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PSICANÁLISE
E PREVENÇÃO EM SAÚDE PÚBLICA |
| Badari, Patrícia |
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O
exercício profissional, em Unidade Básica de Saúde, a partir do
referencial teórico da psicanálise, suscita uma série de questões. Com
minha inserção nos Programas de prevenção da saúde da mulher, da
criança e do adulto, alguns questionamentos surgiram, como por exemplo, o
conceito de prevenção em saúde pública que implica em pensar a doença
ou a falta de saúde como um desvio da norma, como uma desordem orgânica
e social. A organização dos serviços de saúde em programas visa
“reduzir danos”, para que tenhamos uma sociedade harmônica, este é o
ideal do Estado. No
entanto, o que a psicanálise tem a contribuir ou a aprender com os
Programas de Saúde? Se a clínica é soberana, seja nos consultórios ou
nos serviços públicos, como operar enquanto clínicos e profissionais da
saúde no sentido de possibilitar a construção da particularidade de
cada sujeito, mesmo que no âmbito da comunidade? A
srta. Anna O. adoeceu em 1880, aos 21 anos, época em que seu pai estava
bastante doente e era ela quem cuidava do enfermo. Inicialmente surgiu uma
tosse muito intensa, diagnosticada como tussis
nervosa típica, pelo Dr. Breuer, que a viu pela primeira vez nessa
ocasião. Posteriormente surgiram as dores de cabeça, perturbações na
visão e paralisias no corpo, sendo iniciado, neste momento, seu
tratamento. Com
este caso clínico, publicado em “Estudos sobre a histeria”
(1893-1895), Freud e Breuer observaram a remissão dos sintomas pela fala
e «tornou-se possível chegar-se a uma técnica terapêutica que nada
deixava a desejar em sua coerência lógica e sua aplicação sistemática»1,
ou seja, teve início a associação livre. Podemos
dizer que este é um momento de passagem dos escritos de Freud pré-psicanalíticos,
que têm como ponto principal o texto “Projeto para uma psicologia científica”
(1895), para escritos psicanalíticos que culminam com “A interpretação
dos sonhos” (1900), marco de fundação da psicanálise. No
entanto, de outubro de 1885 a fevereiro de 1886, Freud trabalhou no Salpêtrière,
em Paris com a direção de Charcot e não podemos esquecer que os
primeiros textos de Freud, sobretudo, os que abordam a histeria, foram
escritos sob a influência de Charcot, seu mestre. Foi durante esse período
que seu interesse transferiu-se da neuropatologia para a psicopatologia.
Assim, a psicanálise é uma prática que se origina da clínica, dos
impasses que surgem na condução de um tratamento. «A psicanálise se
sustenta a partir de uma posição ética, a partir de uma determinação
clínica e isso torna possível sua presença no domínio da Saúde
Mental, mesmo que essa presença possa ser atravessada por antinomias
entre o trabalho da análise com o particular e o funcionamento de uma
instituição no âmbito do coletivo»2. A clínica
é soberana, seja nos consultórios ou nos serviços de saúde. E se a
psicanálise deu-nos sua contribuição – a descoberta do inconsciente
– cabe-nos, enquanto analistas, o trabalho de fazer surgir este
inconsciente particular de cada sujeito, mesmo que inserido em uma
comunidade. É isto que faz de um sujeito ser cidadão, um cidadão do
mundo. Éric
Laurent em seu texto “O analista cidadão” propõe uma nova inserção
dos analistas no mundo, na Saúde Mental e na Saúde de forma geral. Propõe
e nos coloca um grande desafio: «os analistas têm que passar da posição
de analista Originalmente,
em muitos casos ainda se perpetua, o analista ficava na posição do
intelectual crítico. Quando chamado a intervir, dar suas opiniões,
contribuir com sua prática, ele se colocava na posição do denunciador,
do intérprete das mazelas alheias, estava no lugar do saber. O analista
sempre foi o supervisor dos serviços de saúde, o questionador da cultura
(de sua política, economia, etc), sempre tinha opiniões a dar, mas
sempre ficava de fora, pois tinha que ser a encarnação da desidentificação,
não podia compor o coletivo, pois poderia perder sua particularidade:
toda isenção seria pouco! No
entanto, no coletivo o analista pode participar com seu trabalho, «silenciando
a dinâmica de grupo e remetendo o grupo social às suas verdadeiras
tarefas»4. Pode lhes dar um destino humano fora do ideal. Quais
as responsabilidades de cada cidadão? À que vieram? Os
excluídos do ideal
Em
1988 o Ministério da Saúde, com a lei n° 8.142 cria o Sistema Único de Saúde (SUS) que tem como
princípios fundamentais: a descentralização e regionalização do
Sistema de Saúde; a atenção integral; a equidade, ou seja, o respeito
às características próprias de cada região e a democratização dos
serviços, através da participação de toda comunidade. Com este direito
adquirido todo cidadão tem assegurado o atendimento público e gratuito,
desde os serviços simples aos mais especializados.
Com a implantação do SUS, coube aos municípios em seus serviços de saúde,
em Unidades Básicas de Saúde, o trabalho de prevenção. Uma das
propostas do Ministério da Saúde são os Programas de Saúde da Mulher
(pré-natal, prevenção do câncer ginecológico e planejamento
familiar), Saúde da Criança (aleitamento materno e puericultura) e Saúde
do Adulto (hipertensão, diabetes e DST). No entanto, tem-se evidenciado
que os indivíduos não querem usufruir os direitos adquiridos. Para além
da dificuldade de implantar de maneira eficaz o SUS, vê-se nos locais
onde são oferecidas as possibilidades de acesso à prevenção o pouco
interesse por parte dos pacientes. Um
direito adquirido não faz de um indivíduo um cidadão, não o faz se
responsabilizar por sua enunciação: “sofro porque não tenho
atendimento médico; sofro porque não tenho trabalho; sofro porque tenho
muitos filhos, etc”. São os indivíduos excluídos do ideal e,
portanto, não participam dos programas, já estão a priori excluídos, não
têm direito à... O sujeito de pleno direito é o que se responsabiliza
por seu enunciado, é o sujeito responsável por suas queixas. Algumas
noções5 presentes como supostos preventivos nas práticas de
saúde são formas de superação do discurso organicista que supostamente
não se preocupa com o “adoecer” psíquico e social. Mas, esta noção
de prevenção implica em pensar a doença ou a falta de saúde como um
desvio da norma, como uma desordem orgânica e social, e a organização
dos serviços de saúde em programas visa “reduzir danos”. A
prevenção é uma resposta que visa reduzir o desvio, o que supostamente
levaria à uma comunidade harmônica e este é o ideal do Estado – uma
sociedade sem o mal-estar que lhe é estrutural, como já nos disse Freud.
Sendo assim, é preciso problematizar o termo prevenção. No Novo
Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, uma das definições do
termo prevenir é: «impedir que se realize; proibir, vedar; acautelar-se,
preparar-se, precaver-se»6. Nestes
termos, a eugenia é uma proposta preventiva, assim como o projeto genoma
e o avanço da ciência. Temos o retorno do sonho de Hitler, pois quando
exterminou os judeus tinha como proposta a prevenção, a construção de
uma raça pura. Ele tinha um ideal estético, é só relembrarmos o
documentário Arquitetura da destruição7. E os serviços de saúde
podem servir ao ideal do Estado, como serviços de controle, como
mantenedores da ordem, e o que sai dessa ordem é doença. A própria
definição do que é doença muda com a atualidade, por exemplo, o
fracasso escolar, a bulimia e a anorexia são doenças da moda. Há alguns
anos o Estado não se preocupava com a saída dos alunos da escola, até
fazer uma lei obrigando-os a estudarem, caso contrário seus pais serão
presos. Os padrões de beleza de uma cultura ditam qual o peso ideal. Podemos
dizer que o enunciado do Estado, através dos profissionais da saúde é:
“Dize-me quão desequilibrado estás e te direi o que te falta”! O
Estado e seus profissionais são os que sabem o que aflige seus cidadãos.
É a negação do mal-estar na cultura, é a tentativa de prevenir, de
proibir e precaver-se do «antagonismo irremediável
entre as exigências pulsionais e as restrições da civilização»8. Se
o destino do humano está ligado à sua relação com o seu ser, ao propósito
de sua existência, o ser tem que se fazer representar. E tudo que um
sujeito almeja, é se representar em seu Ideal de eu. O que esperavam de
mim? “Que eu tivesse saúde, trabalho e dinheiro. Logo, sou um excluído,
por não os ter”. Mas,
qual sua responsabilidade nisso que vem se queixar? O trabalho de
estruturação simbólica, a “constituição de um termo simbólico” 9
pode dar à estes indivíduos um destino humano fora do ideal. Um analista
pode participar com seu trabalho para além dos sintomas produzidos pela
sociedade, possibilitando a construção de um sintoma particular a cada
sujeito, pois diante de um ideal já somos excluídos por princípio e ele
só serve para dar acolhida ao sofrimento, mas não o previne.
“Meu caro sujeito: como você poderia dizer
sobre o seu ser, sobre sua existência para além e aquém de um
ideal?”. Esta não é uma resposta, mas sim uma pergunta analítica. |
| BADARI, Patrícia - Psicanalista - Membro da Escola Brasileira de Psicanálise - São Paulo |
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