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Giovana
Kreuz Fragilidade Feminina “... Se ainda
conseguimos ouvir o que a paixão destruidora tem a ver com a morte
transformadora, possibilitaremos que o humano fale, em meio a sua
própria mitologia, e se autorize digno de ser desejante, assim digno
de amar e ser amado...”
A identidade feminina é, desde a modernidade, um assunto que vem
trazendo inúmeros questionamentos. Desde que a mulher assumiu um novo papel
social; garantindo conquistas no mercado de trabalho, competindo com o homem
o espaço de liderança e trilhando novas áreas de atuação profissional;
pôde desde aí, demonstrar e colocar no senso-comum também as fragilidades
próprias do “ser”-feminino, que antes se restringiam ao escondido de
seu íntimo, compartilhado somente com outras mulheres, ou então, vistas
pelo olhar masculino como “coisas de mulher”.
Longe
de atestar aqui uma posição feminista (já que não nos levaria a lugar
algum, mesmo porque a intenção desse escrito é ressaltar as
diferenças e não as igualdades), o que precisa ser revisto são justamente
essas “coisas de mulher”, já que ser mulher não é tarefa muito
simples.
Afinal,
desde o nascimento (ou antes disso) lhe são atribuídos o “instinto” de
ser esposa e mãe, não sendo muito aceitável que uma desviante dessa regra
opte por não realizar tais dádivas.
Casar e gerar parece estar implícito à
felicidade de ser-fêmea.
Reavivo
tais concepções de nossa sociedade moderna para dizê-la não tão moderna
assim, mesmo porque a origem de nosso pensamento tão evoluído têm bases sólidas
e bem antiquadas. São Tomás de Aquino já definia “a mulher como um
homem defeituoso”, George Romances falava das “diferenças no tamanho do
crânio como fundamento para a supervalorização intelectual masculina”,
o que Paul Hobins esclarecia dizendo que “a incapacidade mental da mulher
era uma condição necessária para a sobrevivência da espécie humana”.
Pois
bem, se a visão em relação ao feminino e sua capacidade vem sendo
contradita, através do tempo,
pelos esforços da mulher em ocupar lugares antes destinados somente ao
homem, então, comprovadamente as forças intelectuais parecem estar
equivalentes. Mas, é certo também que o útero se preserva como fonte
gestacional e mantenedora da vida, e o aparelho genital feminino ainda porta
a capacidade de abrigar o sexo masculino e gozar disso. Estarão aí as suas
fragilidades?
Depois
desta breve contextualização, o que é na verdade intenção desse
“pensar” a mulher em suas fragilidades, seria a reflexão
dos aspectos emocionais relacionados a um tipo específico de tratamento
radioterápico, chamado de branquiterapia (radioterapia interna).
Para
melhor compreendermos do que trata tal procedimento, seria indispensável
que um médico especializado no assunto se fizesse presente. Mesmo não
dispondo desse artifício no momento, a tentativa técnica será a explicação
simplificada deste tratamento que se destina a “diminuir” ou
“eliminar” o câncer uterino.
É
chamado “Radium Moldagem” (R.A.M), e se dá pela introdução da cápsula
radioativa (céssio 137) pelo orifício vaginal, diretamente na região
tumoral (colo/útero) para tratamento localizado e interno. Desta forma o
poder e eficácia do processo radioterápico é maior, e os resultados
melhores, do ponto de vista da medicina.
Mas
do ponto de vista psicológico, algumas questões
parecem incomodar as mulheres. O sentimento decorrente da necessidade de
realizar a “Radium moldagem” é um misto de perspectiva de cura e, ao
mesmo tempo, um pânico pela possibilidade de invasão de sua parte íntima
(genitalidade), sem autonomia, passiva no/do ato.
No
momento em que os atendimentos psicológicos possibilitam um espaço para
tais angústias, outras da mesma ordem surgiram, e podem agora nos fazer
refletir. Tal foi a freqüência e a repetição das questões, que parece
fundamental citá-las.
A
"Radium moldagem" enquanto tratamento exige que depois de
introduzida a cápsula, a paciente mantenha-se deitada por 3 dias, sem
sentar-se ou poder levantar-se (uma parte da sonda introduzida fica para
fora do corpo da paciente, por isso a posição ideal é a horizontal), isso
ocasiona uma sensação de imobilidade e impaciência nas mulheres; o medo
da solidão e isolamento é outro fator (durante os 3 dias não pode receber
visitas, nem entrar em contato com outras pessoas que não estejam
realizando o mesmo tratamento, e no quarto apenas 2 pacientes ficam
internadas), isso gera um questionamento que acontece a maioria dessas
pacientes: “Se não faz bem aos outros, por que fará bem a mim?”; antes
de conhecerem o quarto que estarão durante o internamento nutrem também dúvidas
sobre o formato do quarto, imaginam que esse seja escuro, fechado, sem
janelas (como uma clausura), sentem-se também angustiadas com a questão
da histerilidade pós “radium moldagem”, questionam sobre o ciclo
menstrual, a anticoncepção, as dores que poderão ter durante as relações
sexuais, a busca do prazer, sobre a normalidade ou não de algum
sangramento, e ainda, o temor que algum órgão (bexiga/intestino) seja
perfurado durante a colocação do aparelho e/ou na permanência dele dentro
do corpo durante o período de 3 dias. São ainda trazidos aos atendimentos
a ansiedade pela separação da família e afastamento do trabalho.
Resumidamente, isso faz parte do processo individual “pré-radium modelagem”, que nos dá dados acerca de como se encontra a
paciente-mulher portadora de câncer uterino, conflitada na decisão de
optar ou não pelo tratamento. Devemos ainda, permear a esses fatores toda história individual de cada uma delas, e jamais
esquecer de levar em conta sua condição de desejante nas escolhas que fez
até hoje.
Se
considerarmos todos esses aspectos poderemos então imaginar o porquê de
tratar do assunto que traduz um pouco da fragilidade no feminino, e se
ainda, levarmos em questão os procedimentos de uma “radium moldagem” (Braquiteapira
uterina) estaremos ainda mais próximos de compreender o que se passa na psique
de uma mulher, submetida a esse procedimento.
Assim,
compreendidos os pavores que tal procedimento radioterápico suscita (mesmo
sabidos os benefícios em prol da saúde e mesmo da cura de um câncer
uterino), cabe aos profissionais de saúde proporcionar ao menos o devido amparo
que supra não só a necessidade de informações reais (buscando sanar
todas as dúvidas que a paciente possa sugerir), mas o verdadeiro
acolhimento desse lugar de FÊMEA que a mulher ocupa desde sempre, trazendo
assim a possibilidade de que esta possa transitar pelo tratamento sem seqüelas
tão traumáticas, como aquelas que ocorrem quando é desconsiderado o
atendimento psicológico prévio.
Se
isso for realmente levado em conta quando se propõe o tratamento global e
preventivo de uma pessoa, estaremos bem perto de finalmente não dissociar o
corpo da mente, e desfrutar dos sabores de uma medicina holística que
vislumbra o ser-humano provido de todas as suas dores e amores... Giovana
Kreuz Psicóloga
- CRP 08/7196-1
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