Ponto de Vista

PSICOLOGIA NO INSTITUTO DO CORAÇÃO DE SÃO PAULO
Dra. Bellkiss Romano

bellkiss.jpg (14116 bytes)Dra. Bellkiss formou-se na PUC em São Paulo. Em 1987 apresenta tese de doutorado na PUC, fazendo o primeiro levantamento no Brasil da tarefa que os psicólogos estavam desenvolvendo dentro dos hospitais. Foi uma contribuição para o desenvolvimento da profissão. Este ano defendeu livre-docência na USP, fazendo uma revisão de uma década do trabalho do psicólogo dentro do hospital. A tese apresentada "Psicólogo Clínico em hospitais do Brasil - avaliação de uma década - 1987-1997". A Dra. Bellkiss tornou-se assim a primeira psicóloga livre docente de todo o Complexo do Hospital das Clínicas. Seu percurso em hospital iniciou-se ainda estudante na psiquiatria, neurologia clínica e na psiquiatria neurocirurgia funcional. Em 1974 o professor Zerbine convidou Dra. Bellkiss para ser psicóloga contratada pelo Instituto do Coração. O grupo era composto por treze profissionais: enfermeiros, engenheiro, farmacêutico, bibliotecário, assistente social, psicóloga e nutricionista. A Psicologia ganhou status de Serviço dentro do Complexo do Serviço de Psicologia do Instituto do Coração. Entre seus empreendimentos de vanguarda também está a idealização e coordenação do Encontro Nacional de Psicologia da Área Hospitalar em 1983. Foi presidente deste e do II Encontro, em São Paulo em 1985. Atualmente, é presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar, tendo sido também uma de suas fundadoras.

1) Como é feito o trabalho no Instituto do Coração?

Dentro da minha trajetória, eu não tinha um modelo para seguir, de como deveria ser a tarefa, o objetivo e a finalidade da psicologia dentro do hospital, mas tinha certeza do que não era porque fui estagiária durante quatro anos. Por exemplo, é muito frequente nos hospitais atualmente, os psicólogos reproduzirem o modelo de consultório. Têm uma sala onde fica sentado e para ele chegam papéis com pedidos de consulta como por exemplo, "é para você atender o leito trinta e oito". Esse modelo do consultório, você tem uma porta para a rua e as pessoas entram e saem. Isto sempre me deixou muito chocada, porque no hospital as coisas acontecem vinte e quatro horas durante um período de domingo a domingo, como é que eu podia fechar minha porta para as coisas que estavam acontecendo do lado de fora. É uma reprodução do modelo psicanalítico ortodoxo, onde a queixa do paciente só é aquilo que ele fala, e isso não é verdade. O hospital têm outras demandas que o olhar do psicólogo pode identificar. A primeira grande inovação dentro desse Serviço foi o psicólogo não mais ficar sentado dentro de uma sala, ela vai andar dentro do Ambulatório, Unidade de Enfermarias, Pronto-Socorro, participar de uma reunião clínica, enfim, estar em vários setores do hospital. O atendimento e o lugar do psicólogo é dentro e pelo hospital. A segunda grande inovação, foi que só o médico pedia para que o paciente fosse atendido pelo psicólogo, mas a enfermeira passa vinte e quatro horas com o paciente, a fisioterapeuta pode no momento em que ele está fazendo o exercício perceber que o paciente está resistente, a copeira pode ver a família chegando as três horas da tarde no horário que ela está servindo o lanche e notar que é uma família complicada, o paciente pode chegar e falar: "Eu quero ser atendido". Todas as pessoas que trabalham com o paciente podem fazer o encaminhamento, além do próprio psicólogo. A tarefa do psicólogo é estar pelas diferentes unidades e olhando para o doente, sabendo assim quais são os casos que irá atender. Primeiro por que nós podemos antever prioridades. Partimos do pressuposto que todo o paciente que vai para a cirurgia cardíaca, participa de um grupo inicial que no primeiro momento é um grupo informativo, depois num segundo momento ele passa a ser terapêutico. Fazemos um convite para dez pacientes para estarem em um determinado horário para participar daquele grupo. Ele pode ir ou não, mas se não for vai ser abordado individualmente para saber o motivo. eio dele que o psicólogo vai perceber qual é aquele que precisa ser acompanhado individualmente e/ou acompanhado em grupos. Nós fazemos atendimento grupal e individual, mas priorizamos o grupal porque essa é uma Instituição que têm duas mil pessoas por dia circulando nela e não têm o menor sentido estarmos trabalhando um por um. O atendimento grupal não tem a ver com números, mas com a qualidade e com o tipo de trabalho que se faz. Simultaneamente a internação, fazemos um acompanhamento da família, que também recebe um convite para participar dos grupos dos familiares. Isso não impede que outras pessoas estejam fazendo esse apontamento: parte-se do pressuposto de que os familiares do paciente internados estão em uma determinada crise e que eles precisam ser acompanhados, só que todos estão em crise. Existe demanda que vem especificamente do doente, o que nós temos muito claro dentro do hospital e que essa deve ser a pontuação do trabalho do psicólogo clínico hospitalar, é de que existem queixas que são próprias da patologia e que você tem que estar atenta a elas e estar intervindo. O nosso raio de atuação é em cima de problemas emocionais que sejam decorrentes daquela patologia ou da tecnologia a qual o paciente vai ser submetido e do percurso dele dentro do hospital. Qualquer outra queixa que aparece e que não têm essa vinculação não diz respeito ao psicólogo que trabalha dentro do hospital. Por exemplo, se eu percebo que tenho um paciente que vai amputar a perna, está no hospital de ortopedia, mas é um alcoólatra, o que você tem que cuidar no paciente enquanto psicólogo dentro do hospital é especificamente a questão da amputação e da reabilitação dele. O alcoolismo deve ser encaminhado para alguém de fora do hospital que faça especificamente essa parte. Alguns podem dizer: "Você cada vez mais está ficando especialista?"Eu respondo". Não, estou ficando mais realista". Porque se eu for atender todos os problemas emocionais que uma pessoa pode me trazer, não vou conseguir ser útil para uma grande maioria que vem ao hospital. Nós temos dentro do nosso hospital um "Banco de Recursos da Comunidade" há oito anos, que é atualizado a cada dois anos. Temos recursos por todo o País, não é perfeito, mas o nosso interesse é que seja útil para os encaminhamentos que nós tenhamos que fazer. É retroalimentado a cada dois anos por nós mesmos. O doente é nossa responsabilidade. Quando faço um encaminhamento para o Recurso da Comunidade, peço para que o paciente retorne para me dizer como foi o recurso para o qual ele foi encaminhado, se gostou, enfim qualquer coisa desse tipo. Essas impressões são todas registradas no banco e quando ele for atualizado a dois anos, tudo é colocado. Assim, se for o caso, o recurso é retirado do banco como sendo um recurso inexistente e ineficaz. Eu quero agilidade, o doente está aqui vai voltar para o Acre amanhã e eu faço o que com ele? Vou dizer: "Você espera mais dois meses e aí eu lhe digo para onde vai."Não dá para esperar.

2) Como é feito o apoio com a família?

Essa família precisa ser orientada. Ela está nos deixando um paciente, vai receber outra pessoa ao retornar para casa e vai se assustar, porque a pessoa não é mais a mesma, ele vai ficar mais fechado ou mais agressivo e vai precisar ser orientada de como atender esse paciente, de como perceber os sinais de depressão e como ela pode interferir. Existem muitas perguntas como por exemplo: "Eu faço o que? Eu sou contra ou fico estimulando?" E também perguntas que nós poderíamos considerar como banais, por exemplo, temos uma família com uma criança com uma Cardiopatia Congênita, que quando chora fica roxa. A mãe vai ter uma tendência de superprotegê-la em qualquer aspecto, vai deixar entrar na escola mais tarde, não vai deixar sair com amigos por que de repente pode ficar roxa e ela está longe. A mãe pergunta muitas vezes: "Se eu colocar o outro irmão de castigo posso colocá-lo também? O que digo para a professora quando ele ficar roxo?" Existem patologias cardíacas congênitas que depois da primeira ou segunda cirurgia são corrigidas totalmente. Isso significa que a criança deixa de ser cardiopata e para a família é muito complicado você entregar um cardiopata e retirar um não-cardiopata. Ela precisa ser orientada. O mesmo ocorre com os adolescentes. Existe uma série de trabalhos que nós fazemos com a família que são muito importante para o doente, por que é do convívio deles que vai nascer o sucesso da reabilitação e do tratamento. Imagina o que é ser um paciente hipertenso e cozinhar para você uma comida que não tenha sal e gordura enquanto a família inteira está comendo feijoada, ou você ter um parceiro por exemplo, que fuma e você ter como indicação parar de fumar. Temos dois clientes o paciente e a família. Nossa tendência é trabalhar em grupo, agora existem casos, e isso fica a critério da psicóloga, em que a família é atendida junto com o doente.

3) Como é a aceitação da psicologia por parte dos pacientes e da equipe?

A aceitação da psicologia é muito boa tanto por parte da equipe como por parte dos pacientes. Primeiro eles ficam um pouco perplexos do tipo: "Psicólogo, mas eu estou louco?" Nós somos perfeitamente identificados, temos escrito no nosso avental psicóloga, usamos crachás, ou seja, a própria equipe conhece o tipo de trabalho que fazemos e reforça para que os pacientes e a família participem. Eles recebem um folheto para a internação com os horários etc. e está escrito que existe um Serviço de Psicologia que você pode solicitar. A psicologia está no INCOR não é para casos especiais por que estão loucos. Esse é o primeiro passo para o paciente aceitar, ver que ele não é diferente, que todas as pessoas têm acesso e se beneficiam. Os pacientes conversam muito entre si, comentam como foi no grupo, etc. e isso desmistifica totalmente o nosso trabalho. Nós estamos trabalhando junto com a equipe a vinte anos, crescemos juntos e a equipe aprendeu a respeitar o nosso espaço e nós aprendemos a conversar com a equipe. Eu diria, se fôssemos colocar em número, que 90% das pessoas nos aceitam irrestritamente, quer dos pacientes quer da equipe, 5% ainda não sabem bem o que podemos fazer juntos e os outros 5% seriam outras causas."Por que a pessoa não aceita? Não sei, qualquer outra coisa. Por que não gosta pessoalmente, por que teve uma experiência outra e não gostou etc. "Mas a maioria tanto da equipe como dos pacientes aceitam tranqüilamente, talvez com algumas reservas, como o primeiro contato. Se você está no ambulatório o paciente chega para você e diz: "Eu vim por que o médico mandou. Não sei qual é a minha queixa." No decorrer do processo ele identifica a causa. Ele têm que se apropriar dessa queixa, mas na maioria das vezes nós não temos resistência, é visto como sendo extremamente colaborador. mesmo por que o paciente têm um percurso por todos os outros profissionais com os quais para ele também são inusitados. Conversam e aprendem que o nutricionista é diferente de uma cozinheira, conversam com a fisioterapeuta e aprendem que o respirar é importante, a postura, o pulmão precisa ficar limpo; são coisas que eles não sabem. É uma surpresa às vezes para eles. O psicólogo estaria nas surpresas se fosse o caso, mas de todas as surpresas ele é o menos surpreendente por que mesmo que você tenha uma figura do psicólogo de que ele só atende louco. Nós somos mais próximos da nossa realidade e da nossa tarefa. O outro motivo para termos conquistado esse espaço junto a equipe é o nosso envolvimento com a pesquisa. De todos os não-médicos do Instituto do Coração o serviço de Psicologia é o que mais produz em termos de publicações, apresentações em congressos e em termos de trabalhos conjuntos e multicêntricos, de forma que vamos conquistando esse espaço com muita seriedade e propriedade junto a equipe médica e não-médica. Outra questão é o nosso envolvimento muito intenso com o ensino não só para os outros psicólogos, as jornadas científicas do Incor desde o tempo que elas começaram a cinco anos, até o ano passado foi uma jornada absolutamente médica. No ano passado nós fizemos a primeira jornada não-médica dentro da jornada científica que foi a de psicologia. Esse ano está aberta para todos os não-médicos. Estamos em linha de ponta mesmo, no ensino, na pesquisa o aprimoramento das pessoas que a nível de residência começou em 1983 no Serviço de Psicologia no Instituto do Coração junto a enfermagem inédita para todo Complexo H.C. Nós fizemos um projeto simultâneo de ter residentes em psicologia e enfermagem no Instituto. Em 1984 foi estendido não só para todos os não-médicos, mas também para todo o Hospital das Clínicas. Isso vai criando junto à comunidade e aos colegas de trabalho um respeito. Em 1980 nós já estávamos com o Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo. Tínhamos atividades científicas paralelas dentro do Evento em um Congresso e com todo o suporte e infra-estrutura. Nós saímos dos muros do Instituto do Coração e ganhamos um espaço junto a cardiologia do Estado de São Paulo. O departamento de psicologia da SOCESP existe, têm muitas publicações, têm espaço na revista específica para psicologia, isso eu acho que é reconhecimento. Em 1994 foi fundado junto a Sociedade Brasileira de Cardiologia o comitê de psicologia que é o único comitê de não-médicos. Mas nós estávamos também desde 1989 juntamente com a SBC nos Congressos. Em abril de 1998 vai haver um Congresso Mundial de Cardiologia no Rio de Janeiro e vamos fazer uma programação da psicologia. Isso eu acho que poderíamos chamar de reconhecimento.

Dra.Bellkiss Wilma Romano
Psicóloga

 

 

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