DESUMANO, DEMASIADAMENTE DESUMANO: 
                                    Crônicas Tupiniquis

Sérgio Gomes da Silva

 Maria Rita Kehl é uma psicanalista conhecida entre seus colegas de profissão, sobretudo no eixo Rio-São Paulo, e uma das minhas autoras preferidas. Preocupada com questões contemporâneas da nossa sociedade, e como psicanalista, investigadora do universo feminino (tendo publicado vários artigos e livros tais como “Masculino e Feminino na Cultura” e “Deslocamentos do Feminino”, ambos pela Imago), recentemente tive acesso a um antigo texto seu intitulado “A Psicanálise e o Domínio da Paixão”.

Neste texto, Maria Rita nos conta a verdadeira história de Chapeuzinho Vermelho. Na verdade a história contada antes do século XVIII, ou seja, antes que a revolução burguesa modificasse o pensamento e o comportamento ocidental, e, portanto, modificasse a história bem mais próxima do que a conhecemos hoje.

Sigo então o fio condutor da história contada por Maria Rita Kehl, ou seja, a história de Chapeuzinho contada pelos camponeses em volta do fogo, em noites de inverno europeu:

“Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e de leite para sua avó. Quando a menina ia caminhando pela floresta, um lobo aproximou-se e perguntou-lhe onde ia:

Para a casa da vovó – ela respondeu.
Por que caminho você vai, o dos alfinetes ou o das agulhas?
O das agulhas.

Então o logo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou primeiro à casa. Matou a avó, despejou seu sangue numa garrafa e cortou sua carne em fatias, colocando tudo numa travessa. Depois, vestiu sua roupa de dormir e ficou deitado na cama, a espera.

Pam, pam !.
Entre, querida.
Olá vovó. Trouxe para a senhora um pouco de pão e leite.
Sirva-se também de alguma coisa. Há carne e vinho na copa.
A menina comeu o que lhe era oferecido e, enquanto o fazia, um gatinho disse:
Menina perdida! Comer a carne e beber o sangue da sua avó!
Depois o lobo disse:
Tire a roupa e deite-se na cama comigo.
Onde ponho o avental?
Jogue no fogo. Você não vai mais precisar dele.
Para cada peça de roupa – corpete, saia, anágua e meias – a menina fazia a mesma pergunta. E cada vez, o lobo respondia:
Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dela.
Quando a menina se deitou na cama, disse:
Ah, vovó! Como você é peluda!
É para me manter mais aquecida, querida.
Ah, vovó! Que ombros largos você tem!
É para carregar melhor a lenha, querida!
(...) Até que ela perguntou:
Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!
É para comer melhor você, querida!
E ele a devorou”.

A história acaba aí, sem a menor menção do fim da história tal como a conhecemos. Sem “moral da história”, sem caçador, sem final feliz. A história de chapeuzinho é uma história de pura crueldade, desumanidade, escatologia erótica e perversa, demasiadamente perversa.

Uma história triste onde não cabe final feliz, e talvez por isso mesmo, foi preciso inventá-lo, até mesmo porque essa não é uma história para contarmos aos nossos filhos, a beira da cama, antes de dormir.

Pois muito bem. Vou lhes contar uma outra história, não tão menos perversa, não tão menos sexualmente escatológica, não tão menos desprovida de crueldade e desumanidade.

Essa história aconteceu em João Pessoa, na Paraíba, e tomei conhecimento dela no segundo semestre de 1999, e por guardar traços reais com pessoas que de fato a vivenciaram, tomarei o devido cuidado de omitir dados e trocar nomes, para preservar as identidades daqueles que dela fizeram parte, e que até a época em que esse texto foi escrito, que eu saiba, ainda não houve desfecho satisfatório.

A história é sobre um homem que durante três anos, usou e abusou sexualmente de mais de 50 crianças de um bairro de classe média-baixa da cidade de João Pessoa. Chamemos de Rafael, seu autor. Rafael não tinha “precedente criminal”, a não ser o fato de ter “matado um homem e nunca ter sido preso pelo seu ato”. Separado da sua esposa, e pai de dois filhos, com quem mantinha contato sexual sempre (sic - segundo informações colhidas), ele abusou não só sexualmente ao longo de três anos, de 50 crianças e adolescentes entre 8 e 14 anos de idade, submetendo-os a todos os tipos de maus tratos e relações sexuais, como também utilizou chantagem emocional e ameaça de morte contra os jovens, suas famílias ou parentes próximos, além de roubar-lhes dinheiro e alguns dos poucos pertences pessoais que estes possuíam.

O terror que todas estas crianças vivenciaram durante três anos em que ficaram “sob a ameaça” de Rafael não pode ser descrita em palavras, muito menos a seqüela que foram deixadas, após sua prisão em flagrante!

Cinqüenta pais e cinqüenta mães viveram e ainda vivem o terror do fato ocorrido com seus filhos, que ainda hoje sofrem de insônia, pesadelos, hipersensibilidade emocional, fobia, medo, insegurança, mania de perseguição, ódio, temor, abuso a qualquer coisa de cunho sexual, insensibilidade ou hiposensibilidade afetivo-emocional, além de terem perdido o sossego face a vingança que os “olheiros”, homens contratados por Rafael para lhe proteger, podem cometer (visto que estes homens ainda encontram-se soltos e morando próximo às residências das vítimas, portanto, ainda sob vigilância de Rafael) e são cúmplices da vilania e psicopatia deste homem.

A revolta de alguns pais de igual modo não tem limite. Vontade de matar Rafael é o mínimo que conseguem pensar quando falam no assunto. A justiça de Deus parece ser a única coisa em que os pais podem se sustentar, pois a justiça dos homens pode conseguir o perdão ou atenuar a pena de Rafael nos próximos anos (lembrem-se que ele prometeu se vingar, seja das 50 crianças, seja das suas famílias: pais, mães, irmãos, irmãs, tios, tias, avôs ou avós, quando sair da prisão).

Digo e repito: a falta da humanidade é gritante, e a justiça desse país, no mais das vezes, como sempre, é morosa do mesmo modo como seu símbolo: tem dois pesos, duas medidas, está sentada confortavelmente nas centenas e centenas de códigos prescritos, e além de tudo... é cega!

Face ao terrorismo psicológico pela qual passaram esses adolescentes e seus pais, nenhum outro recurso lhes foi dado, até novembro de 1999, como atendimento médico e psicológico às suas vítimas.

Hoje, a mãe de um dos jovens, em conversa particular comigo, confessa que seu filho, que já era introspectivo e calado,  tornou-se mais calado ainda. Este por sua vez, fica feliz a cada notícia que algum presidiário foi morto na penitenciária máxima de João Pessoa. Que deixa passar momentos de felicidade a cada pensamento com ar e requintes de crueldade que gostaria de fazer com o seu algoz. Sua filha, por conseqüência, que não foi vítima, mas que sabia de toda a história e era forçada a calar-se para manter a vida do irmão e da sua família intacta, no momento da prisão de Rafael, ficou sem fala e baixou o hospital em uma crise histérica que só veio recuperar-se três dias depois, sob cuidados médicos.

Este é apenas um traço de uma das vítimas. Faltam 49. Quarenta e nove adolescentes que levarão consigo os pesadelos que viveram durante três anos de suas vidas, onde a serenidade, as confusões típicas de pessoas dessa idade, os amores, sabores e dissabores de se viver a adolescência, terá como marca, o peso da perversão, crueldade e desumanidade a qual foram vítimas. A ameaça de suas vidas e das vidas de suas famílias falam por si mesmas. O pouco dinheiro que ganhavam. A paz. A serenidade. O sossego. A inocência perdida por um homem desumano, demasiadamente desumano.

Alguns poderiam até pensar (por mais cruel ainda que isto pudesse parecer) que esta vilania pudesse ter como culpa, única e exclusivamente a marca psiquiátrica ou psicopatológica da homossexualidade de Rafael. Deixo de lmosado essas questões, até mesmo porque desconheço a história de vida desta pessoa. Mas é preciso não ser tão “ingênuos” em face desta problemática e muito menos não cometermos pensamentos reducionistas desta ordem. Perversão, psicopatia e “identidade sexual” são coisas completamente díspares e em nada correlacionados. Outros crimes de semelhante modo ocorrem por todo o país há alguns anos. Falo deste porque me comoveu e me fez ver de perto a descrença no outro, a descrença na justiça e a descrença de que a vida pode ser mais vil do que a própria morte, como traduz uma das falas da mãe de uma das vítimas.

Parece-me, então, que ainda continuamos a caminhar para a descrença na justiça dos homens, visto que, neste caso, a justiça divina é requerida e até mesmo negociada entre os pais das vítimas, como único salvo-conduto para os reconfortarem do triste “espetáculo” o qual 50 crianças e adolescentes inocentes foram vitimadas. Que triste fim podemos esperar para os nossos filhos e para as futuras gerações que despontam neste início de século? O que se esperar de um país onde, entre tantos problemas, a falta de segurança nas ruas, nas escolas, nos parques de diversão, nos cinemas, e até mesmo dentro de casa, parece impor a nova ordem moral do curso da nossa história?

Uma providência urgente tem que ser tomada para garantir a segurança de nossas crianças. Não podemos mais dormir em paz, e saber que no dia seguinte, nossos filhos podem ser vítimas de alguma crueldade, não só o fato de um abuso sexual, mas a crueldade de alguém que ao invés de vida, pode oferecer a morte longo prazo, tais como o gozo compensatório representado pelas drogas da felicidade como o “crack”, o “ecstase”, o álcool, ou o prazer/desprazer representado pela violência em ambientes fechados, tais como os bailes nas periferias das grandes e pequenas cidades, os pegas de carro entre os jovens representantes da elite nacional, ou a supremacia do poder (fálico, por que não?) dos revólveres, nos grandes e pequenos centros urbanos?

Há de se tomar alguma atitude que alivie nosso mal-estar de se viver em um mundo sem segurança, segurança essa que deveria ser garantida pelo Estado, mas que só é encarada de fato em épocas de campanha eleitoral, como as que ocorreram recentemente em todo o país.

Não somos “ingênuos”, nem muito menos inocentes, e não preferimos andar pelo caminho das agulhas. Queremos atitudes mais enérgicas de nossos governantes para que possamos garantir aos nossos filhos um caminho seguro, ao menos, de casa para a escola ou da escola para casa, livre de “lobos maus”, livres de “bolinhas de pirlimpimpim”, livres das violências encenadas nos filmes norte-americanas e copiadas ao extremo para a nossa vida real, onde a morte é mais que venerada como espetáculo máximo da vida, independente se vivemos em grandes ou pequenas metrópoles.

Rafael poderia até ser mais um lobo mal , entre tantos que existem por ai... Os mais conhecidos chegaram ao seu objetivo matando Daniela Perez, ou assassinando mulheres na periferia de São Paulo, ou até cometendo homicídios em enfermarias de um hospital.

Queremos justiça, porque nessa história, preferimos que de fato, o Caçador exista, e assim como salvou Chapeuzinho Vermelho e  a Avó, faça valer a lei que nos governa, indistintamente se somos ricos ou pobres, brancos ou negros, católicos ou protestantes, se temos um sexo... ou não !!!  

     Sergio Gomes da Silva 
    
Psicólogo formado pela UFPB, (CRP 13/2768), e pós-graduação Lato Sensu
    (Especialização em Sexualidade Humana pelo Centro de Educação).
 
    Email sergiogsilva1@bol.com.br.
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