PSICOSSOMÁTICA NA ÁREA SEXUAL

 – UM ESTUDO DE CASO

MÔNICA LEVI *

“Em um aspecto estão os bárbaros trácios mais adiantados que os civilizados gregos: 
no de saber que o corpo não pode ser curado sem curar-se a alma. 
Eis a razão porque os médicos de Hélade desconhecem a cura de muitas enfermidades: porque ignoram o homem como um todo”
(Sócrates 400 a.C)

A proposta deste artigo é apresentar uma forma de trabalhar com queixa psicossomática na área sexual.

Queixa
Carla (nome fantasia) procurou a terapia, com a queixa de dificuldade sexual: “falta de vontade”, dificuldade de falar o que sente e de confiar nas pessoas.

Questionada sobre o ‘poder confiar’, relatou que a única pessoa que confiava na vida era seu pai, e que o admirava muito.

Histórico

Filha mais velha de um médico intelectual e admirado e uma mãe considerada distante e pouco 
significativa. Esta faleceu quando Carla tinha 20 anos, o que acarretou que ela assumisse o papel de mulher
da casa.

Na época que procurou a terapia estava com 26 anos, morava com o pai e um irmão, era profissional liberal realizada no que fazia, mas com excesso de atividade e “uma agenda desorganizada”.

A iniciação sexual ocorreu aos 24 anos, com um namoro não significativo e sem estar apaixonada. Nos dois anos seguintes teve alguns relacionamentos semelhantes, onde sexualmente ia tudo bem e sem compromisso. Atualmente estava começando um namoro com um rapaz diferente da amostra anterior, significativo e admirável, portanto o homem que poderia competir com seu pai.

Abordagem Psicoterápica
Neste ponto surge a queixa sexual. Estava tantalizada, não conseguindo ter sexo e
amor concomitantemente. Este homem não se encaixava na personagem do mito que ela vivia: o de Electra. 
Traçar-se-ão aqui alguns parâmetros sobre este mito. 
Electra foi a menina do pai. Descendente de deuses e reis, casa-se com um simples camponês ao qual ela não consegue pertencer. Só após a tragédia dos assassinatos do pai e  da mãe e o conseqüente julgamento, ela obtém o perdão dos deuses e a permissão de  casar com um homem ao qual ela pode pertencer.

Examinando a árvore genealógica de Electra, podemos verificar que começa com Tântalo, filho mortal de deuses, que por desobedece-los é amaldiçoado para todas as gerações e condenado a ficar fora da vida e da 
morte,  sem  nunca poder ter o que deseja. 

As Electras atuais, são mulheres tantalizadas, que nunca conseguem ter o que querem. Tem proibido o
sexo e/ou o amor, tornando-se mulheres não orgásticas ou com dificuldade de manter um vínculo amoroso, tendo
como desfecho final do roteiro de vida, a solidão. O amor ficou fixado na figura do pai, e continuam a ser emocionalmente as “Meninas do Pai”, apesar da idade cronológica.

O mito retrata, com sua linguagem simbólica, uma influência precoce, até os dois anos de idade, quando ainda não existem critérios racionais ou procura de alternativas pela criança, a qual permanece fixada numa fase precoce do desenvolvimento e por isso não vê saída -  não aprendeu as tarefas de crescimento emocional e de resolução. Junto com toda a influência dos seus ancestrais, as suas decisões básicas de vida, o componente somático e o herói mítico,  a criança elabora o esboço de um plano pré-consciente de vida que a conduzirá a um
final previsível e determinado, o qual denomina-se: roteiro de vida ou script (Berne, 1974).

Carla tinha o roteiro de ” morrer com 50 anos, sozinha, sem sentir falta de nada”.

A paciente não trouxe conteúdo de sonhos, o que é freqüente em pacientes portadores de personalidade psicossomática. Estes pacientes tem pensamento operatório, voltado para o fazer. Trabalham muito para evitar o aparecimento dos afetos (Marty,P e  M’uzan,M., 1983). Estes afetos recalcados podem ser somatizados.

Foram analisados seus heróis míticos, através dos contos ou livros mais marcantes.

Na infância identificava-se com  Sereia de Anderson- ela não podia sair do mar e ele, o príncipe, não 
podia entrar no mar, se não morria.

Na adolescência: Naná, de Émile Zola. Tinha duas personalidades - certinha e prostituta. Termina sozinha , doente e rejeitada.

Na idade adulta: Bruxas de Avalon. A sacerdotisa tem um destino pré-determinado pelos deuses e 
termina só.

Interessante notar que as três heroínas tem o mesmo roteiro de solidão.

As emoções que surgiram eram medo de castigo e culpa indefinida.

Na medida que todos estes itens foram trabalhados, surgiu uma lesão no colo do útero, que  após seis meses de tratamento médico, continuou resistente, apresentando inclusive um resultado Papanicolau classe III .
A paciente nesta época estava apaixonada e pensando em casamento.

Isto levou ao seguinte questionamento por parte da psicoterapeuta. 
 

-          Por que esse sintoma agora? O que se propõe com isto? Está querendo fabricar um câncer? 
Quem é o destinatário? Em função de que situação ambiental ele foi criado?

-              Por que mostra essa tranqüilidade, lidando com um pré-cancer? Está querendo morrer? Não.
Está sendo tratada, observada e qualquer coisa que aconteça pode ser operada.

-              Por que está querendo tirar o útero? Que associações faz com o útero? As associações foram : sujeira e culpa.

 

Surgiu aí então o trauma do estupro, que sofreu aos 11 anos , efetuado por um amigo

do pai. Fazendo a regressão pela ‘técnica dos elásticos’ ( Haimowitz, M. and N.,1976) para vivenciar o trauma
( Haimowitz, M. and N.,1976)  verificou-se que foi manipulação sem penetração.

A culpa remanescente foi da sensação de prazer sentida, numa relação incestuosa (amigo do pai).

Aliviando a culpa, não era mais necessário agredir o útero para ter que retirá-lo e sentir-se “limpa”.

 

Conclusões e aplicações clínicas

A importância de analisar as influências ancestrais e familiares juntamente com as emoções reprimidas. 
O porque e quando no histórico do paciente, acontece a somatização e o significado do órgão de choque 
escolhido.

*          Monica Levi é psicóloga, Analista Transacional Didata (União Nacional de Analistas Transacionais), Especialista em Terapia de Casais e Terapia Sexual, conferencista, autora dos livros “Um Novo Começo, Como superar sem traumas uma separação”, Ed. Gente e co-autora do livro “Destruição e Resgate do feminino, no homem e na mulher”, Ed. OLM.

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