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A TRAJETÓRIA ARQUETÍPICA DE DIANA de GALES
Psicóloga e Psicanalista Junguiana, Mara Liberman

mara.jpg (13490 bytes)Uma a uma foram depositadas flores, presentes e mensagens na frente dos palácios reais de Londres, até que praças inteiras foram atapetadas com esta camada espessa e maciça de puro sentimento . Três milhões de pessoas acompanharam o funeral da princesa, o mundo se comoveu como se tivesse perdido alguém muito próximo . Jornais foram inundados de notícias , artigos e análises e aquele rosto bonito e solar, dourado e expressivo, aquele sorriso bonito de Diana estava em toda parte . O que aconteceu ?

Assistimos a um momento surpreendente , único , especial , em que algo tocou profundamente o inconsciente coletivo , abrindo um canal que mobilizou o psiquismo individual de inúmeros seres humanos .E em geral só alguém muito especial tem a capacidade de desencadear processos arquetípicos como este.

Talvez a princesa amada pelo povo tenha conseguido tornar-se um mito por ter sido comoventemente humana. Se for assim, talvez estejamos diante da última heroína do nosso século .

HEROÍNA?!

Herói em grego significa basicamente " o que nasceu para servir " . E o herói como arquétipo , estrutura potencial do inconsciente coletivo , emerge ou é constelado quando um homem ou mulher consegue vencer suas limitações pessoais , locais e históricas para alcançar uma dimensão onde paradigmas são rompidos e as únicas respostas possíveis são originais . Estas pessoas falam então com eloquência dos elementos e costumes em desintegração em sua sociedade e também [talvez principalmente] das forças que entram em ação para que ela renasça e se renove . O herói é assim representante das forças psíquicas que desafiam a estagnação e acessa núcleos vitais de individuação em nossos inconscientes . Para o mal ou para o bem os heróis são emissários do novo .

Vamos ver como Diana , a não-guerreira que tinha tudo para ser apenas um mito de Cinderela fabricado , fez este arquétipo emergir.

 

NASCIMENTO DO HERÓI

Heróis tem começos difíceis ou estranhos e Diana , tipicamente , foi rejeitada por ter nascido mulher , e criada com pouco contato com a família até que sua mãe a abandonou quando ela tinha 6 anos . Diana entrou muito cedo em contato com a solidão e com um núcleo de insegurança que iria acompanhá-la pôr toda a vida . Como disse o Conde Spencer em seu discurso no funeral da irmã , lembrando a menina que o criou : " Diana , apesar de todo status , glamour e aplauso , permaneceu uma pessoa intimamente insegura , quase infantil no desejo de fazer o bem para se libertar dos sentimentos de desvalia dos quais os distúrbios alimentares eram meramente um sintoma " .

Estes problemas de base deram à vida de Diana uma dimensão maior do que o modelo abonecado que poderia ter seguido . Afinal o herói não nos fala de algo divino ou santificado , mas sim da integração do humano em todos os aspectos e com todos seus limites . E Diana com suas falhas e imperfeições , bulimia e depressão sempre permaneceu profunda e visivelmente humana; muito alem de ser a Cinderela da mídia ela só conseguiu um sentido ao buscar fugir do papel de vítima para a conquista de si própria .

Vem também da infância o grande tema de sua vida , a busca, a frustração e o exercício do amor como sua grande vulnerabilidade e força .

Sim, ambas estavam lá: um grande potencial para a força junto com a fragilidade. Talvez tenha sido a solidão que ocasionou isto, fazendo-a se refugiar em seus próprios recursos quando tudo o mais falhava, ou talvez porque ela tenha aprendido a valorizar os seus sonhos mais que tudo. Não amamos Diana por piedade, que nunca nos tocaria desta forma. E força pura se distancia de nos, provocando admiração mas não ternura. Provavelmente é a própria mistura de força e vulnerabilidade que nos causa este efeito, o esforço verdadeiramente humano de conciliar e integrar opostos que traz à tona as emoções mais profundas.

Tony Blair , ministro da Inglaterra , captou bem este aspecto fundamental da princesa citando a epístola aos Coríntios , 1 - 13 , no funeral :

" Mesmo que distribua todos meus bens aos famintos

mesmo que entregue meu corpo às chamas

se me falta o amor

nada sou . "

 

SEPARAÇÃO E INICIAÇÃO DO HERÓI

Esta nossa heroína não se assemelha à tipologia de mulheres guerreiras , que Jean Shinoda Bolen chamou de deusas virgens como Atená e Ártemis , ( Diana para os romanos ) , que arquetipicamente inspiram mulheres fortes , auto - suficientes , que podem enfrentar obstáculos e buscar o isolamento por terem causas definidas porque lutar. Diana lembra mais algo frágil , encantador , sedutor e manipulador em sua imensa vontade de agradar a todos , talvez uma Perséfone em formação aceitando todas projeções de como deveria ser uma princesa quando muito jovem se casou com o gélido , distante , mas, para ela , desejável Charles.

Perséfone foi mitologicamente a filha de Deméter, deusa das colheitas, raptada pelo senhor dos infernos, Hades. Jean Shinoda Bolen faz uma interessante análise da personalidade de mulheres que constelam este arquétipo, em seu livro "As Deusas e a Mulher". E os traços mais aparentes são a vulnerabilidade, carência e o uso da sedução na busca de serem amadas. Isto até se tornarem, com o tempo, senhoras de caminhos inusitados pela força de sua magnífica intuição.

Em seu casamento de contos de fadas , com direito a toda pompa e carruagem Diana estava , sem saber , reeditando este mito , raptada e enclausurada num mundo de muito brilho aparente , que para ela equivaleu aos caminhos sombrios e tenebrosos do Hades , seu inferno pessoal . Porque o amor não estava lá , e nem a princípio a chance de ser ela mesma .

Sempre perguntamos o que acontece depois que príncipe e princesa se casam e vem o famoso " foram felizes para sempre". Radicalmente diferente do padrão açucarado, para Diana esta foi a fase iniciática em que ela ou sucumbiria e se eternizaria como vítima, papel que pela sua personalidade lhe caia bem, ou algo mudaria internamente e ela poderia transcender seus limites e os impostos pela corte.

Nesta fase , não podendo ser feliz, ela começou a enfrentar alguns de seus fantasmas pessoais, muito alimentados pela indiferença e infidelidade de Charles e a rejeição de sua nova família remetendo às de sua infância. Teve que lidar com a bulimia e o fascínio pela morte que a acompanhavam sempre, com a depressão e uma enorme decepção .

Estes foram talvez os piores dragões que ela encontrou, tanto mais poderosos por serem internos. Quase cedeu a eles, mas os enfrentou levando para o mundo seu imenso desejo de amor. Seu trabalho com pessoas desvalidas foi adquirindo uma dimensão muito especial, e dava para perceber um impulso verdadeiro por trás do sorriso que era constantemente filmado e fotografado. A generosidade , coragem e autenticidade com que tocou leprosos , abraçou aidéticos e vítimas de minas anti - pessoais , envolvendo até moribundos com seu calor , falam de um resgate profundo de sua dor.

Intensamente amada , nunca pela monarquia mas pelo povo, foi aprendendo a valorizar seu próprio sorriso , ternura e espontaneidade , adquirindo aos poucos alguma autoconfiança e com ela o direito de tentar buscar seus próprios caminhos. Sempre "raptada" por amantes ou situações que finalmente a traiam, continuou teimosamente tentando ser Diana.

 

CONQUISTAS DO HERÓI- MAIS ALGUNS DRAGÕES EM NOSSA HISTÓRIA.

Mulheres tipo Perséfone demoram para sair da indiscriminação e construírem uma identidade mais clara e assertiva , saindo de seus papéis de princesas engolidas pelo sistema para construir seus próprios caminhos . Para Diana também foi lento e difícil este processo.

A rainha Elizabeth, emissária da pompa e circunstância, do protocolo, conservadorismo e conformismo a regras e tradições asfixiantes , podia ter triturado Diana .Por um tempo assim o fez, mas hoje fica claro que não foi tão bem sucedida . Elizabeth propunha o modelo do passado em que tudo ficaria reprimido e oculto atrás dos muros concretos e subjetivos da adequação ; no máximo era possível sublimar a dor fazendo equitação e jardinagem. Para constrangimento e indignação da corte, Diana insistiu em revelar , expor , vestir suas emoções e ser transparente, mostrando sentimentos onde nenhum cabia.

Duramente criticada por isso e por não ser uma pessoa intelectualmente preparada , foi provando , ao ofuscar sogra e marido com seu carisma e seu instinto , que intuição e sentimentos podem ter uma grande sabedoria . Com isso Diana propôs um modelo diferente da tão decantada cerebralidade que era o padrão único de bom gosto e adequação na classe alta européia.

Voltando aos Coríntios :

" Mesmo que tenha o dom da profecia

Saber de todos os mistérios e de todo conhecimento

Se me falta o amor , nada sou

pois nosso conhecimento é limitado . "

 

Em seu enterro pode ser visto a extensão do efeito que Diana causou ao se permitir ser mais gente do que princesa, quando os ingleses , um povo tão reprimido e frio, puderam chorar abertamente . Durante séculos foi valorizado nesta cultura a impassibilidade como sinal de força , até que não só a expressão do sentir como o próprio sentir foram asfixiados . Agora , ao contrário , os ingleses até exigiam ( " Queremos ver sua aflição ! " ) da família real um comportamento mais empático e caloroso . A rainha Elizabeth passou a ser vista como uma " bruxa gélida " e Diana teve sua vingança quando ela , quebrando o protocolo, teve que sucumbir às exigências e fazer um pronunciamento declarando sua tristeza, e exibir a bandeira a meio pau , sinal de luto. Muito simbólico, isso, pois se o mundo estava de luto por Diana a rainha só poderia estar pelo efeito que a princesa causara em seu reinado...A casa de Windsor seguramente não terminará, o efeito "heróico" de Diana é mais sutil que isso, mas foi forçada pelo menos temporariamente a se adaptar a um novo estilo.

 

Crescendo a olhos vistos , Diana , após o divórcio e destituída do título de alteza real , mostrou-se ironicamente a maior embaixatriz que a Inglaterra poderia ter tido , conquistando os países pôr onde passava . E estava perto de vencer mais um tabu - seu casamento com Dodi al Fayed promoveria uma aproximação ocidente - oriente e faria do futuro sogro , Mohamad Fayed , dono da Harrod's , símbolo tão inglês , mas a quem sempre fora negada a cidadania britânica , o avô postiço do futuro rei .

Outro "monstro devorador" na vida de Diana foi seu conturbado relacionamento com a mídia. Diana sempre usou a imprensa como um recurso de seu lado mais sedutor e manipulador, e foi em troca usada até a morte pelos jornalistas. Essa foi sua Quimera, um combate ambivalente cujo resultado fica obscuro até o fim. Mas que serviu para a princesa se transformar numa grande comunicadora, e para que todas suas brigas fossem públicas. Na surdina e sobriamente, Diana não teria tido o efeito que conseguiu ter, nem como vítima, nem como personalidade.

 

 

O HERÓI PREPARA A VINDA DO VERDADEIRO REI

Em todo o período iniciático da trajetória de Diana apareceram algumas definições interessantes . A forte e eficiente Elizabeth permanece como rainha do passado . Já Diana conseguiu com sucesso , ao conquistar seu estilo pessoal e sua identidade , se firmar como princesa do povo , transcendendo títulos , e ao " continuar a gerar seu tipo especial de mágica " se tornar a rainha de fato , rainha dos corações , Rainha de Copas .

Charles passou mal no teste ; mostrou-se medíocre , indiferente , um príncipe das convenções , mas sem vitalidade . Assim , é possível que nem subindo ao trono consiga ser rei de fato ; fruto de pais gélidos e de um sistema ultrapassado e mumificado , não conseguiu ultrapassar seus próprios limites para poder traduzir o sentimento novo de um povo em transição .Um povo que perdeu sua empáfia como senhores do maior império que o mundo já conheceu mas que parece mostrar alguma disponibilidade em modificar valores para suas vidas.

Diana , mãe calorosa , espontânea , tátil , expôs seus filhos ao mundo , à vista de crianças comuns , aos problemas de fora dos muros dos castelos . Educando os meninos de seu jeito , pavimentou a estrada que pode levar William , jovem solar e carismático , ancorado no lado bom de sua herança cultural , a transpor a distância entre a família real e seu povo , podendo ser efetivamente o rei , um rei de fogo e não de gelo , e muito menos de papel .

 

 

MORTE E RETORNO DO HERÓI

" Após conseguir ocupar um lugar de honra o fim do herói é comumentemente trágico e pode vir cedo . Sua maior glória lhe será reservada ‘post-mortem’ " ( Junito de Souza Brandão ) .

Será que a trajetória de Diana já estava completa quando sua última " carruagem " , fora de controle , dirigida pôr um condutor desarvorado e perseguida pôr lobos , se espatifou no túnel das Almas , em Paris ou no Hades ? Só sabemos que sua passagem tocou fundo e trouxe o novo , a espontaneidade e a permissão para sentir e se expressar , desafiando fundas repressões. Morrer jovem amplificou muito o efeito que teve em vários aspectos: fez milhares de pessoas mandarem contribuições para as causas que abraçara, e tornou o debate sobre a ética na imprensa quase feroz.

O mito padrão do herói não se completa se , após a fase de iniciação e conquistas, não houver retorno . Trata-se do retorno, simbólico ou concreto , à sua origem , um círculo que se fecha marcando a sua possibilidade de trazer à tona o que o tornou especial .

Sincronicamente , este retorno foi providenciado para Diana quando foi enterrada numa ilha num lago da mesma propriedade em que havia nascido. Novamente vemos a dimensão arquetípica neste final da história , que mexeu fortemente com o imaginário popular ; começaram a estabelecer conexões entre Diana e o Rei Arthur , também supostamente enterrado numa ilha , a mítica Avalon . Algumas pessoas já a identificaram com a Senhora do Lago , a misteriosa dama que no início e no fim do ciclo arturiano é a guardiã da espada mágica , Excalibur .

Mas parece que Diana , a " revolucionária " charmosa que nunca foi guerreira , seria muito mais a guardiã da bainha que protege e envolve a espada , e a contém , assim como o princípio feminino envolve e valoriza o verdadeiro masculino e como sentimento e intuição deveriam vir sempre simultaneamente à incisividade do pensamento .

Pode ser que Diana não seja nem um pouco uma heroina do ciclo arturiano, e estas conexões estabelecidas pelo povo só indiquem que sua curta vivência e morte com Dodi fizeram-na ultrapassar a eterna representação de solidão em sua vida e tenham-na tornado um símbolo de união. Mais uma aposta num final feliz? Mas todos que agora querem o bem de Diana, podem estar desejando a frutificação da emoção dentro de si próprios, a junção mente-coração em suas vidas.

Valeu, princesa.

Mara Liberman
Psicóloga e Psicanalista Junguiana

 

 

             

 

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