Suely Aparecida Naime

PAIS, FILHOS ADOLESCENTES E PROFESSORES:

ACENDER UMA VELA A DEUS E OUTRA VELA PARA A SENSATEZ

Como profissional na área da Psicologia, venho sendo solicitada a esclarecer quais seriam as melhores formas para se lidar com filhos pré-adolescentes ou adolescentes em geral.  
Constantemente colocam-me o quanto é difícil conversar com adolescentes:  
- “Adolescentes”, dizem-me, "são muito chatos, esquecidos, difíceis, teimosos, incompreensíveis, zangados, agressivos, não querem mais tomar banhos e não ouvem quaisquer conselhos que se queiram dar...".  
- “Deus me livre e guarde quando tenho que entrar em contato com grupos de adolescentes...”.  
- “Quando eu era adolescente, não fazia nada disso que eles fazem agora. Não me lembro de ter sido assim. Duvido que eu tenha sido tão respondona ou mal-criada como os adolescentes de hoje...”.  
- “Eu não entendo por que ele ou ela não gosta mais de mim, parece que me odeiam. Ele (ela) tem de tudo, tudo o que posso fazer ou oferecer, eu faço. Tudo o que eu não tive quando criança ou adolescente eu dou para ele (ela). Então, não entendo porque tanta malcriação... tão desobediente e agressivo, gritando e batendo portas”; frases assim, ouço a maioria das vezes. Com vozes sofridas e indignadas, como se o mundo tivesse caído em suas cabeças, pais de adolescentes questionam-se furiosamente tentando pensar onde é que erraram.  
      Já ouvi muitos professores dizerem que com adolescentes a disciplina tem que ser férrea:  
- “não se pode dar moleza, não tem papo e se pudesse não lecionava para adolescentes...”  
      Claro que não existem fórmulas ou receitas para generalizar no trato com adolescentes, como, também não existem fórmulas ou receitas para se tornar pais, para se tornar professores ou para se ter filhos. O que podemos compreender são os padrões familiares compostos por fórmulas ou receitas de regras colocadas pela sociedade de como devem se comportar as familías, instituições educacionais e enfim segmentos da sociedade tal qual a religião de cada um. Além disso está o indivíduo, com comportamentos muito pessoais, inserido numa sociedade regida por regras e padrões comportamentais generalizadas. Quando pais, professores gritam o seu inconformismo sobre comportamentos adolescentes, esquecem que um dia, que não está muito longe, também foram adolescentes e naquele momento quebraram e questionaram regras.  
      Quebrar e questionar regras faz parte do comportamento adolescente para que possam criar novas regras entrando em choque com as regras familiares e sociais. O chocante do comportamento adolescente aparece na transgressão da autoridade paterna, concomitantemente voltam-se contra as instituições escolares e sociais. Se a situação fosse somente esse caos, tanto os pais como professores compreenderiam que para que os seus filhos possam se encontrar e encontrar um lugar no mundo adulto, precisam necessariamente passar por situações de conflitos contra a rebeldia corporal, mental e social. Os hormônios estão ativados, loucamente, deixando-os com sensação de desarticulação e ficam parecendo a cada momento ora um homem de lata, ora um espantalho, ora um leão para futuramente encontrar o seu lugar (“O Mágico de Oz”). Essa tormenta interna encontra-se com os furacões externos estabelecendo um vínculo com o espectro da morte. E lidar com as variantes da morte traz o horror fantasmagórico do ser e não-ser.  
      A complexidade da sociedade manifesta-se no confronto de gerações esbarrando na caótica disseminação da insegurança. Insegura social, de moral duvidosa com inversão de valores e criminalidade declarada, contribui com mais motivos para que pais, professores e adolescentes enfrentem de forma completamente deturpada as mudanças que deveriam ser sabidamente rotineiras.  
      Historicamente esquecemos como se passava o conhecimento. Se buscarmos a formação de uma tribo indígena, veremos que o conhecimento era passado pelos mais velhos, ou seja pelo sábio ou pajé da tribo. A criança aprendia ensinando aprendendo. Até seus sete anos permanecia perto de sua mãe e irmãos, ora brincando ora ajudando os menores. A partir dos sete anos, a criança passava a aprender a história e ensinamentos da sua comunidade com o pajé, figura de secretos e misteriosos ensinamentos, e ensinava o que aprendia e aprendia novamente quando ensinava. A magia estava no mistério e respeito pelo conhecimento e também pela comunhão dos rituais sagrados da tribo. Aos doze anos passava por outra forma de aprendizado para inserir-se no mundo adulto. Participava de um ritual de passagem aonde deveria provar e demonstrar suas habilidades e capacidades para enfrentar o futuro. As provas de sobrevivência os capacitavam a transformar-se num adulto. Então sabiam sempre o que era esperado deles. Os menos aptos eram tragados pela morte, literalmente.  
      Estudarmos História, seja Geral ou do País em que se está inserido, implica na necessidade simbólica da compreensão tornando-a ilimitada na reflexão. Conhecimento adquirido dificilmente é transferido, porém parte-se do princípio que receitas são passadas para todos, e a partir dela o bolo tem sabor diferente para cada um. A desmontagem do ritual de passagem contribui para que os menos aptos sejam tragados pela auto-destruição (exemplo: cada vez mais “crianças” envolvendo-se com drogas e com a criminalidade em geral pela dificuldade de elaborar o luto infantil; tomada de consciência e responsabilidade de adultos, gravidez precoce etc). Chama à atenção, além dos adolescentes, pais e professores, a sociedade como um todo sendo tragada pelo desconforto da insegurança e ameaça da morte sem sentido ou explicação. Os parâmetros sociais distorcidos elevam a crença de que nada, então, vale a pena. O valor deslocado para emblemas na busca do prazer imediato coloca o adolescente num paradoxo. A expressão se ficar o bicho come, se correr o bicho pega coloca-o familiar, educacional e socialmente num beco sem saída.  
      Mas a História nos leva a refletir sobre a própria história pessoal. Quando aprendemos a importância dos povos, sua cultura, sua religiosidade, sua contribuição para a humanidade, desenvolvemos um raciocínio pessoal do que queremos contribuir para esse momento tão atual em que vivemos. Como um indivíduo contemporâneo pode ser considerado importante para a sociedade atual...  
      A família é uma célula importante para a sociedade. Se a família tiver dificuldades para compreender o seu papel diante do momento em que está inserida, dificilmente compreenderá o momento que os seus adolescentes estão vivendo.  
      A família ao se separar com o “caos” em que o adolescente traz para a sua estrutura celular, depara-se com uma nova ordem.  
      Dizemos que o adolescente desconhece a família em que está inserido quando busca somente a companhia dos amigos:  
- “Meus filhos não querem mais a minha companhia”  
- “Ele (ela) foge para a rua e tenho medo das companhias que dele (dela) fica!”  
- “Fulano ou sicrano é o responsável por ele (ela) estar na rua!”  
      E assim por diante...

      Diante da explosão hormonal de seus filhos, os pais e professores ficam estarrecidos com as transformações, desaprovando qualquer busca de afirmação que não seja a que eles conhecem e exigem.  
      E o adolescente... onde entra o seu papel? Na busca pela auto-afirmação o (a) adolescente reproduz o modelo familiar. Em primeiro lugar, o conflito do (a) adolescente nasce justamente do fato da natureza se manifestar sem consultar a conveniência de  sistemas familiares, sem levar em consideração o momento de indefinição e  crise de valores e a dependência econômica e, em segundo lugar, o (a) adolescente entra em conflito com o que ele sente e aquilo que se espera dele e o que se espera dele e o que a sociedade impõe. Toda adolescência leva, além do selo individual, o selo do meio cultural, social e histórico.  
      A flutuação entre infância e adolescência é dolorosa. Aos adolescentes se impõe uma decisão: desejo de ser adulto ou de não crescer nunca. Período conflitivo para os pais que raramente entendem as progressões e regressões características dessa fase, não favorecendo o desenvolvimento da criança, por não apresentarem boa mediação entre o reprimir e o fomentar excessivamente os progressos de seus filhos. Isto talvez ocorra porque os pais costumam ter dificuldade em aceitar o crescimento dos filhos, pois os angustia, e a eclosão da genialidade e a expansão da personalidade que dela surge. A incompreensão pode ser encontrada mascarada sob atitudes opostas: uma excessiva liberdade que o adolescente vive como abandono.
      A dificuldade na elaboração destas lutas nos permite compreender a lentidão e a dor do processo da adolescência. Surgem comportamentos fóbicos e contrafóbicos face ao espaço, à exploração  do mundo, que vão desde as fugas ou fantasias de fuga, até o fechamento no quarto ou a inércia total, em um aparente isolamento do exterior.  
      Os conflitos, surgidos sobretudo da dissociação entre a mudança corporal e psicológica, levam o adolescente à necessidade de planificação, que abarca desde o problema religioso até a colocação do homem frente ao mundo e até fatores insignificantes da vida cotidiana. A dor lhe produz abandonar seu mundo e a consciência de que modificações incontroláveis continuam a se processar interiormente, movem o adolescente a efetuar reformas exteriores que lhe assegurem a satisfação de suas necessidades na nova situação.  
      As rápidas mudanças físicas da puberdade dificultam ao adolescente conseguir um sentimento de autocoerência e há necessidade de tempo para integrar estas alterações no senso de identidade individual que emerge lentamente.  
      As oscilações entre dependência-independência, manifestadas pelos adolescentes, devem encontrar pais adaptados, facilitando dessa forma o trabalho de luto de seus filhos, no qual são necessários freqüentes ensaios e provas de perda e recuperação.  
      Sabemos que as condições familiares e culturais poderão favorecer, demorar ou precipitar o desenvolvimento do adolescente, sem, no entanto, impedir que a elaboração do luto seja feita. Famílias desagregadas colaboram com maior ou menor desestruturação quando permitem que conflitos de casal interfiram no desenvolvimento de seus filhos desgastando-os psicologicamente.

Suely Aparecida Naime
Psicóloga Clínica CRP 06/46  256-2

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