Estado de Alerta

Psicodrama, Comunidades Carentes e Pesquisa Sobre Planejamento familiar e Sexualidade
Herialde Oliveira Silva

"Fazendo parte do Projeto: Práticas de Informação, Educação e Comunicação (I.E.C.), em Temas de Planejamento Familiar Para Grupos Comunitários, promovido pela Pastoral da Criança - CNBB, em parceria com o Fundo de População das Nações Unidas - F.N.U.A.P., participei da pesquisa de campo, para coleta de dados, formando Unidade Funcional Nacional (Diretores de Psicodrama) com Aldo Silva Júnior, percorrendo cinco estados brasileiros de dezembro - 95 à fevereiro - 96, treinado em novembro - 95 toda a equipe participante. Localidades Pesquisadas Trabalhamos em zonas rurais e urbanas, num total de 38 (trinta e oito) grupos, com católicos e não católicos homens e mulheres de 12 a 74 anos, apesar da população alvo da pesquisa estar na faixa etária de 13 a 49 anos, nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, Pará, Ceará e São Paulo, em sítios, fazendas, regiões ribeirinhas, vilas, assentamento de sem terras, cidades, favelas e bairros de periferia. Enunciado da Pesquisa "Qual o conjunto de crenças, visões pessoais, posturas ideológicas e conhecimentos, que servem de referencial à homens e mulheres de diferentes orientações religiosas, no momento de suas decisões, e comportamentos sexuais afetivos, em relação a escolha de métodos contraceptivos? · Planejamento familiar para a Pastoral da Criança, é o direito que homens e mulheres de qualquer religião têm para decidir de forma livre e responsável, ter ou não ter filhos, o número deles e o espaço entre uma gestação e outra. · Para a Organização das Nações Unidas, esse direito de planejar é fundamental, e se torna mais amplo quando se tem assegurada à todas as pessoas, orientações e assistência, com o intuito de melhorar as condições e qualidade de suas vidas. Metodologia da Pesquisa Optou-se por estratégias que favoreceram a coleta de dados, a análise e interpretação dos resultados, preservando e garantindo a integridade do conteúdo - forma: Entrevista Profunda e Role-Playing Focal. 1 - Entrevista Profunda - Conversação a partir de um tema explorado pelo pesquisador, sem uma estruturação pré- determinante. Foram feitas entrevistas individuais e um casal de entrevistadores trabalhou em ambientes separados, entrevistando pessoas do mesmo sexo. 2 - Role-Playing Focal - Vivência grupal, sem finalidade terapêutica, portanto pedagógica, fundamentado por Aldo Silva Júnior e embasado no Psicodrama criado por Jacob Levy Moreno e nas diretrizes de Debus para mecanismos de investigação, chamados Grupos Focais, trabalhados a partir de um tema central. 3 - Coletas de Dados: Todas as sessões grupais, seguiram etapas de um trabalho psicodramático: Aquecimentos, Ação e Comentários, e foram utilizados como estratégias recursos lúdico corporais, principalmente jogos. O jogo utilizado para aquecer os grupos especificamente para a ação, foi o "Jogo de Reflexão Sobre Famílias". Na fase de ação, o protagonista apresentava através da montagem de uma cena ou de personagens para uma fotografia, a família escolhida, com seus conflitos, relações, valores, etc... Muitas cenas vividas tiveram um clima emocional profundo, mas não ultrapassamos os limites do pedagógico, porque nós, da Unidade Funcional Nacional, temos a formação em Psicodrama nas duas áreas, terapêutica e pedagógica, sabendo manter os limites. 4 -Registro dos Dados - O material coletado nas Entrevistas, foram registrados em relatórios e as entrevistas foram gravadas em fitas. Os dados do Role Playing também forma registrados em relatórios e as vivências forma gravadas em fitas de vídeo. 5 - Análise dos Dados - Em cada estado participante, um analista avaliou o material coletado através da dinâmica das relações, das práticas sexuais dos significados das diferenças dos sexos, interpretando relações de poder, convicções, prática, conhecimento, as variáveis que os produzem, e duas analistas gerais compararam e concluiram os dados desses relatórios. Resultados Foram muitas as "trocas"com as pessoas participantes. Trocamos de olhar muitas vezes e olhamos com o olhar dos grupos, nos vinculando de coração para coração, tendo encontros sem correntes em lugares indeterminados... Mais importante que a ciência foi o resultado. Uma resposta nossa aceitando trabalhar nessa pesquisa com Psicodrama , provocou mil perguntas, e nós das Unidades Funcionais crescemos mais que os grupos pesquisados. Verificamos que as diferenças de cada região são múltiplas e significativas em relação a crenças, visões pessoais, ideologias, conhecimento e comportamentos, revelando a realidade das comunidades no que diz respeito a família, planejamento, controle, sexualidade, etc.; e foram dados que apareceram espontaneamente. Não forçamos as informações e pesquisamos a sexualidade como qualidade do que é sexual e não como volúpia, luxúria e libertinagem e se esses dados foram desvelados é porque fazem parte das dinâmicas dos grupos, dessas famílias e dessas comunidades. Do meu ponto de vista como analista social, condição que minha prática sociopsicodramática de 24 anos me concede, o maior trabalho na fase de I.E.C. - Informação, Educação e Comunicação, deve ser dirigido primeiro aos homens de todas as idades, no que diz respeito a responsabilidade como pais, companheiros, namorados, amantes e maridos, e às mulheres que criam e educam esses homens. O desconhecimento sobre métodos e prevenção é total e o número de jovens e crianças liberadas sexualmente é assustador. Os casos de AIDS aumentam a cada dia, bem como os abortos e as laqueaduras e o número de gravidez em mulheres ainda meninas. Crianças são abandonadas, as mulheres tem muitos filhos de pais diferentes, são largadas a própria sorte, e muitas vezes só tem como saída a prostituição para criar seus filhos. Constatamos o uso exagerado de drogas, a falta da camisinha, muitos alcoólatras e os meios de comunicação despertando, usando e abusando do sexo em seu proveito próprio, sem nenhum sentido educativo. Breve Relato das Viagens Utilizamos como meio de transporte ônibus leito, convencional e executivo, aviões, barcos, taxi, carros novos, velhos, desmantelados e veículos das prefeituras. Caminhamos a pé carregando nossas bagagens. Dormimos numa aconchegante pousada, bons hotéis, casa paroquial, hotéis muito simples e residência das comunidades, sem luz elétrica, água encanada e banheiro. Comemos frutas, comidas e doces dos mais exóticos aos mais saborosos. Visitamos belas cidades, mas também enfrentamos lugares sem nenhuma infra-estrutura e sentimos a violência das favelas de Porto Alegre e Foz do Iguaçú e não conseguimos entrar nas favelas em São Paulo, universidade, sedes da Pastoral e no espaço livre da Capelinha de São Pedro da Boa Vista R.G.S. - sob o olhar de seu padroeiro. Tivemos pequenos problemas de saúde, algumas divergências, mas nada prejudicou a pesquisa. Por outro lado, as comunidades nos receberam com o que tinham de melhor. Prepararam almoços, lanches, almoços e cânticos e não mediram distâncias para poderem participar. A cada final de trabalho fizemos orações de mãos dadas e muitas vezes os não católicos coordenaram as preces. Saímos plenamente enriquecidos, recompensados e em estado de graça. Esse trabalho foi realmente um grande presente.

Herialde Oliveira Silva
Psicóloga - Psicodramatista - Professora de Expressão Corporal - Coordenadora da Área Científica do Departamento de Psicodrama do Instituto Sedes Sapientiae - Professora-Supervisora e Terapeuta de Alunos pela FEBRA.P.

 




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