Estado de Alerta

GREA E AS DEPENDÊNCIAS
Arthur Guerra de Andrade

grea.gif (12458 bytes)Dr. Arthur é coordenador geral do Grea (Grupo Indisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas), médico e psiquiatra, formado em 1978. Fez residência em psiquiatria e doutorado no Hospital das Clínicas, pós-doutorado nos Estados Unidos e atualmente está fazendo livre-docência.

1 - Como é feito o trabalho no Grea?

O Grea foi fundado em 1981, é um Serviço do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Se especializou no atendimento de pessoas que buscam o hospital com problemas de uso de álcool ou drogas, prevenção, especialmente para escolas e empresas de álcool e drogas e na área de pesquisas. Têm um compromisso com o ensino, principalmente para alunos de medicina e cursos de pós graduação.

2 - Como é realizado o tratamento?

A nível de atendimento temos dois grandes blocos: um é a assistência, ou seja, quando recebemos alguém com problemas, nós oferecemos tratamento. O outro é composto por pessoas que ainda não apresentam problemas, mas estão preocupados em não ter, é o que chamamos de "Prevenção" e é realizado basicamente em escolas e empresas. O atendimento é feito em três grandes áreas: atendimento de ambulatório, onde a pessoa procura uma consulta e recebe uma orientação, ou seja, medicamentos e terapia depois retorna para sua casa; atendimento de enfermaria onde a pessoa que não consegue ficar bem a nível de ambulatório é internada, seja homem ou mulher, e atendimento psicoterápico que é realizado em duas formas: Terapia de grupo e familiar. Nestes anos fragmentamos o atendimento de ambulatório em nove, atualmente existe um ambulatório para pessoas com problemas com tabaco, para mulheres com problemas com álcool e drogas, para pessoas com problemas com cocaína e crack, para idosos, portadores de HIV positivo, pessoas com problemas com uso de drogas intravenosas, um ambulatório geral de álcool e drogas, para adolescentes e para os funcionários do Hospital das Clínicas, um ambulatório no Hospital Universitário na Cidade Universitária e no Hospital das Clínicas para os funcionários, professores e alunos da USP. Começa mos em São Paulo e atualmente também estamos trabalhando em Ribeirão Preto, São Carlos, Pirassununga, Piracicaba e Bauru, isso a nível de ambulatório. A nível de internação o paciente é encaminhado para uma destas duas enfermarias e entra em um programa, em geral, de quatro semanas onde são realizados diagnóstico orgânico, psiquiátrico, familiar, social e oferecemos tratamento medicamentoso e/ ou psicoterápico. Realizamos psicoterapia de grupo com os pacientes e terapia familiar, especialmente com adolescentes. Juntamente conosco trabalha um grupo de alcóolicos anônimos há nove anos. Isso nós fazemos a nível de atendimento. Quando o paciente não quer fazer tratamento, eu converso com ele: "Já que você veio ao hospital, vamos conversar sobre este assunto." É muito raro ter alguém com dependência que não apresenta problemas. A pessoa não consegue viver sem estar utilizando a droga o tempo todo, além de não ser livre para fazer o que quiser, pois depende do uso da droga ou do álcool. Isto acarreta mudanças a nível social, familiar e econômico, quer dizer, a pessoa se afasta dos amigos, perde os entes familiares, além de não estar bem financeiramente. Como conseqüência ocorre uma mudança no seu padrão de vida. Muitas pessoas acham que depois que ficam um tempo sem usar drogas ou álcool, se usar só um pouco, não vai fazer mal e começa tudo de novo. Para os casos que tem dependência eu sou radical, quer dizer, é tudo ou nada, não acho possível voltar a ter um uso social. É como o diabético, ele não vai poder comer açúcar e se comer vai passar mal.

3 - O tratamento dá resultado?

O resultado do tratamento é ruim, depende de algumas variáveis. Depende basicamente de três coisas: Se a pessoa quer se tratar, se têm uma rede social, ou seja, emprego, amigos e família. Na rede social nós basicamente trabalhamos com empregos e quando o paciente for jovem, com escolas. Famílias são os amigos, namorado(a), marido, mulher etc. Quando a pessoa procura o hospital e não têm motivação, não quer se tratar, mas o familiar quer que se trate, o resultado é baixo. Quando não quer se tratar e não têm mais emprego por que perdeu por uso de drogas ou álcool, o resultado é mais baixo ainda. Quando além de não ter emprego e motivação, não têm mais a quem pedir auxílio por que se separou, um tipo de alcoólatra ou drogado que fica andando na cidade e usa o hospital psiquiátrico como se fosse uma "porta de hotel antigo" que dorme e vai embora, as chances são muito pequenas. As pessoas que chegam no hospital, estão nestas condições crônicas, por isso, além de tratar delas, nós estamos investindo na prevenção, evitar que o indivíduo venha ter essa cronicidade pelo uso de drogas ou álcool.

4 - Qual é o papel da família no tratamento do paciente?

O papel da família é fundamental, principalmente no caso dos adolescentes. Muitas vezes, ela está muito assustada e preocupada com o que está acontecendo e, às vezes, querendo ajudar pode acabar atrapalhando. Isso de fato é o que acontece, ela quer ajudar, mas fica tão ansiosa que atrapalha ou, às vezes, boicota o tratamento. Para quem tem uso crônico de álcool ou drogas, é preciso ter abstinência total do uso. Depois que o paciente fica em abstinência a própria esposa ou mãe pode dizer: "Agora que você está bem se beber um pouco socialmente não vai fazer mal." E faz mal. Por isso que a família têm uma grande representação. Existem famílias cujo o padrão cultural acaba sendo o uso de álcool ou drogas. Atualmente temos pais que fumam maconha juntamente com os filhos. A família é a base de todo o tratamento. As famílias se acomodam ou se estruturam com a presença de um membro doente. Elas estão acostumadas a ver a pessoa como um drogado ou alcoólatra e ele acaba sendo o depósito de uma série de dificuldades, angústias, tristezas e problemas, quer dizer, o outro irmão não passou na escola por causa dele, o pai perdeu o emprego por causa dele, a mãe queimou o feijão por causa dele. Quando nós tiramos o rótulo do indivíduo e falamos: "Agora você não é mais uma pessoa doente, é como todo mundo," a família fica muito desestruturada e ansiosa e, muitas vezes, nessa hora um outro membro da família fica doente, em geral, são doenças psicossomáticas e rápidas. Alguém têm que estar doente naquela família. O que eu digo não vale para todas as famílias, mas vale para um número razoável delas.

5 - Qual é a causa do uso e drogas?

O que nós sabemos é que é uma equação, como se fosse um triângulo. A ponta do triângulo é a droga, uma coisa é usar tabaco, outra maconha e outra crack, que com o pouco uso acaba deixando o indivíduo dependente. Na outra ponta tem o indivíduo, uma pessoa depressiva, ansiosa, angustiada e frágil e a terceira ponta do triângulo está no ambiente onde a pessoa vive. Às vezes, o ambiente favorece o uso da droga em uma personalidade que é mais frágil e se a droga for mais forte. Por que a mesma droga deixa uma pessoa dependente e outra não, isso não se sabe. O que se sabe é quando mais cedo a pessoa começar usar a droga, maior são as chances de se tornar dependente. Escolher usar álcool ou droga e que tipo de droga, vai depender muito de pessoa para pessoa. É como se ela tivesse uma atração por exemplo, gosta de álcool e se dá bem com ele. Vai ver no álcool a sua principal fonte de escolha, mais do que o outro que gosta de cocaína. A pessoa que gosta da cocaína pode beber álcool mas não vai ser a sua vontade e o seu prazer. Existem pessoas que gostam de maconha, experimentam cocaína e não gostam. Isso são ligações que a pessoa faz a nível do cérebro, de neurorreceptores onde o contato químico daquela droga com aquele cérebro provoca aquela reação prazerosa.

6 - Qual a maior dificuldade que o Sr. encontra neste trabalho?

Primeiro é a motivação do paciente em se tratar, muitos não têm, querem continuar usando drogas. Segundo, é o boicote familiar. Terceiro, são as pessoas que têm uma visão diferente da minha. Existem pessoas que acham que droga não faz mal. Eu respeito isso, também acho que as drogas não fazem mal para 90% das pessoas que usam, mas eu trato dos 10% que ficam com dependência e que têm problemas com isto. Para mim drogas fazem mal. Existem pessoas que estão querendo legalizar e liberar o uso da droga. Dizem: "Maconha não é pior que o cigarro e bebida não faz mal." Isso ocorre por que existe uma pressão econômica grande. No Congresso estão dizendo que cerveja não faz mal e que não é bebida alcóolica por que bebida alcóolica é só o que têm mais de treze graus. Existe uma incompreensão e uma pressão econômica grande por parte de algumas pessoas.

 

Dr. Arthur Guerra de Andrade é Coordenador Geral do Grea do Hospital das Clínicas.

 

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