COMPONDO UMA EQUIPE MULTIDISCIPLINAR PARA TRATAMENTO DA OBESIDADE INFANTIL 
 

Vera Subtil Viuniski (1)

Nataniel Viuniski (2)

 

         A obesidade em qualquer  idade, é um problema multifatorial. Ainda mais na infância e adolescência, quando além de envolver o paciente, envolve também a sua família e o seu círculo social mais próximo.

            Ao contrário do adulto, a criança e o jovem não são responsáveis diretos pela sua alimentação. Também sofrem enorme influência pelo estilo de vida que a  família adota. Para ilustrar, basta compararmos uma família que passa o domingo inteiro de pijamas assistindo televisão (família tipo Bananas de Pijamas) com outra que procura um estilo de vida mais ativo, em contato com a natureza ou praticando algum esporte.

            Fica fácil entendermos porque, um profissional da saúde, sozinho, seja qual for a sua área ou especialidade, não pode (nem deve) dominar todos esses aspectos, que gravitam desde o orgânico ao emocional, passando pela genética, nutrição, sociologia, recreação, somente para citarmos alguns.

            A abordagem multidisciplinar é a que vem oferecendo os melhores resultados para essa patologia.

            Trataremos aqui de detalhar uma equipe multiprofissional, desde a sua  formação, passando pela sua atuação e concluindo com uma fórmula para tornar esse tipo de tratamento mais acessível para os pacientes.

            A primeira dificuldade que encontramos é conciliar esses profissionais, de origens tão diversas quanto médicos ( pediatras, endócrinos, ortopedistas), psicólogos, nutricionistas e fisiologistas do exercício.

            Costumamos chamar esses profissionais da saúde de Terapeutas da  Obesidade. Esses profissionais deverão possuir, como pré-requisito, algumas características:

                                    - Uma grande capacidade para trabalhar em grupo.

                                    - Uma grande capacidade para incentivar e motivar os pacientes.

                                    - Uma grande tolerância à frustrações.  

            Mesmo quando conseguimos encontrar esses técnicos, que estejam  dispostos a trabalhar em equipe, o próprio paciente e sua família encontram dificuldades que vão desde horários incompatíveis até o problema de custo do tratamento.

            No nosso serviço, a equipe é formada por um pediatra, um ortopedista, duas psicólogas e uma nutricionista.

            Quando o paciente vem ao serviço pela primeira vez, lhe é explicado a filosofia do trabalho. Assim esclarecemos os objetivos, traçamos metas plausíveis e principalmente, desfazemos as fantasias que essas pessoas possam ter em relação à obesidade e seu tratamento.

            Os objetivos devem ser realistas, pois a mídia está cheia de pilotos automobilísticos, modelos fotográficos  e viúvas, que oferecem fórmulas mágicas e rápidas para emagrecer, visando o lucro fácil e sem nenhum respaldo científico.

            As crianças  e adolescentes contam com um maravilhoso aliado, que é o  crescimento. Dizemos que crescer sem engordar, já é emagrecer.

            Dentro dessa filosofia, desfazemos os temores da família em relação à carências alimentares, alterações no crescimento e principalmente tranqüilizamos a criança, pois ela já sofre com sua obesidade e tem medo de sofrer mais ainda com a fome.       

Na próxima consulta, o paciente será visto pelo pediatra clínico, onde será  avaliado do ponto de vista médico, será mensurado pôndero-estaturalmente e terá  sua  obesidade confirmada e classificada. Aqui   são feitos os diagnósticos diferenciais, sendo que a esmagadora maioria dos pacientes são obesos do tipo primários ou exógenos, isto é, sem complicações endócrinas ou genéticas. 

            Podemos afirmar que uma criança com desenvolvimento neuropsicomotor normal, genitália normal e estatura normal, sempre terá obesidade primária ou exógena.

            Como rotina, solicitamos uma triagem laboratorial, composta por hemograma, colesterol, HDL e triglicerídeos. Esses dados serão importantes para  a nutricionista compor, com a participação da criança e da família, um programa alimentar que respeite as necessidades do paciente. Tanto no que se relaciona com o sabor, tanto com os teores de ferro, vitaminas, colesterol e outros micronutrientes.

            A atividade física será orientada nos próximos encontros. Damos grande ênfase nas atividades praticadas ao ar livre. Caminhadas, bicicleta, passear com o cachorro, lavar o carro, pular corda, dançar. Não podemos esquecer que o obeso não costuma ter a mesma destreza que seus colegas e por isso eles evitam esportes coletivos.

            As articulações estão sofrendo com o impacto da obesidade e a presença do ortopedista é muito importante. As atividades na água, por diminuírem a carga articular, são fortemente encorajadas. No nosso grupo, é o ortopedista quem orienta as atividades físicas. Porém, profissionais da área de educação física ou  mesmo recreacionistas, desde comungando com a filosofia da equipe, podem dar excelentes contribuições.

            Após avaliação médica, será feita a avaliação nutricional, onde a pessoa é convidada, juntamente com o responsável pelo preparo dos alimentos, a montar um programa de reeducação alimentar.

            O maior  enfoque será em modificar os maus hábitos, oferecendo alternativas mais saudáveis, sempre compatíveis com o estilo de vida da criança  ou do adolescente.

            A alimentação nunca será restritiva, ou seja, não podemos dizer para uma criança que é proibido comer chocolate, por exemplo. Os pacientes são informados quanto ao teor calórico dos alimentos e aprendem a negociar com as calorias.

            Situações do dia a dia, como festas, idas à shoppings, páscoa, fim de ano, deverão ser previstas e estudadas, para serem bem manejadas.

            Nas consultas com a psicóloga, serão tratados os aspectos emocionais, conflitos familiares, relação das emoções com a comida e instituído uma terapia comportamental. Desde a mais tenra idade, somos treinados a lidar com as emoções e com as faltas, pela boca. Basta lembrarmos de um bebê. Ao primeiro choro, lhe é oferecido leite, caso não se trate de fome, lá vem a chupeta,  funcionando como uma espécie de “cala a boca” infantil.

            Na avaliação emocional, estaremos notando se esse paciente é agrupável, ou seja, se tem condições de maturidade emocional para participar de um grupo , que é o verdadeiro habitat dos jovens nessa fase da vida.

            Esses pacientes relatam que no grupo, é um dos poucos lugares onde não se sentem discriminados, onde podem ser eles mesmos. Esse ambiente é muito propício para iniciar uma identificação positiva, que vai ser importante no processo de recuperação.

            Especial atenção para  prevenção e diagnóstico de transtornos alimentares.

            Após essa avaliação inicial, a criança será vista e pesada semanalmente, por um dos profissionais do serviço, sendo proposto uma consulta nutricional  mensal e uma avaliação médica a cada 2 meses.

             Cada profissional vai trabalhar com os mais diversos aspectos e com as mais variadas dificuldades do paciente.

            O tratamento poderá ser realizado individualmente ou em grupo, conforme a melhor indicação para cada situação.

            A equipe terá uma reunião científica mensal, onde os casos serão discutidos, estratégias definidas e discursos uniformizados.

            A fórmula encontrada para o custeio do tratamento é a cobrança de uma mensalidade, onde cada profissional tem sua remuneração proporcional .

            Esse tipo de tratamento oferece os melhores recursos terapêuticos que a ciência hoje pode oferecer para pessoa obesa, por um custo mensal bastante  acessível.

 1. Terapeuta da Obesidade, Psicóloga, Pós-Graduada em Psicoterapia de Orientação Analítica da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos.

2. Terapeuta da Obesidade, Pediatra, Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria , Membro da ABESO - Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade.

 Leituras recomendadas:

- Obesidade na Infância e Adolescência - Mauro Fisberg - Fundo Editorial  BYL

- Obesidade  - Alfredo Halpern e Col. - Lemos Editorial

- Obesidade Infantil, Um Guia Prático para Pais e Profissionais da Saúde- Nataniel Viuniski - EPUB      

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