Hoje

O MENDIGO DA MINHA RUA
Sergio Perazzo*


Ao mendigo da minha rua não importa que horas são. Muito menos em que equinócio ele se situa, em que século, em que milênio.
   

Entre uma cusparada e outra, ele se levanta com o sol, deixa escorregar o cobertor imundo na calçada, marcando território para a noite seguinte com a total segurança de que ninguém vai roubá-lo mesmo. O aspecto repugnante de sua coberta é a melhor defesa de tal transitório latifúndio.

Seguido de perto pelo seu cão sarnento, a que está aderido por um fio invisível, tenta o pão com o português do boteco da esquina que lhe vocifera as cores berrantes da lusa. Se não der, o dar de ombros tentará a padaria mais próxima.

Lá de cima, vendo toda esta trajetória inútil do destino humano, o próprio sol abre um sorriso satírico e caloroso ao contemplar nossos esforços de marcar o dia, dando andamento ao mostrador do relógio ou destacando as folinhas do calendário.

Não muda o sol na sua grandeza de quinta categoria, que insistimos ser de primeira, em nosso universo diminuto. Mudamos nós, conservadores, acreditanto que o mundo só muda, em seu mudo espanto, na virada do milênio. É a Terra, coitada, que que gira desesperada em torno do sol que, chova ou resseque, tem sempre a mesma cara, aqui desta distância sideral, apesar de suas explosões de fogo.

E ficamos todos imobilizados como o homem medieval, na virada dos anos mil, à espera de um milagre ou do fim do mundo. Se a hecatombe não vier, contrataremos o Joãosinho (é com "s" mesmo, redação!) Trinta para carnavalescar o nosso júbilo, assim como a virada para o segundo milênio deu berço ao carnaval. Alívio e batucada geral!

Estamos assegurados (ufa!) por mais mil anos e não temos mais porque nos preocupamos, apesar da garantia de nossos físicos que depois do Big-Bang o universo está e estará em permanente expansão. Não haverá o Bang-Big, nos diz o cosmólogo Stephen Hawking através de seu processador de voz.

Então, por que diabos, há, pelo menos, cinco anos, não se vai a um único congresso de qualquer corrente de psiquiatria, psicologia ou psicoterapia, em que não se multipliquem trabalhos, mesas, painéis, etc, com algum título se referindo ao terceiro milênio?

Prever que na virada do século, ou melhor, do milênio, os homens vão continuar se matando a par dos saltos tecnológicos que eles serão capazes de ampliar, é tão certo desde que o mundo é mundo e nisto não há qualquer novidade. A diferença é a velocidade e a escala em que isto acontece e a possibilidade de contemplação de tais fatos no momento em que ocorrem, sem sequer precisar se levantar da poltrona em que se está ancorado. Afinal de contas, as Cruzadas, a Guerra dos Cem Anos e a Revolução Francesa não são deste século e embora pudéssemos acreditar e esperar que depois de tais lições da História o homem teria aprendido algo de melhor, para ser melhor, mesmo os céticos, que não apostariam no século vinte, não poderiam prever o Holocausto, o Vietnã, Hiroshima e Nagasaki, Coréia, Biafra, a Bósnia, a bomba-relógio permanente do Oriente Médio, os expurgos stalinistas e os chineses da revolução cultural maoísta desta era maravilhosa de computadores e de satélites.

A natureza humana sempre carregou e sempre carregará estas contradições que lhe são inerentes, o que não deve servir de desculpa para não se lutar contra as desigualdades sociais e as injustiças cruéis que nos rodeiam cada vez mais a cada momento.

O que não dá para aceitar é que os psicoterapeutas que, querendo ou não, se constituem numa das camadas de uma elite cultural de nossa época, fiquem beatificados aguardando a virada do milênio, quer imersos em previsões até certo ponto previsíveis e até certo ponto imprevisíveis ou, o que é pior, contando a ação pelo tempo fioctício do relógio, mera convenção humana, e não pelo movimento constante da vida, atemporal em seu acontecer. Ou que a falta de lucidez supersticiosa, nascida da imaturidade reflexiva, tenha como batismo elegante as palavras "alternativos", "holístico" ou "ecológico", elevadas à condição de categoria, sem dimensionar-lhes sua verdadeira importância e significado.

O futuro é já. A ação demolidora da degradação humana é agora e o nosso papel é estar com e do lado do nosso semelhante, como semelhante, sempre, com nossas próprias dúvidas, indagações, contradições e esperança, sem a alienação do mendigo da minha rua, mas trazendo-o para a conquista do pão no boteco do português.

E não me venham de novo falar em milênios.

(*) Psiquiatria, psicodramatista, professor-supervisor da Sociedade de Psicodrama de São Paulo e da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, autor de diversos livros e artigos de psicodrama.

             

 

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