| Ponto de Vista ENTREVISTANDO
A SUPERVISORA

C - Bel Khan,
o que é supervisão para você? De que maneira funciona
o seu trabalho?
BK - Para mim, o trabalho de supervisão é
essencialmente subjetivo. É a formação de atitude. Uma
aula pode ser também reflexão prática; é levar o
aluno a pensar, mas é diferente de supervisão. A idéia
de supervisão é a de um TERCEIRO que pode estar fora e
ajudar a NOMEAR e a DISCRIMINAR, resgatando o lugar do
terapeuta.
C - O terapeuta vem para a supervisão
indiscriminado, misturado ao material do paciente?
BK - O "problema" é esta mistura.... Apesar de
ser este o movimento natural e constante: mistura-se e
desmistura-se. A diferença da análise é o objetivo, o
foco: na supervisão o tempo todo o objetivo é olhar
para si, para poder olhar o outro, o paciente, isto
porque o outro "puro" não existe. Mas a
questão, o desafio é olhar, resgatar o OUTRO na fala do
supervisionando. O foco é sempre o paciente do
supervisionando.
C - Neste sentido, um supervisionando
que não faz sua própria análise pode Ter dificuldades
no trabalho?
BK - Sim, na PUC, quando iniciam seus atendimentos, os
alunos geralmente dizem: "Agora entendo porquê
precisamos de análise... enquanto não trabalhava na
prática com estes conteúdos não os percebia em mim
também...." Mas a supervisão não é o espaço de
análise do terapeuta - é um espaço analítico da
situação DE ENCONTRO entre ele e o paciente. Como é
impossível a separação total das "partes"
envolvidas, é no ENCONTRO e em suas características e
ressonâncias que encontramos o material para chegar ao
paciente.
É necessário, muitas vezes, deixar surgir a emoção do
terapeuta, para que esta não seja racionalizada e possa
ser direcionada para outro canal: às vezes, o que se
mostra é que esta será melhor resolvida em outros
espaços ( de análise).
No momento da intervenção o terapeuta entra em contato
com conteúdos que lhe pertencem. O trabalho da
supervisão é auxiliá-lo a DISCRIMINAR o que é dele, e
perceber seus sentimentos de IMPOTÊNCIA ou ONIPOTÊNCIA
com relação ao trabalho, para poder resgatar sua
POTÊNCIA.
C - Qual é o prazer de ser supervisor?
Por que faz sentido para você, profissionalmente?
BK - O prazer está em ver as pessoas crescendo...é algo
mais rápido que em uma análise, você vê alguém que
"não conseguia" atender, que estava
indiscriminado, ir criando espaços de escuta, ir se
formando.
No início é muito indiscriminada a observação que o
terapeuta traz; são até chatas as primeiras
supervisões de tão descritivas...Aí o supervisor acaba
sendo mais pedagógico, explicando, por exemplo, o que é
o "setting" e como estabelecê-lo. Não adianta
interpretar como negligência do supervisionando o que
ele ainda não sabe estabelecer. Agora, é interessante
observar que tem gente que "dá para a coisa" e
outros não.... ou tem mais dificuldades. Esta etapa do
pedagógico às vezes perdura.... O supervisionando não
consegue sair disto.
C - O objetivo do trabalho é portanto
formar o profissional?
BK - É possibilitar a busca, por parte do
supervisionando do seu estilo e atitude. É uma busca
pela formação da identidade profissional.
O meu olhar é analítico. Mas devo me questionar....O
que ele quer? Qual a sua visão do trabalho? A minha
visão é psicanalítica, mas não posso impor a eles
este olhar. Isto em se tratando de alunos da graduação
e seus primeiros atendimentos...Já em consultório a
situação é diferente: quem me procura conhece a minha
linha, me procuram com uma demanda mais definida.
C - O que é o mais importante neste
processo?
BK - É poder agüentar a constatação dos próprios
erros. Pensar: "Por que não 'acertei' ?" ( o
'setting', por exemplo).
Aprender a lidar com o OUTRO. Ao se perceber IMPOTENTE
poder FICAR com isto, para refletir o que isto significa.
Porque pensar o IMPENSADO é que é ser analista, e é
suportando a falta que se permite a vinda do NOVO.
A supervisão em grupo auxilia a concretizar este contato
com o NOVO, e exercitar com parceiros em simetria, o que
nas relações Supervisor X Terapeuta e Terapeuta X
Paciente, mais assimétricas, poderia ser atribuído a
uma dinâmica de poder ou submissão.
C - Como funciona este aprendizado
vivencial? A teoria ajuda? Em que medida?
BK - É um processo mais de FORMAÇÃO do que de
INFORMAÇÃO. A teoria ajuda sim, a resgatar a claridade,
mas quando se está "cego" com um caso, é
importante deixar vir os afetos que estão por
trás...provavelmente eles estão muito ligados às
razões da "cegueira" . O mais importante é
resgatar o "acho que" inicial do
supervisionando. A teoria vem como apoio, proporcionando
a possibilidade de transformar este "acho que"
em "penso que".
C - Por que o falar para o outro, o se
ouvir falando é analítico, "supervisionante",
terapêutico? Há uma função de ESPELHO?
BK - Porque ao falar da experiência, você se descola.
Aí então, tem mais condições de simbolizar: TORNA
PRESENTE O QUE ANTES ERA AUSENTE. Quando anota-se uma
sessão este exercício já tem início; quando vai
simbolizar para o supervisor já teve que
"sair", que se descolar, podendo olhar. O
desenvolvimento humano se dá desta forma também, não
é? É tornando presente o ausente. E O NÃO PENSADO
IMPORTA MAIS!
C - Por quê?
BK - Porque traduz o Novo, o crescimento...O supervisor
é aquele que sabe, acredita, ( porque já experenciou)
que há uma possibilidade de ENCONTRO com o OUTRO. Mas,
só podemos Ter uma atenção flutuante, só podemos
ficar livres da teoria...primeiro se as temos, e temos
consciência disto, e segundo se acreditamos no encontro
com o novo, com o outro, como sendo a possibilidade de
visualizar e pensar o impensado, e portanto a
possibilidade do DESENVOLVIMENTO.
Uma atitude importante do supervisor é a de tentar
"equilibrar" as atitudes do terapeuta em
direção ao desenvolvimento da atitude de "suportar
a falta" que reflete um aprendizado. Assim, se um
terapeuta traz tudo pronto e analisado, é interessante
um 'puxão de tapete" , promover uma abertura para a
necessária parcela de FALTA de DESCONHECIMENTO, e com
isto, o contato com o CRIATIVO, com o NOVO, com o
DESENVOLVIMENTO e o ACRËSCIMO. Se, por outro lado há
caos e a indiscriminação, o supervisor, sendo
pedagógico etc, age no sentido do equilíbrio desta
atitude básica ligada ao treino gradual, à tolerância
da falta e exploração do novo.
C - Quais são as
"resistências" ou dificuldades mais comuns dos
supervisionandos?
BK - Acho que estão ligadas à mudança da imagem que se
tem da profissão. O terapeuta tem facilidade em assumir
a parte da profissão que traz a idéia da ajuda, tirar a
dor, uma visão humanista... Mas, para tirar a dor é
necessário passar pela ferida... para curar o ferimento
é necessário passar mercúrio cromo , e isto porque é
preciso nomear, é necessário significar a dor.
O " contrato " que fazemos com o paciente é
que o acompanharemos, não sabemos por quais caminhos ,
que estaremos com ele nos momentos difíceis também ,
porque estes virão... Só o que sabemos é que este
caminho leva a algum lugar. Sabemos, em geral, porque já
percorremos e ainda caminhamos por ele.
A Pulsão de Morte está a serviço do sintoma , ela é a
paralisação, o compromisso com o ouvir só o conhecido
e já visto. O " equilíbrio " da neurose
determina a sua permanência, e a conseqüente
paralisação do desenvolvimento. A discriminação, é o
início, é a possibilidade de sair da morte, da mesmice,
de comprometer-se com a vida, com o imprevisível
portanto.
A interpretação marca, tem a função de intervir, deve
poder ser sádica. A interpretação é um impulso, é
para quebrar. O livre das associações livres é o que
importa. Na supervisão, como na análise, devemos ficar
" de olho " na mesmice... Se está tudo
aparentemente " bem demais ", então é o
momento de desequilibrar... Então devemos nos perguntar
: "Como intervir ? " Isto para promover o
desequilíbrio saudável : Tolerá-lo é comprometer-se
com a vida , com a saúde .
O paciente está em busca do prazer que na neurose se
perdeu . O objetivo último é a VIDA , com seus perigos
, sofrimentos e prazeres . Poder sofrer para aprender a
amar... É a superação da posição depressiva , citada
por Melaine Klein .
O processo analítico não é só ver a dor. O objetivo,
o bom, é ver o sorriso final. O supervisor sabe disso ,
e resgata com o supervisionando. A supervisão é uma
relação materna e paterna o tempo todo.
C - Quais são as características da
supervisão institucional?
BK - A supervisão institucional é mais do que a
capacitação técnica do psicólogo para um determinado
trabalho. A meu ver, é um exercício para a
discriminação de si mesmo nas relações
institucionais. É um exercício de observação, de
pensar sobre a instituição e seu(s) pedido(s). É
necessário saber a respeito da análise da
instituição, para conhecer seu sintoma e assim, poder
criar apesar dele. Esta discriminação é fundamental
para que o profissional, ao deparar com os limites
colocados pela instituição possa
identificá-los...quanto mais indiscriminada estiver esta
relação, mais dificuldades terá no processo de
criação e no exercício de seu papel.
C - Para finalizar, como definiria a
relação do profissional com a psicologia, com o
conhecimento, e até mesmo com a supervisão, frente a
singularidade de seu desenvolvimento?
BK - É uma busca individual, singular , única de
construção de significantes próprios. A teoria, a
supervisão, as instituições, são fontes de
informação e campos de formação, mas como eu disse no
princípio, o objetivo é a formação de atitude, é o
encontro com a maneira própria de significar. O
profissional ganha liberdade e autonomia quando pode
colocar "os livros" atrás e não entre ele e o
paciente.
Percebemos através desta entrevista, com a psicanalista
e professora Isabel Khan, que o contato com a
subjetividade auxilia o profissional a definir um estilo,
a possuir uma ética, uma consistência do seu fazer e
dá condições para o contato com a
alma/psique/subjetividade do outro....na tentativa de
contato e encontro significativo.
É necessário que o profissional reflita sobre a sua
atuação, principalmente no que se refere a importância
da relação EU?OUTRO e a necessidade de discriminação
nesta relação para favorecer uma relação de
alteridade. Ou seja, quanto mais refletir, encontrar e
assumir a sua identidade como profissional sob aspectos
provenientes da observação e reflexão de sua prática,
mais chances tem este profissional de estar "na
escuta" de um OUTRO, que por definição necessita
de seu auxílio para também definir melhor a sua
identidade.
Estar ciente de sua identidade é a condição que
auxiliará muito o profissional a cumprir este percurso,
onde ele como que "atravessa conduzindo" o
outro, Assim pode auxiliar o supervisionando a ver um
rio, onde antes parecia um mar intransponível apesar de
belo.
Este fazer parece que Jung define como Atitude Religiosa
- uma observação acurada dos fatos, uma busca onde uma
ou mais pessoas buscam juntas, cumprindo um percurso não
definido, em busca de algo que não sabem se existe.
"Encaro a religião como uma atitude do espírito
humano", diz Jung (parágrafo 8 vol XI, O, C, Ed.
Vozes).
No filme "A sociedade dos poetas mortos",
dirigido por Peter Weir, Robin Willians, interpretando o
mestre de um grupo de adolescentes, cita o poema de
Whitmann:
"Oh,
vida, das perguntas destes recorrentes,
dos infindáveis trens dos incrédulos,
das cidades repletas de tolos,
o que há de bom nisto tudo, oh vida?
( Resposta)
Que você está aqui,
Que existe vida e identidade,
Que o poderoso jogo continua,
E você pode contribuir com um verso!
E o mestre finaliza perguntando aos alunos:
"- Qual será o verso de cada um de vocês?"
É
exatamente este o papel do supervisor. O mestre que além
de apresentar ou "ensinar a vista a enxergar" a
paisagem da vida, questiona/ provoca o encontro do
aprendiz com o seu próprio verso.
Entrevista realizado por Luciana Puglisi de Paula Souza
|