| Estado de Alerta PSICÓTICOS
1) Como é realizado o tratamento ? São trabalhos distintos. No HSPE, além do programa de
residência, realizo grupo de psicodrama com os pacientes internados na enfermaria de
psiquiatria. Este grupo tem participação voluntária, e de modo geral, quase todos
pacientes da enfermaria se interessam por ele. Não há seleção quanto a diagnóstico,
ou qualquer outra espécie de restrição a participação no grupo. Este grupo funciona
como um ato terapêutico, ou seja, ele é único, só existe naquele dia, pois como é
aberto a população da enfermaria, e o tempo de internação é variável, só podemos
contar com a participação enquanto permanecer internado. Os pacientes internados são
portadores de transtornos psiquiátricos agudos: surtos psicóticos, descompensações de
quadros neuróticos, episódios depressivos graves, dependência a drogas, etc. É um
grupo de psicodrama, e como tal, temos todas as etapas de tal grupo. Na primeira etapa,
que é o aquecimento inespecífico, encontramos quase sempre um grupo caótico, a tarefa
é organizar, por vezes, vou perguntando a cada um sobre as razões da internação, ou
sobre sua evolução, ou então, algum paciente mais agitado toma conta deste início de
sessão, e o grupo já mobilizado passa a trabalhar. É muito variável o começo da
sessão, e é necessário uma grande dose de tolerância ao caos por parte dos terapeutas,
que participam do grupo. Esta fase de aquecimento inespecífico, termina, quando é
escolhido o protagonista e ou o tema da sessão, então, entramos na fase de aquecimento
específico, onde a tarefa é preparar o grupo e o protagonista para a dramatização,
aqui já temos o grupo mais organizado, já não há mais o caos, e na medida que se
desenvolve a dramatização, os conteúdos do relato acompanhados pela emoção, o grupo
todo atento acompanha o que se desenrola, o que era "louco", passa a Ter um
sentido, o que era bizarro, se explica, a alucinação auditiva e seu conteúdo delirante,
pode fazer nexo com a vida, e o compatilhar destes sintomas, os desmitificam, a loucura,
no decorrer da sessão passa a ser entendida, e o que é entendido não é louco, tem um
sentido. Pelo fato de haver uma compreensão da formação do sintoma, este perde a
exuberância, e não mais age como um corpo estranho na mente do paciente. O grupo que se
inicia caótico, nesta etapa, já é organizado, nada se diferenciando dos grupos de não
psicóticos. A última etapa da sessão é a dos comentários, e do compartilhar as
vivências. Tenho comigo, que a realização de grupos de psicoterapia nas enfermarias de
psiquiatria, é de fundamental importância para o tratamento. O uso de medicação
antipsicótica (neurolépticos), é imprescindível, ele trata ou atenua os sintomas, mas
o entendimento das vivências acontecidas durante o surto psicótico é muito importante
para o restabelecimento do doente. O trabalho que realizo no Hospital das Clínicas é
diferente, lá não trabalho 2) Como o Sr. trabalha com psicodrama com uma população com problemas tão homogêneos? O princípio do trabalho com grupos, é que partimos de um pressuposto de que todos guardamos uma certa semelhança, daí o trabalho com uma pessoa poder despertar vivências nos demais participantes de um grupo. Os sintomas são parecidos, mas cada indivíduo tem uma história muito particular que dá origem a eles. A verdadeira psicoterapia de grupo se dá na última etapa da sessão de psicodrama, que é onde as vivências são compartilhadas, e com possibilidade de ser entendida, fazendo parte da história de vida. 3) Qual o tipo de população que o Sr. trabalha? No HSPE, são funcionários públicos do estado, em seus diversos níveis; de professor universitário, médicos, advogados, engenheiros, professores de modo geral, e toda a gama de funcionários do estado. No HC a população é mais variada, na medida que é um hospital de pesquisa e que atende uma população variada. 4) Quais as patologias mais frequentes que aparecem? São variadas, desde transtornos psicóticos agudos e transitórios, a esquizofrenias, episódios de mania ou depressão, descompensações neuróticas, tendência a droga, etc. 5) Existe um tempo determinado para o tratamento? Não, mas de modo geral os transtornos psiquiátricos agudos evoluem com um período de internação de cerca de um mês, quando medicados adequadamente. Neste período de internação são submetidos a entrevistas individuais, tratamento grupal e terapia ocupacional. No programa de reabilitação, com pacientes cronificados, não há um tempo determinado, a reabilitação acontece até que o paciente possa ter um grau de autonomia que permita sua reinserção social. 6) O tratamento dá resultado? Temos evidências que o tratamento combinado medicamentoso e psicoterápico é eficiente para os transtornos psiquiátricos. Quando falamos em reabilitar o paciente com grave comprometimento psicossocial, provocado pela doença mental, já não podemos falar em resultados animadores, temos que lidar com várias limitações, desde as resultantes da própria doença, como as que resultam de um convívio familiar problemático, a estigmatização social etc. E é da resultante da lida com todos estes fatores que poderemos obter resultados com a reabilitação. 7) Existe lugar para estagiários? Sim, todo ano há abertura de concurso público para residentes em psiquiatria e aprimorandos nas áreas de psicologia, terapia ocupacional, enfermagem, etc. Os interessados devem entrar em contato com as comissões de ensino destas instituições.
Dr. Luis Altenfelder Silva Filho é Médico, Assistente do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP, Médico-Preceptor do Serv.Psiquiatria do Hospital do Servidor Público Estadual e Prof. Supervisor de Psicodrama pela FEBRAP. |
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