Estado de Alerta

PSICÓTICOS
Luis Altenfelder S. Filho

Dr. Luis Altenfelder é médico psiquiatria, fez residência de psiquiatria no Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP e formação em psicodrama na Sociedade de Psicodrama de São Paulo. Está formado há vinte e cinco anos. Trabalha nos hospitais e em seu consultório, utilizando o psicodrama como instrumento psicoterápico. No HSPE, participa como preceptor no programa de formação de residentes, e no Hospital das Clínicas trabalha no Centro de Reabilitação e Hospital-Dia (CRHD), no programa de reabilitação de pacientes com comprometimentos psicossociais graves.

1) Como é realizado o tratamento ?

São trabalhos distintos. No HSPE, além do programa de residência, realizo grupo de psicodrama com os pacientes internados na enfermaria de psiquiatria. Este grupo tem participação voluntária, e de modo geral, quase todos pacientes da enfermaria se interessam por ele. Não há seleção quanto a diagnóstico, ou qualquer outra espécie de restrição a participação no grupo. Este grupo funciona como um ato terapêutico, ou seja, ele é único, só existe naquele dia, pois como é aberto a população da enfermaria, e o tempo de internação é variável, só podemos contar com a participação enquanto permanecer internado. Os pacientes internados são portadores de transtornos psiquiátricos agudos: surtos psicóticos, descompensações de quadros neuróticos, episódios depressivos graves, dependência a drogas, etc. É um grupo de psicodrama, e como tal, temos todas as etapas de tal grupo. Na primeira etapa, que é o aquecimento inespecífico, encontramos quase sempre um grupo caótico, a tarefa é organizar, por vezes, vou perguntando a cada um sobre as razões da internação, ou sobre sua evolução, ou então, algum paciente mais agitado toma conta deste início de sessão, e o grupo já mobilizado passa a trabalhar. É muito variável o começo da sessão, e é necessário uma grande dose de tolerância ao caos por parte dos terapeutas, que participam do grupo. Esta fase de aquecimento inespecífico, termina, quando é escolhido o protagonista e ou o tema da sessão, então, entramos na fase de aquecimento específico, onde a tarefa é preparar o grupo e o protagonista para a dramatização, aqui já temos o grupo mais organizado, já não há mais o caos, e na medida que se desenvolve a dramatização, os conteúdos do relato acompanhados pela emoção, o grupo todo atento acompanha o que se desenrola, o que era "louco", passa a Ter um sentido, o que era bizarro, se explica, a alucinação auditiva e seu conteúdo delirante, pode fazer nexo com a vida, e o compatilhar destes sintomas, os desmitificam, a loucura, no decorrer da sessão passa a ser entendida, e o que é entendido não é louco, tem um sentido. Pelo fato de haver uma compreensão da formação do sintoma, este perde a exuberância, e não mais age como um corpo estranho na mente do paciente. O grupo que se inicia caótico, nesta etapa, já é organizado, nada se diferenciando dos grupos de não psicóticos. A última etapa da sessão é a dos comentários, e do compartilhar as vivências. Tenho comigo, que a realização de grupos de psicoterapia nas enfermarias de psiquiatria, é de fundamental importância para o tratamento. O uso de medicação antipsicótica (neurolépticos), é imprescindível, ele trata ou atenua os sintomas, mas o entendimento das vivências acontecidas durante o surto psicótico é muito importante para o restabelecimento do doente. O trabalho que realizo no Hospital das Clínicas é diferente, lá não trabalho com pacientes portadores de patologias agudas, quem frequenta o CRHD, são pacientes que, pela doença mental, apresentam um sério comprometimento psicossocial, o trabalho, então, se concentra na reabilitação, que é levado a cabo por uma equipe interprofissional, composta por médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, educador-físico, musicoterapeutas, etc. O tratamento todo, é realizado em grupo, os pacientes participam de grupos de psicoterapias, dentre eles o de psicodrama, grupo de cidadania, grupo de terapia ocupacional, grupo de orientação profissional, etc. Qualquer grupo é possível dentro do CRHD, eles são criados na medida das necessidades dos pacientes. O tratamento todo é um imenso grupo, que terá especificidades, dependendo da situação emergente. O paciente que é acometido por uma enfermidade mental, quando esta se prolonga, perde a continuidade com vários aspectos de sua vida, suas habilidades ficam amortecidas, seus vínculos empobrecidos, e é só através de um programa de reabilitação que se faz sua reinserção social.

2) Como o Sr. trabalha com psicodrama com uma população com problemas tão homogêneos?

O princípio do trabalho com grupos, é que partimos de um pressuposto de que todos guardamos uma certa semelhança, daí o trabalho com uma pessoa poder despertar vivências nos demais participantes de um grupo. Os sintomas são parecidos, mas cada indivíduo tem uma história muito particular que dá origem a eles. A verdadeira psicoterapia de grupo se dá na última etapa da sessão de psicodrama, que é onde as vivências são compartilhadas, e com possibilidade de ser entendida, fazendo parte da história de vida.

3) Qual o tipo de população que o Sr. trabalha?

No HSPE, são funcionários públicos do estado, em seus diversos níveis; de professor universitário, médicos, advogados, engenheiros, professores de modo geral, e toda a gama de funcionários do estado. No HC a população é mais variada, na medida que é um hospital de pesquisa e que atende uma população variada.

4) Quais as patologias mais frequentes que aparecem?

São variadas, desde transtornos psicóticos agudos e transitórios, a esquizofrenias, episódios de mania ou depressão, descompensações neuróticas, tendência a droga, etc.

5) Existe um tempo determinado para o tratamento?

Não, mas de modo geral os transtornos psiquiátricos agudos evoluem com um período de internação de cerca de um mês, quando medicados adequadamente. Neste período de internação são submetidos a entrevistas individuais, tratamento grupal e terapia ocupacional. No programa de reabilitação, com pacientes cronificados, não há um tempo determinado, a reabilitação acontece até que o paciente possa ter um grau de autonomia que permita sua reinserção social.

6) O tratamento dá resultado?

Temos evidências que o tratamento combinado medicamentoso e psicoterápico é eficiente para os transtornos psiquiátricos. Quando falamos em reabilitar o paciente com grave comprometimento psicossocial, provocado pela doença mental, já não podemos falar em resultados animadores, temos que lidar com várias limitações, desde as resultantes da própria doença, como as que resultam de um convívio familiar problemático, a estigmatização social etc. E é da resultante da lida com todos estes fatores que poderemos obter resultados com a reabilitação.

7) Existe lugar para estagiários?

Sim, todo ano há abertura de concurso público para residentes em psiquiatria e aprimorandos nas áreas de psicologia, terapia ocupacional, enfermagem, etc. Os interessados devem entrar em contato com as comissões de ensino destas instituições.

 

Dr. Luis Altenfelder Silva Filho é Médico, Assistente do Instituto de Psiquiatria do HC-FMUSP, Médico-Preceptor do Serv.Psiquiatria do Hospital do Servidor Público Estadual e Prof. Supervisor de Psicodrama pela FEBRAP.




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