| DESUMANO, DEMASIADAMENTE DESUMANO: |
| Crônicas Tupiniquis |
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Sérgio Gomes da Silva |
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Maria
Rita Kehl é uma psicanalista conhecida entre seus colegas de profissão,
sobretudo no eixo Rio-São Paulo, e uma das minhas autoras preferidas.
Preocupada com questões contemporâneas da nossa sociedade, e como
psicanalista, investigadora do universo feminino (tendo publicado vários
artigos e livros tais como “Masculino e Feminino na Cultura” e
“Deslocamentos do Feminino”, ambos pela Imago), recentemente tive
acesso a um antigo texto seu intitulado “A Psicanálise e o Domínio da
Paixão”. Neste
texto, Maria Rita nos conta a verdadeira história de Chapeuzinho
Vermelho. Na verdade a história contada antes do século XVIII, ou seja,
antes que a revolução burguesa modificasse o pensamento e o
comportamento ocidental, e, portanto, modificasse a história bem mais próxima
do que a conhecemos hoje. Sigo
então o fio condutor da história contada por Maria Rita Kehl, ou seja, a
história de Chapeuzinho contada pelos camponeses em volta do fogo, em
noites de inverno europeu: “Certo
dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e de
leite para sua avó. Quando a menina ia caminhando pela floresta, um lobo
aproximou-se e perguntou-lhe onde ia: Para
a casa da vovó – ela respondeu. Então
o logo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou primeiro à casa. Matou
a avó, despejou seu sangue numa garrafa e cortou sua carne em fatias,
colocando tudo numa travessa. Depois, vestiu sua roupa de dormir e ficou
deitado na cama, a espera. Pam,
pam !. A
história acaba aí, sem a menor menção do fim da história tal como a
conhecemos. Sem “moral da história”, sem caçador, sem final feliz. A
história de chapeuzinho é uma história de pura crueldade, desumanidade,
escatologia erótica e perversa, demasiadamente perversa. Uma
história triste onde não cabe final feliz, e talvez por isso mesmo, foi
preciso inventá-lo, até mesmo porque essa não é uma história para
contarmos aos nossos filhos, a beira da cama, antes de dormir. Pois
muito bem. Vou lhes contar uma outra história, não tão menos perversa,
não tão menos sexualmente escatológica, não tão menos desprovida de
crueldade e desumanidade. Essa
história aconteceu em João Pessoa, na Paraíba, e tomei conhecimento
dela no segundo semestre de 1999, e por guardar traços reais com pessoas
que de fato a vivenciaram, tomarei o devido cuidado de omitir dados e
trocar nomes, para preservar as identidades daqueles que dela fizeram
parte, e que até a época em que esse texto foi escrito, que eu saiba,
ainda não houve desfecho satisfatório. A
história é sobre um homem que durante três anos, usou e abusou
sexualmente de mais de 50 crianças de um bairro de classe média-baixa da
cidade de João Pessoa. Chamemos de Rafael, seu autor. Rafael não tinha
“precedente criminal”, a não ser o fato de ter “matado um homem e
nunca ter sido preso pelo seu ato”. Separado da sua esposa, e pai de
dois filhos, com quem mantinha contato sexual sempre (sic
- segundo informações colhidas), ele abusou não só sexualmente ao
longo de três anos, de 50 crianças e adolescentes entre 8 e 14 anos de
idade, submetendo-os a todos os tipos de maus tratos e relações sexuais,
como também utilizou chantagem emocional e ameaça de morte contra os
jovens, suas famílias ou parentes próximos, além de roubar-lhes
dinheiro e alguns dos poucos pertences pessoais que estes possuíam. O
terror que todas estas crianças vivenciaram durante três anos em que
ficaram “sob a ameaça” de Rafael não pode ser descrita em palavras,
muito menos a seqüela que foram deixadas, após sua prisão em flagrante! Cinqüenta
pais e cinqüenta mães viveram e ainda vivem o terror do fato ocorrido
com seus filhos, que ainda hoje sofrem de insônia, pesadelos,
hipersensibilidade emocional, fobia, medo, insegurança, mania de perseguição,
ódio, temor, abuso a qualquer coisa de cunho sexual, insensibilidade ou
hiposensibilidade afetivo-emocional, além de terem perdido o sossego face
a vingança que os “olheiros”, homens contratados por Rafael para lhe
proteger, podem cometer (visto que estes homens ainda encontram-se soltos
e morando próximo às residências das vítimas, portanto, ainda sob
vigilância de Rafael) e são cúmplices da vilania e psicopatia deste
homem. A
revolta de alguns pais de igual modo não tem limite. Vontade de matar
Rafael é o mínimo que conseguem pensar quando falam no assunto. A justiça
de Deus parece ser a única coisa em que os pais podem se sustentar, pois
a justiça dos homens pode conseguir o perdão ou atenuar a pena de Rafael
nos próximos anos (lembrem-se que ele prometeu se vingar, seja das 50
crianças, seja das suas famílias: pais, mães, irmãos, irmãs, tios,
tias, avôs ou avós, quando sair da prisão). Digo
e repito: a falta da humanidade é gritante, e a justiça desse país, no
mais das vezes, como sempre, é morosa do mesmo modo como seu símbolo:
tem dois pesos, duas medidas, está sentada confortavelmente nas centenas
e centenas de códigos prescritos, e além de tudo... é cega! Face
ao terrorismo psicológico pela qual passaram esses adolescentes e seus
pais, nenhum outro recurso lhes foi dado, até novembro de 1999, como
atendimento médico e psicológico às suas vítimas. Hoje,
a mãe de um dos jovens, em conversa particular comigo, confessa que seu
filho, que já era introspectivo e calado,
tornou-se mais calado ainda. Este por sua vez, fica feliz a cada
notícia que algum presidiário foi morto na penitenciária máxima de João
Pessoa. Que deixa passar momentos de felicidade a cada pensamento com Este
é apenas um traço de uma das vítimas. Faltam 49. Quarenta e nove
adolescentes que levarão consigo os pesadelos que viveram durante três
anos de suas vidas, onde a serenidade, as confusões típicas de pessoas
dessa idade, os amores, sabores e dissabores de se viver a adolescência,
terá como marca, o peso da perversão, crueldade e desumanidade a qual
foram vítimas. A ameaça de suas vidas e das vidas de suas famílias
falam por si mesmas. O pouco dinheiro que ganhavam. A paz. A serenidade. O
sossego. A inocência perdida por um homem desumano, demasiadamente
desumano. Alguns
poderiam até pensar (por mais cruel ainda que isto pudesse parecer) que
esta vilania pudesse ter como culpa, única e exclusivamente a marca
psiquiátrica ou psicopatológica da homossexualidade de Rafael. Deixo de
lmosado essas questões, até mesmo porque desconheço a história de vida
desta pessoa. Mas é preciso não ser tão “ingênuos” em face desta
problemática e muito menos não cometermos pensamentos reducionistas
desta ordem. Perversão, psicopatia e “identidade sexual” são coisas
completamente díspares e em nada correlacionados. Outros crimes de
semelhante modo ocorrem por todo o país há alguns anos. Falo deste
porque me comoveu e me fez ver de perto a descrença no outro, a descrença
na justiça e a descrença de que a vida pode ser mais vil do que a própria
morte, como traduz uma das falas da mãe de uma das vítimas. Parece-me,
então, que ainda continuamos a caminhar para a descrença na justiça dos
homens, visto que, neste caso, a justiça divina é requerida e até mesmo
negociada entre os pais das vítimas, como único salvo-conduto para os
reconfortarem do triste “espetáculo” o qual 50 crianças e
adolescentes inocentes foram vitimadas. Que triste fim podemos esperar
para os nossos filhos e para as futuras gerações que despontam neste início
de século? O que se esperar de um país onde, entre tantos problemas, a
falta de segurança nas ruas, nas escolas, nos parques de diversão, nos
cinemas, e até mesmo dentro de casa, parece impor a nova ordem moral do
curso da nossa história? Uma
providência urgente tem que ser tomada para garantir a segurança de
nossas crianças. Não podemos mais dormir em paz, e saber que no dia
seguinte, nossos filhos podem ser vítimas de alguma crueldade, não só o
fato de um abuso sexual, mas a crueldade de alguém que ao invés de vida,
pode oferecer a morte longo prazo, tais como o gozo compensatório
representado pelas drogas da felicidade como o “crack”,
o “ecstase”, o álcool, ou o
prazer/desprazer representado pela violência em ambientes fechados, tais
como os bailes nas periferias das grandes e pequenas cidades, os pegas de
carro entre os jovens representantes da elite nacional, ou a supremacia do
poder (fálico, por que não?) dos revólveres, nos grandes e pequenos
centros urbanos? Há
de se tomar alguma atitude que alivie nosso mal-estar de se viver em um
mundo sem segurança, segurança essa que deveria ser garantida pelo
Estado, mas que só é encarada de fato em épocas de campanha eleitoral,
como as que ocorreram recentemente em todo o país. Não
somos “ingênuos”, nem muito menos inocentes, e não preferimos andar
pelo caminho das agulhas. Queremos atitudes mais enérgicas de nossos
governantes para que possamos garantir aos nossos filhos um caminho
seguro, ao menos, de casa para a escola ou da escola para casa, livre de
“lobos maus”, livres de “bolinhas de pirlimpimpim”,
livres das violências encenadas nos filmes norte-americanas e copiadas ao
extremo para a nossa vida real, onde a morte é mais que venerada como
espetáculo máximo da vida, independente se vivemos em grandes ou
pequenas metrópoles. Rafael
poderia até ser mais um lobo mal , entre tantos que existem por ai... Os
mais conhecidos chegaram ao seu objetivo matando Daniela Perez, ou
assassinando mulheres na periferia de São Paulo, ou até cometendo homicídios
em enfermarias de um hospital. Queremos
justiça, porque nessa história, preferimos que de fato, o Caçador
exista, e assim como salvou Chapeuzinho Vermelho e
a Avó, faça valer a lei que nos governa, indistintamente se somos
ricos ou pobres, brancos ou negros, católicos ou protestantes, se temos
um sexo... ou não !!! |
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Sergio
Gomes da Silva Psicólogo formado pela UFPB, (CRP 13/2768), e pós-graduação Lato Sensu (Especialização em Sexualidade Humana pelo Centro de Educação). Email sergiogsilva1@bol.com.br. |
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