Malba Tahan conta que dois amigos, Salim e Fahid, viajavam para a Pérsia e, ao cruzarem um rio, Salim foi pego na correnteza, e teria morrido se o amigo não o ajudasse.  

Agradecido, pediu que seus empregados gravassem numa rocha: “Aqui, Fahid salvou a vida de seu amigo”.

Quando voltavam, uma discussão tola fez com que os dois brigassem. Fahid quase mata o amigo. Depois que os ânimos serenaram, Salim chamou de novo seus empregados e pediu que escrevessem na areia. “Aqui, Fahid tentou matar seu amigo”.

“Quando o salvei, você gravou meu gesto numa rocha. Agora, você escreve na areia. Não vê que o vento apagará?”, perguntou Fahid. “Esta é a sabedoria”, respondeu Salim.

“Escrever as boas coisas na rocha e as coisas negativas na areia”.
             Passagens gravadas na areia
            todos terão,
            mas desejamos que os registros na rocha, superem sempre.


REVISTA DE SAÚDE MENTAL
Nº40 

DIRETORIA EXECUTIVA
Ângela Kerber de Marigny

DIRETOR ADMINISTRATIVO
Eduardo Robillard de Marigny

CONSULTOR EDITORIAL
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COLABORADORES PERMANENTES
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Lilian Bertezlian

JORNALISTA RESPONSÁVEL
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CAPAS E ILUSTRAÇÕES
Eduardo Robillard de Marigny

 

 

 

COLABORADORES
Omar de Souza,Sueli Menezes,Eduardo de Azevedo Mesquita,Carmen Lucia Soares Caetano,Maria José Coelho Barnabé Silva,Maria Angelina Pereira,Walter Boechat,Ana Maria Neiva Armentano,Angélica Moreira de Souza,Gabriella Ferraese Barbosa,Luciane Cytrynbaum Stern,Alvaro Cielo Mahl,Maria Beatriz Ribolla,Mauro Sergio Stepahnies,Ricardo Kozac,Nelson Silveira Filho.

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A Pergunta  

Uma vez perguntaram a Confúcio:  
- O que o surpreende mais na humanidade???  
Confúcio respondeu:  
- Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperá-la.  
- Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver  no presente nem no futuro.  
- Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se não tivessem vivido...  

LISTA DE MATÉRIAS

 
José Hermógenes de Andrade Fo  
  Ser Jovem é uma questão de postura 

  Suely Menezes
  ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE - um  pacto  de  descasamento

  Carmen Lucia Soares Caetano e
  Maria José Coelho Barnabé
  PSICOLOGIA E EXERCÍCIOS PRÉ-NATAIS - COMPROMISSO COM A VIDA

  Maria Angelina Pereira
  BIODANZA

  Walter Boechat
  O SONHO E O IMAGINAR -  atividades de transferência

  Angelica - Gabiella  - Ana - Luciane
  Sonhos - O Refúgio dos desejos 

  Álvaro Cielo Mahl
 
Elementos da Psicologia Social na Relação entre Pais e Filhos

  Maria Beatriz Ribolla
 
ADOLESCÊNCIA E VIOLÊNCIA:  CONSTRUÇÕES DA PÓS – MODERNIDADE? 

  Mauro Sergio Stepanies
 
Tratamento Especial para o Autismo e as Psicoses Infantis

  Ricardo Kozac
 
O 13o JOGADOR - Como a Psicologia entra em campo a favor do  futebol

  Acontece

  aGENDA


    
 

José Hermógenes de Andrade Fo.

Ser Jovem é uma questão de Postura

Autor diz que terceira idade é o período mais produtivo da vida

Aos 35 anos de idade, José Hermógenes de Andrade Filho se sentia um velho. Hoje, 40 anos depois, o professor Hermógenes — como passou a ser conhecido ao publicar seus primeiros livros sobre as técnicas e a filosofia da Hatha Yoga, na década de 60 — considera-­se no auge da vida, e continua disposto a ensinar o caminho das pedras do equilíbrio físico e espiritual para quem acha que já o conhece: os idosos. Em SAÚDE NA TERCEIRA IDADE, seu mais novo livro, editado pela Nova Era/Record, o escritor mostra que o segredo de uma vida plena, mesmo em idade avançada, está no cultivo de hábitos saudáveis como exercícios, meditações e orações, e apresenta técnicas simples de massagem, relaxamento e alimentação, demolindo a idéia de que a vida vai acabando com a passagem dos anos.

A rotina do professor Hermógenes demonstra a eficácia de seus ensinamentos. Seu dia começa às 4h com períodos de automassagem, meditações e orações. Depois do café da manhã, caminha tranqüilamente pelas ruas da Urca com a mulher antes do encontro diário com o computador, onde está preparando mais um livro. Durante a tarde, novas caminhadas e orações, jantar e estudos à noite. Tudo sem pressa e com absoluto desprezo por qualquer tipo de modismo. “Quem se deixa contagiar pela normose está perdido”, diz, referindo-se aos maus hábitos cristalizados como normais pela sociedade, como o consumismo e a corrupção.

O autor acredita que SAÚDE NA TERCEIRA IDADE, por tratar de um assunto em evidência, isto é, a velhice, pode ajudar a divulgar a Hatha Yoga entre grupos de idosos, normalmente refratários a terapias alternativas. “Além disso”, afirma, “é o primeiro livro que apresenta uma geriatria sem medicamentos, auto-aplicável, em linguagem acessível e fundamentada em experiências.”

Potiguar de nascimento — “devo muito de minha vida mística às experiências de infância e juventude em Natal, o mar e o verde se entranharam em mim”, afirma —, o professor Hermógenes começou escrevendo livros didáticos, em 1955. Já perdeu a conta de seminários, aulas e palestras que fez no Brasil, em Portugal e na Argentina, onde, aliás, goza de um prestígio que julga maior do que em nosso país. Casado pela segunda vez, tem duas filhas do primeiro casamento. Entre os seguidores de seus ensinamentos estão personalidades como o ator Jackson Antunes. 

de que forma o livro SAÚDE NA TERCEIRA IDADE pode ajudar o idoso?

O idoso passa por profundas transformações em sua vida e não deve cair no caso comum de sentir-se marginalizado e comprometido com a morte e a decadência. O livro surge para mudar a visão da terceira idade. Cada um precisa cair em si e dizer: “Estou tendo a chance de realizar o melhor da minha vida e fazer coisas que não podia. É a oportunidade de trabalhar para ajudar alguém, uma instituição, em substituição ao trabalho profissional que vinha exercendo. Agora posso usar o lazer da melhor maneira.” O livro tem essa proposta, mas vai ajudar também com a metodologia holística da Yoga. Ela envolve o corpo físico e a estrutura energética, que atua no campo das emoções, dos pensamentos e, acima de tudo, proporciona um meio de chegar o mais perto possível da perfeição divina.

 Em que princípios se baseiam as técnicas ensinadas no livro?

Neste livro trago novidades porque não falo apenas na Hatha Yoga. Para a terceira idade, não posso usar determinadas técnicas que exigiriam manobras de corpo que o idoso não consegue fazer. Ofereço outras metodologias, como a caminhada, mas não esta que costumamos ver, com as pessoas conversando, escutando walkmam e até fumando. Proponho uma caminhada completa, com a pessoa interiorizada, apreciando a paisagem e até orando. Também proponho a automassagem, com o objetivo de melhorar as circulações sangüínea, linfática, energética e nervosa. Outro método que sugiro é para restaurar a mobilidade das articulações de todo o corpo e desbloquear a circulação. Ainda acrescento técnicas de meditação e oração que afirmam o poder que está em nós e é divino. Desenvolvo outros temas que não são propriamente metodologias, mas sugestões para práticas da vida. Uma das coisas mais interessantes, e que tenho usado muito entre meus alunos, é o que chamo de positividade, ou seja, acabar com aquela história de dizer coisas destrutivas em relação a si e aos outros. Para ilustrar, conto a história do homem que caiu do quarto andar, e quando chegam perto dele perguntando o que aconteceu, diz: “Acabei de chegar.” Também falo de hábitos alimentares. Introduzo ainda o conceito de remusculação. Enfim, é um conjunto de propostas que se complementam. É um trabalho holístico.

Como o senhor comprovou a eficácia destas técnicas?

Tudo que está no livro foi experimentado por mim e por meus alunos em 35 anos de experiência. Nunca mudei nada. Agora resolvi fazer uma adaptação para os idosos porque suponho que alguns possam ter limitações. Quero que até o idoso de cama tenha o que fazer. Abordo até o problema da aposentadoria. Estou pedindo a Deus que o livro produza uma transformação que é difícil para quem cristalizou hábitos errados

O senhor encontra alguma resistência à aplicação de seus métodos?

Sim. Não é uma resistência programada, mas afirmada através de muitos

anos. Pior do que a Yoga não ser compreendida é ser compreendida erradamente. As mulheres aderem com facilidade. Por conta de fatores culturais, vivemos um machismo pouco inteligente. Quando os homens experimentam os resultados da Hatha Yoga, acham que a conheceram tarde. Em São Paulo, estive conversando com um piloto de avião. Ele estava num estado de estresse violento. Eu disse: “Vai fazer Yoga.” Depois o encontrei muito bem. Disse que a Yoga tinha sido uma maravilha para ele. Perguntei quando tinha começado, e ele respondeu: “Foi a minha mulher que começou.” A partir dela, melhorou a vida dele.

 Seu trabalho fala muito no combate ao estresse. É ele o grande vilão do homem?

Minha visão é de que o estresse é a raiz comum de muitos males, a fonte de várias doenças que matam milhões, como as do coração, sono, hipertensão, impotência e úlcera. Na minha opinião, o estresse não é o vilão, mas um mecanismo que a vida desenvolve para se defender. Quando um animal se vê diante do predador, ele entra em estresse. Toda a confusão anatômica, fisiológica, psicológica e energética é para assegurar a integridade pessoal, e precisa ser compreendida e administrada. Se eu não administrar o estresse ele se transforma em distresse, que é enfermidade. A Yoga nos ajuda a lidar com o estresse para chegar ao eustresse, uma condição de tranqüilidade, paz, eficiência e felicidade. Quer dizer o estresse utilizado para chegar a uma qualidade de vida melhor.

Os
problemas da terceira idade possuem maior relação com a dimensão espiritual ou a social?

Se a pessoa aceitar meu convite no livro, vai aumentar sua capacidade de relacionamento consigo e com os outros. O livro propõe que a pessoa chegue á terceira idade enfrentando os problemas à sua volta sem se deixar abater.

O senhor acha que os idosos brasileiros possuem alguma tendência cultural de assumir uma condição de improdutividade?

está em nosso inconsciente coletivo. Há quem ache que a terceira idade é o momento de parar, ver os netos crescerem, viver isolado, cheio de doenças. O livro vem contestar isso. Ser ou não ser jovem é uma questão de postura. Não sei como é em outros países, mas acredito que seja universal.

 O senhor acaba de completar 75 anos demonstrando vigor, tranqüilidade e alegria de viver. Qualquer pessoa tem acesso a esta condição de equilíbrio?

É bom que se diga que tenho muitos motivos para viver estressado. Foram 75 anos de muitos desafios. Toda minha vida foi batalhada. Mas “tudo

concorre para o bem dos que amam Deus”, disse o apóstolo Paulo. As pessoas não só podem alcançar esta alegria, como estão desafiadas e convidadas a isso. Quanto mais cedo começar, melhor. O sujeito que pensa em fazer isso quando ficar mais velho demonstra que o problema está mal equacionado nele. Eu tenho este vigor porque faço isto há 40 anos.

A partir de que idade uma pessoa pode aplicar estes princípios em sua vida?

No Japão existe uma especialidade médica que é a geriatria pediátrica. É a partir da infância que a pessoa deve ser preparada para a velhice, aprender a escolher os alimentos, os pensamentos, as emoções, os exercícios, enfim, disciplinar a vida e orientá-la para alguma coisa gloriosa.
 
O senhor costuma dizer que o maior perigo para o ser humano é ser contagiado pela doença da normose. O que é isto?

É a doença de ser normal. Aí você pergunta: “Mas o normal é doente?” Sim, é. O que não é doente é o natural. Normal é o comportamento que todos têm, a mesmice generalizada. Estive lendo que, depois da Segunda Guerra Mundial, o consumo de refrigerantes aumentou 85 por cento. Os normóticos são os que estão consumindo refrigerante. Quem não possui a doença prefere água ou sucos. Muitas coisas que destroem o homem estão na moda, dentro das normas. São normais, mas não são naturais. Normose é esta vida pequena, mesquinha, daqueles que são manobrados pela máquina de convencer. Os normóticos em geral são acometidos de outra doença, a egosclerose. Por que há tanta miséria no mundo? É porque a egosclerose dominou as pessoas de poder. Elas pensam: “Primeiro, eu. Depois, eu. Em terceiro lugar, talvez, minha mulher e meus filhos. Os outros que se danem.” É isto que está acontecendo na política, nas finanças, na educação, na medicina, nas ciências em geral. As pessoas lutam pelo poder e, ao chegar lá em cima, continuam com isso estupidamente.

 O senhor pode apontar pessoas que não tenham se tornado normóticas?

Mahatma Ghandi, Chico Xavier e irmã Dulce são exemplos de pessoas não-normóticas.

Durante suas viagens, cursos e palestras, o senhor vê o interesse por terapias alternativas e naturalistas aumentando?

Sim. Tenho recebido muito apoio e aceitação. Mas há exceções, como certos especialistas, cientistas e religiosos obliterados e dogmáticos que sentem alguma ameaça. Mesmo assim, são raros. O que apresento é convincente não somente pelo poder da experiência, mas também pela clareza da lógica. Minha alegria é ver transformadas as pessoas que aceitaram meus ensinamentos, saindo de problemas difíceis. Sem dúvida, eu seria mais aceito se fizesse alguma coisa normótica para os normóticos. Se eu oferecer carniça em festival de urubu, vou ganhar muito mais dinheiro, mas se oferecer flores, serei bicado.

Como o senhor conheceu a Hatha Yoga?

Eu tinha tuberculose. Meus pulmões pareciam casas de abelhas. Me atacou a laringe a ponto de me deixar afônico. Como o tratamento era à base de muita alimentação e muito repouso, quando terminou eu estava envelhecido e obeso, apesar de ainda estar na faixa dos 35 anos. O pior era o bloqueio psicológico e social que o médico me impôs. “Você não pode ficar no sol, pegar sereno, ir à praia, fazer ginástica” e por aí afora. Até propôs que eu me aposentasse porque minha vida estava comprometida. Foi aí que ganhei um livro de Yoga de um autor indiano, Selvajaran Yesudian, escrito em francês. Como era muito claro na didática, comecei a fazer sozinho, como experiência. Pensei: “Ou fico bom ou morro logo.” A transformação em poucos meses foi tão espetacular que surgiu um novo ser daquela ruína. Senti o compromisso de dedicar o resto da minha vida a mostrar o mapa da mina aos outros. 

Então o senhor é autodidata?

Sim. O mestre que eu tinha era invisível, chamava-se Deus. Não havia nada em português sobre a Hatha Yoga. O primeiro livro em nossa língua sobre o tema foi escrito por mim a partir de minha experiência pessoal e de meus estudos sobre medicina oriental, anatomia, psicologia e tudo mais que me desse base para compreender o que se passara comigo. Chama-se Autoperfeição com Hatha Yoga,  que já chegou à 35a edição. O principal é a quantidade de cartas com depoimentos de pessoas, até da África portuguesa, dizendo como o livro mudou a vida delas.

 Além dos livros, suas técnicas são ensinadas e divulgadas através da Academia Hermógenes. Como ela surgiu?

Ao escrever meu primeiro livro, ele se tornou um best seIler. Fui procurado pelas pessoas para ensinar-lhes as técnicas. Para mim, a Yoga era tão pura que eu não queria misturá-la com uma empresa. Um amigo de infância montou a coisa na rua Uruguaiana e me ofereceu. Vamos completar o 35o ano de funcionamento. Milhares de pessoas já passaram por lá.


    

Suely Menezes
Até Que a Morte Nos Separe
um  pacto  de  descasamento


Nós, enquanto pessoas, independentemente do nível social, do credo religioso ou raça a que pertencemos, encontramos dificuldades de relacionamento interpessoal. E quando falamos de casamento, a idéia é que esses conflitos não são possíveis de existir, uma vez que existe amor. Porém, essa concepção que o imaginário coletivo retém não é verdadeira, uma vez que em qualquer tipo de relacionamento existem situações conflitantes.

Contudo, as liturgias que encontramos nas uniões matrimoniais nos remetem à idéia de que o amor deve ser eterno e, consequentemente, o casamento também. A indissolubilidade do matrimônio é marcada, mesmo havendo divergência em relação aos motivos e os seguimentos religiosos, de uma forma geral, condenam o divórcio, até mesmo a Igreja Anglicana que teve sua origem numa história de desenlace matrimonial.

O contexto cultural em que vivemos em muito difere do que era vivido quando as liturgias de casamento foram criadas. O perfil da mulher e do homem do século XXI está sendo traçado por pessoas que têm como prioridade não mais o casamento e sim o sucesso profissional. Principalmente no sistema capitalista em que vivemos, onde o suporte financeiro não vem mais única e exclusivamente do marido. A mulher, com sua entrada no mercado de trabalho, tornou-se também a provedora do lar ou co-provedora do sustento da família.

Perdemos um pouco da poesia que envolvia os encontros românticos dos casais apaixonados, simbolizados por pombinhos, mas, em contra partida, ganhamos mulheres mais decididas e atuantes e homens mais participativos e comprometidos com o processo educacional  dos  filhos,   numa   constituição  familiar  bem  diferente  da  família  nuclear  tradicional.

Porém, o romantismo não precisará, necessariamente, ser abolido do nosso dia a dia. Pois ainda que o amor romântico não seja mais o personagem principal no cenário do casamento, ele não precisará ser abandonado enquanto sentimento, mas vivido próximo à realidade de nossos dias.

Ainda que nossa sociedade insista em celebrar cerimônias religiosas de casamento onde o amor tem que durar para sempre, a convivência é que irá estabelecer a relação de casamento. Homem e mulher, mesmo com expectativas divergentes e com formações diferentes, têm chances de encontrar juntos o caminho da felicidade. Sem idealizar aquele amor vivido em castelos cor-de-rosa, onde o príncipe encantado montado num alazão, encontra-se com sua princesa.

Dessa forma, teremos a oportunidade de conciliar toda a ternura do sonho, que é passada ao longo dos anos, com o desgaste natural da relação vivida dia a dia, “o amor-paixão vai lentamente transformando-se no amor-companheiro” (“Até que a vida nos separe” JABLONSKI, Bernardo, p.78). Cultivando a ternura, a amizade, o companheirismo e a cumplicidade, o amor pode ser vivido intensamente, com toda sua magia, de uma forma amadurecida e não sonhadora. Não aquele amor de fantasia, baseado em idealizações utópicas, mas um amor de troca, de entendimento, que compartilha sentimentos. É o príncipe encantado dando lugar ao companheiro.

O casamento, com sua rotina, não precisa ser visto como o grande vilão que destrói o amor,  podendo ser uma união de duas pessoas que se amam num compartilhar de ideais. A manutenção de um casamento é um trabalho diário de amor para que sobreviva a fatores externos, como a falta de dinheiro e/ou o desemprego.

O sonho, o terno, o romântico, o ideal, cede à realidade, sem traumas, sem cobrar do cônjuge o amor cinderélico encantado dos Contos de Fada. Isso, no fundo, beneficia a todos, pois nos livra do enfado de suportar o mau hálito do beijo guardado há cem anos, aquele que despertou a Bela Adormecida.(Jablonski, 1998)

Não é preciso virar as costas para o amor, pois é inegável que ele é de suma importância para o nosso ego e eleva a nossa auto-estima. Porém, não estamos 

condenados a sofrer pelo nobre sentimento, nem mesmo as mulheres, contrariando o senso comum que diz que “toda mulher já nasce pra morrer de amor”. Mas, homens e mulheres, podem estar disponíveis para vivê-lo intensamente, de uma forma sublime capaz de transformá-lo, no momento certo, num sentimento de total cumplicidade.

O casamento firmado no altar, com pactos do tipo “até que a morte os separe”, não precisa ser cumprido como por um decreto, mas se vivido por amor, sentimento capaz de unir duas pessoas no casamento. Os pactos firmados não precisam ser selados como cláusulas de contrato, mas num desejo de fazer o ser amado feliz.

Considerando que esses pactos não são uma ordenança divina, ou seja, não está nos escritos bíblicos, é uma criação humana, cabe a nós, meros mortais, estabelecermos regras capazes de serem seguidas. Nós, os criadores dessas normas, acabamos por tornar o casamento uma prisão especial com direito a constituição familiar.

Por que não fazermos uma reavaliação das liturgias de casamento, sob o novo contexto sociocultural em que vivemos? E então, poder sonhar o amor com os versos dos poetas, sonhar com o vestido da Cinderela, sem perder a noção do que é real e possível na relação a dois num contexto de casamento.

E então se poderia viver a realidade com a fantasia do amor, caso exista fantasia real. Ou quem sabe ainda, trazer um pouco de fantasia para a realidade. Vivermos a poesia do amor, não como se fosse um sentimento eterno, mas cultivando-o todos os dias, reacendendo a chama da paixão em todos os momentos.  Pois, se na Antigüidade o pacto de casamento era o elemento que agia para manter a união conjugal, na contemporaneidade dos nossos dias, o amor é o objeto principal no matrimônio. É possível que aí esteja instalado o conflito, no desejo de se unir regras com sentimentos. Mas ainda que o amor-romântico de séculos atrás nos remeta aos Contos de Fada, podemos transformá-lo no amor companheiro. Viver a poesia do amor em toda sua plenitude nos parece possível, desde que não se fique atrelado somente à fantasia.  

E por falar em poesia, os poetas que conseguem traduzir a alma e que descrevem o amor, nos levam a pensar em sua existência. Pois como diria Luís de Camões: “Amor é fogo que arde sem se ver; é ferida que dói e não se sente; é umcontentamento descontente; é dor que desatina sem doer...” (“Português - Palavra e Arte”, PELLEGRINI, Tania & FERREIRA, 1996, p.149). Poderemos sonhar ao ler os versos de Vinícius de Moraes e, quem sabe, cantá-los ou declamá-los baixinho à pessoa amada. Vivendo uma relação a dois não para cumprir decretos, mas para viver a plenitude do sentimento que tornou possível a união – o amor.

“De tudo ao meu amor serei atento
 Antes e com tal zelo. E sempre, e tanto
 Que mesmo em face do maior encanto
 Dele se encante mais meu pensamento

 Quero vivê-lo em cada vão momento
 E em seu louvor hei de espalhar meu canto
 E rir meu riso e derramar meu pranto 
 Ao seu pesar ou seu contentamento

                                        E assim, quando mais tarde me procure
                                        Quem sabe a morte, angústia de quem vive
                                        Quem sabe a solidão, fim de quem ama

                                        Eu possa me dizer do amor (que tive):
                                        Que não seja imortal posto que é chama
                                        Mas que seja infinito enquanto dure.”
                                                 
                                                 “Soneto de Fidelidade”
                                                   (Vinícius de Moraes)

Sueli Menezes é Psicóloga Clínica e Pós-graduanda em Dependência Química 
CRP 05/26755


       

Carmen Lucia Soares Caetano
Maria José Coelho Barnabé

Psicologia e Exercídios Pré-Natais
Compromisso com a Vida

Este trabalho é fruto de uma ação conjunta entre a Psicologia e a Educação Física no atendimento a adolescentes grávidas. Foi apresentado na 1a Mostra Nacional de Práticas em Psicologia realizada em outubro de 2000 em São Paulo.

A gravidez é, das experiências humanas, a mais requintada. Põe à descoberto nossas diferenças básicas de gênero, culturais e ao mesmo tempo nossas “igualdades” biológicas.

Os hábitos relativos a sua vivência revelam valores, crenças e mitos de uma sociedade, desnudando as atitudes em relação ao corpo, a mulher, aos bebês, as funções de maternidade e paternidade e sem sombra de dúvidas em relação à sexualidade.

Ainda não se sabe ao certo por quanto tempo permanecerá sendo exclusivamente feminina, porém o que se sabe é que embora tenha um período determinado, longe está de se constituir num estado de graça. Em todos os seus aspectos significa mudança e como tudo que se transforma necessita de um tempo para ser reconhecida e assimilada, sendo muitas vezes vivida como algo no mínimo inquietante.

Fisicamente é no corpo da mulher, no seu espaço interior que o bebê é implantado e seguem sendo duas pessoas partilhando o mesmo corpo, sob a mesma pele; uma estranha união que leva a um profundo retorno a vivências anteriores.

Ao engravidar é o momento exato de tomar uma maior consciência corporal e esta é o elemento chave no desempenho de conseguir um parto normal, espontâneo e natural.

A partir das intensas modifica ções físicas e emocionais as áreas de Psicologia e Educação Física se uniram num trabalho articulado entre esses dois campos da ciência, na perspectiva de minimizar os incômodos físicos característicos do período gestacional, bem como as ansiedades advindas nesse processo.

Teve-se como objetivo realizar um estudo descritivo, que analisasse a experiência gestacional de adolescentes, no que se refere a prontidão física e emocional para o parto natural, tranqüilidade emocional durante a gravidez e o índice de depressão pós-parto.

Foram acompanhadas cerca de 92 adolescentes na faixa etária que variou de 13 a 18 anos, e em sua maioria apresentaram baixa escolaridade, dependência financeira de terceiros, abandono de companheiros e/ou familiares. Registrou-se neste grupo 03 casos de dependência química, 01 de abuso sexual e cerca de 03 adolescentes com histórico anterior de tentativas de suicídio; além de um alto índice de rejeição da gravidez. As adolescentes foram atendidas em 06 grupos com uma média de 15 pessoas em cada um, por um período de aproximadamente 09 meses; tendo sido realizado também alguns atendimentos individuais por parte da Psicologia.

Os dois setores desenvolveram em parceria as seguintes técnicas:

a)                 Expressão corporal tematizada - Trabalhando com temas levantados pelas adolescentes, criou-se uma nova técnica de expressão corporal associada ao contexto emocional vivido pelo grupo; no qual os sentimentos foram transmutados para exercícios espontâneos. Utilizando-se dos elementos essenciais da música, o grupo foi levado a criar movimentos nos planos médio, alto e em direções diagonais numa coreografia dinâmica e profundamente integrada às suas emoções.

b)            Pintura em Guache - Buscou-se explorar o caráter lúdico e projetivo da técnica como forma de se trabalhar as expectativas vivenciadas pela grávida, em especial a ambivalência vivida neste período. Recriou-se jogos corporais, exercícios localizados com ritmos diferenciados e posturas diversas, associando-os a expressão através da pintura, dos medos e fantasias específicos do período gestacional.

c)            Modelagem com Massas Coloridas - Durante a gravidez a mulher remonta inúmeras imagens inconscientes de sua história interior e social que passam a permear seus sonhos, fantasias e vida emocional. Tendo por base o processo regressivo duplamente vivido pelo grupo (Adolescência e Gravidez), buscou-se ao utilizar esta técnica facilitar o livre trânsito dos temores vividos. Associou-se com exercícios onde se trabalha a região toráxica e lombar e as paredes anterolateral do abdome; buscando suscitar a expressão das ansiedades que permeiam temor ao parto.

d)            Relaxamento - Utilizou-se desta técnica com as gestantes no intuito de levar-lhes a uma vivência repousante e agradável na qual imperasse a ausência total de tensão fisiológica. Sendo utilizado como um elemento facilitador no reconhecimento e aceitação das emoções e sentimentos da mãe, bem como no combate ao stress e no fortalecimento do vínculo afetivo mãe-bebê.

e)            Visualização Criativa - Associada ao relaxamento, buscou-se mobilizar e estimular os recursos internos, na perspectiva de promover a diminuição das ansiedades e medos, no fortalecimento da auto-estima, no resgate da capacidade criativa e de elaboração de projeto de vida.


f)             Massagem para redução de stress - É sabido que embora mãe e bebê estejam juntos nos sentimentos e na possessão mútua necessitam de um tempo para se reconhecerem e fortalecerem seus vínculos. É ainda no útero que se dá o desenvolvimento da percepção sensorial e há a partir daí o aumento gradativo da capacidade de registrar  informações. Com o nascimento os sentidos embora prontos ainda necessitam de estímulos para alcançar a plenitude. A massagem através do toque torna possível uma comunicação profunda entre mãe e bebê, além de favorecer significativamente o desenvolvimento físico e emocional da criança.

Algumas mães e bebês não se ligam automaticamente e vários fatores podem interferir neste processo: drogas que anestesiam mãe e bebê; separação prolongada depois de uma cesárea; necessidade de uso de incubadora; depressão pós-parto ou mesmo um bebê stressado, irritadiço, pouco responsivo, com cólicas. Tais fatos podem levar a grandes dificuldades para mãe e bebê se ajustarem e compreenderem-se mutuamente podendo inclusive desencadear uma certa aversão, agressividade e/ou hostilidade na relação. De forma especial tem-se utilizado o ensino da técnica básica de massagem à mãe, como elemento complementar aos atendimentos individuais das jovens mães deprimidas (casos de depressão pós-parto) na perspectiva de auxiliar na reaproximação mãe-bebê, minimizando os efeitos negativos do distanciamento vivido por ambos. Para o bebê a massagem torna o contato restaurador, reduzindo a turbulência do nascimento e o impacto da perda da segurança vivenciada no ventre, sendo eficaz na redução de ansiedade e stress. Para a mãe, a massagem torna-se elemento facilitador na ligação e na compreensão de seu bebê, e aliada a outras formas de proximidade como abraços, embalos, o segurar, etc. a acalma, e permite uma reaproximação positiva com o bebê. Ou seja, a massagem além de relaxar, ativa a circulação liberando as toxinas do corpo aumentando a sensação de energia e bem-estar; ajuda a estabelecer um relacionamento mãe — bebê mais caloroso e o toque entre ambos possibilita a integração de sentimentos hostis e agressivos, possibilitando a transformação de reações negativas em respostas relacionais mais positivas e ternas. Das adolescentes acompanhadas no período de abril/99 a agosto/2000 foram registrados cerca de 68 partos naturais (73, 91%), 18 cesáreas (19,56%), 03 pré-termos (3,26%) e cerca de 03 abortos espontâneos (3,26%). Durante os atendimentos realizados em Grupo de Apoio e individualmente constatou-se que cerca de 24 delas (26,0%) apresentavam um quadro de grande ansiedade, acentuada ambivalência em relação a gravidez, muito medo em relação ao parto além de inúmeros fatores ambientais e circunstanciais que favoreciam a instauração de um quadro depressivo (abandono do companheiro e/ou familiares, uso de drogas, violência e maus tratos, históricos de tentativas de suicídio etc.). Desse grupo cerca de 04 adolescentes (3,7%) tiveram depressão pós-parto tendo sido dado continuidade no atendimento pelos setores. Concluiu-se que as intervenções realizadas contribuíram para que as adolescentes obtivessem maior  consciência corporal, o que garantiu uma harmonização entre os sistemas muscular, neurológico e endócrino e possibilitou uma maior prontidão para o parto. Além do que, houve uma melhora significativa nas respostas emocionais em relação à gravidez e a maternidade, acarretando mudanças de atitude e respostas de otimização no enfrentamento de seus desafios pessoais e sociais, também em relação aos bebês observou-se maior tranqüilidade emocional caracterizada por ausência de cólicas, sono tranqüilo e uma maior integração entre mãe e bebê. Observou-se ainda como resultado destas atividades:

·               superação de bloqueios, timidez e silêncio que favorecem a integração grupal;

·               estímulo da criatividade e a espontaneidade;

·               fortalecimento de vínculos;

·               quebra de sentimentos depreciativos;

·               re-equilíbrio psico-físico;

·               partilha de experiências e sentimentos;

·               liberação de ansiedade;

·               maior reconhecimento e aceitação das emoções e sentimentos;

·               maior liberdade de expressão;

·               auto-aceitação e melhora da auto-confiança e no equilíbrio físico;

·               expressão das fantasias e emoções;

·               redução da sensação de estranheza;

·               estímulo a criatividade;

·               melhor aceitação da gravidez;

·               redução do medo do parto;

·               prazer nas atividades;

·               hipertonia do sistema muscular, ligamentos e articulatórios da região lombar;

·               melhora na orientação espaço-temporal;

·               melhora na coordenação motora;

·               melhora no padrão de sono;

·               melhora no contato pele a pele;

·               melhora na atenção-concentração;

·               redução de stress.

Segundo Tedesco a história de qualquer realização pode ser contada em partes diferentes bem delimitadas, porém interdependentes. O desempenho de atividades e/ou atitudes transformadoras implica num confronto com velhas estruturas de agir e pensar, bem como recuperar experiências anteriores individuais e sociais e suas relações com o aparato institucional e todas as suas contradições e conseqüências fazem com que a ação decorrente seja um avanço no processo de conscientização dos indivíduos.

Este trabalho é uma parcela dos estudos que vem sendo realizados pelas áreas de Psicologia e Educação Física das questões associadas à gravidez, com o objetivo de aprimorar técnicas e estratégias de intervenção que possibilitem uma gravidez saudável e tranqüila para mãe e bebê.

Em tempo de reconciliar o parto sua naturalidade e simplicidade com a prática médica moderna, faz-se necessário despertar inovações nas relações profissionais, de forma que seja possível adequar métodos, técnicas e rotinas que levem em conta o bem estar da mulher e da criança e que sejam favoráveis a sua adequação emocional à gravidez e ao parto, resultando numa melhor adaptação fisiológica e anatômica do corpo, auxiliando na elaboração e superação dos medos, ansiedades e tensões vividas nesse período.

Diante disso a mulher e sua família devem ser acolhidos com solidariedade e respeito, devendo se levar em conta suas opiniões, preferências e necessidades, em vez de torná-la frágil e dependente, fortalecê-la na sua auto-estima e no reconhecimento e defesa de seus direitos

Assim é, respolitizar o parto-nascimento, humanizando-o e provocando sua feminização, onde a mulher possa expressar livremente seus valores e emoções, apropriar-se da sua história e de todas as memórias nela inscritas, vivendo a maternidade como uma grande crise construtiva que com sua força sustenta, amplia e transforma a vida e o viver.

Enquanto profissionais, acreditamos nesta necessidade de reinventar ações e que ao despertar atitudes criativas, estas se transformem no mundo da grávida em possibilidades de vir a ser, no sentido estrito do direito humano à livre autoconfiguração da vida.

Carmem Lucia Soares Caetano é Psicóloga CRP 09/2364
Maria José Coelho Barnabé Silva é Prof. Educação Física CRL 158905


    


Maria Angelina Pereira

Biodanza

Material elaborado por Maria Angelina Pereira e revisado por M. Luiza Appy.

 Biodanza, a dança da vida

A dança é uma das formas mais antigas de o homem se relacionar com as forças da natureza e com os deuses da criação, imagine um sistema de desenvolvimento pessoal que utiliza como instrumentos a música, o movimento e a emoção para trabalhar as potencialidades do ser humano, buscando resgatar em cada um a sua própria dança, a própria maneira de viver a sua vida e de ser feliz.

 Criador

Foi acreditando na força da Dança e da Música que Rolando Toro Araneda, docente das disciplinas de Psicopatologia da arte, Psicologia da expressão e Criatividade no Instituto de Estética da Pontifícia universidade Católica de Santiago, e membro docente do Centro de Antropologia Médica da Escola da Universidade do Chile, iniciou a criação do Sistema Biodanza.

A história começou em 1964, quando Toro desenvolvia um trabalho de pesquisa em uma faculdade de Medicina do Chile. Com um grupo de esquizofrênicos, que tinha perdido muitas de suas referências de vida, Rolando resolveu testar um método não convencional — a dança.

“Eles estavam tão deprimidos que decidi fazê-los dançar um pouco. A resposta foi surpreendente, muito mais rápida e efetiva do que qualquer outra linha terapêutica”, conta o antrópologo que a partir daí fundamentou seu método em bases teóricas.

“Ela foi se espalhando e se provando boa para todos, especialmente para os enfermos da civilização, que têm dificuldade de contato com o próximo, de comunicação, problemas familiares e que precisam resgatar sua expressão criativa e genuína.

 A música é excelente para isso, porque não passa pelo mental, vai direto para o “emocional”, afirma Rolando.

 Proposta

A Biodanza leva as pessoas a conhecerem seus talentos, virtudes, a ficarem mais felizes, amáveis e aos poucos vai eliminando medos provocados pela sociedade... como o medo de se expressar; medo de colocar limites, medo de explicitar seus desejos, seus anseios, medo de olhar nos olhos do outro, de tocar de ser tocado, de se aproximar etc. No lugar dos medos surgem as permissões... A pessoa é convidada no seu ritmo e do seu jeito a se mover; a se expressar, a se cuidar, a olhar os ritmos diferentes das pessoas... a se aceitar e a aceitar os outros como são.

Na Biodanza as pessoas dão um tempo para si mesmos, resgatando sua auto-estima, resgatam a sua capacidade de contornar obstáculos na vida, de serem mais flexíveis e transparentes. As pessoas percebem que há muitas pessoas como ela buscando formas de viver mais solidárias e mais afetivas... na busca de um mundo diferente, centrado na inteligência afetiva e na qualidade de vida.

 “Todo mundo quer viver de amor”...

A afetividade e o cuidado consigo mesmo e com o outro é o ponto fundamental do trabalho na Biodanza, por isso as vivências ao som da música, supõe sempre uma auto-regulação, um olhar para si e para o outro, um ousar mas também um auto-respeitar... cada um faz o que é possível e como é possível naquele momento... Sabendo que sempre podemos conectar com dons e possibilidades que ás vezes não acreditamos que temos...

A Biodanza convida as pessoas a ousarem ser felizes, com o simples e óbvio da vida... resgatando a sensibilidade para olhar no brilho dos olhos de outro ser humano, cuidar da sua própria vida, a conectar com a sua capacidade de pedir; dar e receber... Viver cada segundo da vida com toda a intensidade...


MENOS VIOLÊNCIA E
 MAIS AMOR

“Vivemos em um mundo de violência étnica, política, familiar e social.

De acordo com estudiosos, o ser humano é a espécie em maior risco no planeta. Deveria existir a educação da afetividade nas escolas para acabar com essa violência” opina Rolando Toro...

“Fomos mal educados afetiva e emocionalmente, as escolas nos ensinaram a ir em busca do conhecimento, muitas vezes alienado do viver e do vivido... Nossos filhos são violentados dentro de casa, enquanto saímos para trabalhar no intuito de oferecer o melhor... e muitas vezes o melhor seria a qualidade da nossa presença, do nosso carinho...” (M. Angelina Pereira)

Na Biodanza a pessoa começa a perceber como está o seu relacionamento com as pessoas, consigo mesmo e com o mundo... A partir dessa percepção, reaprendem-se as funções da vida, a estar por inteiro no momento presente e a perceber que cada um tem um ritmo.

Com a perda da conexão com seu próprio ritmo, as pessoas começam a ficar robotizadas, aderem a um estilo de vida apressado, mecânico que o deixa infeliz... e aí abre-se um espaço incrível para as doenças psicossomáticas, para o stress, para tudo que violenta a vida. Desconectado de si e do outro,  a violência e agressão passam a fazer parte do cotidiano, nas pequenas coisas da vida... na forma como nos alimentamos, no tempo que dedicamos aos amigos, na forma como trabalhamos, na forma como somos pais e mães, na forma como somos filhos, na forma como nos relacionamos...

A Biodanza nos leva a conectarmos com o nosso ritmo, com o nosso afeto, com a nossa sensualidade, com a nossa capacidade de religar; de fazer parte do universo, capacidade de ter amigos, e de amar...

“Se cada um passar um pouco desse amor adiante, formaremos uma grande teia de pessoas menos robotizadas, mais autênticas e felizes” ( Marlise Appy)

 Quem busca essa dança

Freqüentando as aulas, que geralmente são realizadas uma vez por semana, com duração de 2 a 3 horas, engenheiros, arquitetos, psicólogos, assistentes sociais, médicos, nutricionistas, enfermeiros, economistas, tradutores, artistas, jornalistas, publicitários, físicos, químicos, empresários, donas de casa, pessoas que trabalham em informática, aposentados, educadores, universitários, crianças, jovens e pessoas da idade dourada aderiram em todo país e no exterior a esta nova forma de Dançar a Vida...

 Como acontece

De início, sentados no chão, os participantes formam uma roda onde partilham o vivido, quer na aula passada, quer algo importante de sua vida... a escuta atenta de cada um é importante, pois permite que a pessoa vá aos poucos ousando falar de si... do seus sentimentos... e tecendo uma rede solidária onde o importante é cada um, e também a construção do grupo... que cria um útero de permissão...

Em seguida essa roda continua mas agora de pé, as pessoas são convidadas a se movimentarem ao som da música, caminham, sós, ao lado de outras, coordenam seus movimentos com 2 pessoas, 4 e com o grupo todo, e a vivência vai passando de ritmos mais acelerados, animados para vivências que vão se desacelerando... as músicas são mais lentas, relaxantes, a iluminação diminui e a pessoa passa a fazer gestos suaves de cuidado consigo mesmo, com o seu organismo. É convidada a mover-se de forma mais fluída, mais sensível... E nesse momento a conexão consigo e com o outro é de extremo cuidado, o mesmo cuidado que vamos tendo conosco mesmo. Ao final a música começa acelerar gradativamente, e as pessoas vão se despedindo e celebrando mais esse encontro...

Através dos vários ritmos as pessoas vão se soltando e descobrindo como estão vivendo a sua vida, descobrem pouco a pouco, que podem ir alterando seu estilo de viver... melhorando sua qualidade de vida, a qualidade das suas relações.

Em ritmos que vão desde samba até músicas clássicas, devidamente estudadas para cada momento, cada pessoa encontra um jeito próprio de se expressar; descobre sentimentos, necessidades, desejos. Lentamente vai se descobrindo.

“A música permeia a pele, chega no coração e transforma a vida”

(Janaína Campoy Jornalista em uma matéria Aceita esta dança? Onde fala sobre a Biodanza — publicada na revista Viva Feliz n. 6 da Editora Europa).

 DEPOIMENTOS

Matéria nossa na Revista Viva Feliz

“Aprendi a ser muito grata pela vida, pelas pequenas coisas. Expandi meu mundo e entrei em conexão com os sentimentos. Tudo mudou” conta a baiana Carolin Pimentel de Araújo, há 12 anos na Biodanza.

“Tem muita interação. As energias se misturam, fortalecendo e revigorando a alma” conta a dona de casa Maria Emilia dos Santos, 53 anos, há 3 anos na Biodanza.


Walter Boechat

O Sonho e o Imaginar
Atividades de transferência

“Canis panis somniat, pescatur piscis.”

(“O cão sonha com pão, o pescador, com peixe”.) - Ditado antigo

O conteúdo dos sonhos, seu significado e sua importância para o sonhador, são temas que têm preocupado a humanidade desde seus inícios. Sabemos que os sonhos fascinaram o homem arcaico assim como ainda fascina os homens nas culturas tribais de uma forma peculiar: seus conteúdos revelariam de forma literal e direta eventos da vida diurna. Xamãs e advinhos sempre buscaram nos sonhos fontes para suas profecias e premonições.

Um fato comum permeia o relacionamento do homem arcaico com o universo onírico, pertença ele a qualquer que seja o grupo social: os conteúdos oníricos não são vivenciados como símbolos, em sua riqueza polissêmica, mas como sinais de significado fixo. Esse significado fixo é dado por pressuposto cultural qualquer.

Esta forma literal de vivenciar a subjetividade dos sonhos não é privativa da sociedade tribal, nossos contemporâneos rurais, por exemplo, vivem sob a influência inconsciente de um sistema de crenças mágico, que atribui valores determinados a certos símbolos oníricos, reduzindo-os a sinais unívocos. a f
ascinação é semelhante, quer entre o xamã siberiano, que tem sonhos de profundo significado

religioso,   quer seja o paciente no templo do deus-médico Asclépio, na Grécia antiga que sonha a cura de sua doença no santuário do deus. Também o homem simples é tomado pelo poder das imagens em seu sistema de crenças, que rezam que certos animais ou objetos significam eventos específicos da vida des perta. Esta rede de significados visa estabelecer pontes entre o mundo onírico e o mundo diurno.

O grande valor da psicologia do inconsciente na recuperação do mundo onírico na sociedade contemporânea, é que tanto Freud quanto Jung preocuparam-se com o resgate de símbolos, não de sinais unívocos. A simplicidade ingênua da antiga abordagem dos conteúdos oníricos como sinais de valor literal foi transcendida.

Freud procurou realizar este salto fundamental declarando o sonho uma via regia para o inconsciente e usando seu método genial das associações livres. O método das associações libera a imagem de seu significado fixo, uma mesma imagem pode ter significados diferentes, para sonhadores diferentes. Mas Jung detecta uma falha no método das associações livres, uma vez que elas podem levar o sonhador para longe demais da imagem que constitui o sonho, e o sonhador acabara se deparando com um complexo inconsciente, é verdade, mas um conteúdo perta. Esta rede de significados visa estabelecer pontes entre o mundo onírico e o mundo diurno.

O grande valor da psicologia do inconsciente na recuperação do mundo onírico na sociedade contemporânea, é que tanto Freud quanto Jung preocuparam-se com o resgate de símbolos, não de

sinais unívocos. A simplicidade ingênua da antiga abordagem dos conteúdos oníricos como sinais de valor literal foi transcendida.

Freud procurou realizar este salto fundamental declarando o sonho uma via regia para o inconsciente e usando seu método genial das associações livres. O método das associações libera a imagem de seu significado fixo, uma mesma imagem pode ter significados diferentes, para sonhadores diferentes. Mas Jung detecta uma falha no método das associações livres, uma vez que elas podem levar o sonhador para longe demais da imagem que constitui o sonho, e o sonhador acabara se deparando com um complexo inconsciente, é verdade, mas um conteúdo que pode ter pouco a ver com a imagem do sonho em si. Jung lembra que para se chegar ao mesmo complexo pode-se partir, por associações livres, de qualquer conteúdo consciente. Em vez disso, Jung propõe o método das associações circunscritas; as imagens são rigorosamente valorizadas, em sua textura, cor e dimensões. As emoções particulares do sonhador em relação a cada imagem são também enfatizadas.

Mas neste fascinante mosaico antitético de duas realidades paralelas, a realidade vigil e a realidade misteriosa dos sonhos, as imagens oníricas cumprem sempre uma função básica, quer seja entre o homem arcaico, quer seja entre aqueles da sociedade complexa, onde os sonhos são interpretados de uma forma sofisticada pela psicanálise ou pela psicologia analítica. A função básica do sonho é relativizar a estreiteza da realidade consciente. A riqueza da imagética onírica nos trás de forma definitiva uma realidade nova, que nos faz recuar de nossos automatismos conscientes e questionar. Don Juan, mestre (onírico ou vigil?) de Carlos Castañeda está certo: a realidade do tonal (vigília) encobre uma realidade muito mais ampla e significativa, o mundo do nagual (universo onírico).

Walter Boechat é médico, analista junguiano, diplomado pelo Instituto C. G. Jung de Zurique, membro Fundador da Associação Junguiana do Brasil.


    

Angelica - Gabiella  - Ana - Luciane

Sonhos - O Refúgio dos desejos

Fizeram-se vãos esforços, através dos séculos, na tentativa de se compreenderem e de se explicarem os sonhos. Mas, acreditamos não haver grande diferença no modo como as raças primitivas e os povos da Antiguidade os relacionavam, pois ambos criam que os sonhos eram revelações de deuses ou de demônios, provindo de intervenções de seres de outro mundo, dando aos indivíduos a possibilidade de previsão de algum evento.

            Ainda   hoje, essa sensação perdura para muitos, concomitantemente com outra de que existe uma mensagem a ser traduzida a cada vez que lembramos ou relatamos um sonho.

            E essa tentativa de apreender o significado do sonho faz com que nos deparemos, em nosso cotidiano, com grande volume de artigos, livros e manuais de interpretação, além de inúmeros simpósios, jornadas e congressos que há sobre o tema. Sendo assim, desde os indicadores para jogos de azar até os tratados biológicos são bastante procurados por variadas classes sociais na esperança de encontrarem solução para seus males.

            Observamos, porém, que a questão afetiva, nos sonhos, geralmente, não recebe o devido questionamento.

            Pensando nos sentimentos e vivências de um sonho, notamos que nos remetem a uma variedade de emoções vívidas, como se estivéssemos assistindo a um filme ou lendo um livro, absorvidos em sua trama. Assim sendo, um sonho raramente deixa impune o sonhador, despertando-lhe, ao acordar, intensas emoções. Somos, certamente, capazes de perder um dia de humor, ficar enojados ou irritados com o que sonhamos ou, contrariamente, o prazer do sonho pode fornecer o ânimo necessário ao dia que começa.

            A originalidade do sonho difere da produção de um filme, pois sua riqueza consiste no fato de que é “um filme” produzido e visto apenas por nós. Podemos dizer que somos, simultaneamente, autores, diretores, atores e espectadores dessas cenas que falam de nossa alma, onde nos reconhecemos ou não, como agente desse enredo.

            E, exatamente pelo fato de produzirmos, encenarmos e retratarmos experiências que o mundo real jamais nos permitiria vivenciar, é que o sonho torna-se o maior veículo para escoar nossos sentimentos. É nesse lugar que o sonhador desempenha, a seu bel-prazer, todos os papéis possíveis, desde os mais loucos aos mais santos, aterrorizantes e carismáticos, sendo capazes de converter uma emoção, de criar, produzir e construir as mais fantásticas cenas. A elaboração do sonho é um trabalho árduo para o sonhador, pois tem um sentido profundamente enraizado na vida da pessoa que o elabora.

No estado de vigília, a atividade de pensar recorre, quase exclusivamente, a conceitos, utilizando-se, também, em menor grau, de imagens auditivas e impressões que pertencem a outros sentidos. Nos sonhos, em contrapartida, temos a predominância de imagens visuais, pois nos parece uma experiência vivida e não uma atividade de pensar, representando uma idéia como fato acontecido. É na maioria das vezes ao despertar, que percebemos que estivemos sonhando. Portanto, o sonho serve-se da dramatização, e não da fala, exprimindo sofrimentos, angústias e desejos de modo visceral, alucinando.

Os sonhos podem nos revelar as mais intensas e primitivas paixões, como um filme em projeção, só que, ao acordamos, deparamo-nos com o impacto das imagens que foram dramatizadas e vivenciadas com vigor e emoção.

            Por essa revelação, o ato de sonhar não pode deixar de existir, pois é o que sustenta a vida psíquica do indivíduo. É um recurso para lidar com as impossibilidades, na busca de harmonização dos impulsos. O sonho é uma operação contínua de descarga de conflitos, relativamente válida para o alívio de problemas insolúveis da vida. Por exemplo, em sonho, desaforos podem ser ditos a um chefe, em resposta às injustiças sofridas durante o dia de trabalho, sem ter como conseqüência uma demissão imediata.

            Paralelamente, os sonhos existem para proteger o sono, isto é, para permitir que a pessoa continue a dormir, repondo suas energias. Conforme Freud sentencia: “O sonho é o guardião do sono”.

            Foi Freud o primeiro a acreditar que o estudo e o entendimento dos sonhos abririam nossa compreensão para o imenso espaço interior da alma, até então não conhecido. Em seus atendimentos clínicos, propôs-se a mergulhar num mundo de escuridão, incertezas e caos, na tentativa de compreender a mensagem contida no sonho.

            A produção do sonho tem como motor os desejos. Na verdade, são eles a força propulsora para emersão de um sonho. São desejos insatisfeitos que reclamam por satisfação. Os desejos são, portanto, excitações psíquicas que fariam o sujeito acordar, por isso o sonho-Guardião do sono-, usa de artifícios para que sejam representados, permitindo que o sujeito continue a dormir. Por exemplo, tripulantes de um navio naufragado que se encontram incomunicáveis e sem suprimentos sonham com uma montanha de cigarros, com banquetes, com recebimento de telefonemas de pessoas da família. No entanto, nem todos os desejos são dessa espécie, tão imediatista. Existem desejos que são inadmissíveis para o sonhador pelo fato de entrarem em conflito com regras de conduta e leis morais julgadas válidas pela sociedade e internalizadas pelo próprio sonhador.

                Nos sonhos, sentimo-nos o centro do universo, livres e desimpedidos de todas obrigações morais e sociais e nos entregamos de corpo e alma aos desejos, lançando-nos com sofreguidão à procura de prazer. Paradoxalmente, as tendências moralmente elevadas, as aspirações socialmente apreciadas lutam por se fazerem valer, e, comumente, esses dois tipos de tendências opostas entram em conflito. De um lado, os desejos inadmissíveis que tentam ser satisfeitos de modo imediato e, de outro, um agente censor que nos aponta a moral e a ética vigente, indicando-nos o certo e o errado; o possível e o impossível; o permitido e o proibido. Por conseguinte, a satisfação desses desejos inadmissíveis requer, como conseqüência, uma nova forma de apresentá-los, uma nova roupagem, para que o sonhador não se horrorize com as cenas de seu próprio filme/sonho. Por vezes, a confusão com que os sonhos se  apresentam e sua difícil compreensão não passam de expressão de uma forte deformação que o desejo inadmissível sofreu ao se exteriorizar em forma de sonho. Podemos, assim, afirmar que esse tipo de sonho, habitual na pessoa adulta, é uma realização disfarçada de desejos insatisfeitos. Os sonhos são, portanto, realizações intangíveis de desejos não consumados.

            Os instigadores oníricos provêm fundamentalmente de acontecimentos recentes na vida do sujeito. Trabalhos inacabados, preocupações intensas, a visão de um assalto, o brilho da lua no mar, o pôr do sol, e tantas outras impressões são capazes de suscitar um sonho, na medida em que se vinculem a um desejo inconsciente. Eventos externos necessitam de uma relação com as situações do mundo interno do sujeito, a fim de viabilizarem um sonho. Ou seja, os restos diurnos, por si sós, não conseguem produzir um sonho.

            Apesar de o sonho se alimentar de materiais recentes, sua interpretação nos remete a um passado distante a que estão ligados esses desejos inconscientes. Pois esses desejos recalcados, imortais, vivem de prontidão e aguardam permanentemente a sua descarga, assim que são reinvestidos. São desejos infantis, eventos de um passado remoto, que permaneceram ignorados, e que nos sonhos são reanimados e, a cada investida, retornam para se satisfazerem. No âmago de todos os sonhos, encontra-se um desejo infantil.

            Sendo assim, consideramos possuir o sonho uma complexa rede de associações entre o passado e o presente do sujeito.

            As forças defensivas, que durante o estado de vigília são verdadeiras “guardiãs” da consciência, mantendo-se em plena atividade, enfraquecem enquanto o sujeito dorme, tornando, dessa maneira, possível a emergência dos desejos. Não obstante, tal enfraquecimento é relativo, pois as forças defensivas continuam operando com uma certa carga de energia, mesmo em estado de repouso, obrigando os desejos inadmissíveis a engendrarem-se num disfarce, apresentando-se, na maioria das vezes, profundamente deformados nos sonhos.

            A anarquia com que se apresentam os sonhos se deve ao fato de que os pensamentos oníricos são comprimidos, condensados, deslocados e superpostos uns aos outros. Essa é a possibilidade de um desejo emergir das profundezas da mente. De uma forma disfarçada, deformada, o sujeito chega a ponto de não reconhecer seus próprios desejos e ter a ilusão de mantê-los distantes. Podemos afirmar que o discurso sustentado pelo sonho separa o homem de si mesmo.

            A dimensão metafórica com que se apresentam os sonhos revela uma verdade que se confessa por meio de símbolos. De fato, tentamos nos superar a fim de revelar desejos que não admitimos em nós mesmos, das quais sentimos repugnância em pensar e falar, e que preferiríamos não contar a outras pessoas. Esses sonhos de caráter desagradável aparecem distorcidos até se tornarem irreconhecíveis, ocultando os desejos.

 Os fatos sonhados se misturam uns com os outros de qualquer maneira, desprovidos de lógica, como se fossem um amontoado de imagens e idéias desconexas e desordenadas. Mas é dentro dessa anarquia que reside a mais alta harmonia da expressão dos sentimentos.

            A esse conteúdo, inacessível à consciência do sujeito, que remete a desejos inconscientes e proibidos, chamamos de pensamento latente. O acesso ao pensamento latente só é obtido através do trabalho de análise interpretativa do sonho, que seria a decodificação dessa manifestação onírica de acordo com o código de linguagem pessoal do sujeito.

            O trabalho do sonho consiste em transformar os pensamentos latentes em conteúdo manifesto. O conteúdo manifesto se caracteriza pela narrativa do sonho tal como o sujeito o recorda e exprime.

            Transformando os pensamentos latentes em conteúdo, faz-se necessário um jogo de artimanhas que tentam driblar a censura, para que esses desejos tenham condição de serem expressos, tal como, numa situação do contrabando, onde há necessidade de se camuflar a mercadoria proibida, para que ela passe pela alfândega sem ser percebida. Sendo assim, a transformação ocorrida com o conteúdo latente não é arbitrária, ela é pré-determinada, necessária e suficientemente eficaz para dissimular a razão do desejo. A censura protege os desejos para que esses não sejam reconhecidos. Ela tem o poder de propiciar o surgimento de lacunas, fazer omissões, e acrescentar elementos ao conteúdo manifesto. Isso faz com que o sonho, por vezes, produza algo ridículo e estranho. Essa é uma das razões porque ao sonho é imputado pouco valor.

            Na maioria das vezes, quanto mais próximos estamos do conteúdo latente, mais disfarces se fazem necessários; ou, como outra alternativa, podemos nos aproximar desse conteúdo latente, transformando-o em um conteúdo manifesto completamente destituído de sua carga afetiva ou,  ainda, incutindo-lhe uma afetividade inversa. Exemplificando, uma pessoa relata o sonho da leitura “do atestado de óbito cor-de-rosa do pai”. Enfrentar a morte do pai foi algo penoso, uma fase negra em sua vida. Substituindo o negro do luto pelo rosa, ele afasta os sentimentos dolorosos do acontecido, e tenta driblar a tristeza da memória do falecimento do pai, acreditando ser a vida cor-de-rosa, de alegrias. Essa inversão na afetividade serviu para aliviar o sujeito das tensões causadas pelo ocorrido.

            Consideramos, assim, que alguns mecanismos sejam necessários na transformação do pensamento latente em conteúdo manifesto. O primeiro deles é a condensação, onde o relato manifesto do sonho aparece como uma tradução resumida dos pensamentos latentes.

            A condensação funciona suprimindo partes dos pensamentos latentes, permitindo que apenas uma parte desses apareça, ou ainda, reunindo diferentes elementos desses pensamentos latentes em um único elemento do conteúdo manifesto, numa única idéia ou imagem. Exemplo: Era “A” com a voz de “B”, com o olhar de “C”, com o sorriso de “D”, falando coisas como se fosse “E”. Essas pessoas unidas em uma só estão relacionadas entre si para o sujeito que sonhando, torna-se capaz de representá-las em uma única imagem, reunindo características próprias de cada uma daquelas pessoas, tal como um mosaico, numa colagem, onde “pessoas compostas” ou “figuras coletivas” são representadas. E quem de nós nunca se deparou com imagens desse tipo em seus próprios sonhos ou nunca ouviu relatos desse gênero?

            Outro mecanismo é o deslocamento. Nesse processo, o acento psíquico se transfere, ou “desloca”, de um elemento para outro. Geralmente, aquilo que é importante passa ocupar um plano secundário no sonho, enquanto um elemento insignificante sobressai e passa a ter relevância. Trata-se de representar o essencial pelo acessório, ou seja, o importante aos pensamentos latentes do sonho não está, por vezes, representado. Há uma transferência de valores, fazendo com que haja uma alteração, um deslocamento de sentido.

             O deslocamento e a condensação adquirem maior coerência através da elaboração secundária. Esse terceiro mecanismo faz com que características absurdas e bizarras, do sonho obtenham uma lógica aparente, na tentativa de aproximá-lo do pensamento diurno. A fim de cumprir esse propósito de remodelação do material psíquico, a elaboração secundária também utiliza acréscimos, omissões, enlaces de elementos, no intuito de tornar o sonho coerente. Sabemos, porém, que esse sentido emprestado ao sonho é tão enganoso quanto aquele oferecido pelo deslocamento e pela condensação, ambos a serviço de distorcer seu verdadeiro significado.

            Uma pessoa sonha estar no escritório da casa de uma amiga, onde observa, numa prateleira, uma torneira de banheiro como peça decorativa. No processo de interpretação do sonho, é inquirido sobre a amiga, revelando, então, o interesse sexual que mantém por ela e a impossibilidade de conquistá-la, já que esta é namorada de um amigo. Em associação a essa fala, cantarola uma música cuja letra diz o seguinte: “Estou amando loucamente a namoradinha de um amigo meu, sei que estou errado, mas nem mesmo sei como isto aconteceu, um dia sem querer olhei em seu olhar e disfarcei até pra ninguém notar. Vou procurar alguém que não tenha ninguém, pois comigo aconteceu gostar da namorada de um amigo meu”, a seguir cai numa risada incontrolável e rememora que a peça do banheiro vista no sonho era semelhante à do banheiro de uma antiga residência, onde passara alguns anos de sua infância e onde ocorrera uma situação perturbadora: ter sido surpreendido no banheiro masturbando-se, sendo punido por seu pai.

            Aliando essa recordação a outra lembrança, o paciente recorda-se de que seu pai chamava sua mãe de “minha namoradinha”. A beleza da mãe é exaltada, confessando o paciente que suas fantasias eróticas masturbatórias diziam respeito à figura materna - “A namoradinha proibida de um amigo meu”. Novas risadas.

            Portanto, esse sonho e as associações subseqüentes nos mostram o efeito do deslocamento, onde o que é essencial passa a um plano secundário. Os acontecimentos no banheiro ficam representados pela timidez de uma peça decorativa. E o amor impossível por sua mãe, pela impossibilidade de conquistar a namorada do amigo.

            A procura de uma ajuda psicanalítica deveu-se ao sofrimento do paciente em relação às mulheres, sua dificuldade de aproximação e seu fracasso na relação sexual. Ejaculava precocemente e não tinha uma ereção satisfatória.

            Aprofundando-se no entendimento desse sonho, novas associações sucederam-se: -“Se eu me aproximar de uma mulher, conquistá-la e possuí-la, vou ser punido severamente por isso”. Uma ereção satisfatória ficava, assim, impossibilitada, já que remetia ao temor de uma subseqüente punição: sobrepujar o pai, gozar imaginariamente com a mãe, é ter como conseqüência a ameaça de castração.

A ejaculação precoce servia ao propósito de alcançar um gozo, no entanto, esse gozo devia, necessariamente, ser rápido, quase que imperceptível, a fim de ocultar seu objetivo.- “Uma rapidinha para eu não ser surpreendido”. –“...que ninguém chegue a tempo de me interromper”. E, assim, gozava ilusoriamente, com o amor de sua infância e tinha a sensação de ter burlado o pai.

            O gozo era um gozo interditado pelo pai castrador, único detentor da posse da mãe e, por contigüidade, detentor da posse de todas as mulheres. Sabemos que, na fantasia da criança, tudo isso é realidade. O sonho faz o transporte dessa realidade infantil, das situações impossíveis de serem vividas na infância para o sonho adulto. Ou seja, estamos sempre retrocedendo ao nosso passado, mesmo sem o desejar e sem nos conscientizarmos disso.

            O sonho prestou-se a aproximar o sonhador de seus conflitos e desejos. Desejos inconscientes que possuíam uma estreita relação com a sexualidade infantil. Desejos incestuosos que a análise interpretativa do sonho trouxe à luz.

            Concluindo, acreditamos que a mensagem contida no sonho remete, inexoravelmente, às questões afetivas do sujeito que sonha. O espaço que o sonho demarca serve como refúgio da alma, refúgio dos desejos. Nesse lugar, liberamos nossos sentimentos e escapamos do julgamento moral que atribuímos às situações. O sonho, um mito personalizado, o emaranhado de uma história pessoal, simboliza a dinâmica da psique.

            Nos sonhos, os conteúdos são distorcidos pelo mecanismo de censura que exige um disfarce, a fim de que os desejos possam ser realizados sem serem reconhecidos, daí o caráter absurdo e desconexo do relato dos sonhos.

            Este refúgio, em que penetramos durante o sono, nos pertence com toda a sua autenticidade. Lá reside a mágica da infância e as esperanças da vida adulta. Desejos infantis, que permaneceram recalcados, inconscientes, têm a possibilidade de retornarem e de se realizarem a cada sonho.

            A análise interpretativa do sonho conduz, certamente, a uma melhor compreensão dos nossos sentimentos e emoções, trazendo à luz desejos infantis esquecidos, mas jamais perdidos, que influenciam e movimentam nossas vidas, sem que, no entanto, nos apercebamos disto.

Ana Maria Neiva Armentano-Psicóloga,Especialista em Psicologia Clínica. Professora Ensino Público, Professora Substituta UERJ(2001).

Angélica Moreira de Souza- Psicóloga,Psicanalista.Especialista em Psicologia Clínica UERJ. Mestre em Psicologia Social. Professora da Universidade Veiga de Almeida-UVA/RJ

Gabriella Ferrarese Barbosa- Psicóloga, Psicanalista. Professora Substituta da UERJ(2000). Assistente de direção da Clínica Psicanalítica da Violência/RJ.

Luciane Cytrymbaum Stern- Psicóloga, Psicanalista.Especialista em Psicanálise Infantil. Professora substituta UERJ(2000).Ex-diretora do CEPAC. Consultora de Escola Particulares.


    

Álvaro Cielo Mahl

Elementos da Psicologia Social na
Relação entre Pais e Filhos


A psicologia social privilegia à espontaneidade um papel preponderante, quando considera o processo de formação de uma identidade - singular - voltada para o humano-genérico.

             Neste processo, para atingir-se uma consciência que aja a favor não só do “eu” mas também a favor de toda a humanidade, faz-se uso deste sentimento, o qualificando como necessário para tal conquista. Isto porque é pela espontaneidade que o homem tem a possibilidade de criar , de contestar e superar as “leis” que mecanizam seu comportamento , isso em prol de ter-se uma vivência (sentir) reflexiva de nossa praxis colocando-nos a serviço do humano-genérico. E para que possa haver tal elevação o componente emocional deve presentificar-se em tal meditação.

             Aqui, me utilizo desta concepção para colocar o problema da relação entre pais e filhos no processo de criação destes últimos.

             Esta é uma tarefa difícil : o que precisa-se é ajudar o filho a ser a pessoa que ele deseja e para isso não faz-se pedir um “manual de regras” , pois este provocaria uma ruptura na espontaneidade necessária nesta relação minando as possibilidades da criança de ser ela mesma.

             Bruno Bettelheim (1988) faz da relação entre pais e filho uma analogia com o jogo de xadrez, no sentido de que é um erro seguir o próprio plano desconsiderando os movimentos do oponente e não se adaptando a ele, o que sugere a historicidade deste relacionamento. Cada episódio começa de um jeito  diferente, ou seja, este movimento constituí-se numa dialética onde as ações dos sujeitos baseiam-se no passado mas com uma dimensão do futuro. Aqui o pai, deve, procurar compreender cada atitude de seu filho e adaptar-se a seu modo de agir buscando sempre vivenciar esta história coletiva, em função de uma totalização futura.

                 Em O Mal-Estar na Civilização (1974, pg.95) Freud faz referência a Goethe mencionando uma idéia dele : “nada é mais difícil de suportar que uma sucessão de dias belos”. Faço uso deste pensamento para colocar que o contraste é também necessário, ou seja, neste convívio, a criança precisa obviamente de afeição, compreensão, carinho, satisfações, mas também de regras - limites - saudáveis que possibilitem uma vivência (vontades, desejos, frustrações, perguntas, respostas, alegrias, fantasias - isto sem produzir dúvidas ou situações agressivas que gerem angústias) e experiência crítica favorecendo a formação de um pensamento autônomo, descristalizador de uma postura automatizada que verifica-se presente no cotidiano de nossa sociedade uma vez esta reger-se por um conjunto de idéias e regras que constituem a ideologia dominante.

                Ë, portanto, importante assegurar à criança no seu estágio de desenvolvimento, o direito de ser livre, de lhe fornecer o máximo de possibilidades para que ela escolha uma vida sua.

Isto, tão somente porque, liberdade é uma condição do ser-humano.

Álvaro Cielo Mahl é psicólogo


    

Maria Beatriz Ribolla

Adolescência e Violência:
Contruções da Pós-Modernidade?

Vivemos, atualmente, neste princípio de século, uma profunda busca de explicações sobre as diferentes formas de relacionamentos e interações sociais. Principalmente se observarmos, à nossa volta, os caminhos entrincheirados de uma possível guerra mundial.

Procuramos compreender como os fenômenos sociais mobilizam nossos espaços internos e externos, nossas relações. Talvez estejamos tentando compreender e explicar, para não sentirmos. Mas com certeza, estamos construindo uma nova configuração da subjetividade, uma subjetividade ilusoriamente marcada pela individualidade.

E os adolescentes? Como imaginam suas perspectivas futuras, diante do caos que lhes deixamos como herança? Como vivem suas crises e constroem sua identidade, face à inversão de valores que construímos por décadas a fio?

Muitos teóricos (Levisky, 1998; Aberastury e Knobel,1992; Dolto, 1990; Osório, 1999; Outeiral, 2000; Waiselfisz, 2000) estão em busca de um conhecimento mais amplo sobre a adolescência, fase onde há a transição do mundo infantil para o adulto, em todos os sentidos.

Costuma-se entender este período como um espaço de crise que apresenta comportamentos típicos de oposição e principalmente um forte desenvolvimento da sexualidade. Mas, a adolescência como a compreendemos hoje, no Ocidente, é um fenômeno do séc. XX, caracterizada por comportamentos específicos, estilos de vida próprios e valores, que podem não ter características transicionais para a construção da identidade adulta.

Segundo Nominé (2001, p.35), a adolescência não é um fenômeno que sempre existiu, ao menos com as características que hoje denotamos, pois,

“... houve uma adolescência na Antigüidade Grega, que teve inclusive um papel bem delimitado, uma vez que o homem maduro podia tomar como amante um adolescente, sem que se tratasse de homossexualidade, pois essa prática pretendia ser a iniciação dos jovens efebos, que deveriam entrar na vida sexual pela via da feminilidade...”

Na Idade Média, a criança não se tornava adolescente para entrar futuramente no mundo adulto, pois já exercia os ofícios, como aprendiz, com seus pais, na infância.

O que, definitivamente, marcou o início da percepção da adolescência como uma fase diferenciada, entre a infância e a maturidade, foi a separação destes dois períodos pela escola, logo, “... a juventude transformou-se em faixa etária em razão de seu isolamento no interior das escolas...” (Nominé, 2001, p.36).

O que realmente caracteriza a configuração da adolescência neste momento pós-moderno, a ponto de hoje não conseguirmos entender seus comportamentos, e por vezes, nos sentirmos intimidados por suas reações?

Uma das questões que poderíamos levantar como possível determinante social, é a ausência de rituais de passagem. Os rituais são determinados pelos valores de uma determinada sociedade em um determinado momento social, logo, possuem um caráter de totalidade, onde todos participam.

Sabemos que as cerimônias de rituais , histórica e socialmente, denotam a possibilidade de representar o trânsito de uma etapa à outra, através da construção de símbolos, que auxiliam na formação das representações da subjetividade, logo, na formação da identidade.

Hoje, os adolescentes não possuem rituais que se manifestam de forma integral, há uma pluralidade de comportamentos, dependendo do grupo a que pertencem e seus ritos próprios, ou seja, as cerimônias coletivas perderam o significado, sendo repetidas, muitas vezes, como práticas formais.

Logo, a possível falta de internalização de novos símbolos, que são os símbolos do “mundo adulto”, que seriam provenientes da vivência de rituais específicos de passagem, nas organizações sociais, geram sensações de incerteza nos adolescentes. E estes, na intenção de não entrarem em contato com suas dúvidas, oscilam entre as representações infantis em um dado momento e em outro, aventuram-se heroicamente às novas e incertas simbologias do mundo adulto.

E quais seriam os símbolos do mundo pós – moderno, que estão sendo inseridos no cotidiano dos adolescentes, ou mesmo das crianças, que se antecipam em seu desenvolvimento e em suas vivências?

Assistimos à construção de comportamentos que sem tempo para tudo e consequentemente fragmentamos nossas experiências para que caibam nas vinte e quatro horas do dia.

Consequentemente, a velocidade das informações que o adolescente tem acesso é muito grande, mas estas passam a não ter significado por não haver discriminação entre o essencial e o periférico. Logo, acabam por não transformar a informação em conhecimento, passando a consumir tudo sem um pensamento crítico mais elaborado.

Conjuntamente à falta de crítica, os jovens vêem-se diante da busca de satisfação imediata, da impossibilidade de viverem a frustração e experiência da construção de um pensamento mágico e onipotente. Estes são atualmente, fatores geradores de conflitos e confusão em relação às atitudes, quando estão diante das situações de empasse a que são submetidos, fazendo com que surja uma paralisia, em determinados momentos e um movimento explosivo em outros.


Diante da inconstância produzida pelo efêmero, aprendemos e ensinamos a banalização do sentido ético no dia – a – dia, em nossos pequenos atos, quando pedimos aos nossos filhos para, ao telefone,  digam que não estamos, quando criticamos o comportamento de outras pessoas, mas agimos da mesma forma e tantos outros procedimento rotineiros. Assim, estimulamos a desconstrução de valores e a formação de condutas individualistas e egocêntricas como forma de sobrevivência. E isto é repetido por nossos jovens com todo o cuidado e determinação.

 Levisky (1998, p.27) acredita que:

“O jovem, em parte, é o fruto dessa sociedade que o formou e que, agora o repele ou lhe dá pouca guarida, ante suas necessidades afetivas e de valores. Seus “atos irresponsáveis” (dirigir sem habilitação, atos de vandalismos) não são nem mais nem menos perniciosos que aqueles modelos que lhes são apresentados diariamente por meio da violência da mídia, ou de mecanismos políticos repletos de corrupção...”

         Concomitante à essas questões, os modelos de conduta que o jovem encontra em nossa sociedade, são modelos que demonstram escancaradamente a falta de solidariedade, os excessos de violência, a banalização do sexo, a ampla ilegalidade consentida e a falta de uma figura que contemple a ordem e a segurança como fontes de identificação para a construção de um mundo interno menos conflitante.

Outra marca fundamental da pós - modernidade é a vivência constante com a incerteza de limites e o desfronteiramento produzido pela globalização. Isto faz com que, em nosso imaginário, não consigamos identificar aquilo que é o nosso desejo e o que é o desejo fabricado no âmbito social. O significado que surge é o de que o espaço público invade o privado, estabelece suas normas através das redes de comunicação e constrói uma certa uniformidade de padrões de conduta, não deixando que o diferente se expresse... e o jovem, necessitando da diferença, em seus lutos pela perda da infância, do corpo e dos pais, se rebela, podendo caracterizar a violência e a destruição, como marcas de sua diferenciação e liberdade.

Certamente que a construção da violência como marca, está intimamente ligada aos fatores observados até então, aos quais acrescento a vivência de uma nova estética do cotidiano adolescente que está relacionada ‘construção da linguagem inconstante dos videoclipes, breves, fragmentados, desfocados, curtos, sem início-meio-fim, bem como a visualidade dos videogames, cada vez mais realistas e violentos, rápidos e atribuindo poder a quem os comanda.

Complementando este padrão estético, há também a nova visualidade emergente dos sites e padrões computacionais, onde se vive a possibilidade de muitas janelas abertas, infinitamente inconclusivas e também a de se descartar rapidamente tudo o que não interessa mais. Logo, constrói-se uma virtualidade entre o sujeito da ação e o que é produzido, que dá margem a muitas questões, mas, principalmente quando pensamos nos espaços das inter-relações, pois teríamos mais um espaço possível entre o externo e o interno, ou seja o virtual, fonte de satisfação imediata e de fantasias.

Penso que a virtualidade pode estar associada a uma busca inconsciente de minimizar o espaço das relações, onde cada pessoa, com medo de se frustrar, convive apenas com o  que imagina do outro. Para o adolescente, a virtualidade pode promover um enfraquecimento da sua construção de ser autônomo e o contato com sua afetividade, visto que é no grupo que “ensaia” sua inserção social. Logo, quando esta possibilidade se afasta, vive-se o perigo de não se saber mediatizar os conflitos e eles passam a ter dimensões enormes, produzindo insegurança e comportamentos violentos, como formas de defesa.

Diante destes novos padrões interacionais, os jovens vão criando formas específicas de interpretação do cotidiano, que podem ser percebidas na linguagem, nas roupas, nos locais de encontro e nos comportamentos de interação social, que denotam uma característica cada vez mais fragmentada e confusa. Assim, o discurso, muitas vezes parece desconexo mas, na realidade, adquire a forma das vivências específicas desta visualidade virtual, onde tudo pode ser e não ser, onde os modelos não são definidos.

         Diante das características desta nossa sociedade pós-moderna,  é que os jovens, em busca da construção de sua identidade, se apropriam de um novo sentido para estar no mundo, mundo este que lhe confere um lugar e um papel transicional, pois não se configuram mais como crianças e ainda não pertencem ao mundo adulto.

A violência, que vemos aumentar diariamente em nosso cotidiano, assusta os nossos adolescentes por um lado, mas os incita a praticar ações violentas por outro, como forma de nivelação das diferenças sociais, pois percebem – se inseridos num processo social mais amplo, onde há exclusão.

Mas com certeza, é esta mesma sociedade que lhe transmite uma ética sem reflexão responsabilidade, que hoje pensa na redução da idade penal, como forma de eliminação daquilo que ela própria construiu.


 
    

Mauro Sergio Stepanies

Tratamento Especial para o
Autismo e as Psicoses Infantis

A psicose e autismo, são grandes distúrbios do desenvolvimento que bloqueiam na criança a formação de vínculos e relação satisfatória com os outros. Ela está tão dominada por seu mundo interno, caótico e angustiado, que tem truncado a sua percepção da realidade externa ao ponto de que as outras pessoas passam a ser sentidas como ameaçadoras. Conseqüentemente elas são levadas a buscar segurança em um mundo próprio, fantasiado e secreto.

As crianças psicóticas captam a realidade de acordo com o próprio mundo, afetado por muitas fantasias. O autismo por ser um estágio mais avançado da psicose infantil, acarreta um bloqueio ainda maior.

“Para os autistas o mundo é aquilo que parece ser...”

Devido a dificuldade de discriminação do tempo, não possuem vontade própria, iniciativa, não conseguem também direcionar a atenção, por isso também, não dirigem o olhar. Se exigirmos que as crianças normais olhem do todo para um ponto específico ou vice versa elas conseguem. “Os autistas não...” Eles possuem um déficit de coerência central.

Segundo o DSM IV estão presentes no Autismo os seguintes sintomas: Acentuada falta de alerta da existência ou sentimento dos outros; Ausência ou busca de conforto anormal por ocasião do sofrimento; Imitação ausente ou comprometida, jogo social anormal ou ausente; Incapacidade nítida para fazer amizade com seus pares; Ausência de modo de comunicação; Comunicação não verbal altamente normal. Em alguns casos os transtornos autísticos estão associados e são decorrentes a condições médicas como: espasmos infantis, rubéola congênita, esclerose tuberosa, lipoidose cerebral e anomalia da fragilidade do cromossoma x, estão entre as mais comuns.

O autismo é definido pela presença de desenvolvimento anormal e/ou comprometido que se manifesta antes da idade de três anos e pelo tipo característico de funcionamento anormal nas áreas de interação social, comunicação e comportamento restrito e repetitivo. O Transtorno é três ou quatro vezes mais frequente em meninos que em meninas. E segundo estatísticas da Organização mundial da saúde uma em cada mil crianças nasce autista. 

COMO LIDAR? 

Mobilizar a sociedade. Ter consciência que é um problema biológico que afeta a mente com muita gravidade. É uma síndrome cerebral. Não é mística. É importante ter um diagnóstico precoce, pelo menos na idade dos três anos. Psicoeducação para os pais e irmãos. Não enrolar ninguém e nem reservar informação é ou não é autista grave ou não.
A família e os especialistas precisam trabalhar em conjunto. Mudança gradual e comportamental. É necessário a utilização de medicamentos consultando para isso, um profissional especialista da àrea médica. Devemos tratá-los como indivíduos, respeitando suas limitações e o seu jeito de ser, sem discriminação e rotulação.

                       TRATAMENTO
Sabemos que existem uma série de técnicas, modelos e métodos para o tratamento; Bem como uma série de abordagens. Existem também, novas terapias medicamentosas importantíssimas e que se ministradas por um especialista trarão um grande benefício para o quadro.

Gostaria de apresentar aqui, um modelo de tratamento que venho desenvolvendo à vários anos.

UMA PROPOSTA AFETIVA 

Muitas experiências terapêuticas, a maioria até, são efetuadas com crianças vivendo em suas casas. E de fato, acreditamos que se isto for possível, deve ser tentado. Devemos considerar preferível um afastamento periódico da família em raros casos, e circunstância extremas.

“Mas porque tratá-las em um ambiente longe da família...”?

Existem casos que já passaram por uma ou mais experiências psicoterápicas sem evolução satisfatória ao longo de vários anos e o convívio familiar influenciado por repetidas frustrações, chega a um momento de ruptura, no qual um afastamento provisório entre família e criança se impõe como medida restauradora para ambos os lados.

“O tratamento institucional tem como objetivo, curar os impulsos e estabelecer o sentimento de pertinência na criança...”

É necessário um ambiente que ofereça modelos de idenficação saudáveis para estes pacientes, como uma  “comunidade terapêutica” onde os mesmos possam ao longo do tempo, de acordo com a condição interna de cada um e suas limitações irem adquirindo um referencial.

Chamamos esta proposta afetiva de “MATERNAGEM”  que é um processo atitudinal de base psicanalítica, que visa o resgate ou a reestruturação do processo de formação de identidade em sujeitos com estruturas de personalidade comprometidas como (psicose,autismo,etc...).

Ela é composta de três processos: a Identificação (ou espelho) que visa o reconhecimento do outro, do corpo e desejo do paciente, descrito por ( J.Lacan), onde a introjeção e  a formação do conceito de sí é realizada e dá-se por uma imitação controlada (comportamental) por parte do terapeuta, onde ele age como um espelho ao pé da letra. A  Introjeção do mesmo processo e posteriormente a sua Projeção.
 Acredita-se que cada processo da vida, se desenvolva de acordo com um plano de base bem definido.

Com esta técnica o processo terapêutico ocorre no contato com a referência profissional, favorecendo o desenvolvimento afetivo ou o resgate deste.

Mediante este contato com o profissional de referência irá formar-se um vínculo o qual estimula os indivíduos a se relacionarem com a realidade do seu dia a dia fortalecendo-os para que possam lhe dar melhor com suas angústias em seu desenvolvimento.

Tenho observado ao longo de vários anos tanto no Núcleo de Integração Luz do Sol, que é uma instituição especializada situada em Atibaia/SP, como em outras instituições e clínicas em vários estados, que através desta prática “Maternagem”, os indivíduos com diversos tipos de transtornos vem apresentando comportamentos mais adequados ao ambiente e exigências sociais, existindo também o crescimento nas diversas àreas do desenvolvimento.

  Mauro Sergio Stepanies  é  psicologo pela USF, membro do GEPAPI
(Grupo de Estudos e Pesquisas em Autismo e outras Psicoses Infantis).
Diretor e fundador do Núcleo de Integração Luz do Sol em Atibaia/SP.


    

Ricardo Kozac

O 13o  Jogador
Como a Psicologia eo a favntra em campor do futebol.

Os anos 90 decretaram uma nova postura nos grandes times de futebol através do surgimento dos clubes-empresa. Em decorrência desse tipo de patrocínio, está sendo possível viabilizar uma nova “filosofia” organizacional , onde um dos itens mais importantes deveria ser o reconhecimento da necessidade de um psicólogo atuante e presente para garantir um rendimento positivo e estável das equipes.

              Dar aos jogadores respaldo psicológico é tão importante quanto lhes dar uma alimentação balanceada, programada por nutricionistas. Afinal, o corpo físico e o mental são as duas faces de uma mesma unidade e merecem a igual atenção. Cuidar do corpo significa também percebê-lo como um todo unificado, do qual fazem parte as emoções e as estruturas mentais. O papel do psicólogo responsável pela saúde psíquica de um time se desenvolve a partir de uma abordagem das emoções que os jogadores vivenciam em sua rotina de trabalho. A cada novo jogo, uma quantidade de sensações são mobilizadas e, quando não existe assistência psicológica, essas sensações não elaboradas tendem a se acumular levando, em muitos casos, os jogadores a realizar atos impensados — que podem prejudicar a si próprio e ao grupo do qual faz parte. Atualmente, são inúmeras as discussões sobre a violência presente nas praças de futebol. Sabe-se que ela não se restringe à torcida e que, entre os jogadores, o descontrole é cada vez mais freqüente. O que fazer, efetivamente, para solucionar esta questão.

               Estatisticamente, os jogadores brasileiros, em sua maioria, pertencem à uma camada socio-econômica menos favorecida. Mas curiosamente são eles que, quando atingem o sucesso, recebem salários mais altos do que a maioria da população com curso superior. A meu ver, a grande contribuição do psicólogo é auxiliar o jogador na percepção de sua realidade e na tentativa de compreender a eventual problemática que esteja ocorrendo em sua vida pessoal e profissional, alertando-o sobre uma série de outros entraves: problemas de relacionamento dentro do grupo, desentendimentos, acusações e divergências de idéias, fatos tão corriqueiros na rotina de um time de futebol. E não há dúvida que o efeito cumulativo desses fatores afeta negativamente o rendimento do grupo.

                A realidade é que muitos times de futebol não sabem que atitude tomar frente a um atleta que, eventualmente, demonstre dificuldades de atuação sem perceber que disso pode advir um comprometimento da performance — que poderia ser evitado se o indivíduo em questão tivesse uma assistência a nível psíquico.

               Cada jogador, assim como cada ser humano independente da sua profissão, é um ser humano único, universo particular sujeito a oscilações, dúvidas e conflitos que determinam seu comportamento. Mas o jogador de futebol, especificamente, enfrenta problemas básicos diante dos quais nem sempre sabe se posicionar:

a)            o abandono da adolescência , período de experiências definitivas, em prol da carreira;


b)            o distanciamento do mundo devido à dedicação exigida pela grande carga de treinamentos;

c)            a necessidade de abrir mão de uma vida familiar tradicional;

d)            as dificuldades decorrentes de mudanças de país — exigindo adaptação à novos idiomas, clima e hábitos estrangeiros;

 e)            o desejo de sucesso e as dificuldades para atingir e conviver com a fama;

 f)             a curta duração da carreira.

Não quero aqui defender a idéia de que o psicólogo ocupe o lugar de curandeiro ou de mágico. Evidencio apenas a extrema utilidade da atuação de um profissional da área psi para dar aos atletas , através de um necessário suporte, as armas adequados para que eles lidem satisfatoriamente com as dificuldades acima citadas. Além delas, outra questão importante é o comportamento do jogador frente às pressões exercidas pela torcida e pela mídia em geral. A cobrança, muitas vezes indevida e inclemente, pode significar um obstáculo a mais dentro do conjunto de dificuldades às quais ele é submetido.

              No caso dos times de futebol, o psicólogo somaria suas forças com as de outros profissionais igualmente importantes para o bom desempenho da equipe. Caberia a ele , especificamente, ser um facilitador das inter-relações do grupo. Para isso, seriam necessárias sessões de dinâmica de grupo, acompanhamento individual. Palestras e reuniões informativas sobre temas atuais complementariam o trabalho, permitindo dar aos atletas uma visão mais abrangente do mundo e de sua responsabilidade como cidadão.

              Manter um bom estado emocional dos jogadores, procurando fazer com que eles percebam sua real função e momento de vida foi sempre uma tarefa atribuída aos treinadores. Peço licença ao leitor para citar aqui uma frase questionadora de Nelson Rodrigues: “... mas o que entende de alma um treinador de futebol” A pergunta, mais do que pertinente, nos remete à fatídica decisão da Copa do Mundo de 1950 cuja final no Maracanã entre Brasil e Uruguai provocou o maior silêncio do mundo . A prematura comemoração da vitória foi prejudicial para a concentração e o rendimento dos atletas brasileiros durante o jogo, favorecendo a vitória do Uruguai, um time que até então havia feito apresentações inferiores às da seleção do Brasil. Se, na boca do túnel, nos momentos que antecederam a grande final, junto ao treinador Flávio Costa estivesse presente um profissional capacitado a administrar o “ôba ôba do já ganhou”, hoje seríamos penta­-campeões mundiais de futebol.

                Um longo caminho ainda deverá ser trilhado para garantir um espaço de atuação psicológica nos esportes, principalmente no futebol, mais resistente a esta inovação do que o tênis, o vôlei e a natação. Alguns obstáculos se mantêm intransponíveis, sendo que o principal deles é a mentalidade primitiva e a postura conservadora dos dirigentes, que devem ser desafiadas e combatidas. Só assim os atletas poderão receber a totalidade dos benefícios que lhes são devidos.

Ricardo Kozac é psicólogo dos esportes


Nelson C. Silveira Filho

Um passo de Felicidade

Ajude-me a sentir a vida! Ajude-me a viver! Eu quero ser feliz!!!

Sim, estas são expressões que quando ouvidas, nos sensibilizam, tocam o fundo de nossa alma, ativa-nos o sentimentos de compaixão... Sabemos à nossa maneira, o que ela quer dizer. Ela nos é familiar, por vezes também a sentimos. São aspirações tão legítimas que quase tudo que fazemos é motivado pelo desejo de sentir a vida, viver a vida e ser feliz.

Olhando para mim, me dou conta que, às vezes, desejo isto com tanta intensidade que sinto uma igual dificuldade para lidar com tamanho sentimento. Ser feliz, implica em correr riscos... pode não acontecer... Neste momento, uma das estratégias que posso utilizar para “facilitar” minha lida, é a inclusão do outro. É mais fácil lidar com os sentimentos e a “felicidade” dos outros... Penso: “Se eu conseguir ajudá-lo a ser feliz, então poderei ser também, pois já sei o caminho”... e justifico-me: “Minha felicidade é promover a felicidade daqueles a quem eu amo”.

Quando reflito sobre esta atitude com maior profundidade, percebo que sim, contribuir para fazer mais feliz quem você ama, sempre foi, é e será muito saudável, porém, transformar a felicidade do outro como a minha fórmula de ser feliz, pode conter uma outra leitura: a de ser feliz à custa da vida do outro. É como querer abrir a porta da sua casa, com uma chave de outra casa. Pior ainda, é ficar com raiva quando percebe que não consegue... De certa forma é o que acontece quando me irrito com o outro por ele não ser do jeito que eu desejo que seja (porque eu quero a felicidade dele!!!).

Assim, quando você estiver  imbuído do direito inalienável de ser feliz, lembre-se deste pequeno e importante passo para tornar isso possível: utilize a chave de sua própria casa. Considere-se. Seja você mesmo. Olhe atenta e profundamente para seu próprio processo. Valorize e acolha seus sentimentos. Ao compreender e lidar com seus medos e dificuldades, você está cuidando e curando suas feridas, com amor e continência.


Nelson C. Silveira Filho é terapeuta corporal e massoterapia


    

AIDS

Estudo  de  quatro anos realizado no PR aponta eficácia do medicamento Homeopático apresentado em simpósio.

      Após quatro anos de estudos, médicos da Universidade Federal do Paraná divulgaram ontem, na Bahia, resultados de uma pesquisa que comprova os efeitos de um medicamento homeopático (Canova) no combate ao vírus HIV.

      Segundo o médico Paulo Castanheira, um dos participantes da pesquisa, o Canova reduziu a carga viral e infecções oportunistas nos portadores do HIV que participaram da pesquisa.

      “Durante seis meses, nós analisamos o comportamento das pessoas que utilizaram o Canova e os anti-retrovirais existentes no mercado. Os resultados foram surpreendentes”, disse o médico, que participou do encerramento do 4º Simpósio Brasileiro de Pesquisa em Aids.

      Além de 200 médicos e  cientistas brasileiros, 12 pesquisadores norte-americanos também participaram do evento.

      Castanheira disse que o Canova -composto por Aconitum napellus, Thuya occidentalis, Bryonia alba, Lachesis trigonocephalus e Arsenicum album- não tem contra-indicação, toxidade e efeitos colaterais. “O Canova também pode ser usado paralelamente com os anti-retrovirais.”

      A pesquisa foi feita com 40 portadores do vírus HIV, de 18  a 55 anos, de ambos os sexos.  “Os resultados demonstram que o Canova é um medicamento eficiente porque modula o sistema imunológico para que as células fiquem resistentes à agressão do vírus”, disse a médica Maria das Graças Sasaki, professora da Universidade Federal do Paraná.

      Os medicamentos alopáticos que combatem o vírus HIV, de acordo com os pesquisadores paranaenses, são mutantes. “Com os medicamentos normais alopáticos”, o vírus sofre mutações e os pacientes precisam de doses mais fortes”, disse Castanheira. A pesquisa revelou ainda que os medicamentos alopáticos provocam intoxicação no fígado, distúrbios cardíacos, diarréia e emagrecimento intenso, o que não aconteceria com o Canova.

      Outra vantagem do medicamento homeopático é o preço. O custo direto que um paciente com HIV tem com medicamentos importados pode chegar a US$ 2.600 (aproximadamente R$ 6.500) por mês, segundo médicos que participaram do simpósio. Com medicamentos produzidos no Brasil, o paciente gasta, em média, R$ 1.200 por mês. “Produzido em escala industrial, o Canova vai custar, no máximo, R$ 300. Estamos apenas aguardando decisão do Ministério da Saúde para saber se o Canova será isento de registro (por ser homeopático) ou se será necessário registrá-lo”, disse Castanheira. Segundo os médicos, a Vigilância Sanitária aprovou o remédio.

Psicoterapia e Grupo é tema de Novo Livro

O psiquiatra e psicodramatista Luis M. Altenfelder Silva Filho resolveu publicar o relato de seus 30 anos de experiência no tratamento e na reabilitação de pacientes psicóticos internados em hospitais psiquiátricos.

Lançado no começo deste mês pela Lemos Editorial, o livro “Psicoterapia de Grupo com Psicóticos” conta a trajetória do autor desde os anos 70, quando ainda era residente no hospital estadual de Vila Mariana (SP).

Desde o início de sua carreira, o médico teve de enfrentar dificuldades como superlotação e falta de profissionais em alguns dos hospitais em que trabalhou.

Como chegou a atender mais de 70 pacientes em uma enfermaria, o médico passou a trabalhar com grupos. Começava as sim  sua  experiência  com  as  técnicas de psicodrama que iriam nortear sua carreira.

“Eu entrava na enfermaria e conversava com todas as pacientes. Elas então formavam seus próprios grupos e, na medida em que iam entendendo a crise, passavam a ter condições de cuidar da própria doença e a tomar menos remédios”, afirma.

De acordo com o psiquiatra, a psicoterapia é fundamental para que o tratamento do paciente psicótico, que, como explica o médico, está fora da realidade, possa dar resultados.

“Por meio do psicodrama, pode-se ligar a alucinação ou o delírio a algum acontecimento da vida do paciente. Isso faz com que o processo de reabilitação seja mais rápido. À medida em que o paciente entende a doença, passa a conseguir controlar os sintomas”, afima Altenfelder.

No psicodrama de grupo, explica o autor, a participação dos pacientes é voluntária. Eles começam a discutir aspectos de sua vida e a dramatizar um problema exposto por alguém. A partir disso, criam-se o cenário e os personagens, na tentativa de tornar o problema real.

Um dos capítulos do livro é escrito pelo o filho do autor, Pedro Altenfelder Silva, que também é médico. O capítulo trata da integração entre a psicoterapia e a psicofarmacologia.

“É extremamente agradável poder ensinar a minha experiência para um filho, é um privilégio”, diz Altenfelder.

Luis Altenfelder Silva Filho


Cientistas descobrem gene responsável pela síndrome do pânico

Pesquisadores espanhóis, do Centro para Biologia Médica e Molecular em Barcelona, descobriram uma mutação genética que pode ser responsável pelos ataques de pânico. Estima-se que mais de uma em cada dez pessoas sofrem de alguma forma de distúrbios ligados  à  ansiedade. Segundo a revista especializada New Scientist, os cientistas estudaram famílias com histórico de problemas  como distúrbios ligados ao pânico, fobia de multidões e fobia social.

Segundo eles, 90% das famílias com histórico de distúrbios estudadas apresentam

uma anomalia genética. A mutação - chamada de DUP 25 - também está presente em pessoas

que não são da mesma família, mas é extremamente rara entre as pessoas que não têm problemas ligados à ansiedade. A região genética em que ocorre a mutação contém mais de 60 genes, dos quais apenas 23 já foram identificados.

Os cientistas acreditam que alguns desses genes produzem proteínas que desempenham papel fundamental no controle da forma como as células do sistema nervoso se comunicam. Pode ser que um desequilíbrio na produção dessas proteínas torne o cérebro ultra-sensível a situações estressantes.


    

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