Ponto de Vista

E A ARTETERAPIA CHEGOU AO BRASIL
Joya Eliezer

É com alegria que envio um artigo para ser publicado sobre "O uso da Arte no Contexto Terapêutico: A Arteterapia ou as Terapias pela Arte". A prática clínica nos coloca como objetivo o tratamento do cliente, fornecendo-nos vários métodos de Psicodiagnóstico e de psicoterapia, dentre eles, a Arteterapia. O uso da expressão estética (desenho, pintura, modelagem, música, dança, construções, drama) no diagnóstico e no trabalho psicoterápico já é algo sedimentado na Psicologia Clínica (desde aproximadamente 1940) e na academia (cursos de extensão, aperfeiçoamento, especialização e Pós Graduação em nível de mestrado). Com a Associação brasileira dos Terapeutas da Arte far-se-á uma tentativa de incluir a cadeira de Arteterapia na Universidade Brasileira. Vale a pena tal inclusão? Quais mudanças esta traz à realidade do clínico? Nossa história denota que as contribuições da Antroposofia, da Psicanálise, da Psicologia profunda, das abordagens existenciais e holísticas, destacando nomes como Margaret Hauschka, Freud, Melanie Klein, C. G. Jung, Margaret Naumburg, Winnicot, Janie Rhyne, Nathalie Rogers, Nise da Silveira e, da geração nova, Suzan Bello, fizeram da Terapia pela Arte um método: Teoria com técnicas condizentes ou ainda, a teorização a partir de técnicas bem aplicadas e estudadas. Quando Dra. Nise da Silveira destaca "o fazer com emoção" e quando Dr. Pëtho Sandor destaca seu método como a Fenomenologia do Inconsciente, nosso país ganha uma figura típica, condizente com à alma brasileira. A Musicoterapia, a Dançaterapia e aArteterapia são métodos bem fundamentados que combinam bem com a expressividade do brasileiro em geral. Nossa alma é calorosa, forte, expressiva e a arte tem ajudado a trabalhar eficazmente nosso povo. Onde? Como? A Arteterapia é utilizado em instituições de Reabilitação Física como AACD e outros, Deficiência Mental como APAE e outras, Hospitais Psiquiátricos como Juqueri, Hospital das Clínicas, Pinel e outros, Hospitais de Clínica Geral com clínica de queimados e mutilados, setores das doenças degenerativas como Câncer, AIDS, Esclerose Múltipla, Alzeimer, etc. O centro de referência de São Paulo (AIDS) possui psicólogos trabalhando com artes com múltiplas funções (SIC). Na clínica privada, em consultórios, a arte tem sido excelente instrumental nas terapias sexuais, familiares e nos problemas do dia a dia, principalmente nos casos de dificuladade de comunicação verbal oral. Na história da Psicologia o uso da expressão das emoções, sentimentos, idéias através do desenho nas sessões iniciou-se com Jung e este material foi profundamente estudado também através das técnicas projetivas (H.T.P., Psicodiagnóstico de Rorschach, Teste da Figura Humana e tantos outros). Nós temos um teste gráfico de auto-imagem, no prelo. É na ludoterapia e na análise de crianças que a arte é fundamental uma vez que a verbalização, na criança se estabelece ao redor dos 3 anos apenas.

Benefícios da Terapia pela Arte

Arteterapia através da arte tem algunsbenefícios como:

1 - Melhora a comunição consigo mesmo e com o outro;
2 - O cliente se independentiza do terapeuta pois é ativo, cria nas sessões;
3 - O tempo do tratamento é menor pois a transferência é reduzida, a atividade diminui o valor desta;
4 - Favorece a busca da harmonia e do equilíbrio da vida;
5 - Facilita o diagnóstico propiciando leitura de material pré e inconsciente através de imagens pictórias, sonoras, táteis e kinestéricas. 6 - Aumenta a espontaneidade e a criatividade positivamente orientadas.

A Terapia pela Arte não necessariamente se fixa nos limites clássicos da psicoterapia através da linguagem artística. Na Fonoaudiologia, Fisioterapia, Psicopedagogia, Psicomotricidade, Terapia Ocupacional a arte também é utilizada sendo aí Terapia pela Arte. Cabe ao psicólogo somente a ele o psicodiagnóstico e a psicoterapia através da arte. Em todas as escolas a arte tem desempenhado papel importante ao criar uma possibilidade existencial inédita que é a da estética no contexto terapêutico. Os professores de arte lucram com estesensinamentos. Meta-realidade? Meta-linguagem? Comunicação averbal apenas?

Perigos de Terapia pela Arte

Quais os perigos da Terapia pela Arte? Alguns deles exigem cautela pois:

1 - O cliente gosta tanto do trabalho arteterapêutico que não quer parar, confundindo a Psicoterapia (tratamento) com o prazer da auto-expressão. Melhor terminar o tratamento e encaminhar à aula de arte;
2 - Pode ocorrer fixação na criação estética ao invés de no real. Nossa tarefa é tratar e não transformar nossos clientes em artistas. Esta é a função do arte-educador;
3 - Em prol da estética, confundir noções de saúde. Exemplo: atrizes, manequins, modelos, bailarinos que, em função de modismos, sacrificam seu equilíbrio interior e sua saúde física. Os modelos estéticos costumavam ser os mesmos dos da saúde na Grécia antiga. Atualmente é difícil a manutenção desta relação pois a estética teve diversas modulações;
4 - Estimular o imaginário sem produzir criações consistentes;
5 - Fugir do real em direção à criação estética sem integrar o que ocorre para aprender a viver melhor.

Isto nos destaca a importância do Terapêuta da Arte ser antes de mais nada, um bom Clínico e paralelamente ocorrer o aprendizado do manejo do instrumental da criação e expressão estética (Desenho, Pintura, Modelagem, Música, Canto, Dança, etc). Quais os limites acadêmicos? Quem pode ser Terapeuta da Arte? A Psicologia já aderiu a todo este conhecimento. Em São Paulo a ECA, FAAP, PUC-S. P. já apresentam cursos na área. Rio, Goiânia, Belo Horizonte possuem programas. A APAE inclui Arteterapia nos seus cursos. Há vários institutos que se apoderaram dos métodos de ensino. Nosso curso recebeu ciência do C.R.P., do MEC e ultimamente a licença para especialização, possuindo 3 níveis (I, II, III). O que há de novo, metodologicamente falando? Produzimos nestes últimos anos uma metodologia de ensino e de tratamento que permitiu a instalação de um núcleo arteterapêutico na Universidade Brasileira, partindo das diferentes abordagens inicialmente apresentadas. Estas estruturas teórico-práticas são de fácil assimilação desde que o profissional tenha já consciência clínica e noções básicas das relações entre Arte e Saúde. Os conhecimentos prévios da Psicologia além da História da Arte, Psicologia da Arte e a estruturação das técnicas projetivas; as contribuições dos estudiosos do movimento como R. Laban que estabeleceram a ponte entre o psicológico e o kinestérico e outros da bioenergética são importantes no contexto arteterapêutico pelas relações ergonômicas possíveis. As contribuições de F. Capra endossaram nossos estudos sobre as qualidades terapêuticas dos materiais: propriedêutica dos materiais. Nossas pesquisas no país nos remeteram ao estudo dos elementos da natureza como materiais das sessões. Incluímos árvores, tintas naturais, papel maché, papel artesanal, cera de abelha e sementes formando uma Eco-Arteterapia. A Arteterapia nos hospitais tem várias vantagens como o atendimento do paciente no leito ou nas salas de espera. São usuais salas de atendimento coletivo a crianças. O Centro Odontológico deAraçatuba contém Arteterapia aos pacientes deficientes mentais. Atualmente a arte é utilizada como veículo nos treinamentos empresariais. Entre os próprios artistas o valor terapêutico das atividades tornou-se significativa na auto-correção e na profilaxia. O apoio da Semiótica, principalmente nos aspectos sociais amplos da Psicologia da Arte e da Arteterapia permitiu que os métodos fossem mais facilmente transmitidos no país derivando daí pesquisas interculturais. Na Europa, Ásia, América do Norte, os cursos de Pós graduação fornecem uma ciência da Terapia pela Arte em nível de mestrado. Após ministrarmos 10.000 horas de aula por todo o país e nas principais universidades, após incluir em nosso trabalho a Eco-Arteterapia, após a revisão das temáticas atuais acreditamos que com a Associação Brasileira dos Terapeutas da Arte e com novos congressos ocorrendo (estamos organizando o 3º Congresso Brasileiro de Arteterapia) optaremos pela legalização e inclusão desta cadeira no curriculum brasileiro. Convidamos os colegas para a Associação assim como para nossos cursos e seminários, principalmente o seminário "Coluna da Vida". (vide datas) Nosso curso permite a instrumentalização adequada do psicólogo e terapeutas da Terapia Ocupacional, Fonoaudiologia, Medicina no uso da Arte como meio de avaliação e tratamento nas diferentes abordagens e técnicas. Destacamos, em seguida um caso clínico (Z) no qual pudemos observar a influência das técnicas projetivas, da terapia familiar, do acompanhamento terapêutico da bioenergética e de R. Laban, da terapia artística antroposófica, dos modelos junguianos, da medicina antroposófica e da apreciação estética, da psicopedagogia e, finalmente, do papel social dos hospitais dias e do atendimento a céu aberto. O cazo Z é um exemplo da transição da Psicologia Clássica à Arteterapia. O caso Z recebeu o diagnóstico clássico de Esquizofrenia Hebefrenica. Tendo passado por 2 internações nos foi encaminhado para reintegração psicosocial. Como Z não falava, a comunicação durante 1 ano foi através da arte, das caminhadas matutinas, das visitas a parques, a museus e o grande bom humor surgido dentre tantas dificuldades permitiu fazer da verdade o alimento da relação. Após 18 meses Z passou a freqüentar o Hospital Dia, com sucesso. O psicodiagnóstico clássico permitiu destacar seus potenciais, a comunicação através das lendas e contos permitiu a conversa em nível transindividual; suas expressões artísticas fortaleceram seu ego; a cidade de São Paulo foi uma imensa sala de atendimento. A alegria permitiu o retorno a vida. Através da bioenergética e do método de Laban fez-se a reestruturação corporal. Novo caso foi criticado pela "Psicopatologia da Expressão" e pela equipe da Clínica Fênix. Quantos casos assim poderá atender ao mês? (Dr. Carlos Hojaj nos perguntou). Não pode ser esquizofrenia!!! (Fênix). Reiteramos o que falamos em "A Arte Cura?" "Cabe ao terapeuta tratar e a cura é uma benção divina". O milagre é conquistado diariamente.

Propriedêuticas dos materiais

Estou muito feliz de após percorrer nosso país constatar que pude sistematizar teórica e praticamente o pensamento dos grandes terapeutas da arte de nosso século. Como psicóloga e arte educadora há duas conquistas fundamentais ou seja, "As questões práticas dos processos arteterapêuticos" e "As propriedades terapêuticas dos materiais: as propriedêuticas dos materiais no contexto arteterapêutico". Formada na escola da clínica e da arte cada atividade, cada material, cada cor, forma, movimento, som tem uma possibilidade de atuação no sujeito. Usando como exemplo o modelo médico nas prateleiras os medicamentos são tintas, lápis, pincéis, sons, cera de abelha, argila, papéis, coreografias e partituras. Um rolo de barbante pode permitir a percepção e integração de noções de espacialidade. As cores quando bem utilizadas podem permitir a hamonização efetiva, emocional. A modelagem permitia estimulação tátil, o trabalho muscular, a estruturação postural assim como a capacidade de concretizar e de planejar. A técnica do desenho, inicialmente utilizada apenas projetivamente, tem na terapia pela arte papel de desenvolver a esfera cognitiva, o logus, além da capacidade de abstração. Os fios (lãs, barbantes, linhas) utilizados no bordado, tricô, crochê, tecelagem permitem o fortalecimento e a reeducação do pensamento. A imagem sonora faz entrar em contato com seu eu mais profundo energetiza os campos astrais - etéricos e cria, segundo as diferentes melodias ritmos que, segundo a orientação terapêutica, equilibraram e harmonizaram o sujeito. A dança, além de sua excelência na projeção das imagens internas permite a exploração e o uso adequado do espaço. Fazem parte do setting arteterapêutico as contruções, modelos interativos ao homem com seu meio ambiente. Na terapia pela arte, assim como nas ciências humanas, cada pressuposto dever ser considerado apenas com uma hipótese, a ser confirmada ou não pelo sujeito. Destacamos que no trabalho da Dra. Nise da Silveira foi possível ao técnico a compreensão através do pensamento mítico das imagens internas de doentes que se expressam na atividade de livre expressão. O imaginário torna-se concretizável, metabolizado e passível de ser compreendido.

Do sofá, da poltrona, à sala arteterapêutica

Qual é o novo setting? Deverá o arteterapeuta ter a sua disposição uma escola de artes ? A especialização em dançaterapia, musicoterapia e arteterapia permite que o terapeuta escolha sua linguagem predileta. Caso o clínico opte pela polivalência uma sala de 120 metros quadrados será suficiente. A introdução das técnicas, dos materiais e dos settings arteterapêuticos muito modificou a psicologia clássica o que importa e que os cursos atuais incluam subsídios para a formação de técnicos aptos no manejo destas técnicas e destes métodos. A vantagem do aprendizado do núcleo arteterapêutico e sua adaptação as diferentes abordagens da psicologia clínica: psicodinâmica, existencial, holísticas, transpessoais, etc. As propriedêuticas dos materias requerem do psicólogo noções de bioquímica, física e mecânica quântica. No desenvolvimento de nossos projetos de Eco-Cultura observamos o poder estimulatório de cada reino da natureza confirmando a importância das qualidades terapêuticas dos materiais (medicamentos) fazendo a autora criar o termo propriedêutica dos materiais no contexto arteterapêutico. Desta forma além dos materiais escolares básicos a inclusão de cristais de rocha, sementes, palhas e fibras de vegetais devem ser feitos com a consciência de suas propriedades diante do sujeito nas sessões. Confessamos que foi através do estudo da multidisciplinaridade e das diferentes abordagens que tal conhecimento vem sendo por nós desenvolvido. Concluímos que o conhecimento é cumulativo. A mola propulsora do processo e o gesto criativo contido na expressão na observação, na cópia, no mimetismo, na repetição ou na contrução de imagens kinestésicas, plásticas e sonoras. A Arteterapia, utilizada no contexto Behaviorista, Gestáltico ou Transpessoal só tem sentido ao nosso ver, quando o homem for visto na sua concepçãointegradora: a arte, ciência, religião, saúde, educação, filosofia, lazer, etc. caminham juntos. Cabe ao psicólogo a compreensão do que ocorre quando seu cliente desenha, pinta, modela etc. Cabe ao crítico de arte avaliação das obras dos artistas. A apreciação estética na terapia tem finalidades pedagógicas ou terapêuticas bem estabelecidas, que permeiam a escolha da obra a ser apreciada. No decorrer do processo arteterapêutico quem cria é o cliente. O terapeuta deve colocar em suspensão suas criações estéticas pessoais. A não ser em casos de observação participante o terapeuta deve resguardar o si mesmo nas sessões. Mesmo nas construções ao ar livre ou em sala fechada a função do técnico é de propiciar que a obra ocorra. Nossa experiência na clínica, na sala de aula, nos eventos interativos corrobora nossa afirmação.

E a criatividade do Arteterapeuta ? Devemos perguntar a serviço de quem ela está: do si mesmo, ou do outro? Há momentos para o auto-desenvolvimento e há momentos da criação a serviço do outro.

Sugestões Bibliográficas Livros e Enciclopédias sobre historia da arte; textos Junguianos e de Nise da Silveira sobre o uso da arte nas sessões; textos antroposóficos sobre terapia artística (ed.Antroposófica); textos Freudianos e de psicodinâmica sobre arte; textos fenomenológicos sobre criação estética vídeos e artigos sobre a arte no contexto terapêutico de Joya Eliezer. Como início sugerimos os livros Imagens do Insconsciente e o Mundo das Imagens de Nise da Silveira.

 

© Todos os direitos reservados - Revista Catharsis - http://www.revistapsicologia.com.br
Dúvidas, criticas e sugestões - revistapsico@uol.com.br
WebDesign - DMI - Digital Mídia Interativa