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Como
profissional na área da Psicologia, venho sendo solicitada a esclarecer
quais seriam as melhores formas para se lidar com filhos pré-adolescentes
ou adolescentes em geral.
Constantemente
colocam-me o quanto é difícil conversar com adolescentes:
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“Adolescentes”, dizem-me, "são muito chatos, esquecidos, difíceis,
teimosos, incompreensíveis, zangados, agressivos, não querem mais tomar
banhos e não ouvem quaisquer conselhos que se queiram dar...".
-
“Deus me livre e guarde quando tenho que entrar em contato com grupos de
adolescentes...”.
-
“Quando eu era adolescente, não fazia nada disso que eles fazem agora.
Não me lembro de ter sido assim. Duvido que eu tenha sido tão respondona
ou mal-criada como os adolescentes de hoje...”.
-
“Eu não entendo por que ele ou ela não gosta mais de mim, parece que
me odeiam. Ele (ela) tem de tudo, tudo o que posso fazer ou oferecer, eu
faço. Tudo o que eu não tive quando criança
ou adolescente eu dou para ele (ela). Então, não entendo porque tanta
malcriação... tão desobediente e agressivo, gritando e batendo
portas”; frases assim, ouço a maioria das vezes. Com vozes sofridas e
indignadas, como se o mundo tivesse caído em suas cabeças, pais de
adolescentes questionam-se furiosamente tentando pensar onde é que
erraram.
Já ouvi muitos professores dizerem que com adolescentes a
disciplina tem que ser férrea:
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“não se pode dar moleza, não tem papo e se pudesse não lecionava para
adolescentes...”
Claro que não existem fórmulas ou receitas para generalizar no
trato com adolescentes, como, também não existem fórmulas ou receitas
para se tornar pais, para se tornar professores ou para se ter filhos. O
que podemos compreender são os padrões familiares compostos por fórmulas
ou receitas de regras colocadas pela sociedade de como devem se comportar as
familías, instituições educacionais e enfim segmentos da sociedade tal
qual a religião de cada um. Além disso está o indivíduo, com
comportamentos muito pessoais, inserido numa sociedade regida por regras e
padrões comportamentais generalizadas. Quando pais, professores gritam o
seu inconformismo sobre comportamentos adolescentes, esquecem que um dia,
que não está muito longe, também foram adolescentes e naquele momento
quebraram e questionaram regras.
Quebrar e questionar regras faz parte do comportamento adolescente
para que possam criar novas regras entrando em choque com as regras
familiares e sociais. O chocante do comportamento adolescente aparece na
transgressão da autoridade paterna, concomitantemente voltam-se contra as
instituições escolares e sociais. Se a situação fosse somente esse
caos, tanto os pais como professores compreenderiam que para que os seus
filhos possam se encontrar e encontrar um lugar no mundo adulto, precisam necessariamente
passar por situações de conflitos contra a rebeldia
corporal, mental e social. Os hormônios estão ativados, loucamente,
deixando-os com sensação de desarticulação e ficam parecendo a cada
momento ora um homem de lata, ora um espantalho, ora um leão para
futuramente encontrar o seu lugar (“O Mágico de Oz”). Essa tormenta
interna encontra-se com os furacões externos estabelecendo um vínculo
com o espectro da morte. E lidar com as variantes da morte traz o horror fantasmagórico
do ser e não-ser.
A complexidade da sociedade manifesta-se no confronto de gerações
esbarrando na caótica disseminação da insegurança. Insegura social, de
moral duvidosa com inversão de valores e criminalidade declarada,
contribui com mais motivos para que pais, professores e adolescentes
enfrentem de forma completamente deturpada as mudanças que deveriam ser
sabidamente rotineiras.
Historicamente esquecemos como se passava o conhecimento. Se
buscarmos a formação de uma tribo indígena, veremos que o conhecimento
era passado pelos mais velhos, ou seja pelo sábio ou pajé da tribo. A
criança aprendia ensinando aprendendo. Até seus sete anos permanecia
perto de sua mãe e irmãos, ora brincando ora ajudando os menores. A
partir dos sete anos, a criança passava a aprender a história e
ensinamentos da sua comunidade com o pajé, figura de secretos e
misteriosos ensinamentos, e ensinava o que aprendia e aprendia novamente
quando ensinava. A magia estava no mistério e respeito pelo conhecimento
e também pela comunhão dos rituais sagrados da tribo. Aos doze anos
passava por outra forma de aprendizado para inserir-se no mundo adulto.
Participava de um ritual de passagem aonde deveria provar e demonstrar
suas habilidades e capacidades para enfrentar o futuro. As provas de
sobrevivência os capacitavam a transformar-se num adulto. Então sabiam
sempre o que era esperado deles. Os menos aptos eram tragados pela morte,
literalmente.
Estudarmos História, seja Geral ou do País em que se está
inserido, implica na necessidade simbólica da compreensão tornando-a
ilimitada na reflexão. Conhecimento adquirido dificilmente é
transferido, porém parte-se do princípio que receitas são passadas para
todos, e a partir dela o bolo tem sabor diferente para cada um. A
desmontagem do ritual de passagem contribui para que os menos aptos sejam
tragados pela auto-destruição (exemplo: cada vez mais “crianças”
envolvendo-se com drogas e com a criminalidade em geral pela dificuldade
de elaborar o luto infantil; tomada de consciência e responsabilidade de
adultos, gravidez precoce etc). Chama à atenção, além dos
adolescentes, pais e professores, a sociedade como um todo sendo tragada
pelo desconforto da insegurança e ameaça da morte sem sentido ou explicação.
Os parâmetros sociais distorcidos elevam a crença
de que nada, então, vale a pena. O valor deslocado para emblemas na busca
do prazer imediato coloca o adolescente num paradoxo. A expressão se
ficar o bicho come, se correr o bicho pega coloca-o familiar, educacional
e socialmente num beco sem saída.
Mas a História nos leva a refletir sobre a própria história
pessoal. Quando aprendemos a importância dos povos, sua cultura, sua
religiosidade, sua contribuição para a humanidade, desenvolvemos um
raciocínio pessoal do que queremos contribuir para esse momento tão
atual em que vivemos. Como um indivíduo contemporâneo pode ser
considerado importante para a sociedade atual...
A família é uma célula importante para a sociedade. Se a família
tiver dificuldades para compreender o seu papel diante do momento em que
está inserida, dificilmente compreenderá o momento que os seus
adolescentes estão vivendo.
A família ao se separar com o “caos” em que o adolescente traz
para a sua estrutura celular, depara-se com uma nova ordem.
Dizemos que o adolescente desconhece a
família em que está inserido quando busca somente a companhia dos
amigos:
-
“Meus filhos não querem mais a minha companhia”
-
“Ele (ela) foge para a rua e tenho medo das companhias que dele (dela)
fica!”
-
“Fulano ou sicrano é o responsável por ele (ela) estar na rua!”
E assim por diante...
Diante da explosão hormonal de seus filhos, os pais e professores
ficam estarrecidos com as transformações, desaprovando qualquer busca de
afirmação que não seja a que eles conhecem e exigem.
E o adolescente... onde entra o seu papel? Na busca pela
auto-afirmação o (a) adolescente reproduz o modelo familiar. Em primeiro
lugar, o conflito do (a) adolescente nasce justamente do fato da natureza
se manifestar sem consultar a conveniência de
sistemas familiares, sem levar em consideração o momento de
indefinição e crise de valores e a dependência econômica e, em segundo
lugar, o (a) adolescente entra em conflito com o que ele sente e aquilo
que se espera dele e o que se espera dele e o que a sociedade impõe. Toda
adolescência leva, além do selo individual, o selo do meio cultural,
social e histórico.
A flutuação entre infância e adolescência é dolorosa. Aos
adolescentes se impõe uma decisão: desejo de ser adulto ou de não
crescer nunca. Período conflitivo para os pais que raramente entendem as
progressões e regressões características dessa fase, não favorecendo o
desenvolvimento da criança, por não apresentarem boa mediação entre o
reprimir e o fomentar excessivamente os progressos de seus filhos. Isto
talvez ocorra porque os pais costumam ter dificuldade em
aceitar o crescimento dos filhos, pois os angustia, e a eclosão da
genialidade e a expansão da personalidade que dela surge. A incompreensão
pode ser encontrada mascarada sob atitudes opostas: uma excessiva
liberdade que o adolescente vive como abandono.
A dificuldade na elaboração destas lutas nos permite compreender
a lentidão e a dor do processo da adolescência. Surgem comportamentos fóbicos
e contrafóbicos face ao espaço, à exploração
do mundo, que vão desde as fugas ou fantasias de fuga, até o
fechamento no quarto ou a inércia total, em um aparente isolamento do
exterior.
Os conflitos, surgidos sobretudo da dissociação entre a mudança
corporal e psicológica, levam o adolescente à necessidade de planificação,
que abarca desde o problema religioso até a colocação do homem frente
ao mundo e até fatores insignificantes da vida cotidiana. A dor lhe
produz abandonar seu mundo e a consciência de que modificações
incontroláveis continuam a se processar interiormente, movem o
adolescente a efetuar reformas exteriores que lhe assegurem
a satisfação de suas necessidades na nova situação.
As rápidas mudanças físicas da puberdade dificultam ao
adolescente conseguir um sentimento de autocoerência e há necessidade de
tempo para integrar estas alterações no senso de identidade individual
que emerge lentamente.
As oscilações entre dependência-independência, manifestadas
pelos adolescentes, devem encontrar pais adaptados, facilitando dessa
forma o trabalho de luto de seus filhos, no qual são necessários freqüentes
ensaios e provas de perda e recuperação.
Sabemos que as condições familiares e culturais poderão
favorecer, demorar ou precipitar o desenvolvimento do adolescente, sem, no
entanto, impedir que a elaboração do luto seja feita. Famílias
desagregadas colaboram com maior ou menor desestruturação quando
permitem que conflitos de casal interfiram no desenvolvimento de seus
filhos desgastando-os psicologicamente.
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