
Sobre
os limites
Mirian
Altman
Fazer uma reflexão
sobre a importância dos limites, considerando-o como aspecto fundamental
na vida de todos os seres humanos e sobretudo na educação infantil,
implica na consideração de vários fatores envolvidos.
Um deles
refere-se a presença do sentimento de frustração, nas situações
onde a realidade se apresenta impondo restrições e limites. Frente á
frustração são experimentados sentimentos de dor, raiva, contrariedade
e ódio.
Observamos que
muitas vezes a tendência das pessoas é de não reconhecer esses
sentimentos e tentar negar a realidade ou mesmo fugir e fingir que nada
ocorre; outras se sentem mais capazes de entrar em contato com essas vivências
e a partir delas encontrar alternativas. Fato que demanda um certo
amadurecimento.
O sentimento de
frustração pode tornar-se muito freqüente em função do desejo da
criança que é ilimitado e não leva ainda em conta os aspectos da
realidade. É característica
da natureza do desejo que este seja ilimitado, desmedido impregnado por
fantasias de tudo querer e de tudo poder. Só com o desenvolvimento e com
a ajuda do adulto é que a criança pode ir aprendendo a restringir certas
vontades, a trocar uma coisa por outra, a aceitar que existe uma hora para
cada atividade e que mesmo que algo seja prazeroso,
em certo momento pode precisar ser deixado de lado e substituído
por outra coisa .
Este é tambem
um aspecto bastante importante a ser considerado, que é o da onipotência
dos pensamentos , fantasias e desejos infantis. A criança imagina que de
fato é toda poderosa e fica muito assustada com a força e intensidade
que seus sentimentos podem ter. Se por exemplo está hostil pode imaginar
que a sua raiva pode atingir a mãe de forma destrutiva e arrasadora e
como conseqüência pode
sentir-se culpada e deprimida. O sentimento de culpa também indica que a
mãe que naquele momento esta sendo tão odiada também é a mãe amada da
qual a criança depende e nutre fortes sentimentos amorosos. Na fantasia
da criança o amor que também é vivido intensamente pode ser expresso
como voracidade; vontade de sugar a mãe toda para dentro de si e mantê-la
presa e sob controle.
É importante
ressaltar que estamos falando de mecanismos mentais bastante primitivos,
no sentido de que fazem parte dos primórdios da vida psíquica. Faz parte
desse começo esta forma
indiscriminada de lidar com o mundo interno e com o externo, com o que é
fantasia e o que é realidade. A criança desta forma dá asas a sua
onipotência pois não está
ainda habituada a confrontar seu mundo de fantasias com a realidade e com
os fatos. Pois a realidade
indica que ela é um ser bastante dependente, precisa da permissão dos
pais para quase tudo, seu poder de decisão é bastante restrito e tem
pouca autonomia.
Temos observado
que a brincadeira e a dramatização são formas úteis onde a criança
pode expressar seus desejos de imitar o adulto e de exercitar o seu
“poder” sem conseqüências danosas para ela. Neste sentido a escola
pode ter uma função muito importante, pois se torna um lugar
privilegiado para este aprendizado, na medida em que a criança passa pela
“socialização” onde todas estas experiências estarão presentes.
Por todas estas
razões , este é um processo lento, bastante trabalhoso pois implica em
renúncias. Não é fácil para a criança e nem para o adulto abandonar
algo conhecido e prazeroso. Freud, em seu artigo “ Os
dois princípios
do funcionamento mental” nos esclarece quanto a estas questões.
Descreve dois modos pelo qual o aparelho mental funciona. O primeiro é
regido pelo princípio de prazer/ desprazer; o outro pelo princípio da
realidade.
No primeiro modo
o que predomina é a busca do prazer a qualquer custo e este é conseguido
através da descarga de qualquer aumento de tensão. Se a criança esta
com raiva do amigo, vai lá e empurra, chuta, bate ou morde. Dessa forma
se vê temporariamente livre do desconforto do aumento de tensão interna
através deste tipo de descarga motora e corporal.
No segundo modo,
o que se considera é a realidade. Está em jogo também a possibilidade
de antecipar a ação através do pensamento. A criança já pode
considerar o amigo de outra forma possivelmente não precisará bater,
poderá se expressar através de palavras. Isso implica numa maior tolerância
com relação ao seu próprio desconforto e aumento de tensão interna.
Os pais e
educadores se encontram frente a uma situação difícil e delicada, não
é fácil pegar o filho na escola e encontrá-lo com uma marca roxa na
bochecha . É importante considerar que a presença do adulto pode
restringir certas atitudes das crianças, mas não é possível impedir
que aconteça , principalmente num grupo de crianças onde esta forma de
expressão ainda é a que prevalece. Todas as crianças passam por esta
fase, é importante notar que é algo passageiro e que logo que lhes é
possível vão encontrando outros modos de expressar seus sentimentos.
Linguagem e
pensamento são aquisições posteriores, que vêem com o desenvolvimento
intelectual e sobretudo emocional. Neste sentido podemos observar um
movimento no desenvolvimento infantil com relação a expressão das emoções,
que vai dos aspectos mais concretos e corporais para formas mais abstratas
e complexas que incluem a linguagem, a capacidade para a simbolização e
para o pensar. Com relação ao desenvolvimento cognitivo Jean Piaget
chegou a conclusões muito próximas a estas. Faz parte do
desenvolvimento, fazer renúncias e abrir mão de coisas conhecidas. Freud
chama a atenção para o fato de que o homem só pôde criar a civilização
a partir do momento em que aceitou dolorosamente abrir mão dessas formas
arcaicas e primitivas de convivência. A civilização e a cultura só
podem ocorrer com a inclusão de formas mais evoluídas
como a linguagem, a simbolização, a arte, a música e outras
acessíveis à capacidade de desenvolvimento do ser humano.
Outra visão a
respeito dessas questões foi muito bem estudada pela psicanalista inglesa
Melanie Klein, através de sua experiência clínica e de uma observação
bastante cuidadosa, ela nos diz que o amor e o ódio fazem parte da
natureza dos sentimentos humanos.
Quando o bebê
passa pela experiência da frustração (por exemplo, se está com fome e
tem que aguardar a presença da mãe para ser alimentado) vive uma situação
interna caótica e desorganizada. Em
contrapartida, quando está saciado e gratificado recupera um bem estar e
uma organização. As
primeiras experiências emocionais são vividas de forma tal que, quando a
mãe atende às necessidades do bebê ela é “boa” e, ao contrário,
quando o frustra, ela é “má”. No primeiro caso, a criança pequena
identifica a mãe como a “fada”, ou seja, aquela que tudo pode e tudo
dá. Opostamente, ao
frustrar-se, a criança identifica a mãe como a “bruxa” que nada tem
de bom a oferecer. Por isso
os contos de fada fazem tanto sentido para o mundo interno da criança,
pois retratam a oposição entre o bem e o mal. Assim inicialmente os
processos psíquicos infantis
caracterizam-se por vivências intensas e parciais em relação ao
outro que frustra ou gratifica . Quando gratifica, o outro é amado,
adorado e querido; no momento seguinte em que a criança é frustrada o
outro passa a ser objeto da agressão,
ódio e maldade.
Na
vivência ligada a gratificação , quando a criança está atendida e
satisfeita a tendência é a idealização do outro. A mãe passa a ser
vista como um ser perfeito, toda poderosa, não tem limites e pode dar
tudo.
A
característica destas vivências parciais é que a mudança de estado é
brusca e pode ir de um extremo ao outro da idealização ao ódio profundo
ou vice- versa. Estas vivências fazem parte da vida mental de todos nós,
quanto mais jovem e menos amadurecido, mais intensas e extremas elas se
apresentam. A noção do outro como ser independente e separado, como
aquele que frustra e ao mesmo tempo gratifica é bem posterior. Nestas
primeiras e primitivas vivências , o que é bom está dentro, o mau está
fora, desta forma não há responsabilidade pessoal. Por exemplo, o outro
é responsável pela minha dor, por eu ter caído, por ter me machucado,
por não conseguir fazer as coisas, etc...
Somente quando a
criança percebe que a mãe, as pessoas e a realidade não são totalmente
boas e nem totalmente más é que vai integrando esses aspectos dentro de
si mesma. Dessa forma as
experiências emocionais gratificantes (boas) e as frustrantes (más)
passam a coexistir dentro dela e na sua relação com as pessoas e com o
ambiente que a cerca. Esse
progresso no desenvolvimento emocional
permite que a criança aceite melhor as adversidades e restrições pois
as frustrações deixam de ter um caráter tão terrivelmente ruim na
medida em que também são consideradas as experiências boas.
Surge também a culpa e o medo de perder o outro, a tendência a
querer reparar o “mal” que na sua fantasia cometeu, a preocupação da
criança não está mais tão centrada em si mesma, existe também uma
preocupação genuína pelo outro.
Esse progresso
é um processo lento e trabalhoso. Quem
pode ajudar a criança nesse sentido é o adulto, os educadores, e
sobretudo, os pais. Para
tanto, é fundamental que os adultos também possam aceitar os limites e
as frustrações da vida, considerando os aspectos da realidade
(princípio da realidade), ou seja, o adulto possa compreender que
frustrar o filho (dar
limites) não é ser “mau”, e sim,
dar-lhe proteção e cuidado. Se isto não está sendo possível,
as “regras” de como
educar e castigar acabam falhando.
É
preciso que os pais possam aceitar as reações de agressividade e
sofrimento dos filhos perante suas frustrações,
de maneira a permitir que eles se desenvolvam.
Freud dizia que a capacidade para pensar é uma atividade bastante
complexa, que só pode se desenvolver no ser humano quando ele é capaz de
se confrontar com obstáculos e dificuldades para, a partir daí,
encontrar novas soluções a alternativas.
O sofrimento faz parte da vida e, tentar poupar os filhos dessas
experiências, é prejudicá-los no enfrentamento da vida. Nesse sentido,
o que a psicanálise nos mostra é que só através dessas vivências a
criança pode formar um aparelho mental mais fortalecido.
MIRIAM ALTMAN (CRP-
06/ 20565-5), psicóloga clínica, oferece cursos de psicologia
para educadores. Informações
pelo tel. (11) 280-4142
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