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Terapia Familiar Sistêmica Adriana
Carbone
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O
advento da Terapia Familiar foi marcado pela interdiciplinariedade,
iniciando-se nos anos 40 . O pensamento
sistêmico(1) proposto por von Bertalanffy, casado com a cibernética(2),
originária das idéias de Wiener, derivou-se de campos distantes da
psicoterapia e até mesmo da psicologia. Enquanto a teoria
geral dos sistemas propunha-se a estudar as correspondências ou
isomorfismos entre os sistemas de todo o tipo, a cibernética ocupava-se dos
processos de comunicação e controle nestes sistemas. A
aplicação deste pensamento à prática psicoterápica teve como
perspectiva central o olhar do antropólogo Gregory Bateson que
transforma o conceito de informação(3)
para as praticas relacionais e circulares ao dizer que o “observado tem a
marca de quem observa” , do psiquiatra Don Jackson que supervisionou o
projeto de comunicação(4) desenvolvido por Bateson e foi o
primeiro a utilizar o termo homeostasia
familiar , e da assistente
social Virginia Satir que trabalhava
com crianças e famílias(5). Os
primeiros trabalhos em terapia familiar iniciaram-se com famílias de
esquizofrênicos na década de 50 e basearam-se na teoria
da comunicação(6) elaborada com base nas pesquisas de
Weakland, D.Jackson, G. Bateson e Jay Haley. Embora
a teoria geral dos sistemas, em parceria com a cibernética, tenha
configurado os limites dos paradigmas para uma teoria clinica de
psicoterapia, na prática diferentes sistemas de crenças resultaram em
distintos modelos de terapia familiar, caracterizando diversos sistemas de
inteligibilidade que, praticamente coexistiram(7). - Comunicacional - Bateson, Haley, Satir e Jackson -
Interacional,
ou Terapia Estratégica Breve – desenvolvido em Palo Alto no Mental
Institute Research -
Estrutural
- Minuchin -
Estratégico
– Haley e Madanes -
Experiencial
Simbólico – Whitaker -
Intergeracional
– Bowen e Borzomeny-Nagy -
Sistêmico
de Milão – Selvini-Palazzoli, Prata, Checcin e Boscolo Os modelos com suas distintas maneiras de definir o que vem a ser o problema, a teoria da mudança e a prática psicoterapêutica preocuparam os estudiosos do campo da terapia familiar quanto a precisão conceitual que então, consideraram as práticas da terapia familiar como sistêmicas e a epistemologia como cibernética(8). |
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As
contribuições de uma epistemologia sistêmico-cibernética(9)
para a prática da psicoterapia implicaram, primeiro na mudança paradigmática
que enfatizou a importância do contexto para a compreensão dos problemas
do ser-humano, que esta em inter-relação com o outro. Segundo, na organização
da prática em torno do conceito de causalidade circular e não mais linear,
de causa e efeito, portanto entende-se que os seres vivos organizam seus
comportamentos dentro de uma trama de relações. Terceiro que isto implica
a noção de observador-participante, o que diferencia as terapias
familiares quanto a Cibernética de Primeira Ordem e de Segunda Ordem. Se
pelo aspecto teórico a terapia familiar permitiu muitas contribuições, no
âmbito das práticas gerou um novo olhar sobre o terapeuta
dismistificando-o como expert,
que passou a assumir um papel de facilitador, cujo conhecimento, como
qualquer outro conhecimento esta livre de um status
previligiado e, é auto-referêncial.
A
escuta feita pelo terapeuta pressupõe sua formação teórica e prática e
sua bagagem transportada por sua própria história de vida, isto implica na
formação como especialista em terapia familiar e de casal e na vivência
da terapia individual, supervisão e consultoria clínica. Elkain, partindo
da auto-referência propõe o conceito de ressonâncias(10)
que
indica uma intersecção entre as histórias de vida pessoal do terapeuta e
da família ou dos clientes atendidos. A
terapia propõe que o cliente seja o especialista no que diz respeito ao
conteúdo, isto quer dizer que ele sabe sobre suas própria vida e dos
motivos que o trouxeram para a terapia, enquanto que o terapeuta é o
especialista no processo, permitindo por sua especialidade criar um contexto
propiciador e facilitador para uma conversação que permita a reconstrução
dos significados da história de vida do cliente(11). Neste
sentido também o sistema terapêutico, passa da família para ser definido
como aqueles que estão envolvidos em conversação em torno de um problema.
Estes sistemas não são determinados por sua estrutura ou seu papel social,
mas por uma dinâmica relacional
que se organiza em torno dos significados compartilhados, nos quais estão
os problemas que levam as pessoas a buscarem terapia. Tal
concepção em primeiro plano coloca ênfase sobre a linguagem e a pessoa do
terapeuta, e segundo estende o
território da terapia sistêmica, originalmente uma terapia de família
como um sistema, para além das fronteiras, ao incluir o indivíduo, as
comunidades e outras organizações sociais, envolvidos numa trama
significativa. Grandesso
diz que estamos “apoiados em torno dos princípios de imprevisibilidade e
incerteza, da impossibilidade de um conhecimento objetivo, da auto-referência,
da linguagem da autopoiese, o campo da terapia sistêmica organizou-se nas
chamadas terapias sistêmicas construtivistas, construcionistas sociais,
desenvolvidas nos modelos conhecidos como conversacionais, dialógicos ou
narrativos. Em comum pode-se destacar que todas questionam os modelos diagnósticos
tradicionais, as teorias clínicas e teorias de mudança, tradicionalmente
centradas nos modelos apriorísticos de disfuncionalidades e
patologias, ou de funcionamento saudável.” O
que é a terapia familiar e para quem servem as terapias familiares? Embora
não se possa deixar considerar a interdiciplinariedade da terapia familiar
e a diversidade de modelos de atuação nesta área acredita-se que a
compreensão sobre o que se
entende por família e sistema é fundamental para a discussão sobre a atuação
clínica da terapia familiar. A
terapia sistêmica da família organizou-se em torno de alguns conceitos básicos,
definidores de sistemas: -
Globalidade
- um todo coeso é como se comporta um sistema, o que implica que a mudança
de uma parte altera todas as outras partes e o sistema como um todo -
Não-somatividade
- um sistema não pode ser considerado como a soma de suas partes
-
Homeostase
- processo de auto-regulação que mantém a estabilidade do sistema -
Morfogênese
- capacidade do sistema em absorver inputs
do meio e mudar sua organização (sistemas abertos) -
Circularidade - a relação entre quaisquer dos elementos
do sistema é bilateral, o que pressupõe uma interação que
manifesta-se como sequência circular -
Retroalimentação
- garante o funcionamento circular pelo mecanismo de circulação da
informação entre os componentes do sistema por princípio de feedback
(negativo
funciona para manutenção da homeostasia e o positivo que responde pela
mudança sistêmica) -
Equifinalidade
– independentemente de qual for o ponto de partida, um sistema aberto
apresenta uma organização que garante os resultados de seu funcionamento A
terapia familiar sistêmica estruturada em torno desses conceitos entende a
família como um sistema
aberto
que se auto-governa através de regras que definem o padrão de comunicação
mantendo uma interdependência entre os membros e com o meio no que diz
respeito a troca de informações e usa de recursos de retroalimentação
para manter o grau de equilíbrio em torno das transações entre os
membros. O
aspecto fundamental é a de que o ser “doente” ou a pessoa que apresenta
problemas, é apenas um representante circunstancial de alguma disfunção
no sistema familiar. Enquanto o modelo tradicional de práticas
psicoterapeuticas diria que o transtorno mental se manifesta pela força dos
conflitos internos ou intra-psiquícos, tendo sua origem no próprio indivíduo,
o modelo sistêmico daria ênfase a tal transtorno como expressão de padrões
inadequados de interações familiares.
Assim
sendo considera-se relevante priorizar o trabalho direto e efetivo com as
necessidades da família e do meio ambiente, sendo que esta
família é definida
pelos seus padrões de interação, em detrimento de rebuscar somente os
dificuldades de ordem intra-psíquica individuais. A
Terapia Familiar/Casal não é recomendada para qualquer caso, porém tem
indicação clara para certas situações(12): ·
problemas com várias pessoas da mesma família ·
problemas evidentes de relacionamentos entre pais ·
violência, alcoolismo, drogadição, distúrbio psíquico,
luto patológico entre outros. Na
terapia são consideradas todas as informações levando em conta até três
gerações da família envolvidas no tratamento o que caracteriza mais do
que um trabalho de remediação às possibilidades preventivas, quando se
pensa numa mudança
de Segunda Ordem, que implica na transformação dos padrões de
transacionais que constituem a estrutura familiar(13) .
A mudança terapêutica é decorrente da ampliação de
possibilidades de experiências vividas pela família nos diferentes
contextos. Em contrapartida ao conceito de mudança próprio das terapias
familiares da cibernética do primeiro período está o conceito de reconstrução
enfatizado pelos terapeutas que trabalham na perspectiva das
(re)construções de narrativas.
O
tratamento possibilita que mais de uma pessoa seja atendida por um
profissional ou uma equipe de profissionais que compartilham da mesma visão
de homem e de mundo permitindo o
vínculo e a linguagem comum com todos os membros da família,
possibilitando uma re-construção dos significados que giram em torno do
problema. A
criança como consultora ou co-terapeuta na Terapia Familiar O
terapeuta familiar nem sempre trabalha só, pode estar com um colega
(co-terapeuta) ou uma equipe de profissionais, mas ainda assim pode ter a
criança como sua principal aliada de trabalho. O
atendimento de famílias com
crianças geralmente parte de alguma dificuldade observada pelos pais em
seus filhos com relação a problemas escolares, psicomotores ou de
relacionamento intra e extra familiar. É comum que os pais tragam seus
filhos para que a terapia seja realizada somente com eles. A fala dos pais
é “meu filho tem o problema” ou então
“ele é o problema, nós não sabemos mais o que fazer”. Curiosamente
é a criança que pode ser consultora ou co-terapeuta do terapeuta familiar
no atendimento, sendo sua ajuda solicitada para que juntos, terapeuta e
criança possam ajudar os pais. Imediatamente dissolve-se o foco da criança
como problema, o “Bode expiatório”. Primeiro promove-se a busca de
recursos na própria criança fazendo que ela sinta-se capaz, o que faz com
que os pais não vejam-na somente como frágil e problemática, mas como
gestora de recursos promotores de mudanças e também envolve os pais como
participativos no processo de tratamento daquela família. Valorizando a
competência da criança indiretamente o terapeuta também cumprimenta os
pais que criaram-na tão bem. É
muito freqüente que as crianças escolham os sintomas de acordo com o que
elas queiram afetar profundamente. Assim foi o que Marcos fez (nome fictício). Em
fase de separação conjugal Marta e João procuram a terapia de casal
preocupados com as conseqüências deste rompimento sobre seus filhos.
Marcos estava indo mal na escola. Numa entrevista realizada com a
coordenadora da escola soubera que, não passaria do pré para primeira série
do ensino fundamental, recusava-se a participar do “mundo letrado”, isto
é do “mundo dos adultos”. Não era para menos vivendo no meio de tantas
brigas entre seus pais, para ele o melhor era continuar “brincando” e não
lendo ou escrevendo. Foram
realizadas sessões com diversos sub-sistemas da família. 1ª)
Entre Marcos e sua irmã, configurando o sub-sistema fraterno, nas quais
foram trabalhados os aspectos de rivalidade e apego, isto é, o quanto esses
irmãos poderiam ajudar-se nesta fase de reorganização familiar diante da
separação de seus pais. 2ª)
com a mãe, Marcos e a irmã, com intuito
de fortalecimento do vínculo entre Marcos e sua mãe, visto que esta permitiu a
guarda das crianças ao pai. 3ª)
com os avós paternos de Marcos e seu pai. Na medida que o pai de Marcos
pode conversar com seu pai sobre o quanto se sentira desqualificado na infância,
reconstrói o significado de sua relação também com seu filho e deixa de
agredi-lo fisicamente como também chamá-lo de “burro”. 4ª)
com avós maternos de Marcos e sua mãe. A mãe, filha de pais
separados também, consegue resignificar aquilo que entendeu como abandono
vivido na infância na relação com sua própria mãe e retoma a guarda do
filho. Durante as sessões a mãe de Marcos sentia-se deprimida e ele
preocupava-se com ela que havia ficado só após a separação, pois ele e a
irmã foram morar com o pai e a nova esposa dele. 5ª)
com família substituta de Marcos , agora composta pela irmã, o pai e a
madrasta. Foi extremamente importante a sessão que configurou-se como
ritual de uma outra família que se construía simultaneamente com a entrada
da nova esposa do pai. Fez-se necessário redefinir papéis e tarefas de
cada membro da família, o que permitiu um lugar de maior prestígio para
Marcos que também ganhará mais um irmão o filho da esposa de seu pai, e
este passou a ser seu colega de quarto. Assim nem todos os “fracassos”
recaiam sobre ele. 6ª)
com os tios por parte de pai, foi uma sessão na qual se redefiniram os papéis,
pois estes tios exerciam funções paternas, e assim tanto o pai quanto a mãe
sentiam-se menos valorizados diante de Marcos, que embora tomasse o tio
“como pai afetivo”, na medida que o fazia mais impedia a possibilidade
de ter uma relação feliz com seu pai, isto quer dizer que nos finais de
semana passou a viajar com o
pai, a montar cavalo e brincar com ele e não somente com o tio como fazia
antes da separação de seus pais. A tia deixou de fazer as lições de casa
dele, fazendo com que ele pudesse sentir-se mais valorizado por conseguir
realizar suas obrigações sem auxílio, ou quando este era necessário
passou a solicitar sua mãe ficando mais próximo dela, podendo cuidar e ser
cuidado. Assim
Marcos foi deixando de ser o problema e ajudando seus pais e as três gerações
de sua família. Este
caso ilustra o quanto nós como profissionais da saúde devemos estar
atentos ao que nos
comunicam as crianças. Será que valeria a pena Marcos repetir de ano, por
dificuldades que não eram só
dele? Esta história tem um final feliz se assim podemos dizer, Marcos vai
para a primeira série do ensino fundamental e redistribuí o lugar para que
cada membro de sua família possa crescer e sentir-se feliz. Este trabalho
durou um ano e meio, e ainda hoje lembro-me dos olhos azuis de menino
sofrido que passaram a brilhar. AdrianaCarbone - Mestre pelo programa de estudos pós-graduados em psicologia clínica da PUC/SP; especialista em terapia familiar e de casal (NUFAC - PUC/SP); membro da APTF – Associação Paulista de Terapia Familiar de São Paulo; professora da UNISA – Universidade Santo Amaro. |
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