José Fonseca Filho
Psicodrama

Conversamos com um dos pioneiros do psicodrama no Brasil. Ele participou do movimento para a implantação e desenvolvimento desse método em nosso país. José Fonseca foi também um dos primeiros autores de livros brasileiros sobre psicodrama (1980). Ele atua hoje como psiquiatra, psicoterapeuta, professor, supervisor e coordenador do Daimon-Centro de Estudos do Relacionamento. É ainda o editor do International Forum of Group Psychotherapy e membro do Conselho Diretor da Associação Internacional de Psicoterapia de Grupo, entidade fundada por J. L. Moreno em 1973.

 

C - Por que o Brasil é a maior comunidade psicodramática do mundo?

F – Em primeiro lugar devemos levar em conta que o Brasil é um país muito populoso, com um grande número de psicólogos, médicos, assistentes sociais, pedagogos e outras profissões afins. Em segundo, porque o psicodrama tem afinidades culturais com os povos latinos, como o próprio Moreno assinalou. Outro fator a ser considerado é que o Brasil conseguiu uma organização bastante razoável do movimento psicodramático, coisa que não aconteceu necessariamente em outros países. Nesse sentido a criação da FEBRAP (Federação Brasileira de Psicodrama) em 1976 foi um passo decisivo. O movimento expandiu-se de forma fluente, com uma liderança multifacetada que acolhe as divergências científicas em um clima de respeito mútuo.

C – Como você vê o movimento psicodramático na América do Norte e na Europa?

F – Apesar de Moreno ser romeno e ter realizado sua formação acadêmica em Viena, na verdade o grande desenvolvimento do psicodrama aconteceu nos Estados Unidos. A energia de J. L. Moreno e depois de sua companheira Zerka, fizeram com que o psicodrama americano se expandisse para outros países. Através da ASGPP (American Society for Group Psychotherapy and Psychodrama), fundada em 1942, os americanos têm um congresso anual com a participação de um número expressivo de psicodramatistas. Existem diferenças culturais entre Brasil e Estados Unidos que se refletem na forma de se dirigir uma sessão de psicodrama. Os diretores americanos são mais expressivos, algumas vezes até um pouco grandiloqüentes para o meu gosto. Prefiro uma direção mais suave, porém, além de diferenças culturais devem ser levadas em conta as diferenças de personalidade entre os diretores. Há algum tempo, publiquei um artigo na Revista Brasileira de Psicodrama cujo título foi: "O papel de colonizado e de colonizador. Por uma identidade do psicodrama brasileiro". Nele comento, por exemplo, que o tango e o samba são músicas maravilhosas, mas completamente diferentes em sua estrutura melódica, na temática das letras e na forma e movimento de suas danças. Impossível que estas diferenças culturais não se manifestem também na forma de se fazer psicodrama. Então, no momento em que o psicodrama brasileiro começa a se distanciar de suas influências de origem, sem necessariamente renegá-las, ele passa a esboçar uma identidade própria.

C – O que você acha da influência da psicanálise no psicodrama aqui no Brasil?

F – É impossível analisar a história de qualquer escola psicoterápica sem levar em conta a psicanálise, pois ela é, historicamente, o início de todas as psicoterapias. O movimento psicanalítico brasileiro deve ter se iniciado nos anos 30. Somente depois de muitos anos começaram a surgir outras linhas psicoterápicas, entre as quais o psicodrama. Este surgiu no final dos anos 60, no Rio de Janeiro e em São Paulo. O próprio Moreno, apesar de o desejar, não conseguiu fugir totalmente da psicanálise, pois foi um criador por extensão e oposição à Freud. Há muitos autores que tentam fazer uma ponte entre o psicodrama e a psicanálise. Estou lançando um livro, "Psicoterapia da relação – Elementos de psicodrama contemporâneo", pela Editora Ágora, onde, entre outras coisas, abordo este tema. O psicodrama contemporâneo considera, sem ferir os princípios básicos de Moreno, alguns elementos da psicodinâmica psicanalítica. Nesse livro existe um capítulo denominado "Freud, Moreno e a bossa nova", onde explano como Freud e Moreno podem ser integrados.

C – Por que houve o surgimento de tantas correntes psicodramáticas no Brasil?

F – Por decorrência da diversidade dos seres humanos. Isto aconteceu também na psicanálise. Os discípulos de Freud passaram a acrescentar, contribuir e divergir. No início eram expulsos da Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Exemplos: Reich, Jung, Adler, Stekel, entre outros. Anos depois, Melanie Klein teve idéias muito diferentes em relação às propostas freudianas. Mas já eram outros tempos e Klein não foi expulsa da IPA. Em Londres, criaram-se dois cursos, um freudiano e um kleiniano que, depois de algum tempo, deram origem ao "grupo do meio", que integrava as idéias dos dois. Com as outras linhas e com o psicodrama acontecem fatos correlatos. Com a experiência, você passa a imprimir uma marca pessoal em seu trabalho. Se você tomar vinte leitores de Moreno, você terá vinte diferentes compreensões de seus textos, mesmo que se assemelhem em alguns pontos. Ou seja, sempre existirão divergências. As pessoas fazem uma leitura télico-transferencial de seus autores e, portanto, sempre teremos interpretações "emocionais" dos mesmos. O problema é que as pessoas acham que a leitura "verdadeira" é sempre a sua; a falsa é a do outro. Daí surgem disputas, competições, desentendimentos e agressões. Seres humanos são complicados!

C – Por que muitos psicodramatistas acabam trabalhando na psicoterapia bi-pessoal e não na grupal?

F – Por uma contingência da realidade da clínica particular. Para se trabalhar com grupos é necessário que se tenha uma clientela grande. Os grupos são constituídos por um número que varia de seis a dez, doze pessoas. Você deve dispor de um "banco" de pacientes para repor eventuais saídas. Já em uma instituição, hospital, centro de saúde ou escola, a coisa muda de figura. Você pode trabalhar com grupos terapêuticos, grupos pedagógicos, de supervisão, sociodramáticos. O leque se amplia e as possibilidades de trabalho aumentam.

Esse é um dos motivos porque em clínica particular trabalha-se mais ou somente com psicoterapia individual.

C – Como um dos pioneiros no lançamento de um livro psicodramático, "Psicodrama da loucura", como você vê a atual produção literária psicodramática no Brasil?

F – Vejo com a maior alegria. O número de livros de psicodrama escritos por brasileiros é grande, cerca de 90. Em 1980 lancei o "Psicodrama da loucura" que está em sua 5ª edição. Creio que Weil, D’Andrea, Soeiro e Naffah publicaram livros antes dessa data. Afora os livros, temos um número enorme de artigos, dissertações de mestrado e teses de doutorado sobre psicodrama. O psicodrama, definitivamente, alcançou a respeitabilidade científica.

C – Como você vê o futuro das psicoterapias?

F – As psicoterapias psicodinâmicas estão em crise por vários motivos. Primeiro porque vivemos uma época em que os resultados psicoterapêuticos estão sendo contestados. Na verdade, vive-se um momento científico em que tudo é medido e os resultados checados. As companhias de seguro-saúde por sua vez questionam os tratamentos prolongados e, portanto, dispendiosos. Nesse sentido, quais psicoterapias "funcionam" ou "não funcionam"? Tudo indica , apesar dos protestos, que esses questionamentos científicos, econômicos e culturais estão promovendo uma grande transformação no panorama das psicoterapias. E já estamos começando a sentir seus efeitos. Creio que haverá um campo aberto para as psicoterapias chamadas breves (focais e temáticas) e para as psicoterapias de grupo (trata um número maior de pessoas). O psicodrama tem grande possibilidade de inserção neste novo contexto por ser uma terapia de ação e pelo fato de poder trabalhar de forma focal. A psicanálise realizada seis vezes por semana, e não sete, porque, como dizia Freud, o psicanalista precisava descansar, será uma lembrança histórica. As psicoterapias serão mais ágeis, mais diretas e mais curtas.

C – O que é uma sessão aberta de psicoterapia?

F – O psicodrama começou com uma sessão aberta realizada no dia 1o de abril de 1921, na cidade de Viena. Moreno convocou o povo vienense para debater os problemas políticos da época. Colocou uma cadeira vermelha de espaldar alto no palco e convidou o público a assumir o papel de rei. Esta foi uma sessão aberta socioterápica ou sociodramática. Já em 1922 Moreno iniciava o seu Teatro da Espontaneidade também na forma de sessão aberta. O público era convidado, pagava a entrada e participava (no sentido literal da palavra) do espetáculo. Enfim, chegou ao Teatro Terapêutico ou Psicodrama e continuou fiel a forma da sessão aberta. Nos Estados Unidos manteve durante muitos anos o Teatro Terapêutico da cidade de Nova York onde se realizavam as sessões abertas de psicodrama. Em seus últimos anos e após sua morte as sessões abertas passaram a se realizar no Instituto Moreno de Beacon, onde tive a felicidade de participar de algumas delas.

C – Como funciona uma sessão aberta no Daimon?

F – As sessões abertas do Daimon existem ininterruptamente desde 1984. São 16 anos de experiência. Utilizamos o mesmo sistema descrito acima: o público tem acesso ao teatro através de uma quantia correspondente a uma entrada de cinema e vivencia um trabalho psicoterapêutico com a duração de aproximadamente duas horas. A sessão aberta decorre em três etapas: 1) aquecimento (aquecimento do grupo e do protagonista); 2) dramatização (composta de cenas sucessivas); 3) compartilhamento (a platéia compartilha os sentimentos experimentados). A sessão apresenta três contextos: 1) social (o público traz os valores culturais da sociedade a que pertence); 2) grupal (rede relacional específica do grupo); 3) dramático (quando se desenvolve dramaticamente a trama emocional do protagonista). Estão também sempre presentes os cinco instrumentos do psicodrama: 1) diretor ou terapeuta; 2) protagonista (o paciente ou aquele que dramatiza); 3) egos auxiliares (participantes do grupo que auxiliam o protagonista, desempenhando seus papéis complementares); 4) platéia ou público (pessoas que não participam diretamente na dramatização); 5) cenário (espaço virtual onde acontece a dramatização). Então a sessão aberta pode ser chamada de "psicoterapia momento" porque ela não tem seqüência processual. O encontro terapêutico com aquele grupo, aquele protagonista e aquele diretor acontece uma só vez, nunca mais se repete. O compromisso ou o "convite" é para um "encontro" e isso é absolutamente moreniano. A sessão aberta, psicoterapia momento, é a mais breve das psicoterapias breves, é a psicoterapia brevíssima. Está na posição oposta da psicoterapia processual, onde existe um mesmo terapeuta e um mesmo grupo durante meses e anos a fio. Ambas são experiências válidas, mas de qualidade estrutural diferentes. Ser protagonista de uma sessão aberta é uma experiência inesquecível do ponto de vista existencial e terapêutico.

C – Como a sessão aberta se torna terapêutica?

F- Em psicodrama utilizamos a expressão "catarse de integração" para descrever o processo em que o paciente, através da dramatização, coloca seu mundo interno para fora, desorganiza as estruturas conflitivas e as reorganiza de forma mais harmônica. Surge um novo olhar sobre si mesmo e sobre suas relações. Esta seria a estrutura básica da ação terapêutica psicodramática.

C – Existem novas formas de psicodrama?

F – Utilizando a expressão psicodrama de forma ampla, não podemos deixar de considerar as experiências e as novas formas de teatro espontâneo. Assim surgiram o play-back-theater, o teatro-psicodrama, a retramatrização etc. De outro ponto de vista, creio que devemos levar em conta a criação de técnicas derivadas do psicodrama como o psicograma (dramatização através de desenhos), o psicodrama com brinquedos, a psicoterapia da relação (o psicodrama adaptado para a psicoterapia individual) e o psicodrama interno (trabalho com imagens visuais internas) .

C – O play-back-theatre é terapêutico?

F – Existe muita controvérsia sobre o que é ou não terapêutico. Costumo fazer a distinção a partir do contrato de trabalho que se estabelece com o grupo e por conseqüência com os protagonistas. Neste sentido vale a intenção primordial do trabalho e não o que lhe é secundário. Por exemplo, uma boa conversa com um amigo pode ser terapêutica, um namoro pode ser terapêutico, mas certamente não constituem uma psicoterapia propriamente dita. Então, a meu ver, o play-back-theater não é uma psicoterapia, mas eventualmente ele pode ser terapêutico.

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