O  TAO MANIFESTO E A ESPONTANEIDADE

INTRODUÇÃO

      

                        Estudando Auriculoterapia e Do - In, pude sentir que algo nesta filosofia me levava a MORENO; no entanto, não sabia exatamente o que era e fui esmiuçar , procurar , pesquisar. Foi assim que encontrei o atual tema e me interessei muito quando constatei e verifiquei certos itens.

                        Tenho, sem dúvida, forte influência Oriental pelos cursos que fiz e não pude deixar de emparelhar esta influência com a teoria de MORENO.

                        Sabendo que MORENO estava muito preocupado em não valorizar as “conservas culturais”, encontramos em toda sua obra lacunas nas quais poderemos enxertar uma gama de pensamentos e idéias sem modificar o sentido pleno de sua teoria. Creio que seu objetivo era fazer com que todos pudessem criar e pensar. Assim, encontrei em seus livros a citação que segue:

                   “Em virtude da universalidade do ato e sua natureza primordial, ele abrange todas as outras formas de expressão. Estas formas fluem naturalmente dele ou podem ser encorajadas para que surjam. Todo e qualquer estímulo que possa suscitar ou inibir o aparecimento de um ou outro fator, por exemplo, uso de agentes psicoquímicos ou métodos de choque ou medicamentações endocrinológicas podem condicionar e preparar o organismo para a integração psicodramática.”( 10)  

                    Quando li este trecho me animei mais ainda, pois encontrei um espaço entre estes estímulos que ele cita, onde eu poderia colocar minhas influências e posteriormente talvez, até, as técnicas orientais das quais faço uso. Foi deste trecho que nasceu o presente trabalho e ele se desenvolveu com mais entusiasmo quando me deparei com o seguinte: “ Tele é o referencial constante para todas as formas e métodos de psicoterapia, incluindo não só métodos profissionais de psicoterapia, psicodrama e psicoterapia de grupo como também métodos não profissionais tais como a cura pela fé ou métodos que aparentemente não guardam relação alguma com a psicoterapia, como seja a reforma Chinesa nos pensamentos.”
( 06 )

                    Em vista disso, procurei expor a filosofia oriental de maneira suscinta, enfocando principalmente um dos pilares básicos desta forma de pensamento, que é a energia. Procurei deixar o mais claro possível para que se possa ter uma visão bem objetiva do que é e como funciona.

                    Em seguida, tratei também rapidamente de um dos conceitos básicos da obra de Jacob Levy Moreno, a espontaneidade. Procurei não estender muito este item, preferindo dirigi-lo mais ao propósito do trabalho, tarefa esta pouco difícil porque Moreno é uma pessoa contraditória e creio que encerra isto como forte característica sua.

                    Procurei no final dar uma idéia geral de alguns aspectos das duas correntes, que de certa forma se mesclam ou às vezes muito se assemelham. O objetivo é abrir um novo espaço, novos questionamentos a respeito da espontaneidade, o que é  e como surge. Não quero, assim, afirmar nada: apenas mostrar ou sugerir um novo caminho.

 A ENERGIA SEGUNDO A FILOSOFIA ORIENTAL


                
Há milênios atrás os chineses eram proibidos de dissecar cadáveres porque acreditavam que deveriam conservar intactos os corpos de seus ancestrais para que estes pudessem ter uma vida mais saudável após a morte.

                     Por isso houve necessidade de criar uma técnica medicinal com base em estudos intuitivos e observações da Natureza.

                     O que lhes interessa é a relação de ordem Cósmica, as analogias entre nossos órgãos e as criações da Natureza. Por isso acreditam que o homem tem quatro membros porque são quatro as estações do ano; cada membro é formado por três partes porque são três os meses que formam uma estação. E assim por diante.

                    A filosofia chinesa defende uma idéia evolucionista do processo da criação. Uma vez iniciado o movimento, aparece o repouso, que será seguido pelo movimento. Este processo não se detém e é suficiente para explicar a origem dos cinco elementos, que serão citados mais tarde, e a de todos os elementos do Universo, incluindo o homem.

                    As energias que regem a Natureza foram observadas e controladas, em busca do equilíbrio do organismo com seu ambiente. Equilíbrio do Microcosmo ( homem ) com o Macrocosmo ( Universo ). Este equilíbrio é a saúde.

                    O Universo é um organismo vivo e dinâmico, constituído de uma energia cósmica primordial da qual derivam todas as coisas existentes. O nosso organismo é uma cópia deste Universo e, portanto, sujeito às mesmas leis da Natureza.

                    Para termos uma noção da visão oriental de energia, temos que primeiro entender o Tao que pode ser dividido em Tao absoluto e Tao manifesto.

                    Tao absoluto é o princípio, é o que deu origem a todas as coisas do Universo, inclusive este último. Primeiro era o Tao absoluto, depois se criou o Universo.

                    Segundo Lao Tse: “ O Tao que pode ser explicado não é o eterno Tao, o nome que pode ser descrito não é o nome invariável”. ( 04 )

                    Chu Ta-Kao: “O eterno Tao não pode ser traduzido por palavras tampouco pode ser definido o nome invariável, porque as palavras não são mais do que símbolos e uma definição se baseia na relatividade e nas coisas. Como pode representar o verdadeiro Tao que tudo abrange e o nome sem nome? Assim pois só por razões de linguagem o chamamos Tao. Porém, ele é sempre invariável, ele mesmo profundo”. ( 04 )

                    Estas palavras ilustram o absoluto ser nele mesmo do Tao primário, do qual descendemos. Este Tao absoluto não é mais absoluto, pois dividiu-se e transformou-se em tudo o que existe; deu lugar, então, ao Tao manifesto.

                    Quando o Tao absoluto se dividiu, deu origem a duas forças contrárias   YNN e YANG ) . O Tao manifesto é representado por duas figuras idênticas porém opostas por sua cor e localização e estão delimitadas por uma linha ondulada. Cada uma das figuras tem em seu interior um pequeno círculo de cor oposta à cor do mesmo. Representam o YNN ( escuro ) e o YANG ( claro ), com o jovem YANG e o jovem YNN. Respectivamente, os pequenos círculos de cor oposta são o princípio da destruição e o da troca. O círculo que rodeia a figura representa o Tao. O Tao manifesto é encontrado no homem sob o nome de energia Ki, que é a energia vital.

                    O Ki  existe em tudo o que foi criado; tem cinco fontes que são: Macrocósmica ( energia que mantém o Universo dinâmico ), Ancestral ou paterno- materna ( informação genética contida nos gametas ADN ), Respiração ( energia captada da atmosfera pelas vias respiratórias ), Alimentação ( energia provinda dos alimentos, principalmente dos vegetais, que a captam pela fotossíntese ), Pessoa-pessoa ( transmitida pelo contato com as pessoas ). As duas primeiras são as fontes primordiais e as restantes as fontes de manutenção.

                    Ki é universal, faz-se ver pela forma; Ki e forma são inter- atuantes.

                    A morte é a falta de energia vital; a causa da morte é a incapacidade do corpo humano de extrair o Ki das fontes de manutenção ou a privação destas fontes.

                    Quando se dá a fecundação de um óvulo, a primeira energia recebida é a macrocósmica, juntamente com a ancestral. Esta energia é o que propicia o feto desenvolver-se, pois Ki ativa todos os processos do corpo humano, inclusive todo e qualquer processo celular. Quando ocorre o nascimento o bebê  passa a receber energia das fontes de manutenção. Logo começa a respirar, a comer e a receber o afeto ( contato com a mãe, que é uma troca, uma circularização de energia entre a mãe e a criança) da mãe, do pai e das pessoas que convivem com ela.

                    O Ki se bipolariza em YNN e YANG. YNN é tudo o que é negativo e YANG tudo o que é positivo; por exemplo, YNN é frio, noite, mulher e outros, YANG é quente, dia, homem e outros. Estas duas manifestações de Ki devem estar em nosso organismo de forma harmoniosa e equilibrada, gerando a saúde física e mental.

                    Esta energia, que se bipolariza, atravessa o corpo de forma cíclica por caminhos determinados chamados meridianos.

                    Todo fenômeno, ser vivo ou objeto, existe a partir da inter- relação constante entre YNN e YANG. Estes dois aspectos opostos de Ki formam um número infinito de combinações que constituem  o Universo, a diversificação da Unidade.

                    Pode-se dizer que YNN contém YANG e que YANG contém YNN, pois cada um tem seu oposto dentro de si mesmo. O oposto crescerá lentamente até destruir seu hóspede: YNN se transformará em YANG e vice-versa, mas neste momento começa o processo inverso.

                    O homem é o produto do jogo de forças cósmicas; é ele mesmo um pequeno cosmos, um microcosmo. O jogo entre YNN e YANG acontece dentro dele mesmo e é eterno. Criado por este jogo de forças, cada uma das formas e funções do homem expressa um estado de predomínio transitório YNN-YANG. Assim, o homem que tende ao movimento é sempre YANG e o que tende ao repouso é YNN.

                    Ki flui incessantemente através do corpo por canais definidos, transmitindo a vida através das células e colocando o corpo em harmonia com seu ambiente. O funcionamento adequado do organismo humano está ligado à perfeita captação e ao fluxo da energia Ki através do corpo.

                    É nestes caminhos ( meridianos ) que o Do-in, a Acupuntura, a Moxabustão e outras técnicas atuam. Se algo interromper de alguma maneira estes caminhos de energia, isto acarretará uma doença no órgão correspondente.

                    Estes meridianos são caminhos precisos ao longo do corpo e são em número de doze. Cada um corresponde a um órgão do corpo, com exceção da região da cabeça e das glândulas endócrinas que são meridianos duplos, ou seja, além de percorrerem toda a extensão do corpo, cada meridiano tem seu correlato do lado esquerdo e do lado direito do corpo, exceto dois meridianos mediais que dividem o corpo ao meio, posteriormente e anteriormente.

                    Estes meridianos se localizam logo abaixo da superfície da pele e neles se encontram centenas de pontos chamados pontos de Acupuntura, que são utilizados também pelo Do-in e pela Moxabustão.

                    Além disso, todo meridiano tem um correspondente ao acoplado e a cada meridiano corresponde um órgão ou víscera. Então, ao meridiano do Fígado corresponde o meridiano da Vesícula Biliar. Ao meridiano que guarda relação com um órgão vai corresponder um meridiano ligado a uma víscera, uma vez que o órgão tem características YNN porque é oco enquanto que a víscera tem características YANG.

                    Assim , quando o fluxo de energia é interrompido em um meridiano, este pode ficar com falta ou excesso de energia e seu acoplado idem. Por exemplo: se o Fígado estiver em excesso, a Vesícula Biliar estará em falta e vice-versa. Para estabilizar esta fluxo, utilizaremos técnicas e certas leis e princípios básicos da filosofia chinesa.

                    Entre estas leis encontra-se a lei dos cinco elementos, que são Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água. Dentro desta lei encontramos a lei da Dominância e a lei da Geração.

                    Temos ainda que todo Meridiano YNN, com seu acoplado YANG, tem seu horário de maior funcionamento; sendo assim, o órgão recebe ne sua hora a sua cota de energia.

                    Os  ‘estados’ de cada meridiano oscilam entre YNN e YANG sempre que a corrente Ki é interrompida; daí a necessidade de equilibrá-las. Por exemplo: o gás é YANG e os sólidos são YNN, porém entre os gases há os que são mais rarefeitos e os que são mais densos, os primeiros são YANG e os últimos são YNN. Isto ocorre tanto nos meridianos quanto em qualquer parte do corpo. Em qualquer órgão, YNN e YANG são delicadamente equilibrados entre si. O bloqueio do fluxo destas duas energias que formam o Ki é o primeiro estágio de desenvolvimento de uma doença, pois haverá o desequilíbrio interno entre YNN e YANG e, conseqüentemente, uma destruição de suas imunidades.

                    YNN e YANG podem não ser iguais ( um sobe enquanto o outro desce ), mas sua soma total deve ser adequadamente distribuída entre os órgãos para que  o corpo se encontre sadio.

                    Estas duas forças opostas formam os cinco elementos básicos da Natureza e destes elementos se forma toda a matéria. Cada um destes elementos corresponde no corpo humano a um órgão humano ou função: Madeira - Fígado, Fogo - Coração, Terra - Baço, Água - Rins, Metal - Pulmão. Estes são órgãos sólidos do interior do corpo, onde predomina YNN, e portanto são órgãos regidos por todas as características YNN.

                    A cada um dos órgãos sólidos corresponde um oco Fígado - Vesícula, Coração - Intestino Delgado, Baço - Estômago, Rim - Bexiga, Pulmão - Intestino Grosso; estes são YANG, regidos pelos princípios YANG. Cada um destes nomes é um meridiano e os pares acima mostram os acoplados.

                    Este sistema de correspondências somado às leis e princípios, como também ao horário de cada meridiano, indica ao massagista de Do-in ou Acupunturista onde está o desequilíbrio e este dirige seus toques ou agulhas aos locais correspondentes.

                    Note-se que os chineses criaram esta filosofia baseados em observações da Natureza e crêem que o organismo humano deve seguir as mesmas leis; logo, já que a Natureza inicia seu ritmo na primavera, o corpo inicia suas funções no Fígado porque este é o primeiro órgão do corpo. Ele comanda todas as funções de todos os órgãos do corpo, inclusive o Coração e Pulmão. O Coração faz o sangue rico circular pelo Fígado e o Pulmão aspira  oxigênio que abastece o Fígado, mas é ele que dita o ritmo de cada um dos órgãos e que também mantém a circulação adequada de alimentos por todos os cantos e partes do corpo.

                    O que causa desequilíbrios de energia no corpo são as chamadas energias perversas. São estas o vento, o frio, o calor, a umidade, a seca e o fogo. Elas causam desequilíbrios atuando de três diferentes maneiras e causando as doenças. Podem atuar atacando os vasos secundários, depois os meridianos principais que conduzem energia aos órgãos e entranhas. Ou, localizar-se na epiderme e carne, obstruindo as vias de comunicação dos quatro membros, das nove faculdades e do sangue. E, por último, o comportamento do indivíduo, as relações sexuais, os traumatismos, as picadas de insetos, as mordidas de animais venenosos e o desenvolvimento exagerado de vermes e micróbios.

                    A compreensão desta filosofia chinesa vai nos ajudar a entender melhor a unidade psicossomática ou a totalidade orgânica. Para os chineses a unidade se cria do mesmo processo da energia primária que produz simultaneamente YNN e YANG, matéria e psique.

                    A energia primária é cósmica e opera em tudo que existe. Para entendermos isto deveremos compreender o dualismo que existe no psicossomático, onde o psíquico e a matéria ( corpo ) coexistem e se influenciam mutuamente e, no entanto, necessitam de uma raiz comum.

                    A energia é a essência de tudo, seu princípio e seu fim. Mas esta energia se expressa de maneira diferente em cada ser ou coisa; expressa-se também com seu TAO particular, o que dá o caráter de individualidade que cada ser e cada objeto possuem.

                    No homem a energia se expressa com a totalidade de todas as suas manifestações vitais ( físicas e mentais ), porque todas são produtos simultâneos da sua atividade YNN - YANG. O maior objetivo da vida é alcançar o maior grau de virtude, é decidir transformar em atos o que se leva dentro de nós, que não é outra coisa senão o TAO. Para que isto seja realizado, a energia precisa de um instrumento que é o próprio homem.

                    O homem é o meio e o fim, é um transformador de energia. Todo o seu organismo está estruturado para este fim. Tem as vísceras ( YANG ) para transformar os alimentos em sangue e os órgãos ( YNN )  para purificá-lo, armazená-lo e transformá-lo em energia, para assim dar continuidade ao seu processo de vida e à perpetuação de sua espécie.

                             Espontaneidade  segundo  MORENO

                    Um dos pilares da teoria psicodramática é a espontaneidade. MORENO a define como sendo uma resposta adequada do indivíduo a uma nova situação ou uma nova reposta a uma situação antiga. A espontaneidade é um fenômeno primário e positivo que não deriva de instintos animais ( oposição a FREUD ).

                    A situação do nascimento é onde aparece pela primeira vez e mais intensamente a espontaneidade ( fator E ) . O bebê passa, em minutos de um meio líquido para um meio gasoso, de uma atitude passiva para uma atitude ativa; é um mundo totalmente novo onde ele deve apresentar um grau satisfatório de espontaneidade para que possa sobreviver. No primeiro dia de vida já lhe é requerido um mínimo de espontaneidade. Ela é algo diferente da energia dada que ficou no corpo do pequeno ser.

                    A espontaneidade não é apenas hereditária ou apenas ambiental, ela se encontra nela mesma. Pode-se supor que se localiza em uma área entre o hereditário e o ambiental, onde se dariam as novas combinações de atos e onde estaria a criatividade.   

                    A primeira manifestação básica de espontaneidade do bebê é o aquecimento preparatório para o ato de nascer, para o momento do nascimento. Este aquecimento se faz perceber pelos arranques físicos da criança. E nada mais são do que a pressão que o bebê exerce nas paredes do útero, utilizando-se da cabeça e dos pés ( seus dispositivos físicos ) a fim de conseguir impulso. Somado ao aquecimento preparatório da criança temos o aquecimento da mãe, que se dá com arranques físicos ( contrações ) e mentais, a fim de auxiliar a criança em seu ato espontâneo. Assim mãe e filho preparam-se para o momento do nascimento.

                    A criança ao nascer não apresenta outros tipos de arranques senão os físicos; é desprovida de arranques mentais ou outros. Esses arranques físicos serão os arranques auxiliares do adulto durante toda sua vida, no aquecimento preparatório para um ato espontâneo. O adulto possui dispositivos físicos, mentais, sociais e psicoquímicos de arranque adquiridos. Na situação de nascimento o aquecimento começa muito antes do momento do nascimento. Este ato não é traumático, mas o estágio final de um processo que durou nove meses. O bebê tem que atuar e se adaptar rapidamente para que sobreviva.

                    A espontaneidade necessita de um estado adequado para ser liberada. O ato espontâneo é instantâneo; no seu auge ele atinge o plano do cosmos e chega ao limite do homem com o Divino. A espontaneidade é mais facilmente liberada em contato com a espontaneidade de outro indivíduo.

                    A patologia da espontaneidade é percebida em termos quantitativos, ou seja, quanto maior o grau de espontaneidade maior o grau de saúde do indivíduo, contanto que esta espontaneidade seja adequada e com certo grau de originalidade.

                    Os processos de aquecimento preparatório são uma prova tangível de que o fator E está atuando. Pode acontecer um super aquecimento preparatório, o que significará que o fator E está atuando demais em certa área, ou seja, que existe mais fator do que o necessário para um ato equilibrado.

                    O processo de aquecimento existe em toda e qualquer expressão do organismo vivo, sempre que este se esforça para um determinado ato.

                    Há indivíduos que tem um nível de fator E muito satisfatório e outros que tem um baixo nível, ou seja, são pouco espontâneos. Todos os indivíduos nascem com certa quantidade de espontaneidade, o que os difere é o maior ou menor grau de liberação desta espontaneidade, encontrando-se aí a patologia da espontaneidade.

                    O indivíduo criador tem seu ponto de partida dentro de si mesmo, no estado de espontaneidade; este não é rígido, mas ativo, tem um ritmo que cresce e desaparece gradualmente; é um estado de produção, de criação. Ele não surge evocado pela vontade consciente, não preexiste, apenas surge espontaneamente.

                    Notamos que cada vez mais o homem se torna menos equipado, preparado para situações novas, para a surpresa. O que deve ser valorizado é o momento da criação e não a obra já pronta. No entanto, os homens valorizam cada vez mais a obra acabada; o que é passível de ser copiado é algo onde não existe mais o ato da criação. A tendência do ser humano é de substituir a espontaneidade pelas “ conservas culturais”.

                    Pode-se dizer que sem a espontaneidade nada existe no homem. Ela é o fator principal, tanto no psiquismo quanto em âmbito cosmológico. É como se um pequeno Deus existisse no psiquismo de todo homem. Sabe-se que uma teologia da divindade não pode existir se não houver a espontaneidade como primeiro princípio.

                    “A espontaneidade e sua liberação atuam em todos os planos das relações humanas, seja comer, passear, dormir, ter relações sexuais, relações sociais, .... na criação artística, na vida religiosa e ceticismo.” ( 06 )

                    O psicodrama e suas técnicas tem por objetivo colocar o homem livre para criar espontaneamente, sem prejuízo e sem sofrimentos. A função da terapia é devolver ao indivíduo sua espontaneidade; esta tem grande valor terapêutico, logo a doença estaria numa insuficiência da espontaneidade.

                    Quando a causa da doença for encontrada, ela poderá ser tratada de duas maneiras. A primeira seria a corretiva, que se utiliza quando a doença já está manifesta. É aqui que se faz uso das técnicas terapêuticas do Psicodrama que estão  ligadas à manifestação e ao desencadeamento de espontaneidade. A segunda maneira seria a Medicina Preventiva, para a qual encontramos textos que abordam a educação da espontaneidade.

                    A espontaneidade expressa um duplo sentido para MORENO. Um é o sentido cosmológico, que se opõe à energia física que conservamos. Outro sentido é o psicológico: este desenvolve no homem um estado de permanente originalidade e de adequação pessoal, vital à situação que o faz permanecer vivo.

                    Num sentido cosmológico  temos a constante criatividade do mundo. Aqui as leis da Natureza não são absolutas, mas o produto de uma evolução; sendo assim, tem que existir um fator como a espontaneidade, que não seja limitado pela Natureza e suas leis. O mundo está em constante evolução e não em transformação; por isso existe a espontaneidade, para explicar esta evolução. Esta espontaneidade é energia e não está ligada à lei de conservação, porque esta vê o mundo como em constante transformação e neste não caberiam a criação e seu momento.

                    O sentido psicológico pressupõe uma concepção do homem como um gênio em potencial; no entanto, ele não sabe utilizar-se de sua espontaneidade e de sua capacidade criadora. Por isso é que existiu apenas um Beethoven, quando todos nós temos o potencial para sermos Beethoven ou qualquer outro gênio que conhecemos.

                    A espontaneidade age como um catalisador quando em contato com a criatividade e deste contato é que surge o ato criador. A espontaneidade aparece num momento em cada situação.

                    O ato espontâneo deve ser adequado à situação e ter algum grau de novidade para que possa ser espontâneo. Adequação e novidade não são sinônimos de espontaneidade. A doença se encontra no excesso de espontaneidade ou em sua escassez.

                    A espontaneidade atua sempre no presente, no aqui e agora. Além de ser uma das mais antigas capacidades do homem é também a que foi menos desenvolvida e a que normalmente é impedida de se manifestar por nossa cultura e menos valorizada. Assim, fica difícil o surgimento do homem espontâneo e de sua natureza criativo- espontânea da existência, porque este surgimento se dá no reino natural da espontaneidade. O lugar onde o homem espontâneo pode-se lançar, colorir, criar, atuar, movimentar-se livremente para colocar para fora suas capacidades é o Psicodrama.

CONSIDERAÇÕES   FINAIS

                    MORENO era um homem místico, podendo-se verificar isto em uma de suas fortes influências que foi o hassidismo. Este guarda em si inúmeros pontos em comum com a filosofia chinesa. Um dos pontos que pode ser apontado aqui é o de que o homem veio do cosmos e vai para o cosmos.

                    Para MORENO a saúde estaria ligada ao maior grau de espontaneidade adequada e para os chineses a saúde é o equilíbrio da energia vital. Pode-se supor a espontaneidade adequada como uma energia em equilíbrio, uma harmonia na espontaneidade que foi liberada. Ora, por que não cogitar que a espontaneidade poderia ser uma energia diferente da energia física ou da libido de Freud? Diferente da energia que se consegue através do chocolate, por exemplo?

                    Esta energia não é acumulada pelo corpo como também não o é a espontaneidade. A energia é cíclica, mas nós a estamos utilizando sempre, a toda hora, a todo momento. Talvez pudéssemos considerar como manifestação de espontaneidade o ato espontâneo em si e que a espontaneidade estaria dentro de nós, tão cíclica quanto o é a energia. Também como a energia, nós utilizamos a cada momento uma pequena parcela de espontaneidade. No entanto, o ato criador, o ato espontâneo seria o momento em que nós estaríamos nos valendo de uma parcela maior de espontaneidade para um outro fim. Nós nos utilizamos da espontaneidade para tudo o que fazemos: ler, pensar, dormir, nas relações sociais, enfim tudo.

                    Além disso, a espontaneidade é mais facilmente liberada quando em contato com a espontaneidade de outra pessoa ( pressupõe uma troca ). Devemos lembrar-nos de que uma das fontes de energia KI é a pessoa-pessoa , ou seja, a troca de energias.

                    MORENO coloca que o nascimento é o primeiro ato espontâneo do bebê. No entanto, o mesmo no útero se mexe. Às vezes, dá respostas ao contato carinhoso da mãe, chuta e apresenta os arranques físicos, o que me leva a pensar que o fator E está com ele, assim como a energia; e que sua maior liberação, seu maior ato espontâneo se dará no momento do nascimento.

                    MORENO mesmo refere-se à espontaneidade como sendo uma energia, inúmeras vezes. Por exemplo: “O bebê vincula a sua energia espontânea ao novo meio através de arranques físicos no processo de aquecimento.”(10) Mas nega-a como tal em outros livros ou até mesmo em páginas subsequentes. Deve-se levar em conta a natureza contraditória de MORENO e o seu desejo de não fazer com que certos conceitos e mesmo sua teoria virassem uma conserva cultural. Daí as inúmeras lacunas que encontramos em sua teoria, onde podemos enxertar inúmeras idéias; estas lacunas nada mais são do que um espaço para a reflexão.

                    Outra frase de MORENO ; “Deus é espontaneidade, daí o mandamento: Sê espontâneo!”(10). Onde está Deus? No Universo. E cada um de nós tem um pequeno Deus porque descendemos do Universo, descendemos do Tao absoluto. Se nos maiores graus de espontaneidade podemos chegar ao cosmos, ao limite do humano com o divino, por que espontaneidade não pode ser energia, se esta é a que deu origem a tudo e se faz presente na forma?

                    Temos que apresentar um grau satisfatório de espontaneidade no momento do nascimento para que possamos sobreviver e adaptarmo-nos ao novo mundo, agora gasoso. Neste momento a primeira coisa que fazemos é respirar e entramos em contato com as pessoas. Até o momento do nascimento fomos impulsionados pela energia recebida das fontes primordiais e assim que começamos a respirar e entrar em contato com as pessoas, começamos a extrair a energia das fontes de manutenção. Será que não foi a isto que MORENO se referiu quando disse que o bebê já no primeiro dia de vida deveria apresentar um mínimo de espontaneidade? Ou seja, extrair a espontaneidade do ar, do contato com as pessoas como se fosse uma energia?

                    Um bebê que não tem um mínimo de espontaneidade não nasce, conseqüentemente morre. Sabe-se que a morte para os chineses ocorre quando a energia KI  deixa o corpo; e também que as fontes de energia que recebemos ao nascer são a respiração e a pessoa-pessoa, posteriormente a alimentação. Quando o corpo não consegue mais extrair energia destas fontes também acontece a morte.

                    O sentido cosmológico da espontaneidade nos mostra um mundo em constante criação; os chineses não negam esta criação devido ao constante movimento entre YNN e YANG. MORENO coloca ainda que as leis da Natureza não são absolutas, mas o produto de uma evolução que explicaria a necessidade da existência do fator espontaneidade e que este não seria limitado por elas. Se a Natureza e tudo o que existe se originou da divisão do TAO em dois tipos de energia, é lógico que a Natureza não pode limitá-lo. Este é mais um ponto onde questiono por que a espontaneidade não pode ser admitida como energia.

                    No livro de Garrido- martin (08) , vamos encontrar citações de MORENO onde este aceita a espontaneidade como energia, em dois sentidos: uma espontaneidade que não pode ser conservada e outra que se conserva, e que é armazenada nas conservas culturais. Esta citação vai ao encontro da filosofia oriental que diz que todas as coisas, objetos ( conservas culturais ) possuem energia KI bipolarizada em YNN e YANG.

                    No entanto, Garrido afirma que MORENO não quis dar este sentido de energia à espontaneidade. Fico então a pensar a que tipo de energia estava Garrido se referindo. Já citei que não vejo a espontaneidade como energia física armazenável tampouco no sentido de libido que Freud coloca.

                    Espontaneidade viria do cosmo e estaria dentro de cada um de nós, circulando ciclicamente. Ela se manifestaria de todas as formas em todas as nossas atividades diárias como andar, comer, dançar, conversar, acariciar, enfim toda a gama de atividades que temos. Mesmo que eu tenha citado logo acima que espontaneidade não é energia física, vale a pena ressaltar que a energia física é uma manifestação diferente de YNN e YANG, da mesma energia vital. Logo, se nos aprofundarmos e chegarmos à raiz , espontaneidade e energia física são diferentes manifestações da mesmo energia KI.

                    Estaríamos continuamente “gastando” espontaneidade em nossos atos e esta estaria sendo captada também constantemente, logo sua quantidade no corpo permaneceria estável. O mais alto grau de manifestação de espontaneidade no adulto seria o ato espontâneo, um momento de criação onde grande parcela de fator E estaria sendo “gasta”. Para que este ato espontâneo tivesse lugar haveria um aquecimento que talvez pudesse ser uma ativação da corrente energética do corpo, que quando bem aquecida lança, por um momento, grande parcela de espontaneidade para fora, de maneira manifesta e logo a recupera, restabelecendo o equilíbrio. O ato espontâneo é uma maneira diferente da espontaneidade ( enquanto

energia ) se expressar, porque ela seria quase que jogada para fora em um momento.

                    Vejamos o que os chineses colocam como maior objetivo de vida. Este seria alcançar o maior grau de virtude e decidir transformar em atos o que se leva dentro de nós e isto nada mais é do que o TAO. Se nos lembrarmos que este TAO é a energia KI no homem, fica mais fácil verificar que este TAO poderia ser a espontaneidade.

                    O objetivo de MORENO seria semelhante ao dos chineses, ou seja, sermos espontâneos, transformar em atos colocando para fora o que sentimos, o que pensamos, sem culpas ou sofrimentos.

                    Claro que este TAO é particular a cada um de nós, pois em cada um ele se manifesta diferentemente; do contrário, todos os homens seriam iguais,

                    Tal qual MORENO, os chineses aceitam a idéia de que o homem vem do cosmos. Para MORENO, dentro de cada um de nós há um pequeno Deus. Os chineses dizem que o homem é um pequeno universo regido pelas mesmas leis do Macrocosmo. As duas correntes se mesclam porque as duas vêem o homem como um ser divino, acreditam nele e nele se baseiam.     

                    Os chineses acreditam que a doença surge quando há um bloqueio no curso da energia KI, debilitando assim, o organismo como um todo, ou seja, pode afetar tanto o físico como o psíquico. Para MORENO a doença é a falta de um adequado de espontaneidade, ou seja, a maior ou menor presença de espontaneidade no indivíduo determinaria seu grau de saúde. Note-se que ele admite que todos nós nascemos com a mesma quantidade de espontaneidade e o que nos difere é o maior ou menor grau de bloqueio desta. Notamos mais uma vez certa semelhança nas duas linhas de pensamento. O bloqueio de energia nos meridianos faz com que estes fiquem em excesso ou falta da mesma. Da mesma maneira MORENO diz que o bloqueio da espontaneidade é ruim ao indivíduo, ao mesmo tempo em que um superaquecimento preparatório também é nocivo e vai indicar a presença de mais fator E na área do que seria necessário naquele local. E o que significa isto? Que sentido tem? Parece-me que, neste sentido, espontaneidade e energia se fundem em uma mesma coisa; no entanto, o que difere é a forma como se fala delas e não o seu conteúdo.

                    Note-se que falei até agora em energia e espontaneidade adequadas ( equilibradas ) porque não quero aqui tratar de patologias, pois não é este o objetivo do trabalho.

                    Pergunto então: O que é uma obra, um momento de criação?  Acho que é o momento em que colocamos aquilo que temos dentro para fora, ou seja, é um momento único em que expressamos concretamente aquilo que levamos conosco, nosso mundo interno, de forma simbólica muitas vezes ou quase sempre, mas da maneira como o entendemos. E não é exatamente isto que os chineses colocam? E MORENO em relação à espontaneidade?

                    Em  “Las palabras del padre”, MORENO diz que a espontaneidade não é uma energia psíquica, mas dá como exemplo a libido de Freus. Ilustra, com a catarse, que a energia em seu sentido físico não pode ser levada ao social ou ao psíquico.

                    Leve-se em conta que a energia à qual me refiro é total e absoluta e que através das diferentes manifestações e jogos entre YNN e YANG ela funciona em determinadas partes do corpo de diferentes maneiras. Assim, por combinações entre as polaridades, na área do cérebro agiria uma energia diferente daquela que atravessa o corpo ou os músculos. Por este motivo haveria uma energia diferente, mas todas seriam o produto de diferentes manifestações entre YNN e YANG e todas derivariam da energia KI e teriam vindo do antigo TAO absoluto. Logo, em suas raízes todas seriam iguais e o que as diferiria uma das outras seria a forma de manifestação.

                    Vale a pena citar que MORENO se refere também à cultura chinesa dizendo: “Tele é o referencial constante para todas as formas e métodos de psicoterapia, incluindo não só os métodos profissionais de psicoterapia , psicodrama e psicoterapia de grupo, como também métodos não profissionais tais como a cura pela fé, ou métodos que aparentemente não guardam relação alguma com a psicoterapia, como seja a reforma chinesa dos pensamentos.” (10) Como pudemos constatar, ele próprio abre um espaço para tal filosofia e me pergunto até que ponto ele a conhecia, em virtude de tantos pontos em comum. Além disso, sua influência hassídica guarda fortes semelhanças com a filosofia oriental.

                    De certa forma, gostaria de acreditar que MORENO possa ter entrado em contato com esta filosofia; no entanto nada deixou absolutamente claro; talvez por dúvidas ou simplesmente para que nada no Psicodrama se convertesse em conserva cultural. E o que ele fez é a maneira mais fácil de nos fazer pensar e raciocinar, talvez também seu objetivo.

                    O que tentei mostrar foram certas semelhanças que encontrei e muitas outras que não vem ao caso citar neste trabalho, entre as duas correntes, uma ocidental e outra oriental. Sem dúvida, abordei dois aspectos muito subjetivos, mas espero poder contribuir assim de alguma maneira para novas buscas e novos questionamentos.

 

 REFERÊNCIAS  BIBLIOGRÁFICAS
                      

1-  Duke, Marc - Acupuntura - a extraordinária e milenar arte chinesa de curar                                                                                                   doenças - São Paulo, Editora Arte Nova, 1972.

2-  Fonseca, J.S., Filho - Psicodrama da Loucura - São Paulo, Ágora, 1980.

3-  Mann, Félix - Acupuntura - segredos da medicina oriental - São Paulo, Fórum Editora Ltda, 1971.

4-  Martin, E. G. - J.L. Moreno - Psicologia del encuentro - Sociedade de Educacion Atenas, 1978.

5-  Martins, A,C.D. - Elementos da Acupuntura - Grond/Global, 1979.

6-  Moreno,J.L. - Fundamentos do Psicodrama - Summus Editorial, 1983, pg. 249

7-  Moreno, J.L. - J.L. Moreno y Las palabras del padre - Editorial Vancun, Buenos Aires, 1976.

8-  Moreno, J.L. - Psicodrama - Cultrix, 1982, pg 67,105, 10.

9-  Moreno, J.L. - Psicoterapia de grupo e Psicodrama - Editora Mestre Jou, 1974.

10- Sussmann, D.J. - Acupuntura - teoria e práctica - Buenos Aires, Editorial Kier, S.A, 1981, pg 26.

11- Apostila do curso de DO-IN - 1982.
Publicado na Revista de Psicodrama - Ano 7 - No 2
Anais do IV Congresso Brasileiro de Psicodrama

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