| Estado de Alerta
REFLEXÕES SOBRE UMA CRIANÇA DROGADA: "Só há dois fins para um drogado: ou morre feliz com uma overdose
ou nas mãos dos traficantes" Em uma cultura onde todos os problemas
se resolvem através de medicamentos, onde se procura as causas de
tudo "behavioristicamente"nos DNA's, e onde assistimos estarrecidos
no Jornal Nacional que as pessoas do Sertão, que não têm trabalho
nem alimento são os mais novos usuários de anti-depressivos nos ambulatórios
públicos, verificamos que a droga - entendida como qualquer substância
química que cause alterações no corpo ou na mente de uma pessoa -
é o novo objeto oferecido ao sujeito contra os seus males - a angústia.
Mas se no início há um "prazer", logo se instala um gozo mortífero
que rompe com os laços sociais e com a própria cultura. Este trabalho
consiste em um questionamento teórico a respeito da toxicomania na
infância, uma vez, que por infelicidade só me defrontei com estes
casos através de livros ou discussões com outros profissionais que
já possuíam tal experiência. Ao depararmos com este tema uma questão
salta aos olhos: Se é na infância que se constitui o sujeito e se
o uso da droga é a forma de tirar o sujeito de cena. Como o sujeito
do desejo pode se desenvolver? Para tentarmos esclarecer esta questão
falaremos sobre o desenvolvimento infantil. "No início era o verbo",
o que significa que a linguagem pré-existe ao sujeito. Lacan nos fala
do desejo materno, onde a criança é falada (desejada ou não) antes
de existir como corpo, por exemplo, antes dela nascer já tem um nome.
O sujeito, como entendido pela Psicanálise, é um ser falante, isto
é, um ser que só tem acesso as coisas do mundo através da mediação
do simbólico. E isto é o começo de sua transformação como sujeito
do desejo, um sujeito não todo (S), assujeitado a um outro que lhe
fornece e nomeia os seus objetos. Freud (1905) fala que a criança
é um conjunto compósito, que não possui uma organização/uma estrutura.
Este conjunto compreende pulsões parciais que se ligam a zonas erógenas.
Estas pulsões parciais funcionam em um estado anárquico (chamado de
organização pré-genital) e há um prazer de órgão. Cada uma das zonas
erógenas funciona como se as demais não existissem, há vários prazeres
sendo demandados ao mesmo tempo, sendo assim, a economia pulsional
fica desordenada. É necessário uma nova ação psíquica para que surja
um EU capaz de "centralizar" (organizar) esta balança de investimentos.
Este EU por não ser originário do psiquismo é constituído a partir
do outro. Há uma antecipação feita pelas figuras parentais que possibilita
a constituição da criança como um sujeito. Nas palavras de Freud:
"Se considerarmos a atitude dos pais ternos perante seus filhos, seremos
obrigados a reconhecer nela a revivescência e a reprodução de seu
próprio narcisismo, que eles havia abandonado desde longa data." Os
pais colocam sobre esta criança várias expectativas que tem a ver
com as coisas que eles gostariam de realizar ou terem sido. Desta
forma, o narcisismo primário da criança é a reatualização do Ideal
de EU / do Narcisismo dos Pais. Lacan lança luz sobre esta passagem
do auto-erotismo para o narcisismo ao conceitualizar o estádio do
espelho. Onde a criança forma uma representação de sua unidade corporal
por identificação com a imagem do outro. Nesta experiência especular
ocorre uma cena de reconhecimento onde o outro diz: "esta imagem é
você"e isto precipita na criança uma espécie de certeza de si que
provoca uma experiência jubilatória e forma uma imagem corporal que
vai ter uma estória, um desdobramento e vai fazer o sujeito ficar
preso ao reconhecimento do outro. Neste momento surge um eu ideal
(imaginário). Esta primeira diferenciação entre o sujeito e o outro
permite que a imagem narcísica constitua condições para o aparecimento
do desejo e do seu reconhecimento. Abrindo a porta para o Complexo
de Édipo e a Castração. Mais uma vez através do outro a criança se
depara com os limites do corpo - limites mais estreitos que os limites
do desejo - que vão acabar por produzir o Sujeito do Inconsciente,
sujeito barrado movido por algo que está além do reconhecimento da
consciência. Durante a sua existência, o sujeito entra em uma dialética
VIDA X MORTE, onde quanto mais perto se está do gozo, mais a Pulsão
de Morte se apresenta como desarticuladora de significante. Freud
após um percurso que começa em 1915 com "A Pulsão e os Destinos da
Pulsão"e termina com a conceitualização da Pulsão de Morte, informa-nos
que a vida não é um valor primário. Para que ela ocorra é necessário
a intervenção de um outro que desvie o organismo da morte, pois o
movimento imediato do organismo é livrar-se totalmente da excitação.
Sabemos que a droga é o que permite romper o casamento com o pequeno
pipi. O objeto droga permite acesso a um gozo que não passa pelo outro,
a um gozo de corpo, um gozo uno. Miler (1993) traz o conceito de que
o toxicômano não existe, pois não é uma categoria clínica bem formulada.
Eric Laurent vai além, ele nos prova que a toxicomania não é um sintoma,
já que é uma formação de ruptura. Só se pode pensar a toxicomania
como sintoma quando dizemos que ela é um sintoma social (um sintoma
para o mestre). Nem tão pouco é uma estrutura, pois não recorre ao
simbólico e é transclínica (pode ser encontrada em todas as estruturas);
apesar de foracluir o Nome-do-Pai, não é uma psicose; desmente a castração
mas há uma ruptura com a fantasia sem ser, assim, uma perversão; também
não é uma neurose, pois não entre na questão sexual. Então o que é
o toxicômano? Será aquele que utiliza a droga? Certamente não, pois
a droga pode ser utilizada como um significante que produz enigma
e vem como metáfora. Se pensarmos no caso da pré-adolescência e da
adolescência, o uso da droga faz o laço social na medida em que se
usa droga socialmente visando a identificação com o outro social.
Sendo assim, pelo nome de toxicômano se designa um sujeito que entrou
em uma certa relação com a droga onde se anula em prol do saber de
um gozo e se define a si mesmo nesta relação. Através da autonomeação
"eu sou toxicôma-no"anula-se as particularidades do sujeito, pois
na verdade não se nomeia o sujeito e sim um gozo (o toxicômano não
é sujeito é objeto - ele é a droga). O toxicômano se coloca de forma
selvagem como objeto. Daí surge uma questão: será que a angústia de
perceber que não se é senhor de si é apaziguada pela "viagem"da droga?
Ao se deparar com a castração a criança se depara com o Outro da Lei,
o outro sexo que ao transmitir a lei, transmite o furo / a falta que
acarreta no enigma do sexo. É vetado a ela a completude, demarca-se
que a relação sexual não existe, ela é sempre um menage-à-trois, pois
as coisas não são o que são, as coisas são semblantes de ter e ser
(não se tem ou se é, na verdade, o falo), só resta, então a angústia
para o toxicômano. O recurso a droga, vem como uma saída frente ao
desejo do Outro, é um paliativo para a falta de felicidade. Só que
o uso da droga na criança implica, também, em um curto-circuito do
outro sexo antes que ela possa ter contato com este outro sexo. Recorro
ao trabalho apresentado por Elizabeth Rocha Miranda na Jornada "O
Brilho da inFelicidade", para falar do que resta a uma criança drogada.
Ao ser questionada sobre o futuro, o que ela gostaria de ser, a criança
se detém a responder "nada", pois sabe que em troca deste gozo uno,
ela paga com a própria vida. Um preço bem alto. Ela sabe que por ser
senhora de seu gozo seu corpo tende a morrer. Sendo assim, o sujeito
já está fora mesmo antes de pensar em entrar em cena. Não há espaço
para ele nesta relação perfeita entre o toxicômano e a sua droga (o
seu gozo). Frente a esta cena de horror cabe a Psicanálise lutar pelo
sujeito e ancoro-me em Freda (1987) ao dizer que em frente a esta
situação o psicanalista não deve recuar como não recuou frente a psicose.
Ele deve tratar o toxicômano desintoxicando-o do significante droga
fazendo-o adoecer do simbólico. Se a droga constitui uma resposta
ao mal-estar que tampona a questão do outro sexo, nós devemos oferecer
um lugar a onde esta pergunta possa ser feita.
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