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Malba
Tahan conta que dois amigos, Salim e Fahid, viajavam para a Pérsia e,
ao cruzarem um rio, Salim foi pego na correnteza, e teria morrido se o
amigo não o ajudasse.
Agradecido,
pediu que seus empregados gravassem numa rocha: “Aqui, Fahid salvou a
vida de seu amigo”.
Quando
voltavam, uma discussão tola fez com que os dois brigassem. Fahid quase
mata o amigo. Depois que os ânimos serenaram, Salim chamou de novo seus
empregados e pediu que escrevessem na areia. “Aqui, Fahid tentou matar
seu amigo”.
“Quando
o salvei, você gravou meu gesto numa rocha. Agora, você escreve na
areia. Não vê que o vento apagará?”, perguntou Fahid. “Esta é a
sabedoria”, respondeu Salim.
“Escrever
as boas coisas na rocha e as coisas negativas na areia”.
Passagens gravadas na areia
todos terão,
mas desejamos que os
registros na rocha, superem sempre.
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REVISTA
DE SAÚDE MENTAL
Nº40
DIRETORIA
EXECUTIVA
Ângela
Kerber de Marigny
DIRETOR
ADMINISTRATIVO
Eduardo
Robillard de Marigny
CONSULTOR EDITORIAL
Maria Christina Accioli Freire
COLABORADORES PERMANENTES
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Lilian
Bertezlian
JORNALISTA RESPONSÁVEL
Paula Svetlic
CAPAS E ILUSTRAÇÕES
Eduardo
Robillard de Marigny
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COLABORADORES
Omar
de Souza,Sueli Menezes,Eduardo de Azevedo Mesquita,Carmen Lucia
Soares Caetano,Maria José Coelho Barnabé Silva,Maria Angelina
Pereira,Walter Boechat,Ana Maria Neiva Armentano,Angélica Moreira
de Souza,Gabriella Ferraese Barbosa,Luciane Cytrynbaum
Stern,Alvaro Cielo Mahl,Maria Beatriz Ribolla,Mauro Sergio
Stepahnies,Ricardo Kozac,Nelson Silveira Filho.
INTERNET
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Marigny
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A
Pergunta
Uma
vez perguntaram a Confúcio:
-
O que o surpreende mais na humanidade???
Confúcio
respondeu:
-
Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o
dinheiro para recuperá-la.
-
Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma
que acabam por nem viver no
presente nem no futuro.
-
Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se não tivessem
vivido...
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José Hermógenes de Andrade Fo. |
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Ser
Jovem é uma questão de Postura |
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Autor
diz que terceira idade é o período mais produtivo da
vida
Aos
35 anos de idade, José Hermógenes de Andrade Filho se
sentia um velho. Hoje, 40 anos depois, o professor Hermógenes
— como passou a ser conhecido ao publicar seus primeiros
livros sobre as técnicas e a filosofia da Hatha Yoga, na
década de 60 — considera-se no auge da vida, e
continua disposto a ensinar o caminho das pedras do equilíbrio
físico e espiritual para quem acha que já o conhece: os
idosos. Em SAÚDE
NA TERCEIRA IDADE, seu mais novo livro, editado pela
Nova Era/Record, o escritor mostra que o segredo de uma
vida plena, mesmo em idade avançada, está no cultivo de
hábitos saudáveis como exercícios, meditações e orações,
e apresenta técnicas simples de massagem, relaxamento e
alimentação, demolindo a idéia de que a vida vai
acabando com a passagem dos anos.
A
rotina do professor Hermógenes demonstra a eficácia de
seus ensinamentos. Seu dia começa às 4h com períodos de
automassagem, meditações e orações. Depois do café da
manhã, caminha tranqüilamente pelas ruas da Urca com a
mulher antes do encontro diário com o computador, onde
está preparando mais um livro. Durante a tarde, novas
caminhadas e orações, jantar e estudos à noite. Tudo
sem pressa e com absoluto desprezo por qualquer tipo de
modismo. “Quem se deixa contagiar pela normose está
perdido”, diz, referindo-se aos maus hábitos
cristalizados como normais pela sociedade, como o
consumismo e a corrupção.
O
autor acredita que SAÚDE NA TERCEIRA IDADE, por tratar de um assunto em evidência,
isto é, a velhice, pode ajudar a divulgar a Hatha Yoga
entre grupos de idosos, normalmente refratários a
terapias alternativas. “Além disso”, afirma, “é o
primeiro livro que apresenta uma geriatria sem
medicamentos, auto-aplicável, em linguagem acessível e
fundamentada em experiências.”
Potiguar
de nascimento — “devo muito de minha vida mística às
experiências de infância e juventude em Natal, o mar e o
verde se entranharam em mim”, afirma —, o professor
Hermógenes começou escrevendo livros didáticos, em
1955. Já perdeu a conta de seminários, aulas e palestras
que fez no Brasil, em Portugal e na Argentina, onde, aliás,
goza de um prestígio que julga maior do que em nosso país.
Casado pela segunda vez, tem duas filhas do primeiro
casamento. Entre os seguidores de seus ensinamentos estão
personalidades como o ator Jackson Antunes. |
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de
que forma o
livro SAÚDE NA TERCEIRA IDADE pode ajudar o idoso?
O
idoso passa por profundas transformações em sua vida e não
deve cair no caso comum de sentir-se marginalizado e
comprometido com a morte e a decadência. O livro surge
para mudar a visão da terceira idade. Cada um precisa
cair em si e dizer: “Estou tendo a chance de realizar o
melhor da minha vida e fazer coisas que não podia. É a
oportunidade de trabalhar para ajudar alguém, uma
instituição, em substituição ao trabalho profissional
que vinha exercendo. Agora posso usar o lazer da melhor
maneira.” O livro tem essa proposta, mas vai ajudar também
com a metodologia holística da Yoga. Ela envolve o corpo
físico e a estrutura energética, que atua no campo das
emoções, dos pensamentos e, acima de tudo, proporciona
um meio de chegar o mais perto possível da perfeição
divina.
Em
que princípios se baseiam as técnicas ensinadas no
livro?
Neste
livro trago novidades porque não falo apenas na Hatha
Yoga. Para a terceira idade, não posso usar determinadas
técnicas que exigiriam manobras de corpo que o idoso não
consegue fazer. Ofereço outras metodologias, como a
caminhada, mas não esta que costumamos ver, com as
pessoas conversando, escutando walkmam
e até fumando. Proponho uma caminhada completa, com a
pessoa interiorizada, apreciando a paisagem e até orando.
Também proponho a automassagem, com o objetivo de
melhorar as circulações sangüínea, linfática, energética
e nervosa. Outro método que sugiro é para restaurar a
mobilidade das articulações de todo o corpo e
desbloquear a circulação. Ainda acrescento técnicas de
meditação e oração que afirmam o poder que está em nós
e é divino. Desenvolvo outros temas que não são
propriamente metodologias, mas sugestões para práticas
da vida. Uma das coisas mais interessantes, e que tenho
usado muito entre meus alunos, é o que chamo de
positividade, ou seja, acabar com aquela história de
dizer coisas destrutivas em relação a si e aos outros.
Para ilustrar, conto a história do homem que caiu do
quarto andar, e quando chegam perto dele perguntando o que
aconteceu, diz: “Acabei de chegar.” Também falo de hábitos
alimentares. Introduzo ainda o conceito de remusculação.
Enfim, é um conjunto de propostas que se complementam. É
um trabalho holístico.
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Como o senhor comprovou a eficácia destas técnicas?
Tudo
que está no livro foi experimentado por mim e por meus alunos
em 35 anos de experiência. Nunca mudei nada. Agora resolvi
fazer uma adaptação para os idosos porque suponho que alguns
possam ter limitações. Quero que até o idoso de cama tenha o
que fazer. Abordo até o problema da aposentadoria. Estou
pedindo a Deus que o livro produza uma transformação que é
difícil para quem cristalizou hábitos errados
O
senhor encontra alguma resistência à aplicação de seus métodos?
Sim. Não
é uma resistência programada, mas afirmada através de muitos |
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anos. Pior
do que a Yoga não ser compreendida é ser
compreendida erradamente. As mulheres aderem com facilidade. Por conta
de fatores culturais, vivemos um machismo pouco inteligente. Quando os
homens experimentam os resultados da Hatha Yoga, acham que a conheceram
tarde. Em São Paulo, estive conversando com um piloto de avião. Ele
estava num estado de estresse violento. Eu disse: “Vai fazer Yoga.”
Depois o encontrei muito bem. Disse que a Yoga tinha sido uma maravilha
para ele. Perguntei quando tinha começado, e ele respondeu: “Foi a
minha mulher que começou.” A partir dela, melhorou a vida dele.
Seu
trabalho fala muito no combate ao estresse. É ele o grande vilão do
homem?
Minha
visão é de que o estresse é
a raiz comum de muitos males, a
fonte de várias doenças que matam milhões, como as do coração, sono,
hipertensão, impotência e úlcera. Na minha opinião, o estresse não é
o vilão, mas um mecanismo que a vida desenvolve para se defender. Quando
um animal se vê diante do predador, ele entra em estresse. Toda a confusão
anatômica, fisiológica, psicológica e energética é para assegurar a
integridade pessoal, e precisa ser compreendida e administrada. Se eu não
administrar o estresse ele se transforma em distresse,
que é enfermidade. A Yoga nos ajuda a lidar com o estresse para
chegar ao eustresse,
uma condição de tranqüilidade, paz, eficiência e felicidade.
Quer dizer o estresse utilizado para chegar a uma qualidade de vida
melhor.
Os problemas da terceira idade
possuem maior relação com a dimensão espiritual ou a social?
Se a pessoa aceitar meu convite no livro, vai aumentar sua capacidade
de relacionamento consigo e com os outros. O livro propõe que a pessoa
chegue á terceira idade enfrentando os problemas à sua volta sem se
deixar abater.
O senhor acha que os idosos brasileiros possuem alguma tendência cultural
de assumir uma condição de improdutividade?
Já
está em nosso inconsciente coletivo. Há quem ache que a terceira
idade é o momento de parar, ver os netos crescerem, viver isolado, cheio de doenças. O
livro vem contestar isso. Ser ou não ser jovem é uma questão de
postura. Não sei como é em outros países, mas acredito que seja
universal.
O
senhor acaba de completar 75 anos demonstrando vigor, tranqüilidade e
alegria de viver. Qualquer pessoa tem acesso a esta condição de equilíbrio?
É
bom que se diga que tenho
muitos motivos para viver
estressado. Foram 75 anos de
muitos desafios. Toda minha vida
foi batalhada. Mas “tudo
concorre
para o bem dos que amam
Deus”, disse o apóstolo Paulo. As
pessoas não só podem alcançar esta alegria, como estão
desafiadas e convidadas a isso. Quanto mais cedo
começar, melhor. O sujeito que pensa em fazer isso
quando ficar mais velho demonstra que o problema está mal equacionado
nele. Eu tenho este vigor porque faço isto há 40 anos.
A partir de que idade uma pessoa pode aplicar estes princípios em sua
vida?
No
Japão existe uma especialidade médica que é a geriatria
pediátrica. É a partir
da infância que a pessoa deve ser preparada para a velhice, aprender a escolher os
alimentos, os pensamentos, as emoções, os exercícios, enfim,
disciplinar a vida e orientá-la para alguma coisa gloriosa.
O senhor costuma dizer que o maior perigo para o ser humano é ser
contagiado pela doença da normose. O que é isto?
É
a doença de ser normal. Aí
você pergunta: “Mas o normal é doente?” Sim,
é. O que não é doente
é o natural. Normal é o comportamento
que todos têm, a mesmice generalizada. Estive lendo que, depois da
Segunda Guerra Mundial, o consumo
de refrigerantes aumentou 85 por cento. Os normóticos são os que
estão consumindo refrigerante. Quem não possui a doença prefere água
ou sucos. Muitas coisas que destroem o homem estão na moda, dentro das
normas. São normais, mas não são naturais. Normose é esta vida
pequena, mesquinha, daqueles que são manobrados pela máquina de
convencer. Os normóticos em geral são acometidos de outra doença, a
egosclerose. Por que há tanta
miséria no mundo? É porque a egosclerose
dominou as pessoas de poder. Elas pensam: “Primeiro, eu. Depois,
eu. Em terceiro lugar, talvez, minha mulher e meus filhos. Os outros que
se danem.” É isto que está acontecendo na política, nas finanças,
na educação, na medicina, nas ciências em geral. As pessoas lutam
pelo poder e, ao chegar lá em cima, continuam com isso estupidamente.
O
senhor pode apontar pessoas que não tenham se tornado normóticas?
Mahatma
Ghandi, Chico Xavier e irmã Dulce são exemplos de pessoas não-normóticas.
Durante
suas viagens, cursos e palestras, o senhor vê o interesse por terapias
alternativas e naturalistas aumentando?
Sim.
Tenho recebido muito apoio e aceitação. Mas há exceções, como
certos especialistas, cientistas e
religiosos obliterados e dogmáticos
que sentem alguma ameaça. Mesmo assim, são raros. O que apresento é
convincente não somente pelo poder da experiência,
mas também pela clareza da lógica. Minha alegria é ver transformadas
as pessoas que aceitaram meus ensinamentos, saindo de problemas difíceis.
Sem dúvida, eu seria mais aceito se fizesse alguma coisa normótica
para os normóticos. Se eu oferecer carniça em festival de urubu, vou
ganhar muito mais dinheiro, mas se oferecer flores, serei bicado.
Como
o senhor conheceu a Hatha Yoga?
Eu
tinha tuberculose. Meus pulmões pareciam casas de abelhas. Me atacou a
laringe a ponto de me deixar afônico. Como o tratamento era à base de
muita alimentação e muito repouso, quando terminou eu estava
envelhecido e obeso, apesar de ainda estar na faixa dos 35 anos. O pior
era o bloqueio psicológico e social que o médico me impôs. “Você não
pode ficar no sol, pegar sereno, ir à praia, fazer ginástica” e por
aí afora. Até propôs que eu me aposentasse porque minha vida estava
comprometida. Foi aí que ganhei um livro de Yoga de um autor indiano,
Selvajaran Yesudian, escrito em francês. Como era muito claro na didática,
comecei a fazer sozinho, como experiência. Pensei: “Ou fico bom ou
morro logo.” A transformação em poucos meses foi tão espetacular
que surgiu um novo ser daquela ruína. Senti o compromisso de dedicar o
resto da minha vida a mostrar o mapa da mina aos outros.
Então
o senhor é autodidata?
Sim.
O mestre que eu tinha era invisível, chamava-se Deus. Não havia nada
em português sobre a Hatha Yoga. O primeiro livro em nossa língua
sobre o tema foi escrito por mim a partir de minha experiência pessoal
e de meus estudos sobre medicina oriental, anatomia, psicologia e tudo
mais que me desse base para compreender o que se passara comigo.
Chama-se Autoperfeição com Hatha Yoga,
que já chegou à 35a edição. O principal é a quantidade de
cartas com depoimentos de pessoas, até da África portuguesa, dizendo
como o livro mudou a vida delas.
Além
dos livros, suas técnicas são ensinadas e divulgadas através da
Academia Hermógenes. Como ela surgiu?
Ao escrever meu primeiro livro, ele
se tornou um best seIler. Fui
procurado pelas pessoas para ensinar-lhes as técnicas. Para mim, a Yoga
era tão pura que eu não queria misturá-la com uma empresa. Um amigo
de infância montou a coisa na rua Uruguaiana e me ofereceu. Vamos
completar o 35o
ano de funcionamento. Milhares de pessoas já passaram por lá.
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Suely
Menezes
Até
Que a Morte Nos Separe
um
pacto de
descasamento |
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Nós,
enquanto pessoas, independentemente do nível social, do credo
religioso ou raça a que pertencemos, encontramos dificuldades
de relacionamento interpessoal. E quando falamos de casamento, a
idéia é que esses conflitos não são possíveis de existir,
uma vez que existe amor. Porém, essa concepção que o imaginário
coletivo retém não é verdadeira, uma vez que em qualquer tipo
de relacionamento existem situações conflitantes.
Contudo,
as liturgias que encontramos nas uniões matrimoniais nos
remetem à idéia de que o amor deve ser eterno e,
consequentemente, o casamento também. A indissolubilidade do
matrimônio é marcada, mesmo havendo divergência em relação
aos motivos e os seguimentos religiosos, de uma forma geral,
condenam o divórcio, até mesmo a Igreja Anglicana que teve sua
origem numa história de desenlace matrimonial.
O
contexto cultural em que vivemos em muito difere do que era
vivido quando as liturgias de casamento foram criadas. O perfil
da mulher e do homem do século XXI está sendo traçado por
pessoas que têm como prioridade não mais o casamento e sim o
sucesso profissional. Principalmente no sistema capitalista em
que vivemos, onde o suporte financeiro não vem mais única e
exclusivamente do marido. A mulher, com sua entrada no mercado
de trabalho, tornou-se também a provedora do lar ou
co-provedora do sustento da família.
Perdemos um
pouco da poesia que envolvia os encontros românticos dos casais
apaixonados, simbolizados por pombinhos, mas, em contra partida,
ganhamos mulheres mais decididas e atuantes e homens mais
participativos e comprometidos com o processo educacional
dos filhos,
numa constituição
familiar bem
diferente da
família nuclear
tradicional.
Porém, o
romantismo não precisará, necessariamente, ser abolido do
nosso dia a dia. Pois ainda que o amor romântico não seja mais
o personagem principal no cenário do casamento, ele não
precisará ser abandonado enquanto sentimento, mas vivido próximo
à realidade de nossos dias.
Ainda que
nossa sociedade insista em celebrar cerimônias religiosas de
casamento onde o amor tem que durar para sempre, a convivência
é que irá estabelecer a relação de casamento. Homem e
mulher, mesmo com expectativas divergentes e com formações
diferentes, têm chances de encontrar juntos o caminho da
felicidade. Sem idealizar aquele amor vivido em castelos
cor-de-rosa, onde o príncipe encantado montado num alazão,
encontra-se com sua princesa.
Dessa forma,
teremos a oportunidade de conciliar toda a ternura do sonho, que
é passada ao longo dos anos, com o desgaste natural da relação
vivida dia a dia, “o amor-paixão vai lentamente
transformando-se no amor-companheiro” (“Até que a vida nos
separe” JABLONSKI, Bernardo, p.78). Cultivando a ternura, a
amizade, o companheirismo e a cumplicidade, o amor pode ser
vivido intensamente, com toda sua magia, de uma forma
amadurecida e não sonhadora. Não aquele amor de fantasia,
baseado em idealizações utópicas, mas um amor de troca, de
entendimento, que compartilha sentimentos. É o príncipe
encantado dando lugar ao companheiro.
O casamento,
com sua rotina, não precisa ser visto como o grande vilão que
destrói o amor, podendo
ser uma união de duas pessoas que se amam num compartilhar de
ideais. A manutenção de um casamento é um trabalho diário de
amor para que sobreviva a fatores externos, como a falta de
dinheiro e/ou o desemprego.
O sonho, o
terno, o romântico, o ideal, cede à realidade, sem traumas,
sem cobrar do cônjuge o amor cinderélico encantado dos Contos
de Fada. Isso, no fundo, beneficia a todos, pois nos livra do
enfado de suportar o mau hálito do beijo guardado há cem anos,
aquele que despertou a Bela Adormecida.(Jablonski, 1998)
Não
é preciso virar as costas para o amor, pois é inegável que
ele é de suma importância para o nosso ego e eleva a nossa
auto-estima. Porém, não estamos |
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condenados a
sofrer pelo nobre sentimento, nem mesmo as mulheres,
contrariando o senso comum que diz que “toda mulher já nasce
pra morrer de amor”. Mas, homens e mulheres, podem estar
disponíveis para vivê-lo intensamente, de uma forma sublime
capaz de transformá-lo, no momento certo, num sentimento de
total cumplicidade.
O casamento
firmado no altar, com pactos do tipo “até que a morte os
separe”, não precisa ser cumprido como por um decreto, mas se
vivido por amor, sentimento capaz de unir duas pessoas no
casamento. Os pactos firmados não precisam ser selados como cláusulas
de contrato, mas num desejo de fazer o ser amado feliz.
Considerando
que esses pactos não são uma ordenança divina, ou seja, não
está nos escritos bíblicos, é uma criação humana, cabe a nós,
meros mortais, estabelecermos regras capazes de serem seguidas.
Nós, os criadores dessas normas, acabamos por tornar o
casamento uma prisão especial com direito a constituição
familiar.
Por que não
fazermos uma reavaliação das liturgias de casamento, sob o
novo contexto sociocultural em que vivemos? E então, poder
sonhar o amor com os versos dos poetas, sonhar com o vestido da
Cinderela, sem perder a noção do que é real e possível na
relação a dois num contexto de casamento.
E então se
poderia viver a realidade com a fantasia do amor, caso exista
fantasia real. Ou quem sabe ainda, trazer um pouco de fantasia
para a realidade. Vivermos a poesia do amor, não como se fosse
um sentimento eterno, mas cultivando-o todos os dias,
reacendendo a chama da paixão em todos os momentos.
Pois, se na Antigüidade o pacto de casamento era o
elemento que agia para manter a união conjugal, na
contemporaneidade dos nossos dias, o amor é o objeto principal
no matrimônio. É possível que aí esteja instalado o
conflito, no desejo de se unir regras com sentimentos. Mas ainda
que o amor-romântico de séculos atrás nos remeta aos Contos
de Fada, podemos transformá-lo no amor companheiro. Viver a
poesia do amor em toda sua plenitude nos parece possível, desde
que não se fique atrelado somente à fantasia.
E por falar
em poesia, os poetas que conseguem traduzir a alma e que
descrevem o amor, nos levam a pensar em sua existência. Pois
como diria Luís de Camões: “Amor é fogo que arde sem se
ver; é ferida que dói e não se sente; é umcontentamento
descontente; é dor que desatina sem doer...” (“Português -
Palavra e Arte”, PELLEGRINI, Tania & FERREIRA, 1996,
p.149). Poderemos sonhar ao ler os versos de Vinícius de Moraes
e, quem sabe, cantá-los ou declamá-los baixinho à pessoa
amada. Vivendo uma relação a dois não para cumprir decretos,
mas para viver a plenitude do sentimento que tornou possível a
união – o amor. |
“De tudo ao meu amor serei atento
Antes e com tal zelo. E sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento
Quero vivê-lo em cada
vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”
“Soneto de Fidelidade”
(Vinícius de Moraes)
Sueli
Menezes é Psicóloga Clínica e
Pós-graduanda
em Dependência Química
CRP 05/26755
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Carmen
Lucia Soares Caetano
Maria
José Coelho Barnabé |
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Psicologia
e Exercídios Pré-Natais
Compromisso com a Vida |
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Este
trabalho é fruto de uma ação conjunta entre a Psicologia e a
Educação Física no atendimento a adolescentes grávidas. Foi
apresentado na 1a Mostra
Nacional de Práticas em Psicologia realizada em outubro de 2000
em São Paulo.
A
gravidez é, das experiências humanas, a mais requintada. Põe à
descoberto nossas diferenças básicas de gênero, culturais e ao
mesmo tempo nossas “igualdades” biológicas.
Os
hábitos relativos a sua vivência revelam valores, crenças e
mitos de uma sociedade, desnudando as atitudes em relação ao
corpo, a mulher, aos bebês, as funções de maternidade e
paternidade e sem sombra de dúvidas em relação à sexualidade.
Ainda
não se sabe ao certo por quanto tempo permanecerá sendo
exclusivamente feminina, porém o que se sabe é que embora tenha
um período determinado, longe está de se constituir num estado
de graça. Em todos os seus aspectos significa mudança e como
tudo que se transforma necessita de um tempo para ser reconhecida
e assimilada, sendo muitas vezes vivida como algo no mínimo
inquietante.
Fisicamente
é no corpo da mulher, no seu espaço interior que o bebê é
implantado e seguem sendo duas pessoas partilhando o mesmo corpo,
sob a mesma pele; uma estranha união que leva a um profundo
retorno a vivências anteriores.
Ao
engravidar é o momento exato de tomar uma maior consciência
corporal e esta é o elemento chave no desempenho de conseguir um
parto normal, espontâneo e natural.
A
partir das intensas modifica ções físicas e emocionais as áreas
de Psicologia e Educação Física se uniram num trabalho
articulado entre esses dois campos da ciência, na perspectiva de
minimizar os incômodos físicos característicos do período
gestacional, bem como as ansiedades advindas nesse processo.
Teve-se
como objetivo realizar um estudo descritivo, que analisasse a
experiência gestacional de adolescentes, no que se refere a
prontidão física e emocional para o parto natural, tranqüilidade
emocional durante a gravidez e o índice de depressão pós-parto.
Foram
acompanhadas cerca de 92 adolescentes na faixa etária que variou
de 13 a 18 anos, e em sua maioria apresentaram baixa escolaridade,
dependência financeira de terceiros, abandono de companheiros
e/ou familiares. Registrou-se neste grupo 03 casos de dependência
química, 01 de abuso sexual e cerca de 03 adolescentes com histórico
anterior de tentativas de suicídio; além de um alto índice de
rejeição da gravidez. As adolescentes foram atendidas em 06
grupos com uma média de 15 pessoas em cada um, por um período de
aproximadamente 09 meses; tendo sido realizado também alguns
atendimentos individuais por parte da Psicologia.
Os
dois setores desenvolveram em parceria as seguintes técnicas:
a)
Expressão corporal tematizada - Trabalhando com temas
levantados pelas adolescentes, criou-se uma nova técnica de
expressão corporal associada ao contexto emocional vivido pelo
grupo; no qual os sentimentos foram transmutados para exercícios
espontâneos. Utilizando-se dos elementos essenciais da música, o
grupo foi levado a criar movimentos nos planos médio, alto e em
direções diagonais numa coreografia dinâmica e profundamente
integrada às suas emoções.
b)
Pintura em Guache - Buscou-se explorar o caráter lúdico e
projetivo da técnica como forma de se trabalhar as expectativas
vivenciadas pela grávida, em especial a ambivalência vivida
neste período. Recriou-se jogos corporais, exercícios
localizados com ritmos diferenciados e posturas diversas,
associando-os a expressão através da pintura, dos medos e
fantasias específicos do período gestacional.
c)
Modelagem com Massas Coloridas - Durante a gravidez a
mulher remonta inúmeras imagens inconscientes de sua história
interior e social que passam a permear seus sonhos, fantasias e
vida emocional. Tendo por base o processo regressivo duplamente
vivido pelo grupo (Adolescência e Gravidez), buscou-se ao
utilizar esta técnica facilitar o livre trânsito dos temores
vividos. Associou-se com exercícios onde se trabalha a região
toráxica e lombar e as paredes anterolateral do abdome; buscando
suscitar a expressão das ansiedades que permeiam temor ao parto.
d)
Relaxamento - Utilizou-se desta técnica com as gestantes
no intuito de levar-lhes a uma vivência repousante e agradável
na qual imperasse a ausência total de tensão fisiológica. Sendo
utilizado como um elemento facilitador no reconhecimento e aceitação
das emoções e sentimentos da mãe, bem como no combate ao stress
e no fortalecimento do vínculo afetivo mãe-bebê.
e)
Visualização Criativa - Associada ao relaxamento,
buscou-se mobilizar e estimular os recursos internos, na
perspectiva de promover a diminuição das ansiedades e medos, no
fortalecimento da auto-estima, no resgate da capacidade criativa e
de elaboração de projeto de vida. |
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f)
Massagem para redução de stress - É sabido que embora mãe
e bebê estejam juntos nos sentimentos e na possessão mútua
necessitam de um tempo para se reconhecerem e fortalecerem seus vínculos.
É ainda no útero que se dá o desenvolvimento da percepção
sensorial e há a partir daí o aumento gradativo da capacidade de
registrar informações. Com o nascimento os sentidos embora
prontos ainda necessitam de estímulos para alcançar a plenitude.
A massagem através do toque torna possível uma comunicação
profunda entre mãe e bebê, além de favorecer significativamente
o desenvolvimento físico e emocional da criança.
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Algumas
mães e bebês não se ligam automaticamente e vários fatores
podem interferir neste processo: drogas que anestesiam mãe e bebê;
separação prolongada depois de uma cesárea; necessidade de uso
de incubadora; depressão pós-parto ou mesmo um bebê stressado,
irritadiço, pouco responsivo, com cólicas. Tais fatos podem
levar a grandes dificuldades para mãe e bebê se ajustarem e
compreenderem-se mutuamente podendo inclusive desencadear uma
certa aversão, agressividade e/ou hostilidade na relação. De
forma especial tem-se utilizado o ensino da técnica básica de
massagem à mãe, como elemento complementar aos atendimentos
individuais das jovens mães deprimidas (casos de depressão pós-parto)
na perspectiva de auxiliar na reaproximação mãe-bebê,
minimizando os efeitos negativos do distanciamento vivido por
ambos. Para o bebê a massagem torna o contato restaurador,
reduzindo a turbulência do nascimento e o impacto da perda da
segurança vivenciada no ventre, sendo eficaz na redução de
ansiedade e stress. Para a mãe, a massagem torna-se elemento
facilitador na ligação e na compreensão de seu bebê, e aliada
a outras formas de proximidade como abraços, embalos, o segurar,
etc. a acalma, e permite uma reaproximação positiva com o bebê.
Ou seja, a massagem além de relaxar, ativa a circulação
liberando as toxinas do corpo aumentando a sensação de energia e
bem-estar; ajuda a estabelecer um relacionamento mãe — bebê
mais caloroso e o toque entre ambos possibilita a integração de
sentimentos hostis e agressivos, possibilitando a transformação
de reações negativas em respostas relacionais mais positivas e
ternas. Das adolescentes acompanhadas no período de abril/99 a
agosto/2000 foram registrados cerca de 68 partos naturais (73,
91%), 18 cesáreas (19,56%), 03 pré-termos (3,26%) e cerca de 03
abortos espontâneos (3,26%). Durante os atendimentos realizados
em Grupo de Apoio e individualmente constatou-se que cerca de 24
delas (26,0%) apresentavam um quadro de grande ansiedade,
acentuada ambivalência em relação a gravidez, muito medo em
relação ao parto além de inúmeros fatores ambientais e
circunstanciais que favoreciam a instauração de um quadro
depressivo (abandono do companheiro e/ou familiares, uso de
drogas, violência e maus tratos, históricos de tentativas de
suicídio etc.). Desse grupo cerca de 04 adolescentes (3,7%)
tiveram depressão pós-parto tendo sido dado continuidade no
atendimento pelos setores. Concluiu-se que as intervenções
realizadas contribuíram para que as adolescentes obtivessem maior
consciência corporal, o que garantiu uma harmonização
entre os sistemas muscular, neurológico e endócrino e
possibilitou uma maior prontidão para o parto. Além do que,
houve uma melhora significativa nas respostas emocionais em relação
à gravidez e a maternidade, acarretando mudanças de atitude e
respostas de otimização no enfrentamento de seus desafios
pessoais e sociais, também em relação aos bebês observou-se
maior tranqüilidade emocional caracterizada por ausência de cólicas,
sono tranqüilo e uma maior integração entre mãe e bebê.
Observou-se ainda como resultado destas atividades:
·
superação de bloqueios, timidez e silêncio que favorecem
a integração grupal;
·
estímulo da criatividade e a espontaneidade;
·
fortalecimento de vínculos;
·
quebra de sentimentos depreciativos;
·
re-equilíbrio psico-físico;
·
partilha de experiências e sentimentos;
·
liberação de ansiedade;
·
maior reconhecimento e aceitação das emoções e
sentimentos;
·
maior liberdade de expressão;
·
auto-aceitação e melhora da auto-confiança e no equilíbrio
físico;
·
expressão das fantasias e emoções;
·
redução da sensação de estranheza;
·
estímulo a criatividade;
·
melhor aceitação da gravidez;
·
redução do medo do parto;
·
prazer nas atividades;
·
hipertonia do sistema muscular, ligamentos e articulatórios
da região lombar;
·
melhora na orientação espaço-temporal;
·
melhora na coordenação motora;
·
melhora no padrão de sono;
·
melhora no contato pele a pele;
·
melhora na atenção-concentração;
·
redução de stress.
Segundo
Tedesco a história de qualquer realização pode ser contada em
partes diferentes bem delimitadas, porém interdependentes. O
desempenho de atividades e/ou atitudes transformadoras implica num
confronto com velhas estruturas de agir e pensar, bem como
recuperar experiências anteriores individuais e sociais e suas
relações com o aparato institucional e todas as suas contradições
e conseqüências fazem com que a ação decorrente seja um avanço
no processo de conscientização dos indivíduos.
Este
trabalho é uma parcela dos estudos que vem sendo realizados pelas
áreas de Psicologia e Educação Física das questões associadas
à gravidez, com o objetivo de aprimorar técnicas e estratégias
de intervenção que possibilitem uma gravidez saudável e tranqüila
para mãe e bebê.
Em
tempo de reconciliar o parto sua naturalidade e simplicidade com a
prática médica moderna, faz-se necessário despertar inovações
nas relações profissionais, de forma que seja possível adequar
métodos, técnicas e rotinas que levem em conta o bem estar da
mulher e da criança e que sejam favoráveis a sua adequação
emocional à gravidez e ao parto, resultando numa melhor adaptação
fisiológica e anatômica do corpo, auxiliando na elaboração e
superação dos medos, ansiedades e tensões vividas nesse período.
Diante
disso a mulher e sua família devem ser acolhidos com
solidariedade e respeito, devendo se levar em conta suas opiniões,
preferências e necessidades, em vez de torná-la frágil e
dependente, fortalecê-la na sua auto-estima e no reconhecimento e
defesa de seus direitos
Assim
é, respolitizar o parto-nascimento, humanizando-o e provocando
sua feminização, onde a mulher possa expressar livremente seus
valores e emoções, apropriar-se da sua história e de todas as
memórias nela inscritas, vivendo a maternidade como uma grande
crise construtiva que com sua força sustenta, amplia e transforma
a vida e o viver.
Enquanto
profissionais, acreditamos nesta necessidade de reinventar ações
e que ao despertar atitudes criativas, estas se transformem no
mundo da grávida em possibilidades de vir a ser, no sentido
estrito do direito humano à livre autoconfiguração da vida. |
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Carmem
Lucia Soares Caetano é Psicóloga CRP 09/2364
Maria
José Coelho Barnabé Silva é Prof. Educação Física CRL 158905 |
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Maria Angelina Pereira
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Biodanza |
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Material
elaborado por Maria Angelina Pereira e revisado por M. Luiza Appy.
Biodanza,
a dança da vida
A
dança é uma das formas mais antigas de o homem se relacionar com
as forças da natureza e com os deuses da criação, imagine um
sistema de desenvolvimento pessoal que utiliza como instrumentos a
música, o movimento e a emoção para trabalhar as
potencialidades do ser humano, buscando resgatar em cada um a sua
própria dança, a própria maneira de viver a sua vida e de ser
feliz.
Criador
Foi
acreditando na força da Dança e da Música que Rolando Toro
Araneda, docente das disciplinas de Psicopatologia da arte,
Psicologia da expressão e Criatividade no Instituto de Estética
da Pontifícia universidade Católica de Santiago, e membro
docente do Centro de Antropologia Médica da Escola da
Universidade do Chile, iniciou a criação do Sistema Biodanza.
A
história começou em 1964, quando Toro desenvolvia um trabalho de
pesquisa em uma faculdade de Medicina do Chile. Com um grupo de
esquizofrênicos, que tinha perdido muitas de suas referências de
vida, Rolando resolveu testar um método não convencional — a
dança.
“Eles
estavam tão deprimidos que decidi fazê-los dançar um pouco. A
resposta foi surpreendente, muito mais rápida e efetiva do que
qualquer outra linha terapêutica”,
conta o antrópologo que a partir daí fundamentou seu método em
bases teóricas.
“Ela
foi se espalhando e se provando boa para todos, especialmente para
os enfermos da civilização, que têm dificuldade de contato com
o próximo, de comunicação, problemas familiares e que precisam
resgatar sua expressão criativa e genuína.
A
música é excelente para isso, porque não passa pelo mental, vai
direto para o “emocional”, afirma Rolando.
Proposta
A
Biodanza leva as pessoas a conhecerem seus talentos, virtudes, a
ficarem mais felizes, amáveis e aos poucos vai eliminando medos
provocados pela sociedade... como o medo de se expressar; medo de
colocar limites, medo de explicitar seus desejos, seus anseios,
medo de olhar nos olhos do outro, de tocar de ser tocado, de se
aproximar etc. No lugar dos medos surgem as permissões... A
pessoa é convidada no seu ritmo e do seu jeito a se mover; a se
expressar, a se cuidar, a olhar os ritmos diferentes das
pessoas... a se aceitar e a aceitar os outros como são.
Na
Biodanza as pessoas dão um tempo para si mesmos, resgatando sua
auto-estima, resgatam a sua capacidade de contornar obstáculos na
vida, de serem mais flexíveis e transparentes. As pessoas
percebem que há muitas pessoas como ela buscando formas de viver
mais solidárias e mais afetivas... na busca de um mundo
diferente, centrado na inteligência afetiva e na qualidade de
vida.
“Todo
mundo quer viver de amor”...
A
afetividade e o cuidado consigo mesmo e com o outro é o ponto
fundamental do trabalho na Biodanza, por isso as vivências ao som
da música, supõe sempre uma auto-regulação, um olhar para si e
para o outro, um ousar mas também um auto-respeitar... cada um
faz o que é possível e como é possível naquele momento...
Sabendo que sempre podemos conectar com dons e possibilidades que
ás vezes não acreditamos que temos...
A
Biodanza convida as pessoas a ousarem ser felizes, com o simples e
óbvio da vida... resgatando a sensibilidade para olhar no brilho
dos olhos de outro ser humano, cuidar da sua própria vida, a
conectar com a sua capacidade de pedir; dar e receber... Viver
cada segundo da vida com toda a intensidade... |
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MENOS VIOLÊNCIA E
MAIS AMOR
“Vivemos
em um mundo de violência étnica, política, familiar e social.
De
acordo com estudiosos, o ser humano é a espécie em maior risco
no planeta. Deveria existir a educação da afetividade nas
escolas para acabar com essa violência” opina Rolando Toro...
“Fomos
mal educados afetiva e emocionalmente, as escolas nos ensinaram a
ir em busca do conhecimento, muitas vezes alienado do viver e do
vivido... Nossos filhos são violentados dentro de casa, enquanto
saímos para trabalhar no intuito de oferecer o melhor... e muitas
vezes o melhor seria a qualidade da nossa presença, do nosso
carinho...” (M. Angelina Pereira)
Na
Biodanza a pessoa começa a perceber como está o seu
relacionamento com as pessoas, consigo mesmo e com o mundo... A
partir dessa percepção, reaprendem-se as funções da vida, a
estar por inteiro no momento presente e a perceber que cada um tem
um ritmo.
Com
a perda da conexão com seu próprio ritmo, as pessoas começam a
ficar robotizadas, aderem a um estilo de vida apressado, mecânico
que o deixa infeliz... e aí abre-se um espaço incrível para as
doenças psicossomáticas, para o stress, para tudo que violenta a
vida. Desconectado de si e do outro,
a violência e agressão passam a fazer parte do cotidiano,
nas pequenas coisas da vida... na forma como nos
alimentamos, no tempo que dedicamos aos amigos, na forma como
trabalhamos, na forma como somos pais e mães, na forma como somos
filhos, na forma como nos relacionamos...
A
Biodanza nos leva a conectarmos com o nosso ritmo, com o nosso
afeto, com a nossa sensualidade, com a nossa capacidade de
religar; de fazer parte do universo, capacidade de ter amigos, e
de amar...
“Se
cada um passar um pouco desse amor adiante, formaremos uma grande
teia de pessoas menos robotizadas, mais autênticas e felizes” (
Marlise Appy)
Quem
busca essa dança
Freqüentando
as aulas, que geralmente são realizadas uma vez por semana, com
duração de 2 a 3 horas, engenheiros, arquitetos, psicólogos,
assistentes sociais, médicos, nutricionistas, enfermeiros,
economistas, tradutores, artistas, jornalistas, publicitários, físicos,
químicos, empresários, donas de casa, pessoas que trabalham em
informática, aposentados, educadores, universitários, crianças, jovens e pessoas da idade dourada
aderiram em todo país e no exterior a esta nova forma de Dançar
a Vida...
Como
acontece
De
início, sentados no chão, os participantes formam uma roda onde
partilham o vivido, quer na aula passada, quer algo importante de
sua vida... a escuta atenta de cada um é importante, pois permite
que a pessoa vá aos poucos ousando falar de si... do seus
sentimentos... e tecendo uma rede solidária onde o importante é
cada um, e também a construção do grupo... que cria um útero
de permissão...
Em
seguida essa roda continua mas agora de pé, as pessoas são
convidadas a se movimentarem ao som da música,
caminham, sós, ao lado de outras, coordenam seus
movimentos com 2 pessoas, 4 e com o grupo todo, e a vivência vai
passando de ritmos mais acelerados, animados para vivências que vão
se desacelerando... as músicas são mais lentas, relaxantes, a
iluminação diminui e a pessoa passa a fazer gestos suaves de
cuidado consigo mesmo, com o seu organismo. É convidada a
mover-se de forma mais fluída, mais sensível... E nesse momento
a conexão consigo e com o outro é de extremo cuidado, o mesmo
cuidado que vamos tendo conosco mesmo. Ao final a música começa
acelerar gradativamente, e as pessoas vão se despedindo e
celebrando mais esse encontro...
Através
dos vários ritmos as pessoas vão se soltando e descobrindo como
estão vivendo a sua vida, descobrem pouco a pouco, que podem ir
alterando seu estilo de viver... melhorando sua qualidade de vida,
a qualidade das suas relações.
Em
ritmos que vão desde samba até músicas clássicas, devidamente
estudadas para cada momento, cada pessoa encontra um jeito próprio
de se expressar; descobre sentimentos, necessidades, desejos.
Lentamente vai se descobrindo.
“A
música permeia a pele, chega no coração e transforma a vida”
(Janaína
Campoy Jornalista em uma matéria Aceita esta dança? Onde fala
sobre a Biodanza — publicada na revista Viva Feliz n. 6 da
Editora Europa).
DEPOIMENTOS
Matéria
nossa na Revista Viva Feliz
“Aprendi
a ser muito grata pela vida, pelas pequenas coisas. Expandi meu
mundo e entrei em conexão com os sentimentos. Tudo mudou” conta
a baiana Carolin Pimentel de Araújo, há 12 anos na Biodanza.
“Tem
muita interação. As energias se misturam, fortalecendo e
revigorando a alma” conta a dona de casa Maria Emilia dos
Santos, 53 anos, há 3 anos na Biodanza. |
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Walter
Boechat |
O
Sonho e o Imaginar
Atividades de transferência |
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“Canis panis somniat, pescatur piscis.”
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(“O cão sonha com pão, o pescador, com peixe”.) -
Ditado antigo |
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O
conteúdo dos sonhos, seu significado e sua importância para o
sonhador, são temas que têm preocupado a humanidade desde seus inícios.
Sabemos que os sonhos fascinaram o homem arcaico assim como ainda
fascina os homens nas culturas tribais de uma forma peculiar: seus
conteúdos revelariam de forma literal e direta eventos da vida
diurna. Xamãs e advinhos sempre buscaram nos sonhos fontes para
suas profecias e premonições.
Um
fato comum permeia o relacionamento do homem arcaico com o universo
onírico, pertença ele a qualquer que seja o grupo social: os conteúdos
oníricos não são vivenciados como símbolos, em sua riqueza
polissêmica, mas como sinais de significado fixo. Esse significado
fixo é dado por pressuposto cultural qualquer.
Esta
forma literal de vivenciar a subjetividade dos sonhos não é
privativa da sociedade tribal, nossos contemporâneos rurais, por
exemplo, vivem sob a influência inconsciente de um sistema de crenças
mágico, que atribui valores determinados a certos símbolos oníricos,
reduzindo-os a sinais unívocos. a fascinação
é semelhante, quer entre o xamã siberiano, que tem sonhos de
profundo significado
|
religioso,
quer seja o paciente no templo do deus-médico Asclépio, na
Grécia antiga que sonha a cura de sua doença no santuário do
deus. Também o homem simples é tomado pelo poder das imagens em
seu sistema de crenças, que rezam que certos animais ou objetos
significam eventos específicos da vida des perta. Esta rede de
significados visa estabelecer pontes entre o mundo onírico e o
mundo diurno.
O
grande valor da psicologia do inconsciente na recuperação do mundo
onírico na sociedade contemporânea, é que tanto Freud quanto Jung
preocuparam-se com o resgate de símbolos, não de sinais unívocos.
A simplicidade ingênua da antiga abordagem dos conteúdos oníricos
como sinais de valor literal foi transcendida.
Freud procurou realizar este salto fundamental declarando o sonho
uma via regia para o inconsciente e usando seu método genial das
associações livres. O método das associações libera a imagem de
seu significado fixo, uma mesma imagem pode ter significados
diferentes, para sonhadores diferentes. Mas Jung detecta uma falha
no método das associações livres, uma vez que elas podem levar o
sonhador para longe demais da imagem que constitui o sonho, e o
sonhador acabara se deparando com um complexo inconsciente, é
verdade, mas um conteúdo perta. Esta rede de significados visa
estabelecer pontes entre o mundo onírico e o mundo diurno.
O
grande valor da psicologia do inconsciente na recuperação do mundo
onírico na sociedade contemporânea, é que tanto Freud quanto Jung
preocuparam-se com o resgate de símbolos, não de
sinais
unívocos. A simplicidade ingênua da antiga abordagem dos conteúdos
oníricos como sinais de valor literal foi transcendida.
Freud
procurou realizar este salto fundamental declarando o sonho uma via
regia para o inconsciente e usando seu método genial das associações
livres. O método das associações libera a imagem de seu
significado fixo, uma mesma imagem pode ter significados diferentes,
para sonhadores diferentes. Mas Jung detecta uma falha no método
das associações livres, uma vez que elas podem levar o sonhador
para longe demais da imagem que constitui o sonho, e o sonhador
acabara se deparando com um complexo inconsciente, é verdade, mas
um conteúdo que pode ter pouco a ver com a imagem do sonho em si.
Jung lembra que para se chegar ao mesmo complexo pode-se partir, por
associações livres, de qualquer conteúdo consciente. Em vez
disso, Jung propõe o método das associações circunscritas; as
imagens são rigorosamente valorizadas, em sua textura, cor e dimensões.
As emoções particulares do sonhador em relação a cada imagem são
também enfatizadas.
Mas
neste fascinante mosaico antitético de duas realidades paralelas, a
realidade vigil e a realidade misteriosa dos sonhos, as imagens oníricas
cumprem sempre uma função básica, quer seja entre o homem
arcaico, quer seja entre aqueles da sociedade complexa, onde os
sonhos são interpretados de uma forma sofisticada pela psicanálise
ou pela psicologia analítica. A função básica do sonho é
relativizar a estreiteza da realidade consciente. A riqueza da imagética
onírica nos trás de forma definitiva uma realidade nova, que nos
faz recuar de nossos automatismos conscientes e questionar. Don
Juan, mestre (onírico ou vigil?) de Carlos Castañeda está certo:
a realidade do tonal (vigília) encobre uma realidade muito mais
ampla e significativa, o mundo do nagual (universo onírico).
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Walter Boechat é médico,
analista junguiano, diplomado pelo Instituto C. G. Jung de Zurique,
membro Fundador da Associação Junguiana do Brasil. |
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Angelica
- Gabiella
- Ana - Luciane |
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Sonhos
- O Refúgio dos desejos |
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Fizeram-se vãos esforços,
através dos séculos, na tentativa de se compreenderem e de se
explicarem os sonhos. Mas, acreditamos não haver grande diferença
no modo como as raças primitivas e os povos da Antiguidade os
relacionavam, pois ambos criam que os sonhos eram revelações de
deuses ou de demônios, provindo de intervenções de seres de
outro mundo, dando aos indivíduos a possibilidade de previsão de
algum evento.
Ainda
hoje, essa sensação perdura para muitos,
concomitantemente com outra de que existe uma mensagem a ser
traduzida a cada vez que lembramos ou relatamos um sonho.
E essa tentativa de apreender o
significado do sonho faz com que nos deparemos, em nosso
cotidiano, com grande volume de artigos, livros e manuais de
interpretação, além de inúmeros simpósios, jornadas e
congressos que há sobre o tema. Sendo assim, desde os indicadores
para jogos de azar até os tratados biológicos são bastante
procurados por variadas classes sociais na esperança de
encontrarem solução para seus males.
Observamos, porém, que a questão
afetiva, nos sonhos, geralmente, não recebe o devido
questionamento.
Pensando nos sentimentos e vivências
de um sonho, notamos que nos remetem a uma variedade de emoções
vívidas, como se estivéssemos assistindo a um filme ou lendo um
livro, absorvidos em sua trama. Assim sendo, um sonho raramente
deixa impune o sonhador, despertando-lhe, ao acordar, intensas emoções.
Somos, certamente, capazes de perder um dia de humor, ficar
enojados ou irritados com o que sonhamos ou,
contrariamente, o prazer do sonho pode fornecer o ânimo necessário
ao dia que começa.
A originalidade do sonho difere da
produção de um filme, pois sua riqueza consiste no fato de que
é “um filme” produzido e visto apenas por nós. Podemos dizer
que somos, simultaneamente, autores, diretores, atores e
espectadores dessas cenas que falam de nossa
alma, onde nos reconhecemos ou não, como agente desse enredo.
E, exatamente pelo fato de
produzirmos, encenarmos e retratarmos experiências que o mundo real
jamais nos permitiria vivenciar, é que o sonho torna-se o maior
veículo para escoar nossos sentimentos. É nesse lugar que o
sonhador desempenha, a seu bel-prazer, todos os papéis possíveis,
desde os mais loucos aos mais santos, aterrorizantes e carismáticos,
sendo capazes de converter uma emoção, de criar, produzir e
construir as mais fantásticas cenas. A elaboração do sonho é
um trabalho árduo para o sonhador, pois tem um sentido
profundamente enraizado na vida da pessoa que o elabora. |
No
estado de vigília, a atividade de pensar recorre, quase
exclusivamente, a conceitos, utilizando-se, também, em menor
grau, de imagens auditivas e impressões que pertencem a outros
sentidos. Nos sonhos, em contrapartida, temos a predominância de
imagens visuais, pois nos parece uma experiência vivida e não
uma atividade de pensar, representando uma idéia como fato
acontecido. É na maioria das vezes ao despertar, que percebemos
que estivemos sonhando. Portanto, o sonho serve-se da dramatização,
e não da fala, exprimindo sofrimentos, angústias e desejos de
modo visceral, alucinando. |
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Os sonhos podem nos revelar
as mais intensas e primitivas paixões, como um filme em projeção,
só que, ao acordamos, deparamo-nos com o impacto das imagens que
foram dramatizadas e vivenciadas com vigor e emoção.
Por essa revelação, o ato de sonhar
não pode deixar de existir, pois é o que sustenta a vida psíquica
do indivíduo. É um recurso para lidar com as impossibilidades,
na busca de harmonização dos impulsos. O sonho é uma operação
contínua de descarga de conflitos, relativamente válida para o
alívio de problemas insolúveis da vida. Por exemplo, em sonho,
desaforos podem ser ditos a um chefe, em resposta às injustiças
sofridas durante o dia de trabalho, sem ter como conseqüência
uma demissão imediata.
Paralelamente, os sonhos existem para
proteger o sono, isto é, para permitir que a pessoa continue a
dormir, repondo suas energias. Conforme Freud sentencia: “O
sonho é o guardião do sono”.
Foi Freud o primeiro a acreditar que
o estudo e o entendimento dos sonhos abririam nossa compreensão
para o imenso espaço interior da alma, até então não
conhecido. Em seus atendimentos clínicos, propôs-se a mergulhar
num mundo de escuridão, incertezas e caos, na tentativa de
compreender a mensagem contida no sonho.
A produção do sonho tem como motor
os desejos. Na verdade, são eles a força propulsora para emersão
de um sonho. São desejos insatisfeitos que reclamam por satisfação.
Os desejos são, portanto, excitações psíquicas que fariam o
sujeito acordar, por isso o sonho-Guardião do sono-, usa de artifícios
para que sejam representados, permitindo que o sujeito continue a
dormir. Por exemplo, tripulantes de um navio naufragado que se
encontram incomunicáveis e sem suprimentos sonham com uma
montanha de cigarros, com banquetes, com recebimento de
telefonemas de pessoas da família. No entanto, nem todos os
desejos são dessa espécie, tão imediatista. Existem desejos que
são inadmissíveis para o sonhador pelo fato de entrarem em
conflito com regras de conduta e leis morais julgadas válidas
pela sociedade e internalizadas pelo próprio sonhador.
Nos sonhos, sentimo-nos o centro do universo, livres e
desimpedidos de todas obrigações morais e sociais e nos
entregamos de corpo e alma aos desejos, lançando-nos com
sofreguidão à procura de prazer. Paradoxalmente, as tendências
moralmente elevadas, as aspirações socialmente apreciadas lutam
por se fazerem valer, e, comumente, esses dois tipos de tendências
opostas entram em conflito. De um lado, os desejos inadmissíveis
que tentam ser satisfeitos de modo imediato e, de outro, um agente
censor que nos aponta a moral e a ética vigente, indicando-nos o
certo e o errado; o possível e o impossível; o permitido e o
proibido. Por conseguinte, a satisfação desses desejos inadmissíveis
requer, como conseqüência, uma nova forma de apresentá-los, uma
nova roupagem, para que o sonhador não se horrorize com as cenas
de seu próprio filme/sonho. Por vezes, a confusão com que os
sonhos se apresentam e sua difícil compreensão não
passam de expressão de uma forte deformação que o desejo
inadmissível sofreu ao se exteriorizar em forma de sonho.
Podemos, assim, afirmar que esse tipo de sonho, habitual na pessoa
adulta, é uma realização disfarçada de desejos insatisfeitos.
Os sonhos são, portanto, realizações intangíveis de desejos não
consumados.
Os instigadores oníricos provêm
fundamentalmente de acontecimentos recentes na vida do sujeito.
Trabalhos inacabados, preocupações intensas, a visão de um
assalto, o brilho da lua no mar, o pôr do sol, e tantas outras
impressões são capazes de suscitar um sonho, na medida em que se
vinculem a um desejo inconsciente. Eventos externos necessitam de
uma relação com as situações do mundo interno do sujeito, a
fim de viabilizarem um sonho. Ou seja, os restos diurnos, por si sós,
não conseguem produzir um sonho.
Apesar de o sonho se alimentar de
materiais recentes, sua interpretação nos remete a um passado
distante a que estão ligados esses desejos inconscientes. Pois
esses desejos recalcados, imortais, vivem de prontidão e aguardam
permanentemente a sua descarga, assim que são reinvestidos. São
desejos infantis, eventos de um passado remoto, que permaneceram
ignorados, e que nos sonhos são reanimados e, a cada investida,
retornam para se satisfazerem. No âmago de todos os sonhos,
encontra-se um desejo infantil.
Sendo assim, consideramos possuir o
sonho uma complexa rede de associações entre o passado e o
presente do sujeito.
As forças defensivas, que durante o
estado de vigília são verdadeiras “guardiãs” da consciência,
mantendo-se em plena atividade, enfraquecem enquanto o sujeito
dorme, tornando, dessa maneira, possível a emergência dos
desejos. Não obstante, tal enfraquecimento é relativo, pois as
forças defensivas continuam operando com uma certa carga de
energia, mesmo em estado de repouso, obrigando os desejos inadmissíveis
a engendrarem-se num disfarce, apresentando-se, na maioria das
vezes, profundamente deformados nos sonhos.
A anarquia com que se apresentam os
sonhos se deve ao fato de que os pensamentos oníricos são
comprimidos, condensados, deslocados e superpostos uns aos outros.
Essa é a possibilidade de um desejo emergir das profundezas da
mente. De uma forma disfarçada, deformada, o sujeito chega a
ponto de não reconhecer seus próprios desejos e ter a ilusão de
mantê-los distantes. Podemos afirmar que o discurso sustentado
pelo sonho separa o homem de si mesmo.
A dimensão metafórica com que se
apresentam os sonhos revela uma verdade que se confessa por meio
de símbolos. De fato, tentamos nos superar a fim de revelar
desejos que não admitimos em nós mesmos, das quais sentimos
repugnância em pensar e falar, e que preferiríamos não contar a
outras pessoas. Esses sonhos de caráter desagradável aparecem
distorcidos até se tornarem irreconhecíveis, ocultando os
desejos.
|
|
Os fatos sonhados se
misturam uns com os outros de qualquer maneira, desprovidos de lógica,
como se fossem um amontoado de imagens e idéias desconexas e
desordenadas. Mas é dentro dessa anarquia que reside a mais alta
harmonia da expressão dos sentimentos.
A esse conteúdo, inacessível à
consciência do sujeito, que remete a desejos inconscientes e
proibidos, chamamos de pensamento latente. O acesso ao pensamento
latente só é obtido através do trabalho de análise
interpretativa do sonho, que seria a decodificação dessa
manifestação onírica de acordo com o código de linguagem
pessoal do sujeito.
O trabalho do sonho consiste em
transformar os pensamentos latentes em conteúdo manifesto. O
conteúdo manifesto se caracteriza pela narrativa do sonho tal
como o sujeito o recorda e exprime.
Transformando os pensamentos latentes
em conteúdo, faz-se necessário um jogo de artimanhas que tentam
driblar a censura, para que esses desejos tenham condição de
serem expressos, tal como, numa situação do contrabando, onde há
necessidade de se camuflar a mercadoria proibida, para que ela
passe pela alfândega sem ser percebida. Sendo assim, a transformação
ocorrida com o conteúdo latente não é arbitrária, ela é pré-determinada,
necessária e suficientemente eficaz para dissimular a razão do
desejo. A censura protege os desejos para que esses não sejam
reconhecidos. Ela tem o poder de propiciar o surgimento de
lacunas, fazer omissões, e acrescentar elementos ao conteúdo
manifesto. Isso faz com que o sonho, por vezes, produza algo ridículo
e estranho. Essa é uma das razões porque ao sonho é imputado
pouco valor.
Na maioria das vezes, quanto mais próximos
estamos do conteúdo latente, mais disfarces se fazem necessários;
ou, como outra alternativa, podemos nos aproximar desse conteúdo
latente, transformando-o em um conteúdo manifesto completamente
destituído de sua carga afetiva ou, ainda, incutindo-lhe uma afetividade inversa. Exemplificando,
uma pessoa relata o sonho da leitura “do atestado de óbito
cor-de-rosa do pai”. Enfrentar a morte do pai foi algo penoso,
uma fase negra em sua vida. Substituindo o negro do luto pelo
rosa, ele afasta os sentimentos dolorosos do acontecido, e tenta
driblar a tristeza da memória do falecimento do pai, acreditando
ser a vida cor-de-rosa, de alegrias. Essa inversão na afetividade
serviu para aliviar o sujeito das tensões causadas pelo ocorrido.
Consideramos, assim, que alguns
mecanismos sejam necessários na transformação do pensamento
latente em conteúdo manifesto. O primeiro deles é a condensação,
onde o relato manifesto do sonho aparece como uma tradução
resumida dos pensamentos latentes.
A condensação funciona suprimindo
partes dos pensamentos latentes, permitindo que apenas uma parte
desses apareça, ou ainda, reunindo diferentes elementos desses
pensamentos latentes em um único elemento do conteúdo manifesto,
numa única idéia ou imagem. Exemplo: Era “A” com a voz de
“B”, com o olhar de “C”, com o sorriso de “D”, falando
coisas como se fosse “E”. Essas pessoas unidas em uma só estão
relacionadas entre si para o sujeito que sonhando, torna-se capaz
de representá-las em uma única imagem, reunindo características
próprias de cada uma daquelas pessoas, tal como um mosaico, numa
colagem, onde “pessoas compostas” ou “figuras coletivas” são
representadas. E quem de nós nunca se deparou com imagens desse
tipo em seus próprios sonhos ou nunca ouviu relatos desse gênero?
Outro mecanismo é o deslocamento.
Nesse processo, o acento psíquico se transfere, ou “desloca”,
de um elemento para outro. Geralmente, aquilo que é importante
passa ocupar um plano secundário no sonho, enquanto um elemento
insignificante sobressai e passa a ter relevância. Trata-se de
representar o essencial pelo acessório, ou seja, o importante aos
pensamentos latentes do sonho não está, por vezes, representado.
Há uma transferência de valores, fazendo com que haja uma alteração,
um deslocamento de sentido.
O
deslocamento e a condensação adquirem maior coerência através
da elaboração secundária. Esse terceiro mecanismo faz com que
características absurdas e bizarras, do sonho obtenham uma lógica
aparente, na tentativa de aproximá-lo do pensamento diurno. A fim
de cumprir esse propósito de remodelação do material psíquico,
a elaboração secundária também utiliza acréscimos, omissões,
enlaces de elementos, no intuito de tornar o sonho coerente.
Sabemos, porém, que esse sentido emprestado ao sonho é tão
enganoso quanto aquele oferecido pelo deslocamento e pela condensação,
ambos a serviço de distorcer seu verdadeiro significado.
Uma pessoa sonha estar no escritório
da casa de uma amiga, onde observa, numa prateleira, uma torneira
de banheiro como peça decorativa. No processo de interpretação
do sonho, é inquirido sobre a amiga, revelando, então, o
interesse sexual que mantém por ela e a impossibilidade de
conquistá-la, já que esta é namorada de um amigo. Em associação
a essa fala, cantarola uma música cuja letra diz o seguinte:
“Estou amando loucamente a namoradinha de um amigo meu, sei que
estou errado, mas nem mesmo sei como isto aconteceu, um dia sem
querer olhei em seu olhar e disfarcei até pra ninguém notar. Vou
procurar alguém que não tenha ninguém, pois comigo aconteceu
gostar da namorada de um amigo meu”, a seguir cai numa risada
incontrolável e rememora que a peça do banheiro vista no sonho
era semelhante à do banheiro de uma antiga residência, onde
passara alguns anos de sua infância e onde ocorrera uma situação
perturbadora: ter sido surpreendido no banheiro masturbando-se,
sendo punido por seu pai.
Aliando essa recordação a outra
lembrança, o paciente recorda-se de que seu pai chamava sua mãe
de “minha namoradinha”. A beleza da mãe é exaltada,
confessando o paciente que suas fantasias eróticas masturbatórias
diziam respeito à figura materna - “A namoradinha proibida de
um amigo meu”. Novas risadas.
Portanto, esse sonho e as associações
subseqüentes nos mostram o efeito do deslocamento, onde o que é
essencial passa a um plano secundário. Os acontecimentos no
banheiro ficam representados pela timidez de uma peça decorativa.
E o amor impossível por sua mãe, pela impossibilidade de
conquistar a namorada do amigo.
A procura de uma ajuda psicanalítica
deveu-se ao sofrimento do paciente em relação às mulheres, sua
dificuldade de aproximação e seu fracasso na relação sexual.
Ejaculava precocemente e não tinha uma ereção satisfatória.
Aprofundando-se no entendimento desse
sonho, novas associações sucederam-se: -“Se eu me aproximar de
uma mulher, conquistá-la e possuí-la, vou ser punido severamente
por isso”. Uma ereção satisfatória ficava, assim,
impossibilitada, já que remetia ao temor de uma subseqüente punição:
sobrepujar o pai, gozar imaginariamente com a mãe, é ter como
conseqüência a ameaça de castração.
A ejaculação precoce
servia ao propósito de alcançar um gozo, no entanto, esse gozo
devia, necessariamente, ser rápido, quase que imperceptível, a
fim de ocultar seu objetivo.- “Uma rapidinha para eu não ser
surpreendido”. –“...que ninguém chegue a tempo de me
interromper”. E, assim, gozava ilusoriamente, com o amor de
sua infância e tinha a sensação de ter burlado o pai.
O gozo era um gozo interditado pelo
pai castrador, único detentor da posse da mãe e, por contigüidade,
detentor da posse de todas as mulheres. Sabemos que, na fantasia
da criança, tudo isso é realidade. O sonho faz o transporte
dessa realidade infantil, das situações impossíveis de serem
vividas na infância para o sonho adulto. Ou seja, estamos
sempre retrocedendo ao nosso passado, mesmo sem o desejar e sem
nos conscientizarmos disso.
O sonho prestou-se a aproximar o
sonhador de seus conflitos e desejos. Desejos inconscientes que
possuíam uma estreita relação com a sexualidade infantil.
Desejos incestuosos que a análise interpretativa do sonho
trouxe à luz.
Concluindo, acreditamos que a
mensagem contida no sonho remete, inexoravelmente, às questões
afetivas do sujeito que sonha. O espaço que o sonho demarca
serve como refúgio da alma, refúgio dos desejos. Nesse lugar,
liberamos nossos sentimentos e escapamos do julgamento moral que
atribuímos às situações. O sonho, um mito personalizado, o
emaranhado de uma história pessoal, simboliza a dinâmica da
psique.
Nos sonhos, os conteúdos são
distorcidos pelo mecanismo de censura que exige um disfarce, a
fim de que os desejos possam ser realizados sem serem
reconhecidos, daí o caráter absurdo e desconexo do relato dos
sonhos.
Este refúgio, em que penetramos
durante o sono, nos pertence com toda a sua autenticidade. Lá
reside a mágica da infância e as esperanças da vida adulta.
Desejos infantis, que permaneceram recalcados, inconscientes, têm
a possibilidade de retornarem e de se realizarem a cada sonho.
A análise interpretativa do sonho
conduz, certamente, a uma melhor compreensão dos nossos
sentimentos e emoções, trazendo à luz desejos infantis
esquecidos, mas jamais perdidos, que influenciam e movimentam
nossas vidas, sem que, no entanto, nos apercebamos disto.
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Ana
Maria Neiva Armentano-Psicóloga,Especialista em Psicologia Clínica.
Professora Ensino Público, Professora Substituta UERJ(2001).
Angélica
Moreira de Souza- Psicóloga,Psicanalista.Especialista em
Psicologia Clínica UERJ. Mestre em Psicologia Social. Professora
da Universidade Veiga de Almeida-UVA/RJ
Gabriella
Ferrarese Barbosa- Psicóloga, Psicanalista. Professora Substituta
da UERJ(2000). Assistente de direção da Clínica Psicanalítica
da Violência/RJ.
Luciane
Cytrymbaum Stern- Psicóloga, Psicanalista.Especialista em Psicanálise
Infantil. Professora substituta UERJ(2000).Ex-diretora do CEPAC.
Consultora de Escola Particulares.
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Álvaro Cielo Mahl
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Elementos
da Psicologia Social na
Relação
entre Pais e Filhos |
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A
psicologia social privilegia à espontaneidade
um papel preponderante, quando considera o processo de formação
de uma identidade - singular - voltada para o humano-genérico.
Neste processo, para atingir-se uma
consciência que aja a favor não só do “eu”
mas também a favor de toda a humanidade, faz-se uso deste sentimento, o qualificando como necessário para tal conquista. Isto
porque é pela espontaneidade
que o homem tem a possibilidade de criar
, de contestar e superar as “leis” que
mecanizam seu comportamento , isso em prol de ter-se uma vivência
(sentir) reflexiva de nossa praxis
colocando-nos a serviço do humano-genérico.
E para que possa haver tal elevação o componente emocional
deve presentificar-se em tal meditação.
Aqui, me utilizo desta concepção
para colocar o problema da relação entre pais e filhos no
processo de criação destes últimos.
Esta é uma tarefa difícil : o que
precisa-se é ajudar o filho a ser a pessoa que ele deseja e para
isso não faz-se pedir um “manual
de regras” , pois este
provocaria uma ruptura na espontaneidade
necessária nesta relação minando as possibilidades da criança
de ser ela mesma.
Bruno Bettelheim (1988) faz da relação
entre pais e filho uma analogia com o jogo de xadrez, no sentido
de que é um erro seguir o próprio plano desconsiderando os
movimentos do oponente e não se adaptando a ele, o que sugere a
historicidade deste relacionamento. Cada episódio começa de um
jeito diferente, ou
seja, este movimento constituí-se numa dialética onde as ações
dos sujeitos baseiam-se no passado mas com uma dimensão do
futuro. Aqui o pai, deve, procurar compreender cada atitude de seu
filho e adaptar-se a seu modo de agir buscando sempre vivenciar
esta história coletiva, em função de uma totalização
futura.
Em O Mal-Estar na Civilização
(1974, pg.95) Freud faz referência a Goethe mencionando uma idéia
dele : “nada é mais difícil de suportar que uma sucessão de
dias belos”. Faço uso deste pensamento para colocar que o
contraste é também necessário, ou seja, neste convívio, a
criança precisa obviamente de afeição, compreensão, carinho,
satisfações, mas também de regras
- limites - saudáveis que possibilitem uma vivência
(vontades, desejos, frustrações, perguntas, respostas, alegrias,
fantasias - isto sem produzir dúvidas ou situações agressivas
que gerem angústias) e experiência crítica favorecendo a formação
de um pensamento autônomo, descristalizador de uma postura
automatizada que verifica-se presente no cotidiano de nossa sociedade uma vez esta reger-se por um conjunto
de idéias e regras que constituem a ideologia
dominante.
Ë, portanto, importante assegurar à
criança no seu estágio de desenvolvimento, o direito de ser
livre, de lhe fornecer o máximo de possibilidades para que ela
escolha uma vida sua.
Isto,
tão somente porque, liberdade é uma condição do ser-humano. |
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Álvaro Cielo Mahl é psicólogo |
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Maria
Beatriz Ribolla |
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Adolescência
e Violência:
Contruções da Pós-Modernidade? |
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Vivemos, atualmente, neste princípio de século, uma
profunda busca de explicações sobre as diferentes formas de
relacionamentos e interações sociais. Principalmente se
observarmos, à nossa volta, os caminhos entrincheirados de uma
possível guerra mundial.
Procuramos compreender como os fenômenos sociais
mobilizam nossos espaços internos e externos, nossas relações.
Talvez estejamos tentando compreender e explicar, para não
sentirmos. Mas com certeza, estamos construindo uma nova configuração
da subjetividade, uma subjetividade ilusoriamente marcada pela
individualidade.
E os adolescentes? Como imaginam suas perspectivas
futuras, diante do caos que lhes deixamos como herança? Como
vivem suas crises e constroem sua identidade, face à inversão de
valores que construímos por décadas a fio?
Muitos teóricos (Levisky, 1998; Aberastury e
Knobel,1992; Dolto, 1990; Osório, 1999; Outeiral, 2000;
Waiselfisz, 2000) estão em busca de um conhecimento mais amplo
sobre a adolescência, fase onde há a transição do mundo
infantil para o adulto, em todos os sentidos.
Costuma-se entender este período como um espaço de
crise que apresenta comportamentos típicos de oposição e
principalmente um forte desenvolvimento da sexualidade. Mas, a
adolescência como a compreendemos hoje, no Ocidente, é um fenômeno
do séc. XX, caracterizada por comportamentos específicos,
estilos de vida próprios e valores, que podem não ter características
transicionais para a construção da identidade adulta.
Segundo Nominé (2001, p.35), a adolescência não é um
fenômeno que sempre existiu, ao menos com as características que
hoje denotamos, pois,
“... houve
uma adolescência na Antigüidade Grega, que teve inclusive um
papel bem delimitado, uma vez que o homem maduro podia tomar como
amante um adolescente, sem que se tratasse de homossexualidade,
pois essa prática pretendia ser a iniciação dos jovens efebos,
que deveriam entrar na vida sexual pela via da feminilidade...”
Na Idade Média, a criança não se tornava adolescente
para entrar futuramente no mundo adulto, pois já exercia os ofícios,
como aprendiz, com seus pais, na infância.
O que,
definitivamente, marcou o início da percepção da adolescência
como uma fase diferenciada, entre a infância e a maturidade, foi
a separação destes dois períodos pela escola, logo, “... a
juventude transformou-se em faixa etária em razão de seu
isolamento no interior das escolas...” (Nominé, 2001, p.36).
O que realmente
caracteriza a configuração da adolescência neste momento pós-moderno,
a ponto de hoje não conseguirmos entender seus comportamentos, e
por vezes, nos sentirmos intimidados por suas reações?
Uma das questões que poderíamos levantar como possível
determinante social, é a ausência de rituais de passagem. Os
rituais são determinados pelos valores de uma determinada
sociedade em um determinado momento social, logo, possuem um caráter
de totalidade, onde todos participam.
Sabemos que as cerimônias de rituais , histórica e
socialmente, denotam a possibilidade de representar o trânsito de
uma etapa à outra, através da construção de símbolos, que
auxiliam na formação das representações da subjetividade,
logo, na formação da identidade.
Hoje, os adolescentes não possuem rituais que se
manifestam de forma integral, há uma pluralidade de
comportamentos, dependendo do grupo a que pertencem e seus ritos
próprios, ou seja, as cerimônias coletivas perderam o
significado, sendo repetidas, muitas vezes, como práticas
formais.
Logo,
a possível falta de internalização de novos símbolos, que são
os símbolos do “mundo adulto”, que seriam provenientes da vivência
de rituais específicos de passagem, nas organizações sociais,
geram sensações de incerteza nos adolescentes. E estes,
na intenção de não entrarem em contato com suas dúvidas,
oscilam entre as representações infantis em um dado momento e em
outro, aventuram-se heroicamente às novas e incertas simbologias
do mundo adulto.
E quais seriam os símbolos do mundo pós – moderno,
que estão sendo inseridos no cotidiano dos adolescentes, ou mesmo
das crianças, que se antecipam em seu desenvolvimento e em suas
vivências? |
Assistimos
à construção de comportamentos que sem tempo para tudo e
consequentemente fragmentamos nossas experiências para que caibam
nas vinte e quatro horas do dia.
Consequentemente, a velocidade das informações que o
adolescente tem acesso é muito grande, mas estas passam a não
ter significado por não haver discriminação entre o essencial e
o periférico. Logo, acabam por não transformar a informação em
conhecimento, passando a consumir tudo sem um pensamento crítico
mais elaborado.
Conjuntamente
à falta de crítica, os jovens vêem-se diante da busca de
satisfação imediata, da impossibilidade de viverem a
frustração e experiência da construção de um pensamento
mágico e onipotente. Estes são atualmente, fatores geradores de
conflitos e confusão em relação às atitudes, quando estão
diante das situações de empasse a que são submetidos, fazendo
com que surja uma paralisia, em
determinados momentos e um movimento explosivo em outros. |
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Diante da inconstância produzida pelo efêmero, aprendemos e
ensinamos a banalização do sentido ético no dia – a – dia,
em nossos pequenos atos, quando pedimos aos nossos filhos para, ao
telefone, digam que não estamos, quando criticamos o
comportamento de outras pessoas, mas agimos da mesma forma e
tantos outros procedimento rotineiros. Assim, estimulamos a
desconstrução de valores e a formação de condutas
individualistas e egocêntricas como forma de sobrevivência. E
isto é repetido por nossos jovens com todo o cuidado e determinação.
Levisky
(1998, p.27) acredita que:
“O jovem, em parte, é o fruto dessa sociedade que o
formou e que, agora o repele ou lhe dá pouca guarida, ante suas
necessidades afetivas e de valores. Seus “atos irresponsáveis”
(dirigir sem habilitação, atos de vandalismos) não são nem
mais nem menos perniciosos que aqueles modelos que lhes são
apresentados diariamente por meio da violência da mídia, ou de
mecanismos políticos repletos de corrupção...”
Concomitante à essas questões, os
modelos de conduta que o jovem encontra em nossa sociedade, são
modelos que demonstram escancaradamente a falta de solidariedade,
os excessos de violência, a banalização do sexo, a ampla
ilegalidade consentida e a falta de uma figura que contemple a
ordem e a segurança como fontes de identificação para a construção
de um mundo interno menos conflitante.
Outra marca
fundamental da pós - modernidade é a vivência constante com a
incerteza de limites e o desfronteiramento produzido pela
globalização. Isto faz com que, em nosso imaginário, não
consigamos identificar aquilo que é o nosso desejo e o que é o
desejo fabricado no âmbito social. O significado que surge é o
de que o espaço público invade o privado, estabelece suas normas
através das redes de comunicação e constrói uma certa
uniformidade de padrões de conduta, não deixando que o diferente
se expresse... e o jovem, necessitando da diferença, em seus
lutos pela perda da infância, do corpo e dos pais, se rebela,
podendo caracterizar a violência e a destruição, como marcas de
sua diferenciação e liberdade.
Certamente que a
construção da violência como marca, está intimamente ligada
aos fatores observados até então, aos quais acrescento a vivência
de uma nova estética do cotidiano adolescente que está
relacionada ‘construção da linguagem inconstante dos
videoclipes, breves, fragmentados, desfocados, curtos, sem início-meio-fim,
bem como a visualidade dos videogames, cada vez mais realistas e
violentos, rápidos e atribuindo poder a quem os comanda.
Complementando este padrão estético, há também a nova
visualidade emergente dos sites e padrões computacionais, onde se
vive a possibilidade de muitas janelas abertas, infinitamente
inconclusivas e também a de se descartar rapidamente tudo o que não
interessa mais. Logo, constrói-se uma virtualidade entre o
sujeito da ação e o que é produzido, que dá margem a muitas
questões, mas, principalmente quando pensamos nos espaços das
inter-relações, pois teríamos mais um espaço possível entre o
externo e o interno, ou seja o virtual, fonte de satisfação
imediata e de fantasias.
Penso que a virtualidade pode estar associada a uma busca
inconsciente de minimizar o espaço das relações, onde cada
pessoa, com medo de se frustrar, convive apenas com o
que imagina do outro. Para o adolescente, a virtualidade
pode promover um enfraquecimento da sua construção de ser autônomo
e o contato com sua afetividade, visto que é no grupo que
“ensaia” sua inserção social. Logo, quando esta
possibilidade se afasta, vive-se o perigo de não se saber
mediatizar os conflitos e eles passam a ter dimensões enormes,
produzindo insegurança e comportamentos violentos, como formas de
defesa.
Diante destes novos padrões interacionais, os jovens vão
criando formas específicas de interpretação do cotidiano, que
podem ser percebidas na linguagem, nas roupas, nos locais de
encontro e nos comportamentos de interação social, que denotam
uma característica cada vez mais fragmentada e confusa. Assim, o
discurso, muitas vezes parece desconexo mas, na realidade, adquire
a forma das vivências específicas desta visualidade virtual,
onde tudo pode ser e não ser, onde os modelos não são
definidos.
Diante das características desta
nossa sociedade pós-moderna,
é que os jovens, em busca da construção de sua
identidade, se apropriam de um novo sentido para estar no mundo,
mundo este que lhe confere um lugar e um papel transicional, pois
não se configuram mais como crianças e ainda não pertencem ao
mundo adulto.
A violência, que vemos aumentar diariamente em nosso
cotidiano, assusta os nossos adolescentes por um lado, mas os
incita a praticar ações violentas por outro, como forma de
nivelação das diferenças sociais, pois percebem – se
inseridos num processo social mais amplo, onde há exclusão.
Mas com certeza, é esta mesma sociedade que lhe
transmite uma ética sem reflexão responsabilidade, que hoje
pensa na redução da idade penal, como forma de eliminação
daquilo que ela própria construiu. |
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Mauro
Sergio Stepanies |
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Tratamento
Especial para o
Autismo e as Psicoses Infantis |
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A
psicose e autismo, são grandes distúrbios do desenvolvimento que
bloqueiam na criança a formação de vínculos e relação
satisfatória com os outros. Ela está tão dominada por seu mundo
interno, caótico e angustiado, que tem truncado a sua percepção
da realidade externa ao ponto de que as outras pessoas passam a
ser sentidas como ameaçadoras. Conseqüentemente elas são
levadas a buscar segurança em um mundo próprio, fantasiado e
secreto.
As
crianças psicóticas captam a realidade de acordo com o próprio
mundo, afetado por muitas fantasias. O autismo por ser um estágio
mais avançado da psicose infantil, acarreta um bloqueio ainda
maior.
“Para
os autistas o mundo é aquilo que parece ser...”
Devido
a dificuldade de discriminação do tempo, não possuem vontade própria,
iniciativa, não conseguem também direcionar a atenção, por
isso também, não dirigem o olhar. Se exigirmos que as crianças
normais olhem do todo para um ponto específico ou vice versa elas
conseguem. “Os autistas não...” Eles possuem um déficit de
coerência central.
Segundo
o DSM IV estão presentes no Autismo os seguintes sintomas:
Acentuada falta de alerta da existência ou sentimento dos outros;
Ausência ou busca de conforto anormal por ocasião do sofrimento;
Imitação ausente ou comprometida, jogo social anormal ou
ausente; Incapacidade nítida para fazer amizade com seus pares;
Ausência de modo de comunicação; Comunicação não verbal
altamente normal. Em alguns casos os transtornos autísticos estão
associados e são decorrentes a condições médicas como:
espasmos infantis, rubéola congênita, esclerose tuberosa,
lipoidose cerebral e anomalia da fragilidade do cromossoma x, estão
entre as mais comuns.
O
autismo é definido pela presença de desenvolvimento anormal e/ou
comprometido que se manifesta antes da idade de três anos e pelo
tipo característico de funcionamento anormal nas áreas de interação
social, comunicação e comportamento restrito e repetitivo. O
Transtorno é três ou quatro vezes mais frequente em meninos que
em meninas. E segundo estatísticas da Organização mundial da saúde
uma em cada mil crianças nasce autista.
COMO
LIDAR?
Mobilizar
a sociedade. Ter consciência que é um problema biológico que
afeta a mente com muita gravidade. É uma síndrome cerebral. Não
é mística. É importante ter um diagnóstico precoce, pelo menos
na idade dos três anos. Psicoeducação para os pais e irmãos. Não
enrolar ninguém e nem reservar informação é ou não é autista
grave ou não. |
A
família e os especialistas precisam trabalhar em conjunto. Mudança
gradual e comportamental. É necessário a utilização de
medicamentos consultando para isso, um profissional especialista
da àrea médica. Devemos tratá-los como indivíduos, respeitando
suas limitações e o seu jeito de ser, sem discriminação e
rotulação.
TRATAMENTO
Sabemos
que existem uma série de técnicas, modelos e métodos para o
tratamento; Bem como uma série de abordagens. Existem também,
novas terapias medicamentosas importantíssimas e que se
ministradas por um especialista trarão um grande benefício para
o quadro.
Gostaria
de apresentar aqui, um modelo de tratamento que venho
desenvolvendo à vários anos.
UMA
PROPOSTA AFETIVA
Muitas
experiências terapêuticas, a maioria até, são efetuadas com
crianças vivendo em suas casas. E de fato, acreditamos que se
isto for possível, deve ser tentado. Devemos considerar preferível
um afastamento periódico da família em raros casos, e circunstância
extremas.
“Mas
porque tratá-las em um ambiente longe da família...”?
Existem
casos que já passaram por uma ou mais experiências psicoterápicas
sem evolução satisfatória ao longo de vários anos e o convívio
familiar influenciado por repetidas frustrações, chega a um
momento de ruptura, no qual um afastamento provisório entre família
e criança se impõe como medida restauradora para ambos os lados.
|
“O
tratamento institucional tem como objetivo, curar os impulsos e
estabelecer o sentimento de pertinência na criança...”
É
necessário um ambiente que ofereça modelos de idenficação saudáveis
para estes pacientes, como uma
“comunidade terapêutica” onde os mesmos possam ao
longo do tempo, de acordo com a condição interna de cada um e
suas limitações irem adquirindo um referencial.
Chamamos
esta proposta afetiva de “MATERNAGEM”
que é um processo atitudinal de base psicanalítica, que
visa o resgate ou a reestruturação do processo de formação de
identidade em sujeitos com estruturas de personalidade
comprometidas como (psicose,autismo,etc...).
Ela
é composta de três processos: a Identificação (ou espelho) que
visa o reconhecimento do outro, do corpo e desejo do paciente,
descrito por ( J.Lacan), onde a introjeção e
a formação do conceito de sí é realizada e dá-se por
uma imitação controlada (comportamental) por parte do terapeuta,
onde ele age como um espelho ao pé da letra. A
Introjeção do mesmo processo e posteriormente a sua Projeção.
Acredita-se
que cada processo da vida, se desenvolva de acordo com um plano de
base bem definido.
Com
esta técnica o processo terapêutico ocorre no contato com a
referência profissional, favorecendo o desenvolvimento afetivo ou
o resgate deste.
Mediante
este contato com o profissional de referência irá formar-se um vínculo
o qual estimula os indivíduos a se relacionarem com a realidade
do seu dia a dia fortalecendo-os para que possam lhe dar melhor
com suas angústias em seu desenvolvimento.
Tenho
observado ao longo de vários anos tanto no Núcleo de Integração
Luz do Sol, que é uma instituição especializada situada em
Atibaia/SP, como em outras instituições e clínicas em vários
estados, que através desta prática “Maternagem”, os indivíduos
com diversos tipos de transtornos vem apresentando comportamentos
mais adequados ao ambiente e exigências sociais, existindo também
o crescimento nas diversas àreas do desenvolvimento.
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Mauro
Sergio Stepanies é
psicologo pela USF, membro do GEPAPI
(Grupo de Estudos e Pesquisas em Autismo e outras Psicoses
Infantis).
Diretor e fundador do Núcleo de Integração Luz do Sol em
Atibaia/SP. |
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Ricardo
Kozac |
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O
13o
Jogador
Como
a Psicologia eo a favntra em campor do futebol. |
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Os anos 90 decretaram uma
nova postura nos grandes times de futebol através do surgimento
dos clubes-empresa. Em decorrência desse tipo de patrocínio, está
sendo possível viabilizar uma nova “filosofia” organizacional
, onde um dos itens mais importantes deveria ser o reconhecimento
da necessidade de um psicólogo atuante e presente para garantir
um rendimento positivo e estável das equipes.
Dar aos jogadores respaldo psicológico é tão importante
quanto lhes dar uma alimentação balanceada, programada por
nutricionistas. Afinal, o corpo físico e o mental são as duas
faces de uma mesma unidade e merecem a igual atenção. Cuidar do
corpo significa também percebê-lo como um todo unificado, do
qual fazem parte as emoções e as estruturas mentais. O papel do
psicólogo responsável pela saúde psíquica de um time se
desenvolve a partir de uma abordagem das emoções que os
jogadores vivenciam em sua rotina de trabalho. A cada novo jogo,
uma quantidade de sensações são mobilizadas e, quando não
existe assistência psicológica, essas sensações não
elaboradas tendem a se acumular levando, em muitos casos, os
jogadores a realizar atos impensados — que podem prejudicar a si
próprio e ao grupo do qual faz parte. Atualmente,
são inúmeras as discussões sobre a violência presente
nas praças de futebol. Sabe-se que ela não se restringe à
torcida e que, entre os jogadores,
o descontrole é cada vez mais freqüente. O que fazer,
efetivamente, para solucionar esta questão.
Estatisticamente, os jogadores brasileiros, em sua maioria,
pertencem à uma camada socio-econômica menos favorecida. Mas
curiosamente são eles que, quando atingem o sucesso, recebem salários
mais altos do que a maioria da população com curso superior. A
meu ver, a grande contribuição do psicólogo é auxiliar o
jogador na percepção de sua realidade e na tentativa de
compreender a eventual problemática que esteja ocorrendo em sua
vida pessoal e profissional, alertando-o sobre uma série de
outros entraves: problemas de relacionamento dentro do grupo,
desentendimentos, acusações e divergências de idéias, fatos tão
corriqueiros na rotina de um time de futebol. E não há dúvida
que o efeito cumulativo desses fatores afeta negativamente o
rendimento do grupo.
A realidade é que muitos times de futebol não sabem que
atitude tomar frente a um atleta que, eventualmente, demonstre
dificuldades de atuação sem perceber que disso pode advir um
comprometimento da performance — que poderia ser evitado se o
indivíduo em questão tivesse uma assistência a nível psíquico.
Cada jogador, assim como cada ser humano independente da
sua profissão, é um ser humano único, universo particular
sujeito a oscilações, dúvidas e conflitos que determinam seu
comportamento. Mas o jogador de futebol, especificamente, enfrenta
problemas básicos diante dos quais nem sempre sabe se posicionar:
a)
o abandono da adolescência , período de experiências
definitivas, em prol da carreira; |
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b)
o distanciamento do mundo devido à dedicação exigida
pela grande carga de treinamentos;
c)
a necessidade de abrir mão de uma vida familiar
tradicional;
d)
as dificuldades decorrentes de mudanças de país —
exigindo adaptação à novos idiomas, clima e hábitos
estrangeiros;
e)
o desejo de sucesso e as dificuldades para atingir e
conviver com a fama;
f)
a curta duração da carreira.
Não quero aqui defender a
idéia de que o psicólogo ocupe o lugar de curandeiro ou de mágico.
Evidencio apenas a extrema utilidade da atuação de um
profissional da área psi
para dar aos atletas , através de um necessário suporte, as
armas adequados para que eles lidem satisfatoriamente com as
dificuldades acima citadas. Além delas, outra questão importante
é o comportamento do jogador frente às pressões exercidas pela
torcida e pela mídia em geral. A cobrança, muitas vezes indevida
e inclemente, pode significar um obstáculo a mais dentro do
conjunto de dificuldades às quais ele é submetido.
No caso dos times de futebol, o psicólogo somaria suas forças
com as de outros profissionais igualmente importantes para o bom
desempenho da equipe. Caberia a ele , especificamente, ser um
facilitador das inter-relações do grupo. Para isso, seriam
necessárias sessões de dinâmica de grupo, acompanhamento
individual. Palestras e reuniões informativas sobre temas atuais
complementariam o trabalho, permitindo dar aos atletas uma visão
mais abrangente do mundo e de sua responsabilidade como cidadão.
Manter um bom estado emocional dos jogadores, procurando
fazer com que eles percebam sua real função e momento de vida
foi sempre uma tarefa atribuída aos treinadores. Peço licença
ao leitor para citar aqui uma frase questionadora de Nelson
Rodrigues: “... mas o que
entende de alma um treinador de futebol” A pergunta, mais do
que pertinente, nos remete à fatídica decisão da Copa do Mundo
de 1950 cuja final no Maracanã entre Brasil e Uruguai provocou o
maior silêncio do mundo
. A prematura comemoração
da vitória foi prejudicial para a concentração e o rendimento
dos atletas brasileiros durante o jogo, favorecendo a vitória do
Uruguai, um time que até então havia feito apresentações
inferiores às da seleção do Brasil. Se, na boca do túnel, nos
momentos que antecederam a grande final, junto ao treinador Flávio
Costa estivesse presente um profissional capacitado a administrar
o “ôba ôba do já ganhou”,
hoje seríamos penta-campeões mundiais de futebol.
Um longo caminho ainda deverá ser trilhado para
garantir um espaço de atuação psicológica nos esportes,
principalmente no futebol, mais resistente a esta inovação do
que o tênis, o vôlei e a natação. Alguns obstáculos se mantêm
intransponíveis, sendo que o principal deles é a mentalidade
primitiva e a postura conservadora dos dirigentes, que devem ser
desafiadas e combatidas. Só assim os atletas poderão receber a
totalidade dos benefícios que lhes são devidos. |
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Ricardo Kozac é psicólogo
dos esportes |
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Nelson
C. Silveira Filho |
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Um
passo de Felicidade |
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Ajude-me
a sentir a vida! Ajude-me a viver! Eu quero ser feliz!!!
Sim,
estas são expressões que quando ouvidas, nos sensibilizam, tocam
o fundo de nossa alma, ativa-nos o sentimentos de compaixão...
Sabemos à nossa maneira, o que ela quer dizer. Ela nos é
familiar, por vezes também a sentimos. São aspirações tão legítimas
que quase tudo que fazemos é motivado pelo desejo de sentir a
vida, viver a vida e ser feliz.
Olhando
para mim, me dou conta que, às vezes, desejo isto com tanta
intensidade que sinto uma igual dificuldade para lidar com tamanho
sentimento. Ser feliz, implica em correr riscos... pode não
acontecer... Neste momento, uma das estratégias que posso
utilizar para “facilitar” minha lida, é a inclusão do outro.
É mais fácil lidar com os sentimentos e a “felicidade” dos
outros... Penso: “Se eu conseguir ajudá-lo a ser feliz, então
poderei ser também, pois já sei o caminho”... e justifico-me:
“Minha felicidade é promover a felicidade daqueles a quem eu
amo”.
Quando
reflito sobre esta atitude com maior profundidade, percebo que
sim, contribuir para fazer mais feliz quem você ama, sempre foi,
é e será muito saudável, porém, transformar a felicidade do
outro como a minha fórmula de ser feliz, pode conter uma outra
leitura: a de ser feliz à custa da vida do outro. É como querer
abrir a porta da sua casa, com uma chave de outra casa. Pior
ainda, é ficar com raiva quando percebe que não consegue... De
certa forma é o que acontece quando me irrito com o outro
por ele não ser do jeito que eu desejo que seja (porque eu quero
a felicidade dele!!!).
Assim,
quando você estiver imbuído do direito inalienável de ser feliz, lembre-se
deste pequeno e importante passo para tornar isso possível:
utilize a chave de sua própria casa. Considere-se. Seja você
mesmo. Olhe atenta e profundamente para seu próprio processo.
Valorize e acolha seus sentimentos. Ao compreender e lidar com
seus medos e dificuldades, você está cuidando e curando suas
feridas, com amor e continência. |
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Nelson C. Silveira Filho é terapeuta corporal e massoterapia
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AIDS
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Estudo
de quatro anos
realizado no PR aponta eficácia do medicamento Homeopático
apresentado em simpósio.
Após quatro anos de estudos, médicos
da Universidade Federal do Paraná divulgaram ontem, na Bahia,
resultados de uma pesquisa que comprova os efeitos de um
medicamento homeopático (Canova) no combate ao vírus HIV.
Segundo o médico Paulo Castanheira,
um dos participantes da pesquisa, o Canova reduziu a carga viral e
infecções oportunistas nos portadores do HIV que participaram da
pesquisa.
“Durante seis meses, nós
analisamos o comportamento das pessoas que utilizaram o Canova e
os anti-retrovirais existentes no mercado. Os resultados foram
surpreendentes”, disse o médico, que participou do encerramento
do 4º Simpósio Brasileiro de Pesquisa em Aids.
Além de 200 médicos e
cientistas brasileiros, 12 pesquisadores norte-americanos
também participaram do evento.
Castanheira disse que o Canova
-composto por Aconitum napellus, Thuya occidentalis, Bryonia alba,
Lachesis trigonocephalus e Arsenicum album- não tem contra-indicação,
toxidade e efeitos colaterais. “O Canova também pode ser usado
paralelamente com os anti-retrovirais.”
A pesquisa foi feita com 40
portadores do vírus HIV, de 18
a 55 anos, de ambos os sexos. “Os
resultados demonstram que o Canova é um medicamento eficiente
porque modula o sistema imunológico para que as células fiquem
resistentes à agressão do vírus”, disse a médica Maria das
Graças Sasaki, professora da Universidade Federal do Paraná.
Os medicamentos alopáticos que
combatem o vírus HIV, de acordo com os pesquisadores paranaenses,
são mutantes. “Com os medicamentos normais alopáticos”, o vírus
sofre mutações e os pacientes precisam de doses mais fortes”,
disse Castanheira. A pesquisa revelou ainda que os medicamentos
alopáticos provocam intoxicação no fígado, distúrbios cardíacos,
diarréia e emagrecimento intenso, o que não aconteceria com o
Canova.
Outra vantagem do medicamento homeopático é o preço. O
custo direto que um paciente com HIV tem com medicamentos
importados pode chegar a US$ 2.600 (aproximadamente R$ 6.500) por
mês, segundo médicos que participaram do simpósio. Com
medicamentos produzidos no Brasil, o paciente gasta, em média, R$
1.200 por mês. “Produzido em escala industrial, o Canova vai
custar, no máximo, R$ 300. Estamos apenas aguardando decisão do
Ministério da Saúde para saber se o Canova será isento de
registro (por ser homeopático) ou se será necessário registrá-lo”,
disse Castanheira. Segundo os médicos, a Vigilância Sanitária
aprovou o remédio. |
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Psicoterapia
e Grupo é tema de Novo Livro
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O
psiquiatra e psicodramatista Luis M. Altenfelder Silva Filho
resolveu publicar o relato de seus 30 anos de experiência no
tratamento e na reabilitação de pacientes psicóticos internados
em hospitais psiquiátricos.
Lançado
no começo deste mês pela Lemos Editorial, o livro
“Psicoterapia de Grupo com Psicóticos” conta a trajetória do
autor desde os anos 70, quando ainda era residente no hospital
estadual de Vila Mariana (SP).
Desde
o início de sua carreira, o médico teve de enfrentar
dificuldades como superlotação e falta de profissionais em
alguns dos hospitais em que trabalhou.
Como
chegou a atender mais de 70 pacientes em uma enfermaria, o médico
passou a trabalhar com grupos. Começava as sim
sua experiência
com as
técnicas de psicodrama que iriam nortear sua carreira.
“Eu
entrava na enfermaria e conversava com todas as pacientes. Elas
então formavam seus próprios grupos e, na medida em que iam
entendendo a crise, passavam a ter condições de cuidar da própria
doença e a tomar menos remédios”, afirma.
De
acordo com o psiquiatra, a psicoterapia é fundamental para que o
tratamento do paciente psicótico, que, como explica o médico,
está fora da realidade, possa dar resultados.
“Por
meio do psicodrama, pode-se ligar a alucinação ou o delírio a
algum acontecimento da vida do paciente. Isso faz com que o
processo de reabilitação seja mais rápido. À medida em que o
paciente entende a doença, passa a conseguir controlar os
sintomas”, afima Altenfelder.
No
psicodrama de grupo, explica o autor, a participação dos
pacientes é voluntária. Eles começam a discutir aspectos de sua
vida e a dramatizar um problema exposto por alguém. A partir
disso, criam-se o cenário e os personagens, na tentativa de
tornar o problema real.
Um
dos capítulos do livro é escrito pelo o filho do autor, Pedro
Altenfelder Silva, que também é médico. O capítulo trata da
integração entre a psicoterapia e a psicofarmacologia.
“É
extremamente agradável poder ensinar a minha experiência para um
filho, é um privilégio”, diz Altenfelder. |
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Luis
Altenfelder Silva Filho
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Cientistas
descobrem gene responsável pela síndrome do pânico |
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| Pesquisadores
espanhóis, do Centro para Biologia Médica e Molecular em
Barcelona, descobriram uma mutação genética que pode ser
responsável pelos ataques de pânico. Estima-se que mais de uma
em cada dez pessoas sofrem de alguma forma de distúrbios ligados à ansiedade.
Segundo a revista especializada New Scientist, os cientistas
estudaram famílias com histórico de problemas como
distúrbios ligados ao pânico, fobia de multidões e fobia
social.
Segundo
eles, 90% das famílias com histórico de distúrbios estudadas
apresentam
uma
anomalia genética. A mutação - chamada de DUP 25 - também está
presente em pessoas
que
não são da mesma família, mas é extremamente rara entre as
pessoas que não têm problemas ligados à ansiedade. A região
genética em que ocorre a mutação contém mais de 60 genes, dos
quais apenas 23 já foram identificados.
Os
cientistas acreditam que alguns desses genes produzem proteínas
que desempenham papel fundamental no controle da forma como as células
do sistema nervoso se comunicam. Pode ser que um desequilíbrio na
produção dessas proteínas torne o cérebro ultra-sensível a
situações estressantes. |
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