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PROJETO SEXUALIDADE
Dra. Carmita H.N. Abdo

carmita.jpg (11754 bytes)Dra. Carmita é médica, fez residência em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em 1975 e 1976. Começou a trabalhar no Hospital das Clínicas, como médica assistente em 1977. Fez pós-graduação em psiquiatria, escreveu uma tese de doutoramento chamada "Aspectos da Sexualidade de uma População Universitária". Escreveu uma tese de doutoramento que defendeu em 1989. Após ter defendido esta tese, continuou a pesquisar o tema em outras populações, ampliando este campo de pesquisa. Em 1993 formou o Projeto Sexualidade dentro do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Atualmente se dedica integralmente à Faculdade de Medicina. É professora da Universidade de São Paulo no Departamento de Psiquiatria. Este Departamento está dentro do Instituto, onde existe o Projeto Sexualidade. Este projeto é multidisciplinar, congrega psiquiatras, psicólogos, urologistas, ginecologistas, e têm a proposta de ensino, assistência e pesquisa em sexualidade (de jovens, idade madura, senilidade), temas de família e de relacionamento interpessoal. O grupo faz pesquisas na área, atende e ensina a nível de graduação e pós graduação da Faculdade de Medicina.

1) Como são realizados os atendimentos?

Atendemos em psicoterapia individual, de grupo, tratamento psiquiátrico, medicamentoso, urológico e ginecológico, nos casos em que for necessário. Estes profissionais trabalham em equipe. O paciente passa por uma triagem que é feita por um psiquiatratriador e depois por uma consulta urológica (se for homem) ou ginecológica (se for mulher), para estar afastando a possibilidade de qualquer intercorrência clínica que esteja determinando ou agravando o quadro sexual. Se ele(a) tiver problemas clínicos vai ser tratado(a) por clínicos. Se não tiver, passará a ser acompanhado(a) pelo psiquiatra e psicólogo, em tratamento medicamentoso ou psicoterápico, às vezes ambos se assim for necessário. O Projeto Sexualidade é aberto ao atendimento público. Quem sentir necessidade pode procurá-lo. O atendimento é gratuito. Trabalham-se os transtornos leves, moderados e graves. Transtornos leves são as disfunções. Ejaculação precoce, impotência (que chamamos de disfunção erétil) e incompetência para o orgasmo, ou anorgasmia, (popularmente conhecida como frigidez feminina) tudo isto são disfunções sexuais. Estes são os casos mais comuns que atendemos. Além disso, existem transtornos de preferência sexual. Toda vez que o objeto de desejo sexual não for um ser humano adulto vivo, estamos com um transtorno de preferência devido ao objeto. Ou quando a finalidade não for o prazer ou a reprodução também estamos com um transtorno de preferência devido à finalidade do sexo. Por exemplo, se o indivíduo é sadomasoquista, ele tem um transtorno de preferência sexual, por que apesar do objeto ser o outro adulto vivo ele tem como finalidade não o prazer, mas a dor . O sádico imprime dor para poder chegar ao orgasmo, e o masoquista precisa sofrer a dor física ou moral para poder atingir o prazer. Este é um exemplo de transtorno sexual com alteração de finalidade. Além dessas duas categorias (disfunção sexual e transtorno de preferência), há os transtornos de identidade sexual: pessoas que têm, por exemplo, corpo masculino mas se consideram mulheres e não aceitam o corpo que têm. Consideram que nasceram com o "corpo errado". Estas pessoas são conhecidas como transexuais. Eles têm um problema de identidade, a identidade biológica não confere com a psicológica. Trabalhamos com estes indivíduos em atendimento psicoterápico, imprescindível antes de qualquer atitude mais definitiva como uma cirurgia. O tratamento geralmente em psicoterapia é terapia temalizada de tempo limitado, ou seja, é uma psicoterapia que se processa num prazo de dezesseis à vinte semanas. São sessões semanais individuais ou em grupo, cujo tema central é a sexualidade. Após este período, avaliamos se o paciente melhorou, se recuperou ou se ainda tem questões a serem tratadas. Se não resolveu o processo sexual dele, é reencaminhado para uma segunda etapa da terapia. Medicamentos são prescritos sempre que o indivíduo necessitar, para melhorar a sua condição sexual. O urologista e a ginecologista fazem a retaguarda clínica em pacientes que têm problemas como por exemplo diabetes, que pode ter repercussões em sua sexualidade, como dificuldade de ereção. Um paciente hipertenso pode também ter problemas na área sexual; uma mulher, que tem uma infecção na vulva ou na vagina, pode acabar comprometendo a condição de ter orgasmo.

2) Como ocorrem os estágios?

Existem alunos de Psicologia e Medicina que estão interessados nos estágios. Eles precisam passar pelas normas próprias do Instituto de Psiquiatria e do Hospital das Clínicas. Propõem um tipo de participação no Projeto. Esta proposta é avaliada não só pelo PROSEX mas também pelas outras instâncias do Hospital das Clínicas e do Instituto de Psiquiatria. Uma vez sendo aprovado, este aluno vai ter um ano ou seis meses, dependendo do caso, para estar estagiando conosco. Ele participa das pesquisas, e muitas vezes, pode estar participando do atendimento, como estagiário que freqüenta as supervisões e as discussões de casos que nós promovemos, no Ambulatório Didático. Este aluno não estará fazendo o atendimento, mas têm sua presença permitida e garantida nas discussões e supervisões do ambulatório didático, que acontece uma vez por semana, feito pelos residentes de psiquiatria que fazem estágio no Projeto Sexualidade. Nós temos no momento estagiando conosco três "R2", residentes do segundo ano, e quatro "R3", residentes do terceiro ano, ou seja, os residentes do primeiro ano não passam pelo Projeto Sexualidade, somente no segundo e terceiro ano. O primeiro ano é básico e nos outros anos os alunos podem escolher a especialidade que desejam fazer. Pós-graduandos temos cinco que fazem tese sobre temas sexuais. O quarto ano de graduação têm aulas sobre sexualidade e discussões de caso, aulas teóricas e teórico-práticas em grupos pequenos. São quinze alunos da Medicina de cada vez. Existem também pesquisas tanto de assuntos psiquiátricos como de interface com ginecologia. Trabalhamos com temas não só psiquiátricos ou psicológicos, por exemplo climatério (uma área de nosso interesse) pesquisamos a dificuldade de orgasmo da mulher no climatério. Esta pesquisa fazemos juntamente com o Departamento de Ginecologia da Faculdade de Medicina. Dificuldades de ereção pesquisamos juntamente com o Departamento de Urologia. Também alguns outros Departamentos da Faculdade de Medicina trabalham conosco. A idéia do projeto é estar fazendo uma integração das várias especialidades médicas e também com a psicologia naquilo que elas têm de comum no que se refere à sexualidade. Tem sido um trabalho muito gratificante, tanto à nível de melhora dos pacientes quanto de interesse dos alunos pelo ensino do tema e pela produção científica. Temos duas teses de mestrado defendidas e nesses quatro anos produzimos o que consideramos bastante satisfatório. Temos participado de Congressos e Simpósios. Podemos dizer, que há cerca de dez anos atrás ou até menos, nem se cogitava tratar esses temas dentro da Faculdade de Medicina. É algo novo que, com o advento da AIDS, com o aumento das doenças sexualmente transmissíveis, com a questão de sexualidade em adolescentes e o início cada vez mais precoce do relacionamento sexual, está nos motivando a trabalhar em prevenção. Atualmente estamos com um projeto de pesquisa na escola pública. Estamos começando a pesquisar como anda a sexualidade dos jovens da Rede Pública Estadual de Ensino e a partir daí, conhecendo essa sexualidade, vamos estar propondo programas de prevenção de transtornos sexuais, porque consideramos mais do que trabalhar na área assistencial, a sexualidade teria que ser prevenida nos seus transtornos. Isso teria que acontecer em uma população de faixa etária bastante jovem. Estamos atualmente começando um trabalho que não só vai fazer a prevenção de comportamento sexual com problemas, mas também do uso de drogas, um trabalho conjunto com o Grea-Grupo de Estudos de Alcoolismo do Instituto de Psiquiatria. Este trabalho conjunto levantará a questão da sexualidade e do uso de drogas em mil e duzentos alunos da Rede Pública. A partir daí proporemos um programa para prevenção do uso de drogas e de comportamento sexual de risco para jovens. Esse projeto é coordenado por mim e pelo Dr. Arthur Guerra de Andrade. Têm a coordenação geral do Professor Titular do Departamento de Psiquiatria Professor Dr. Wagner Gattaz. Percebe-se cada vez mais a importância de um trabalho preventivo na área sexual para estar evitando doenças sexualmente transmissíveis, AIDS, abortos em jovens, maternidade indesejadas, comportamento sexual promíscuo e outras questões ligadas ao tema que acabam transformando a vida de pessoas muito precocemente e de uma forma, às vezes, irreversível. Essa situação nos interessa. É bastante amplo o campo, e estamos abertos para receber pessoas que necessitem de um acompanhamento e também que se interessem pelo tema, para estarem estudando e se dedicando.

Dra. Carmita H.N. Abdo é Psiquiatra, psicoterapeuta, professora do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP e coordenadora do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas.

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