constroem e que amarram a esperança de mundo? Isto é compartilhar o
ser poeta. |
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Sergio
Perazzo – Psiquiatra Psicodramatista autor de vários livros |
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| Ida Maria Mello Schivitz | |||||||||||
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HOMENS INFAMES |
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ESTUPRADORES,
ABUSADORES E PEDOFÍLICOS |
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INTRODUÇÃO |
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Tem
chamado especial atenção para estudo, considerando o lado da defesa do gênero
feminino, os homens condenados e presos por crimes contra os costumes,
Título VI, do “Código Penal Brasileiro”. Acredita-se,
que esses crimes pelo contexto social vigente, têm sido proporcionalmente
pouco denunciados, pois se pode pensar concordando com Heilborn que:
“a concepção de violência inscreve-se num quadro, que estipula
direitos como atributos inalienáveis da pessoa, direitos que possuem
representação de cunho ainda
restrito na sociedade brasileira. (apud Velho, 1996, p.94) Por outro lado,
culturalmente, pode-se considerar, que o homem da América Latina carrega
traços de organização moral, comuns ao mundo mediterrâneo, onde existe
muito machismo, ou idéia de prestígio e extremado poder masculinos, cujo
exercício manifesta-se na centralidade da moral, pelo controle das
mulheres, jovens e crianças. Machismo, que se expressa pela possibilidade
de uso de intimidação e violência inclusive sexual, intimidação que
serve de entrave, para as denúncias policiais e conseqüentes julgamentos
e detenções. Em
relação à aplicação do poder instituído jurídico, de
encarceramento, especificamente para esses casos em pauta, aceita-se o
pensamento dos cientistas sociais Bourdieu e
J. Ellul. (Bourdieu,2000, p 245), quando propõem: “Mesmo
um conjunto de regras aplicadas por coerção, um certo tempo, nunca
deixam o corpo social intacto, pois criam um certo número de hábitos jurídicos
e morais”, que também são importantes para a boa convivência entre os
gêneros. Num
quadro teórico foucaulniano, entende-se, que todo abuso, estupro e/ou
pedofilia, trás como substrato uma noção de "poder e de falta de
auto-disciplinamento", a qual possibilita conduzir à transgressão. Aceitando-se
o que expõe Veiga Neto (1996, p. 275), baseado em Foucault, pode-se dizer
que: "O
corpo de cada sujeito moderno é também um corpo político e que pelo
corpo chega-se à instância política", que se agrega, conduz à
lei, norma e conseqüente penalização, quando transgredida. Ainda
expõe esse professor: "Não podemos pensar numa sem nos remetermos
à outra”. Nesse ponto
recoloca Foucault, quando o filósofo faz articulações entre as
disciplinas individuais do corpo e as regulações populacionais, ao citar
que antes, não havia senão indivíduos anônimos - sujeitos jurídicos
de quem o poder soberano podia retirar os bens e até a vida, mas que,
cada vez mais, passam a existir sujeitos nominados e populações. A
partir desse momento, o poder se desloca de uma esfera exclusivamente jurídica,
para vir apreender o sujeito, seu corpo e seu pensamento. "A vida entra no domínio
do poder, numa mutação capital. Sem dúvida, uma das mais importantes na
história das sociedades humanas". (Foucault, apud Veiga Neto, 1996,
p 275). Agora,
não se trata só da vida do corpo; trata-se também da vida das populações.
A própria idéia de população é uma invenção moderna. E, o que o
importante pensador social, Foucault, coloca como ponto de articulação
entre as disciplinas individuais, do corpo, e as regulações da população,
é o sexo. O sexo, visto como instrumento de disciplinamento, já que
passa a ser uma dobradiça, que liga a anátomo-política com a biopolítica.
Agora o sexo passa a fazer o nexo. Ou, em outras palavras, "o sexo é
acesso à vida da espécie, por isso, servimo-nos dele como matriz das
disciplinas e como principio das regulações" (Foucault, apud Veiga
Neto,1996, p. 275). Ainda,
nesse tema, ligado a sexo, violência e violência sexual, cabe ressaltar
Foucault, quando falava em “estilos de vida”, ou na vida conduzida
como obra de arte, numa estética, que engloba a ética. Ética
para Foucault, é considerada
diferentemente de moral, pois ética, para ele, é: |
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Considerando
os pressupostos abordados, observa-se que na modernidade, com o advento
dos movimentos femininos; com a independência da mulher e a conseqüente
valorização desse gênero, através de políticas e leis, que conduziram
à criação das "Delegacias da Mulher"; com os cuidados
crescentes com o corpo, sob aspecto ético e estético, de forma gradativa
e cada vez mais intensa, os "estupros, abusos, pedofilias e exploração" devem ser cada
vez mais notificados nas agências de controle,
sendo des-cobertos e conseqüentemente melhor controlados
socialmente. Nesse
sentido, entendeu-se que uma boa forma de caracterização do estado da
"violência sexual" cometida na realidade hodierna, pudesse ser
fornecida através dos conteúdos verbais, que constituem representações
sociais, apresentadas pelos próprios autores delituosos, utilizando-se
também para melhor entendimento uma
ótica foucaultiana e
o resultado do teste projetivo “Szondi Trieb”. Entre
outros temas foram expostos aos encarcerados, para discussão: sexo,
prazer, poder, disciplina, respeito e moral. Nas verbalizações
efetuadas, verificou-se, que vários conceitos tratados por Foucault,
foram apresentados coincidentemente pelos apenados, exemplificando-se com
colocações como: “monstro e verdade”, termos que fazem um ponto de
articulação. Quanto
ao título, deste trabalho, buscou-se sentido em Foucault, com a titulação
fornecida por ele, apresentada em seu artigo "La
Vie des Hommes Infâmes" editado no "Les
Chaiers du Chemin", em
1977. Foucault também fala nos “homens infames” na “História da
Sexualidade”, no livro
“Uso dos Prazeres” onde expõe que: “Para
Xenofonte, os homens apaixonados pelos corpos dos rapazes, eram,
declarados infames...”; Deleuse
(1988, p.102), em seu livro “Foucault”, expõe o pensamento
foucaultiano, sobre os homens infames, ressaltando quando ele dizia: “O
que resta então nessas vidas anônimas, que só se manifestam em choque
com o poder, debatendo-se com ele, trocando com ele - palavras breves e
estridentes - antes de voltar para a noite” – “a vida dos homens
infames” - e ele dizia, que “devíamos respeita-los em função de sua
infelicidade, sua raiva ou sua incerta loucura”. “Estranhamento,
inverossimilhança: é essa infâmia, que ele próprio reivindica”. Para
o substrato desse estudo, sobre homens infames, além da ótica
foucautiana, ingressou-se em Moscovici, (1994) com a sua teoria das "
Representações Sociais”. Segundo
Maritza Monteiro (s/d), “a Teoria da Representação Social de
Moscovici, poderia ser enquadrada na perspectiva do interacionismo”. A
mesma que segue Foucault, embora dentro da vertente crítica. Diz
ela, ainda: “Construir representações sociais envolve ao mesmo tempo a proposição de uma identidade e de uma interpretação da realidade. Isso significa que, quando sujeitos sociais constroem e organizam campos representacionais, eles o fazem de forma a dar sentido à realidade, a apropriá-la e interpretá-la. Ao assim fazê-lo, também dizem quem são, como entendem a si mesmos e a outros, como se situam no campo social e, quais são os recursos cognitivos e afetivos que lhes são acessíveis, em um dado momento histórico”. As
representações sociais, portanto, expressam a identidade de quem está
envolvido no trabalho representacional, pois não há trabalho
representacional sem um limite identificatório entre o Eu e o não
Eu". Jovchelovitch,
outra autora, que tem trabalhado com representações sociais, propõe
classificações ao dizer, que: "As
representações sociais são estruturas que envolvem, simultaneamente a
cognição, afetos e ação". A
cognição, porque as representações
sociais envolvem certo modo de conhecer o mundo. Elas são saberes
sociais, isto é, formas de saber e fazer que circulam em uma sociedade,
que fazem parte da cultura popular, erudita e científica, que se mesclam
e penetram umas nas outras e, emergem como recursos que uma comunidade
dispõe para dar sentido a sua realidade entender seu cotidiano. Os
afetos,
porque saber envolve o desejo de saber ou o desejo de não saber, envolve
investimento e paixão, em relação ao objeto do saber e ao ato do saber.
Na esfera do afeto, a autora, proponente deste estudo em questão,
acrescentaria o desejo do poder. A
ação,
porque a cognição e os afetos são atividades, que envolvem sujeitos,
que falam, relacionam-se, engajam-se, atuam. Logo estas atividades são práticas
sociais e elas envolvem fazeres de várias ordens" Partindo
desses pensamentos, objetivou-se estudar o substrato comum
representacional dos homens, que se apropriam indevidamente dos corpos de
outros, pelo estupro, pelo abuso ou pedofilia, através de uma pesquisa,
na qual se pretendeu levantar na vertente investigatória a
"representação social", que eles portam, sobre "violência"
e "violência sexual", operacionalizadas em ação, cognição,
afetos, opiniões e valores, tentando utilizar uma ótica interpretativa
fundamentada em Foucault. Também foi despertada a curiosidade investigatória
para saber qual a estrutura da personalidade desses homens, lançando-se mão
para tanto, do teste projetivo “Szondi Trieb”. MÉTODO Como
amostra foram sujeitos dez presos (10%) pelos artigos 213/214, pelo Código
Penal Brasileiro CPB. O universo de presos da 1a DRP varia
entre 800 a 900 encarcerados e desses, 12% são tipificados pelo Título
VI, constituindo um grupo de aproximadamente 108 pessoas. Foram
selecionados pelo critério acidental, dentre os encaminhados por esses
artigos, para “Exame Criminológico” pelo Judiciário, para a equipe técnica
desta Delegacia, localizada na cidade de São Leopoldo, Rio Grande do Sul,
Brasil. Os
sujeitos foram todos indivíduos presos, julgados e condenados, cumprindo
pena em algum dos presídios da Primeira Delegacia Regional Penitenciária
(1a DRP) da Superintendência dos Serviços Penitenciários, do
Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, (SUSEPE) situados nas cidades de
Canoas, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Taquara, São Francisco de Paula,
Montenegro, Gravataí, Osório e Torres. Os
instrumentos utilizados para a coleta de dados foram: -
Uma ficha com registro, com aplicação individual, de questionário
aplicado, semi-estruturado e das colocações ou depoimentos fornecidos
ante os conceitos apresentados, todos analisados sob as categorias
propostas no estudo. -
Ficha com registro da aplicação do “Szondi Trieb Test” (Teste psicológico
projetivo) -Também
se utilizou o “Processo de Execução Penal” PEC, do preso para
averiguação de seu histórico penal. (Denúncia, Julgamento e Vida
prisional) A
coleta de dados foi realizada nos presídios da região da 1a
DRP. A mesma foi lenta, demorada, pois no universo de presos existem
poucos por este tipo penal enfocado. Muitas vezes em atividades de execução
de entrevistas, para elaboração de laudos, não aparecia nenhuma pessoa
incluída na expectativa. Há, que se considerar, entretanto, que nos presídios,
das Delegacias Penitenciárias, do interior, não é evidenciado o tipo
penal, ao qual os encarcerados respondem, mantém-se em oculto seu delito.
Portanto, se não acontecer na hora do “exame criminológico”,
torna-se difícil realizar alguma investigação, que tente evidenciar o
tipo penal. Para
o levantamento do questionário e das colocações ou depoimentos
fornecidos, ante as categorias apresentadas, foi utilizada a análise de
conteúdos, na forma qualitativa (Bardin, 1977) com uma analogia
interpretativa sob a ótica de Foucault GARIMPAGEM O
material foi avaliado pelas respostas fornecidas ao questionário,
elaborado segundo categorias, que serviram como processo de ancoragem, da
“violência” e especificamente da “violência sexual”. As
quatro categorias utilizadas foram: a - Cognição; b - Afeto; c - Ação;
d - Opiniões e Valores. a
- CATEGORIA: COGNIÇÃO O
que pensas hoje em relação ao acontecido? Surgiram
verbalizações críticas: "Arrependimento",
"vergonha", "hoje pensar diferente". Esta
representação crítica surgiu em primeiro plano, demonstrando representação
social dentro dos padrões de nosso código moral vigente. Também
colocações de: "Auto referência, ou de prejuízo pessoal";
“Pensamento sobre a vítima e familiares”; "Negação do
cometido" Verificou-se,
que a representação social de moral e da adequada convivência está
presente nestes apenados, bem como surge o pensamento de auto-referência
com o prejuízo pessoal sofrido como conseqüência do ato insólito e
sobre o prejuízo da vítima e de seus familiares.
O
que pensas em relação ao futuro? Foram
emitidos conteúdos, que denotam representação social de cunho moral.
"Trabalhar". O pensamento "trabalhar para melhorar de
vida”, aparece em primeiro plano ; “Dedicar-se à companheira e aos
filhos”; "Desejo de retornar à comunidade";
"Recuperar-se" também é expresso Constatou-se,
que o desejo de “reinserção social” através do trabalho e recuperação
aparece como senso comum desses presos e a necessidade de dedicar-se a
alguém, como companheira e filhos. Aparece
uma noção inerente ao dito, a de “repressão”, noção que para
Foucault faz parte de um esquema entre luta e submissão.
Nesta relação entre forças, o apenado expressa sua manifestação
de desejo de “submissão” ao código moral. (Machado, 1998, p. 177) b
- CATEGORIA: AFETO O
que sentiu no momento do crime? Verificou-se,
que dois detentos evadiram-se de expor seus sentimentos.
(Ficando no não dito, ou no ocultamento); "Não sabe se amor
ou ódio" (Sentimentos ambivalentes); "Prazer",
"Arrependimento com conotação de desvalorização para a ação e
auto-referência” (Me arrependi muito de ter feito isso aí); "Algo
explosivo, inexplicável"; “O mundo ia desmoronar sobre mim”
(auto-referência). Constatou-se,
que as respostas forneceram considerações sobre emoções, sentimentos
explosivos, ambivalentes, ou de auto-referência, com noção de prejuízo
pessoal. É de notar-se a evasão de respostas acontecidas, que significa
o ocultar os sentimentos ou permanecer no “não dito”. Este “não
dito”, para Foucault significa “o negar-se a um exame de consciência
e negar-se a transformá-lo em um discurso confessional”. Em Foucault,
também se encontra em seu estudo sobre “Uso dos Prazeres” que “no
afeto de si para consigo voga o prazer, ou melhor, o desejo” que nos
casos em pauta desses detentos, se expressaram em práticas advindas de
fortes desejos e emoções, conforme verbalizaram. (Deleuse, 1998 p. 113)
Verifica-se uma instância na qual a força do sentimento encontra-se no pólo
pessoal, num modus egoístico,
sem consideração para com o outro. Constata-se uma relação de
alteridade, onde o outro é paciente da violência da ação resultante de
um descontrole emocional. TEMA:
RELACIONAMENTOS Com
a mãe: "Bem" sete detentos ou a maioria;
"Avó criou. Dava-se bem" (Um apenado); "Mal, por que ela
me exigia". (Um detento); “Tia criou. Dava-se bem". (Um
apenado). Em
expressiva maioria, ou nove detentos relacionavam-se bem com a mãe ou
figura materna, apenas um não se relacionava a contento, porque se sentia
revoltado com as exigências maternas. Logo, não aparece, não é
explicitada revolta com a figura materna.
Com
o pai. "Bem". (sete presos).
"Mal" com a figura paterna na figura de padrasto, por que bebia
muito, (um preso); "Evade-se" de responder. (dois presos). Verificou-se
que, na grande maioria os presos relacionavam-se bem com a figura paterna.
Os que se evadem talvez quisessem esconder problemas, com a figura
parental. Mas denota-se em geral, que aparece maior problemática com a
figura paterna, que com a materna. Com
irmãos: "Bem".
(oito presos);"Sem relacionamento". (dois presos). Constatou-se
que a maioria relaciona-se bem com os irmãos. Com
filhos: "Bem".
(seis presos); "Não tem".(quatro presos). Observou-se,
que mesmo o pai que estava condenado por tentativa de estupro da filha
relata, que se dava bem com os filhos. Esse seus entendimentos. Com
a mulher "Bem".
(sete presos). "Não tem" (um preso) "Relacionamento
frio”.(um preso); “Mal”. (um preso). O
que tem relacionamento frio, responde "Mulher..., não é
doutora"; O pai que tentou estuprar a filha respondeu: "Bem, a
mesma companheira, há vinte e dois anos"; "A gente se dá bem.
Mas não é mais como era antes, ela não me perdoou"; Um assume que:
"Dava-se mal com as companheiras, que teve". Na
maioria, responderam ter bom relacionamento com a companheira, ou assim
acreditavam ser. Com essa resposta, demonstraram uma representação
social em relação ao gênero feminino impregnada de desvalia, pois
embora considerem bom o relacionamento, não deixaram de praticar violência
sexual contra mulher. Sendo
que, no caso do pai, que tentou estuprar a filha, ao ser entrevistada sua
companheira, ela demonstrou grande apreço por ele. E observou-se, que ela
o colocava como um “bom companheiro” porque é um “companheiro
provedor” e culpava a filha por ele estar preso. Na
realidade, na prática de avaliação criminológica, encontra-se muito
esse tipo de reação, principalmente em mulheres dependentes emotiva e
economicamente. Com
as respostas dadas, observa-se neste relacionamento a opressão, o poder
ou a força exercitada pelo homem, que continua em nossa era, século XXI,
quando a maioria das mulheres ainda não ingressou na “luta da resistência”
a que Foucault chama também de “movimento revolucionário“. Um
movimento, que segundo ele historía, apareceu com a causa da revolução
proletária, juntando mulheres, prisioneiros, soldados, doentes nos
hospitais e homossexuais, que iniciaram uma luta específica contra uma
forma particular de poder, de coerção, de controle, que se exerce sobre
eles”(Machado, 1998 p. 78) c
- CATEGORIA: AÇÃO Já
foi abusado? "Não".
(oito presos); "Sim" Pelas empregadas um preso; por colegas,
entre crianças, um preso. Constatou-se,
que na maioria dos presos entrevistados, tanto para esta pesquisa, bem
como os demais, quando no “exame criminológico”, não passaram pela
experiência de terem sofrido abuso sexual. Tem
abusador na familia?
“Não". Todos. Verificou-se que tanto neste estudo quanto em geral,
nos exames criminológicos os apenados por "Crime Contra os
Costumes", não tem familiar nesta condição de delito. Alguém
da família já foi abusado ou estuprado? "Não".
Todos Apareceu
como uma constante, o fato de não haverem pessoas que tenham sido vítimas
sexuais nas famílias dos presos em questão, bem como nos que se
entrevista no geral, dos presos por esse delito. Estas
três últimas perguntas dão conta da não existência de “herkunft”
que segundo Foucault “é o pertencer a um grupo, de sangue, da tradição,
de ligação entre aqueles da mesma altura ou da mesma baixeza”. E o
lugar da “herkunft” é o
corpo, superfície da inscrição dos acontecimentos. Lugar de dissociação
do Eu. Ela forma uma análise da proveniência, que está no ponto de
articulação do corpo com a história. No caso em pauta não existe uma
história pessoal significativa arruinando o corpo desses apenados. Ou não
existe “herkunft” nesses
presos violentadores sexuais.( Machado,
1998, p. 21). O
que o levou a isso? "Drogas
e bebida, bobeira". (oito presos); "Vítima culpada" (três
presos) ou “Vítimas que se insinuaram; "Nega o delito". (um
preso). Nesta
pergunta também são evidenciadas as
seguintes respostas: "O
guri, 6 anos, estava pelado, eu fui mudar roupa dele, eu embriagado, ele insistiu, aí eu cometi o erro". "Minha
bebida. A mulher e a sobrinha dormiam no mesmo quarto, a casa era pequena.
nem pensei na mulher que
estava dormindo”... ”Foi
sedução dela ,saí com amigos, não tinha nada programado" Verificou-se
uma representação com atribuição de responsabilidade jogada em cima de
circunstância, ou ambiente, numa tentativa de defesa pessoal e psicológica.
Mas
para Foucault, recai no “afeto de si” carregado pelo desejo de prazer,
por um ato egoísta, onde a pessoa do outro não voga. Já
havia feito isso antes? "Não".
Dez responderam negativamente. Chamou
atenção as respostas lacônicas. "Não. Não senhora"
Demonstrando “repressão”, ocultamento, para responder ou confessar,
“para fazer um exame de consciência e transforma-lo em discurso”
(Machado, 1998, p. 230). Um
apenado disse. "Não,
nunca. Eu ia na zona." Inclue-se
nesta resposta negativa ao pai, que tentou estuprar a filha. Sendo que no
presídio corria o boato, de que ele já havia estuprado outra filha, a
mais velha, agora casada e vivendo em outro estado. d
- CATEGORIA: OPINIÕES E VALORES
TEMA:
VIOLÊNCIA Exposição
genérica: “País
desestruturado". Um preso (Jogando a responsabilidade para o país).
“É tudo. Violência gera violência"; ”Nunca tive problemas em
festas, com amigos"; "Ë assustadora... É horrível... As
coisas estão sérias, fico apavorado..."; "Violência...Crueldade...A
pessoa tem noção da coisa"; "Sou contra a violência" Auto
referência: “Não
leva a nada. A gente leva prejuízo” (auto-referência); "Errado,
ruim quem comete vem para a cadeia"; "Não brigar, não roubar
mais, não fazer o que fiz, que é violência pesada" Verificou-se,
que os apenados expressaram suas “representações sociais” dentro de
linhas familiares pois : numa forma genérica, conduzindo para o país e
numa idéia de auto-referência. Apenas uma pessoa afunilou para o
ato praticado. Eles
deixaram transparecer claramente, a “noção
de dobra” de Foucault, a qual ele conceitua como: “mostra como o
Outro, o longínquo é também o mais próximo. (moral)...
a dobra é como a feitura de um forro na costura, torcendo, dobrando,
cerzindo para dentro a noção moral vigente”. ( Deleuse, 1998,
p 105) Os
presos usaram dobra para a representação social de moral com crítica
para violência. TEMA:
VIOLÊNCIA SEXUAL
“Aí
eu não sei... mas ter um diálogo, para lhe dizer”.; “Um ato que
ninguém deve fazer, sou contra por princípio. Totalmente contra”...;
“Foi o que aconteceu comigo... é inexplicável...a gente teve clima,
mas ela colocou limites...eu sei que era moça que andava na rua, de
madrugada, ela estava sozinha no baile, como outras”... Constatou-se,
que a “representação social”, de interdito, de violência
encontra-se presente em todos esses apenados, delituosos no sexo. Logo,
tem-se outra perfeita “representação social” expressa pelo termo “Duque
13” que encerra uma forte questão de rechaço por parte dos demais
presos, em relação aos apenados por violência sexual, ao ponto de terem
esses criminosos, que formar uma galeria particular no “Presídio
Central” de Porto Alegre e em outros grandes presídios do Rio Grande do
Sul. Nos pequenos cárceres do interior, o delito praticado permanece
oculto na convivência dos presos. Mas,
apesar da representação moral formada, expressa pelo rótulo de “Duque
13” para os violentadores, pode-se dizer que eles deixaram-se seguir
pela lei da alma, quando em sua ação abusiva, lembrando Foucault (1999,
p.146), quando em seus estudos sobre a relação da alma e do corpo, na
tradição médico-filosófica antiga lhe dá importância ao expor: “O regime proposto,
para os prazeres sexuais, parece estar centrado inteiramente sobre o
corpo: seu estado, seu equilíbrio, suas afeições e as disposições
gerais ou passageiras em que se encontra. Todos aparecem como variáveis
principais, que devem determinar as condutas. De certa forma, é o corpo
que faz a lei para o corpo. Contudo, a alma tem seu papel a desempenhar,
pois é ela que incessantemente se arrisca a levar o corpo além de sua mecânica própria e de suas
necessidades elementares, é ela que incita a escolher momentos, que não
são apropriados, a agir em circunstâncias suspeitas e a contrariar as
disposições naturais” . Vale
ainda relacionar o dito pelos apenados, considerando as relações de
poder e de abuso de força, na área sexual, realizadas por eles, com
Foucault (Deleuse 1998, p. 38): “As
relações de poder se inserem em todos os lugares, onde existem
singularidades, ainda que minúsculas, relações de forças como
discussões entre vizinhos brigas de pais e crianças, excessos
alcoólicos e sexuais, rixas públicas e tantas paixões
secretas... o poder agiria por violência ou por ideologia, ora
reprimindo, ora enganado ou iludindo... bem pode acontecer que a violência
esteja na sala ou mesmo na rua...” Em
relação ao termo empregado “fui
um monstro”, verifica-se como esse preso usa o termo numa dimensão
similar à enfocada por Foucault, em seu livro “Os Anormais” (2001, p.
70) onde se lê: “O
campo da aparição do monstro é um domínio que podemos dizer
pertencente ao jurídico-biológico... Dizemos que o monstro é aquele que
combina o impossível e o interdito. Daí, um certo número de equívocos
que vão continuar e é por isso que eu gostaria de insistir um pouco mais
acerca deste ponto - ao freqüentar desde muito tempo a figura do homem
anormal, o conheceria tal como estaria constituído na prática e no saber
do século XVIII, e após, quando teria reduzido, confiscado ou absorvido
de alguma maneira, os traços próprios do monstro. O monstro, com efeito,
contradiz a lei. Ele é infração, é infração levada ao seu ponto máximo,
é infração no seu estado bruto”. Pode-se
dizer que, o que faz a força e a capacidade de inquietude do monstro é
que, ao violar a lei, ele a deixa sem voz. Ele embosca a lei que está em
vias de infringir. No fundo, isso que suscita o monstro, no momento mesmo
em que, por sua existência, ele viola a lei, não é a reposta da lei em
si, mas é uma outra coisa. Isso será a violência, será a vontade de
supressão pura e simples, ou ainda esses serão os cuidados médicos, ou
ainda isso será a piedade. Mas não é a lei em si, que responde àquele
ataque, que representa, entretanto, contra ela, a existência do monstro. O
monstro é uma infração, que se coloca automaticamente fora da lei e está
aí um dos primeiros equívocos. O segundo é que o monstro é, de
qualquer forma, a forma espontânea,
brutal, mas por conseqüência, a forma natural da contra-natureza.
É o modelo grosseiro, a forma desenvolvida pelo jogo da natureza mesma,
de todas as irregularidades possíveis” Também
ressalta na observação do dito pelos apenados, a tentativa de imputar à
vítima a culpabilidade, utilizando a noção de vítima provocadora, tal
como aparece nos estudos de Mendelsohn
(Schivitz, 1999. p. 15) E,
ainda a colocação, de que antes do ato sexual, deve haver diálogo, o
que não impede a ação agressiva posterior. Essa é uma colocação ingênua
onde o preso, demonstra que sua prisão aconteceu porque não teve diálogo,
antes do relacionamento sexual, como se seu poder de convencimento através
do discurso, fosse mudar a reação negativa da vítima. TEMA:
SEXO Verificou-se
respostas como: Evocando afeto,
amor: “Normal. Com quem a gente gosta é a melhor coisa que tem”; Evocando
o casamento: “Dentro do casamento não causa constrangimento...”,
“Fazer sexo, marido, mulher...”; Evocando
diálogo: “Tem que ter
tempo para conversar..”; Evocando
concordância: “É bom quando concordam um com o outro...”,
“Deve ser prazer para ambos igual...”; Evocando
normalidade : “Acho que “fazeria”
uma parte, no caso do ser humano...”; “Necessário para viver...”. Observou-se,
que os apenados evocam afeto ou amor, casamento ou “dispositivo de aliança”,
diálogo, novamente com idéia persuasiva, concordância, para não haver
agressão, normalidade em sua prática humana, mas sem excluir o poder do
macho. Há que se considerar, que na prática delituosa, esses apenados fizeram o exercício do desejo de prazer e do poder, através do sexo. [1] “Duque 13”. O termo duque refere-se á nota de dinheiro em papel, com valor de 2, que trazia a imagem de Duque de Caxias. Representando simbolicamente dinheiro de baixo valor, um duplo, coisa material, bem de troca,desvalorizada.Também Duque representa a soberania, o poder de vida ou morte, a onipotência. Dois ou duzentos, associado ao 13 que representa o final do tipo penal 2(13). Então fica configurado simbolicamente Duque e treze, o Artigo 213. Um artigo que fala em relação de troca material, onde o algoz tem o poder de soberania e ao outro cabe a submissão. Duques ou homens infames? __________________________ |
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TEMA:
PRAZER Constatou-se
verbalizações: Ligando à
transgressão e auto domínio: “Algo bom, desde que não me leve a
transgredir. A gente tem que ter domínio”, “Não fazer nada errado na
rua, comete se quer... “; Evadem-se de responder: -“Não
sei o quê dizer...”, “O quê dizer...” ; Questão
de normalidade: “Uma coisa normal...”, “O cara estar de bem com
a pessoa, não estar bêbado não estar nada...” (refere-se a drogado
possivelmente); Expressando
alteridade: “Viver com
minha companheira...”. Constatou-se
então, que o prazer nesses presos está vinculado, a representações de
auto-domínio, normalidade, alteridade, permanecendo em nível oculto ou
sem confissão, para os que não respondem. Novamente
ressalta-se com Foucault
a relação do “cuidado de si”, “ do auto-dominio”
ou da “ auto-governabilidade” e das “ relações sexuais com
o dispositivo de aliança, ou dentro do casamento ou união”,
mas relação que também
carrega a noção do monopólio ou posse
unilateral pelo lado do gênero masculino. Retorna-se
a Foucault (1998), quando expõe: “Podemos reconhecer o desenvolvimento de uma arte, de uma estética da existência (técnica de si) dominada pelo cuidado de si. Essa arte de si mesmo, já não insiste tanto sobre os excessos aos quais é possível entregar-se e que conviria dominar para exercer sua dominação sobre os outros”. |
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Quanto
ao poder, se constatou respostas como: Representação
Social ligada a aquisição de bens,
ou colocada em coisa objetiva: “Trabalhar, ter saúde...”; “Lugar
para morar, trabalhar...”; “Quem tem dinheiro, tem poder...”; Ligado
a fatores psicológicos e de auto governabilidade: “Sair de cabeça levantada...”; “Ter personalidade,
ter poder para raciocinar...”; “Força de vontade...”; “Levar a
vida certo...”; “Conquistar com o próprio suor, as próprias
palavras...”; “Uns querem ser mais que os outros...”; Ligação
negativa: “Não tenho nenhum..”;.Ligação
alternada: “Umas pessoas tem poder, outras não”; Dimensão
religiosa: “Na terra ninguém tem poder. Poder é Deus”... Verifica-se,
que ressaltam representações com relações de poder sociais, relações
de poder individuais (ou consigo próprio) como as estudadas por Moscovici
e uma dimensão de relação de poder religiosa, que também pertence ao
corpo da representação coletiva, descrita por Durkheim. Ainda nas
representações sociais expostas, verificou-se também a busca pelo
poder, pelo lado material ou o de conforto. |
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TEMA:
DISCIPLINA Quanto
à disciplina, verificou-se: Dimensão de ação
correta, com enfoque individual e de
espaço, principalmente enfocando o mecanismo disciplinar existente na
cadeia, tanto do sistema disciplinar jurídico, quanto entre os apenados:
“Fazer tudo certo, como eu, na
cadeia...”; “Eu aprendi na cadeia...”;
“O que eu tenho dentro do sistema;. na cadeia”; “Comportamento sério...”
(na cadeia?); “Respeitar ao próximo para ser respeitado...”; “Na
alimentação...”; “Saber conversar...”;
Dimensão com enfoque social: “Respeito ao próximo...”;
“Respeitar as crianças...”; “Educação, boa conduta”. Então,
quanto á disciplina verifica-se, que passa por relações de corpos e noção
de espaço. Ou, que as representações de relação de disciplina,
realizadas pelos detentos, enfocam as dimensões social e a centrada na
pessoa e sempre através de um corpo dócil, submisso, no presídio
(Foucault, 1995) E,
passam pela noção foucaultiana de “espaço”, ou especificamente do
espaço - cadeia. Noção, que está implicitamente ligada ao poder, pois
Foucault também propõe a disciplina como uma “técnica de poder” já
que ela implica numa vigilância perpétua e constante dos indivíduos.
Vigilância, que pela auto-governabilidade transita pela auto- vigilância
desses presos enquanto na cadeia, convivendo com outros delinqüentes, de
quem eles são temerosos, bem como o são do sistema administrativo. A
prisão é onde se exerce o poder...(Machado, 1998, p.107) De
outro lado, falam dos propósitos de seguirem as normas de boa convivência
no corpo social externo ao presídio, para onde retornarão, após
cumprirem suas penas.
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TEMA:
RESPEITO Constatou-se
as assertivas com senso comum de: “Respeitar para ser respeitado...”; “O mesmo que disciplina...”; “Respeitar não importa
quem seja, drogado, prostituta...”; “Se as pessoas respeitassem mais
uns aos outros a criminalidade seria menor...” |
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TEMA:
MORAL Surgem
representações como: Enunciados
afirmativos: “Ter educação...”; “A verdade de um homem, a
moral de um homem”..; “Acho que é seriedade, ser honesto...”; Enunciados
negativos: “Se não tem moral é coisa á toa...”;“Não sei o
que dizer, não sei o significado certo de moral... acho que é seriedade,
ser honesto...”; “O que a gente não tem quando erra... aí acaba a
auto-estima..”; “O que eu tive antes desse período...”;“O que eu
fiz, foi um fato sem moral...”; “Não falar palavrão...” Quanto
à moral, surge uma representação afirmativa e uma negativa, relacionada
á ação cometida. Cabe lembrar Foucault (1988, p.282), quando escreve:
“La Mothe Le Vayer” e expõe: “Que
o governo de si mesmo, diz respeito á moral; que a arte de governar bem
uma família diz respeito à economia; a ciência de bem governar um
Estado, diz respeito à política. E que há uma continuidade ascendente
pois aquele, que quer governar um Estado deve primeiro saber se governar,
governar sua família, seus bens, seu patrimônio”.
Quanto
à verdade, representação também colocada por um preso,
verifica-se com o pensador social, que ela é a outra face do poder e que
a verdade não existe fora dele, do poder.
Constata-se,
que se tratam de noções circulares, que surgem em dispersão, expostas
pelos presos infames. Noções circulares de relação, pois segundo
Foucault, as relações em geral são formadas sobre estratos do saber; as
relações de força ao nível do diagrama poder e as
com o lado de fora (que englobam a não relação – ou negativas)
pelo pensamento, e é através dele que se efetiva a dobra, para si. Quanto à personalidade desses homens, avaliada pelo “Szondi Trieb Test”, verificou-se que cinco apenados possuíam sexualidade normal, enquanto outros cinco apresentavam elevação dessa energia, elevação que chegava a alcançar estados patológicos; um sujeito apresentava masoquismo, um mania e três, psicopatia. Todos apresentavam fragilidade ética, bem como em todos se encontrou manifestado “afã pelo poder”. |
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Logo:
“Não
adianta dizer o quê é representado (individual ou socialmente), o quê
se representa muitas vezes, não habita o quê se faz”. “Só
me interessa o quê não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”. Oswald de Andrade.1928 |
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Sergio
Gomes |
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ENSAIOS HOMOERÓTICOS I |
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O Homoerotismo na antigüidade clássica |
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| A sexualidade, ontem e hoje | |||||||||||
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Partindo
desta concepção, penso que de todos os seres vivos, o ser humano é o único
que possui, entre tantas, duas características básicas que o distingue
dos outros seres: a capacidade de raciocínio e a habilidade da fala,
através da linguagem. A
linguagem nos propicia a comunicação seja através da palavra escrita,
falada ou através de códigos, gestos ou sinais. Somos capazes, então,
de nomear o que ainda não tem nome, de modificar e redescrever o que já
foi nomeado, ou de dizer aquilo que não queremos dizer, já que “não
somos senhores nem mesmo na nossa própria casa”. Para
aquilo que ainda não possui nome, logo, logo, conseguimos inventar
palavras novas para determinados objetos, atos ou situações do
cotidiano, de acordo com a nossa crença e moral vigentes, e compreendê-los
a partir de então como uma verdade única e universal. E quando não
temos a compreensão científica de determinado fenômeno, nossa tendência
é procurar de imediato uma explicação lógica e daí, ou o aceitamos ou
o reprimimos, afastando-nos o mais que possível, senão, exterminando-o. Na
época da inquisição, que se estendeu do século XIV até o século
XVII, para aquilo que cientificamente ainda não se tinha compreensão
causal do fato de algumas mulheres apresentarem comportamentos estranhos
à maioria da população, a acusação era de bruxaria
ou possessão
diabólica contra essas mulheres, condenando-as a morrerem
queimadas na fogueira. No
início do século XX, os mesmos fenômenos antes concebidos como bruxaria
ou manifestações do diabo, poderiam ser explicados, por exemplo, como
“ataques histéricos”, após o advento da psicanálise. O mesmo fato e
duas explicações. De
acordo com o psicanalista Jurandir Freire Costa, em seu artigo
“Homoerotismo: a palavra e a coisa”, “toda
época produz crenças sobre a “natureza” do bem e do mal, do sujeito
e do mundo, que aos olhos dos contemporâneos,
sempre aparecem como óbvias e indubitáveis. Os séculos XIV, XV,
XVI e XVII criaram as feiticeiras. E, porque a crença na bruxaria
existia, existiam bruxas. As bruxas eram um efeito da crença na bruxaria.
Sem a crença em bruxas, não haveriam mulheres que sentissem, agissem, se
reconhecessem e fossem reconhecidas como bruxas”. Para compreender o
que o autor fala, vejam o filme As
Bruxas de Salém. |
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Desde
o século XIX acreditamos na divisão dos sujeitos em “homossexuais,
bissexuais e heterossexuais”. Passamos a acreditar que há algo de
universal em pessoas com determinadas características desejantes, e
passamos a reclassificar a antigüidade a partir da compreensão do
vocabulário sexual criado no século XIX. Ora,
na antigüidade greco-romana não havia a compreensão do sexo a partir do
que aprendemos nos últimos 200 anos. Portanto, enganamo-nos ao projetar hábitos
mentais do presente na relação pederástica que havia na Grécia,
semelhante à moderna relação homossexual dos nossos dias. “Na Grécia antiga não existiam palavras
para designar o que chamamos de “homossexualidade” e
“heterossexualidade” porque simplesmente não existia a idéia de
“sexualidade”. A sexualidade é uma construção cultural recente (...). No mundo
helênico havia um eros múltiplo e heterogêneo, sem contrapartida no
imaginário de hoje. Assim, o eros da “pederastia” era, em sua
“natureza”, diverso do eros presente entre homens e mulheres ou
mulheres e mulheres (e eu acrescentaria entre homens e homens). Por princípio
era virtuoso, ao contrário da “homossexualidade” contemporânea, tida
como vício, doença, “degeneração” ou perversão, desde que foi
inventada pelas ideologias jurídico-médico-psiquiátricas do seculo XIX”,
conforme nos informa Jurandir Freire em seu artigo “Os gregos antigos e
o prazer homoerótico”. O
que estava em jogo era a educação do cidadão e toda conduta que
evocasse excesso ou passividade entre o erastes e o erômeno, era
considerada indigna, sem valor, podendo inclusive, no caso deste último,
perder o “status” social que
possuía. O
eraste, “pedagogo”, “amante” ou “homem adulto”, como queiram,
jamais poderia ser “passivo” na relação amorosa, e isso significava
não poder ser penetrado, pressionado física ou moralmente a ceder os
avanços sexuais do erômeno ou erômenes, ou de nenhum outro cidadão,
nem muito menos de um escravo, ou ser subordinado com presentes, promessas
ou com dinheiro. A virilidade era reforçada, os atos dos amantes deviam
ser comedidos, evitando exageros apaixonados. O prazer devia estar a serviço
do cidadão da polis grega, já
que a vida pública era destinada à política, ou seja, entre dois homens
adultos, era impensável que se mantivesse contatos físicos, coito anal e
manifestações apaixonadas, pois a pederastia era a forma mais nobre de
amor entre os gregos. |
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Jean-Philippe
Catonné, em seu livro “Sexualidade: ontem e hoje”, ainda
complementaria nosso pensamento, ao afirmar que “para
um cidadão, a passividade sexual é que representa problema. Desde então,
o amor entre rapazes confronta-se a uma situação contraditória, que
Foucault qualificou de “antinomia do rapaz”. O amado, o eromenes, o
rapaz, ocupa uma posição passiva, e o homem adulto, o amante, o erastes,
uma posição ativa. Ora, a função social da pederastia é a de ensinar
ao rapaz a tornar-se um cidadão, consequentemente, um homem sexualmente
ativo, por meio de uma situação paradoxal de passividade na relação
amorosa. A contradição se resolve na distribuição dos prazeres. O
rapaz é levado a dar e a não obter, ou, ao menos, não muito
ostensivamente. Além disso, ela se desfaz num processo de passagem
determinando a idade. A relação cessa quando o jovem rapaz deixa de sê-lo:
o sinal da metamorfose é indicado pelo surgimento de pêlos, no queixo e
nas pernas. Via de regra, se é rapaz entre os doze anos, a idade da flor,
e os dezessete, a idade dos pêlos”.A
pederastia, era então, um rito de iniciação daquela sociedade, que
demarcava a passagem da infância para adolescência, e desta, para o
mundo adulto. |
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O
que grande parte da literatura nos mostra é que o amor na forma de eros
era buscado da forma mais sublime, na virilização dos corpos, na
contemplação do belo, nas múltiplas formas de se alcançar eros, e esta busca estava dedicada diretamente à população
masculina, já que a mulher, assim como os escravos, crianças ou serviçais,
gozavam de menos prestígio e estava a serviço da reprodução da casta
grega. No que compete à civilização romana, poucas mudanças poderíamos
notar na dinâmica dos papeis masculinos e femininos. Deste
modo, assim como não existia uma homossexualidade inerente aos gregos, da
forma como a compreendemos hoje, bem entendido, onde há definições e
escolhas dos papéis dicotômicos ativo/passivo, desejo sexual, amor e
respeito mútuo entre os(as) parceiros(as), valorização dos atos e jogos
afetivos, fantasias ou qualquer outra manifestação amorosa que também
sirva para descrever a pluralidade da vida afetiva e sexual entre um homem
e uma mulher, a sociedade greco-romana era uma sociedade predominantemente
“masculinista”, ou seja, onde só os homens gozavam dos direitos
enquanto cidadão (apesar de haver relatos acerca da comunidade formada
por mulheres na ilha de Lesbos – no qual resultou a derivação do termo
lesbianismo/lésbica, para referir-se à homossexualidade feminina – e
que tinha na poetisa Safo sua principal representante). Vimos,
assim, que o uso dos prazeres na antigüidade devia estar a serviço da
honra do cidadão, pois era impensável na Grécia antiga uma liberdade
sexual privada na forma como as múltiplas homossexualidades são vividas
na contemporaneidade. A
“homossexualidade” grega, retomando as palavras de Jurandir Freire,
era uma sociedade onde “a
pederastia era não só recomendada como louvável e praticada por toda a
elite moral, intelectual, política, artística, guerreira e religiosa de
uma sociedade culturalmente sofisticada como a grega”. Portanto,
cair no erro crasso de nomear a pederastia grega do que hoje compreendemos
como sendo a mesma homossexualidade vista por juristas, médicos,
psiquiatras e higienistas do século XIX, é cair no mesmo erro crasso de
se pensar que na antigüidade existia uma patologia ou um distúrbio
sexual inerente dos desejos afetivos e sexuais do erastes e do erômeno,
concebendo-os como seres desviantes, doentes, “perversos”,
“degenerados”, de personalidade “anormal” e passíveis de cura. Precisamos
ter cuidado com as armadilhas que a cultura do sexo rei nos preparou e
possibilitar ver o mais longe quanto possível as armadilhas “lingüísticas”
que “a vontade do saber” nos deu como legado. |
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Sergio Gomes
é Psicólogo, com Especialização em Sexualidade Humana pelo Centro de
Educação da UFPB, e |
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Armando Correa de Siqueira Neto |
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O BRINCAR NO CONTEXTO DA PSICOLOGIA PREVENTIVA |
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Há na natureza uma sabedoria própria, um constante ensinar sobre aquilo que é natural e parte de nós seres humanos, o caminho essencial, que pode ter o mesmo número de configurações quanto de personalidades diferentes das pessoas. Este caminho natural, do desenvolvimento humano, tem características próprias, ao mesmo tempo em que é flexível frente às mudanças e conseqüentes adaptações das quais nos submetemos constantemente, porém, até o momento, uma delas tem se |
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mostrado fundamentalmente convicta de sua própria existência,
competente nos seus efeitos, simples em seu conceito e dinâmica, e
complexa no que se refere a sua atuação no ser humano, esta estrutura
invisível, o brincar, tem todo este acervo de conteúdos em seu bojo,
oferecendo a quem dele se utilizar, possibilidades naturais de sermos mais
naturais, principalmente, na infância, onde construímos a nossa base
principal, suporte para toda uma vida. Ser natural nos possibilita o
melhor acesso a nós mesmos durante a vida, para que possamos nos
observar, ora externa, ora internamente, e nessa alternância de constante
re-conhecimento de si mesmo, lidemos com boa parte de nossos conteúdos,
para que, finalmente, estejamos sempre nos permitindo continuar o caminhar
do nosso desenvolvimento.
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O brincar é essencial às crianças e nos revela de diversas formas que tem poder terapêutico natural, além de constituir auxílio na boa formação infantil, nas esferas emocional, intelectiva, social, volitiva e física. Esquecer-se do brincar é também esquecer de viver com qualidade de vida, e, ao oferecermos às crianças a possibilidade de brincar, oferecemos muito mais do que o ato em si mesmo, estendemos uma perspectiva de vida melhor, um desenvolvimento mais natural e eficiente, uma socialização decorrente de tão somente brincar, e ainda mais, a possibilidade de se reconhecer como ser, na terapia constante do expressar e concretizar criativamente os recursos internos de que dispomos. |
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| Armando Correa de Siqueira Neto - Psicólogo | |||||||||||
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| Maria Beatriz Ribolla | |||||||||||
| O OLHAR PSICOPEDAGÓGICO | |||||||||||
| Para a contrução tridimencional | |||||||||||
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A construção do olhar psicopedagógico não se encerra no conhecimento das questões cognitivas, mas no diálogo do afeto e da cognição experimentadas pelo corpo. Mais do que buscar respostas para a dificuldade em aprender, de uma criança, o psicopedagogo deve estar muito aberto a perceber o que a criança sabe e, de forma amorosa lhe propiciar a possibilidade de ter consciência conhecer do seu conhecimento, de poder sentir a sua emoção sem medo e de conseguir corporificar as percepções. Uma maneira de ressignificar a dor das crianças que não conseguem aprender, é a utilização das construções tridimensionais, como formas de intervenção. Pode-se utilizar qualquer material, como o barro, a pedra, o papel, o concreto celular, enfim, matérias de naturezas diversas e que propiciam vivências e formas de atuações diferentes. Trabalhar com as matérias, em sua diversidade, é poder experimentar os processos de assimilação e acomodação, no nível da reversibilidade operatória (Allessandrini, 1996, p.121-122), fazendo e desfazendo, construindo e destruindo, buscando reconstituir os fenômenos, seja mentalmente ou manualmente. Simultaneamente, é também a possibilidade de entrar em relação com o seu próprio corpo e suas formas de contato, é mobilizar uma energia capaz de transformar a matéria bruta em um objeto cheio de intencionalidade e símbolos próprios e, consequentemente, transformar-se no dinamismo das construções. No momento em que a criança, diante dos materiais, realiza escolhas perguntando: -
Como fazer? ela está optando por uma ação, está escolhendo entre várias alternativas o que ela pode realizar de acordo com o seu desejo e suas possibilidades, além de estar também percebendo a sua vontade como algo legítimo. Então, ela passa a criar relações, intervir, destruir, se arriscar, construir, comparar e transformar. Quantas vezes vemos crianças realizando estas ações sem o medo de errar e sentindo prazer em descobrir que do erro pode nascer uma nova possibilidade, quem sabe até melhor do que aquela que era imaginada. Acho que poucas... o que normalmente vemos são crianças que querem respostas prontas, imediatas e corretas e que por medo de errarem ou não conseguirem concretizar o seu desejo logo desistem das atividades. As mesmas crianças, “amarradas” por sua rigidez, acreditam, muitas vezes, estimuladas pela própria escola, que as respostas são únicas, não podendo existir um universo amplo de possibilidades e deixam de investigar, curiosamente, tornando-se mais passivas diante da aprendizagem. Para realizar essas “pesquisas”, que são as ações interrelacionadas de transformação entre sujeito e objeto, é necessário que a criança tenha em primeiro lugar o desejo da investigação, para que aprimore suas competências cognitivas, que são suas habilidades e recursos para realizar as tarefas . Estas competências, podem ser desenvolvidas no fazer plástico tridimensional e na consciência deste fazer, pois criando, a criança antecipa suas ações, experimenta, concretiza, desmancha, pensa, enfim, amplia seus esquemas de ação diante dos materias. As habilidades e os recursos para realizar suas ações, vão sendo mobilizadas pelas novas organizações majorantes dos esquemas que estão em constante interação e transformação e que resultam em novas operações mentais passíveis de serem generalizadas à outras situações, caracterizando o que se pode chamar de aprendizagem. Na argila, ou na modelagem da massa, o
processo de construção e destruição é menos frustrante, ou seja, há
a possibilidade de reverter a forma com maior facilidade, enquanto no
concreto celular, na pedra Esse espaço - tempo para suportar maior ou menor quantidade de frustração, frente ao desejo não concretizado, é também o espaço para o reconhecimento e a percepção das emoções envolvidas nas situações de aprendizagem e que acabam por mostrar também o comportamento da criança frente às suas dificuldades. Como ela as enxerga, como mostra para o outro e como pensa solucionar sua dificuldade em lidar com o não saber ou o não conseguir. Aos poucos vai aprendendo a solucionar suas dificuldades, ou ao menos reconhecê-las, tornando-se consciente de seus limites e ações. Outra questão relevante de caráter cognitivo da intervenção tridimensional é que durante o processo pode-se observar se a construção ocorre por análise ou síntese. Isto demonstra como a criança realiza seu contato com o conhecimento e suas interações com os objetos, ou ainda se é capaz de passar da parte para o todo e do todo para as partes. Este é um procedimento que utilizamos em todas as nossas ações do cotidiano, quando percebemos somente partes de um acontecimento, ou quando somente o captamos de forma global, sem compreender as relações entre as partes. Se, a criança realiza sua ação, construindo as partes fragmentadamente e não realiza o movimento de ordenar o todo, ela elabora através de análise. Se, finaliza seu trabalho somente com a construção de partes, esta atitude pode significar que há uma dificuldade em reconhecer o todo durante o processo de aprendizagem, ou ainda, que não consegue criar ou percebê-lo. Esta característica, em sua ação diante das matérias, pode apontar que ela apresenta dificuldade em estabelecer relações entre as partes para configurar suas experiências, e nesse sentido não consegue compreender as configurações. Mas, de forma contrária, se a criança constrói seu trabalho como um todo, não atentando para as partes, sua maneira de apreender o objeto é através da síntese. Esse procedimento pode mostrar uma dificuldade em discrimar os elementos que compõem suas experiências, assim como, as relações que estes estabelecem. De forma semelhante, a criança não consegue compreender como identificar, modificar, reordenar e desvincular as partes de suas experiências, levando também à construção da dificuldade em aprender. Logo, a possibilidade de trabalhar com a expressão tridimensional, auxilia o percurso do caminho cognitivo e afetivo entre a síntese e a análise e da análise para a síntese de uma forma mais lúdica, pois o trabalho vai dando a chance do construtor estabelecer novas relações e vivenciar novas atitudes de observação e percepção, podendo transferi-las para outras atividades do seu dia-a-dia. Além das questões cognitivas, dentro do processo de construções tridimensionais, há também as maneiras como cada criança se apropria dos materiais e do seu fazer, que são, normalmente, muito semelhantes das formas que experimentam o mundo e o conhecimento. Muitas vezes, a criança pode mostrar em sua atitude com o material uma liberação de energia através da ação e do movimento. A construção tem o papel de estimular a ação e facilitar a resposta motora, permitindo que se descarregue ou surja a energia. Durante a ação a criança pode vir a reconhecer seu potencial energético e afetivo, pois existe uma similaridade entre a ação do movimento externo e do interno, já levantada pelos primeiros pesquisadores da Teoria da Forma, à respeito do isomorfismo. Durante o trabalho, que são momentos extremamente sensoriais, pode-se observar se ela apresenta uma ação que demonstre o desejo de transformar o objeto ou não, ou ainda como é esta transformação, se há agressividade ou não, passividade ou intencionalidade. Aqui pode-se perceber a utilização de alguns movimentos energéticos, que correspondam externamente ao seu movimento interno, trazendo informações sobre a sua forma de se apropriar do conhecimento. Outra questão muito interessante em relação às construções, é a mobilização do afeto diante das criações, pois as vivências artísticas são altamente projetivas e mobilizadoras de identificações, podendo vir acompanhadas emoções intensas que são representadas pelo corpo e pelas verbalizações diante do fazer, gerando muitas vezes comportamentos violentos e de destruição do produto realizado. A abstração e a simbolização, neste momento, são os meios de criar um distanciamento quando a interferência afetiva é muito forte. Podem ser formas de diminuir o envolvimento afetivo conflitante para a realização das representações. O sonho, o faz-de-conta, o imaginário, o objeto que pode ser tudo ao mesmo tempo, traz a “brincadeira” do esconde – aparece que hora mostra a emoção, hora esconde, hora faz parte da criança, hora é do mundo, às vezes do mundo real outras da fantasia. Logo, há um constante diálogo entre a criança, os materiais e sua construção tridimensional, pois cada matéria tem o papel de atuar como intermediária entre o interno e o externo, pois são transformadores, no sentido em que permitem a exploração e a internalização das propriedades do outro (material) e também a habilidade da criança em compreender o que se pode fazer com ele ou não. Transformar, significa mudar e a medida em que as mudanças vão se tornando mais conscientes para a criança, ou seja suas interações geram representações com outras qualidades e elas vão se explicitando. Isto é, a consciência de novas organizações e possibilidades de atuação acabam sendo a fonte da mudança interna . Acredito que a mudança interna para o trabalho psicopedagógico é fundamentalmente a credibilidade de que se pode aprender, ou seja, a transformação da relação de figura e fundo, onde a figura que esteja emergindo seja aquela que traga a percepção da capacidade em aprender, o desejo de conhecer e não a incapacidade e a intolerância diante do conhecimento. Então, como psicopedagoga procurando
“fórmulas” e “formas” para resgatar o que há de mais saudável
nas crianças que nos procuram, encontro instrumentos mediadores capazes
de estimular a construção cognitiva e tocar o ser afetivo, mas o contato
só é possível quando também eu estou receptiva, amorosa e criativa
para perceber e me manter inteira na relação, o que em si já é um ato
de coragem , mas necessário para quem quer estar com o outro de forma
plena. |
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Maria Beatriz Ribolla - Psicóloga, psicopedagoga, arte-terapeuta Mestranda do Programa de Distúrbios do Desenvolvimento – Mackenzie Profa. de Psicologia da Educação e Psicologia da Percepção – FAAP e-mail: mbrib@ig.com.br |
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| Marise Vale Girão | |||||||||||
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ESPERAR OU FAZER ACONTECER? |
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Certo dia, conversávamos eu e meu esposo sobre os
ditados “quem espera sempre alcança”, defendido
vorazmente por ele, e “quem sabe faz a hora, não espera
acontecer”, praticado por mim. Na ocasião, a questão ficou em
aberto,mas perdurou e passou a exigir maior aprofundamento. E hoje eis-me
aqui, no labirinto de tantas indagações.
Mas será que quem espera sempre alcança, ou
seria isso uma forma de fatalismo, a ‘desculpa dos
acomodados’? Sim, porque, nesse caso, imagina-se que
“o que tiver de ser, será” e, sendo assim, não se precisaria
mover-se para se atingir os objetivos. Tudo viria
por determinação divina. É o que chamam Destino,
tal qual o fio da vida humana, tecido pelas parcas na mitologia grega. Mas aqueles que assim pensam acabam por desmerecer o livre arbítrio, ou mesmo aniquilá-lo, tornando-o totalmente dispensável, pois ‘se o que tiver de ser fatalmente e inevitavelmente o será’, obviamente que ‘aquilo que não tiver de ser, não o será’, não obstante os mais hercúleos esforços. Conseqüentemente, todas as batalhas, todas as lutas, tornar-se-iam descabidas e levariam apenas ao desgaste da energia vital. A bíblia a isso se refere, quando diz: “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam”, e ainda, “aquietai-vos e sabei que eu sou Deus”. Carl
Gustav Jung, psicólogo suíço, mencionou certa vez que sua vida ‘foi
realização de seu Os que se omitem são tão responsáveis quanto os que agem erroneamente, com a diferença que não são acusados pelo erro; no máximo, pela covardia. Mas há uns raros que se omitem por pura sabedoria, reconhecendo que em tudo há um momento, e há o tempo de agir, e o tempo de se omitir. Por
outro lado, no Existencialismo, Sartre defende que a inevitável condição
humana é de sermos ‘condenados à liberdade’. Essa condição, mesmo em
pequena escala – se considerarmos que nunca somos totalmente livres - gera
em nós uma imensa responsabilidade sobre nossas vidas. Por isso foi E quanto àqueles que ‘fazem a hora e não esperam acontecer’? Será que realmente ‘sabem’? Não seria esta luta demasiada uma fraqueza do espírito? Acaso a verdadeira força não estaria naquele que consegue e ‘sabe’ esperar? Pois quem espera, mesmo não atingindo o objetivo desejado, alcança o domínio de si próprio, e quem aprendeu a dominar-se já está na paz, e isso é afinal o que todos buscam. Essa questão é essencial, porque antes de se fazer algo, faz-se mister ter sabedoria para agir. Não adianta atuar de qualquer maneira. É fato, há os que não conseguem esperar tempo algum, e saem ‘des-esperada-mente’ em busca de seus ideais, o que às vezes os leva a tropeçar logo no início, e com o tropeço vem a desistência. Há os que tropeçam muitas vezes, mas não desistem nunca, não se acomodam e lutam obstinadamente, e ficam sempre ‘dando um jeitinho’, ‘mexendo os pauzinhos’ ... E acabam conseguindo um bocadinho de coisas com isso, embora de algumas se arrependam, às vezes sem ter como remediar. Ainda, há os que sempre esperam, e nunca arriscam e, se nada ganham, também não se culpam pelo que perderam. São os verdadeiramente acomodados. Finalmente, há aqueles – gloriosos! - que sabem, ao mesmo tempo, esperar e reconhecer o momento de fazer acontecer, e estes são verdadeiramente abençoados, têm uma intuição que geralmente os leva a agir corretamente e a alcançar as maiores alturas na realização de seus sonhos. Esses devemos, com certeza, tomar comoexemplo. Mas a vida é um caleidoscópio de múltiplos fatores, alguns totalmente imprevistos. No dizer de Guimarães Rosa, ‘é mutirão de todos’, cada um com o seu jeito, acomodado, lutador, ou sábio. Por isso, nem sempre teremos êxito, por mais que saibamos esperar e reconhecer o momento. Por vezes, justamente na espera é que erramos, e perdemos o bonde de nossos sonhos... Porque era necessário, justo naquele momento, lançar-nos sem medo. Alguns, no entanto, de tanta pressa, adiantam-se, e acabam por pegar o bonde errado. A sabedoria, porém, contribui para se chegar na hora certa. Ó
intrincada, emaranhada, paradoxal condição humana! Que fazer com a liberdade,
a não ser aprender a usá-la? E para aprender, às vezes se erra, pois
se é simplesmente humano... E muitas vezes um erro gigantesco leva a um acerto
fenomenal. Já diz o provérbio: ‘há quedas que provocam ascensões É-nos
impossível dominar a realidade profunda dos acontecimentos. Não se controla
o futuro – como diz Toquinho, ele é apenas ‘uma astronave que tentamos
pilotar’. Mas há sempre algo que podemos fazer, no seu devido tempo.
Ao contrário do que muitos pensam, a vida não gira em círculos, não é Ser ou não ser, agir ou esperar. Uma questão que se coloca em um abismo de múltiplas possibilidades, em que uns podem cair, mas que a outros ensina a voar. O vôo da verdadeira humanidade, da realização de potencialidades inimagináveis. O eterno ‘vir-a-ser’, o arriscar, o realizar, o esperar, o superar. O ‘salto quântico’ do ser humano. Deus concedeu-nos a liberdade (mesmo que pequena, se aceitarmos a existência de um ‘inconsciente’) e, assim, dotou-nos com a característica da transcendência, que é justamente o que nos torna humanos e não nos faz apenas sujeitos aos acontecimentos, mas também, sujeitos dos acontecimentos! Concedeu-nos também a consciência, para através dela alcançar-mos o sábio uso dessa liberdade, quanto ao seu modo e seu tempo. Portanto,
no agir da ação ou no agir da espera (pois lembremos que a sábia
espera também é uma ação), demos o melhor de nós, deixemos as omissões
e a mediocridade, e embarquemos numa viagem de
encontro aos infinitos modos de sermos e de
vivermos. |
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Marise Vale Girão, com a colaboração de Thomas
Boyadjian Neto. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará e acadêmica de Psicologia pela Universidade de Fortaleza. Servidora Pública Federal do Ministério da Fazenda mvg@noolhar.com.br |
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QUAL É A DA ERVA ??? |
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Estudo recente
questiona a eficácia do antidepressivo natural conhecido
como erva de São João. De um amarelo vivo e formato de
estrela, o fruto do arbusto perene Hypericum
perforatum produz, quando esmagado, uma seiva vermelha
que lembrava ao europeu da Idade Média o sangue de São Até o ano passado, quando veio à tona o aviso de que a erva seria capaz de alterar o efeito de certos remédios - sobretudo os usados nos tratamentos da aids e de cardiopatias, além de antibióticos e anticoncepcionais administrados por via oral-, a venda anual do produto tinha chegado a 310 milhões de dólares. Hoje, perto de 1,5 milhão de norte-americanos usam regularmente o extrato na tentativa de combater o sofrimento da alma. Mas essa turma talvez precise agora encontrar algo diferente para animar o espírito, já que há uma suspeita de que a flor tenha perdido o notório viço. Na semana passada, uma equipe médica concluiu que o extrato é praticamente nulo no combate à depressão crônica. Até hoje, é de longe o estudo mais decisivo sobre a eficácia da milfurada. Com base nas conclusões, publicadas
no Journal of the American Medical Association,
Richard Shelton, psiquiatra da Universidade Vanderbilt
e principal autor do estudo, foi taxativo ao dizer que Num momento em que as autoridades norte-americanas estariam prestes a controlar com mais rigor os chamados suplementos alimentares, a divulgação do estudo toca num ponto nevrálgico da ala que vê na medicina herbácea uma via mais natural e menos invasiva para a cura. O American Botanical Council, organização sem fins lucrativos, apressou-se em responder às notícias e circulou na imprensa um comunicado cáustico no qual tachava a pesquisa de ambígua. E o Council for Responsible Nutrition, que representa a indústria de vitaminas, disse que nada na pesquisa indicava que a erva de São João não surtirira efeito em casos de depressão leve ou moderada. John Cordaro, presidente do grupo, argumenta: "Uma pastilha pode ser ineficaz contra uma infecção na garganta e ideal para a simples dor de garganta". Shelton, porém, não arreda o pé. A
idéia da investigação surgiu quando começou a
receber uma enxurrada de pacientes com depressão crônica
que havia tentado, em vão, a cura via erva de São João. Com a generosa ajuda financeira da Pfizer, fabricante tanto do antidepressivo Zoloft quanto de um extrato da milfurada, a equipe recrutou 200 voluntários. Do grupo, quase dois terços eram mulheres na faixa dos 40. Todos lutavam há pelo menos quatro semanas contra uma forte depressão. Para alguns, era difícil sair da cama ou cuidar dos filhos. Divididos em dois grupos, e sem saber a qual pertenciam, os pacientes foram tratados com a erva ou com uma pílula inócua. A dose inicial? Três comprimidos de 300 miligramas por dia, dosagem que subiu para quatro pílulas depois de quatro semanas quando o quadro não melhorou. Embora a turma que tomou a milfurada tenha progredido ligeiramente comparada à do placebo (27 por cento contra 19 por cento), ao final das oito semanas do estudo a equipe médica considerou estatisticamente insignificante a diferença. No caso de antidepressivos convencionais, a recuperação costuma acontecer com dois terços dos pacientes. Shelton e companhia admitem que o assunto está longe de encerrado. Tal final, porém, pode chegar ainda este ano, quando a agência federal norte-americana National Institutes of Health concluir um estudo de três anos. Mais abrangente, não terá uma das falhas atribuídas ao da Universidade Vanderbilt. Em vez de dividir simplesmente os pacientes em dois grupos - um para a erva de São João, outro para a pílula de farinha -, o estudo contará com uma terceira turma, a do antidepressivo com receita médica. Até lá, qual a saída para quem toma ou pensa em tomar a erva de São João? "Aguardar", diz Shelton, e considerar o uso de um dos mais de 20 antidepressivos no mercado, de eficácia clinicamente comprovada. |
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| Fonte: www.cnn.com.br | |||||||||||
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