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Christina
é Psicodramatista e estuda a Psicossomática desde que se formou em
Psicodrama. Este livro vem coroar sua busca de um processo psicoterápico
mais eficiente para pessoas que padecem também de males físicos.
Catharsis
- Como surgiu a idéia do livro?
Maria Cristina - Escrever
um livro, sem dúvida, é um dos sonhos acalentados por nós, humanos,
na seqüência do plantar uma árvore e ter filhos. Mas, deixando o
sonho de lado, penso que só consegui transformar em um livro minhas
experiências e práticas clínicas quando compreendi que criar também
é aventurar-se e não temer a audácia de escrever o que é evidente e
não ter medo de expressar aquilo que vemos e sentimos com nossa
capacidade infantil de não julgar, mas sim constatar o que de forma
clara e simples nos é mostrado. E confiar, pois toda a criação é um
processo compartilhado e de co-criação, em que somos apenas a parte
que irá transmitir aos demais o que já existe no todo.
Catharsis
- O que é somatodrama?
Maria Cristina
- Somatodrama é uma proposta que integra na teoria e na prática, a
psicossomática e o psicodrama. Aborda o sintoma físico ou a doença
orgânica como expressão de uma verdade inconsciente do ser humano que
busca revelação através do corpo. Procura desvendar o conflito
intrapsíquico que bloqueia o processo de crescimento e evolução do
ser cuja expressão possível em seu universo relacional é o sintoma ou
a doença orgânica.
O
somatodrama vê o sintoma e a doença orgânica como o protagonista do
drama vivido pela pessoa, que emerge no cenário
corpo e no palco do seu universo relacional. É a parte significando o
todo. Reconhecer essa parte, essa estreita passagem é mergulhar e ir ao
encontro de universos profundos e inconscientes, onde o adoecer é a
possibilidade de renascer aqui e agora como autor e ator de nossa própria
história corporal.
É
uma proposta de psicoterapia focal no sentido que propõe um atendimento
sistematizado que objetiva e foca a queixa da doença, buscando alívio
e descarga de tensões intrapsíquicas na crise, de forma a possibilitar
outras vias de expressão além dos sintomas e da doença orgânica,
resultando na mudança da percepção sobre a doença, a morte, bem como
sobre o tempo e o espaço. Olhar os acontecimentos e o mundo de um novo
ângulo nos transforma e questiona verdades até então reconhecidas
como realidade. Aquietando o medo e reduzindo a ansiedade podemos
resignificar conceitos e transformar antigas crenças já ultrapassadas
sobre o que é saúde e doença, vida e morte.
Catharsis
- Como as emoções afetam o corpo físico?
Maria Cristina - É através
do nosso corpo que podemos expressar nossas emoções e nos relacionar.
Mais importante do que pensarmos como as emoções afetam o corpo físico,
é refletir como expressamos as nossas emoções e como nos relacionamos
com as outras pessoas e com o mundo em que vivemos.
Corpo físico e emoções devem ser vistas e compreendidas como
uma unidade, incluindo relativos e opostos. A experiência corpo físico
e emoções constituem um todo indivisível que flui, onde sagrado e
profano integrado vão além de atuarmos na vida, mas levando, sim, a
uma atitude consciente do como vivenciá-la.
Acaso
você saberia responder qual a dor maior? A do abandono ou a do estômago?
O que podemos é pensar que se não conhecermos bem a linguagem corporal
das nossas sensações, dificilmente poderemos reconhecê-las, decodificá-las
em emoções e expressá-las como sentimentos.
Não
basta eliminar a dor física do nosso corpo para nos sentirmos curados.
Nossa cura parece estar além do curar pedaços fragmentados.
Reconhecer-nos como pertencendo à totalidade do Universo Cósmico
faz-nos sentir co-responsáveis e harmoniosos como criatura.
Catharsis
- O que você chama de "alma"?
Maria Cristina - Alma,
essa dinâmica energética do psiquismo, que é a energia da vida
corporificada. Um corpo sem animação é um corpo morto. E de que serve
a animação sem um corpo para
expressá-la?
Se
quisermos entrar em relação com a nossa alma, essa força dinâmica,
devemos começar por trazer para a consciência certas percepções que
normalmente são inconscientes, como por exemplo, resgatarmos simples
sensações como a do nosso pé em relação com a terra, através da
sola do nosso sapato. Ou quando respiramos, a troca que estabelecemos
com o mundo exterior a nós.
Nossas
verdadeiras capacidades sensoriais estão na ação mútua e íntima,
formada pela unidade matéria-ambiente, nessa troca constante em que faço
parte do todo e o todo faz parte de mim. Somos seres cósmicos. Universo
e vida humana estão entrelaçados de tal forma que é impossível sua
separação, Sentir a alma é integrar penso,
logo existo com sinto, logo sou com percebo, logo crio.
Catharsis
- O que significa "vivência psicossomática?”
Maria Cristina - A
resposta à pergunta anterior talvez possa esclarecer o que é a vivência
psicossomática. É a experiência que surge diante do conflito corpo e
alma, conflito esse responsável pela grande dor de não conseguirmos
elaborar essa divisão interna que nos fragmenta.
É
o porta-voz que irá transmitir, por meio do sintoma e da doença orgânica,
a parcialidade, a falta de unidade do nosso corpo. Será porém essa
mesma experiência a porta de entrada, a estreita passagem para o
mergulho, o resgate, através da percepção das sensações do nosso
corpo, que irá favorecer a possibilidade do reconhecimento da nossa
identidade, agora como autores e atores de nossa história e, sem dúvida,
um caminho possível para um trabalho de cura.
Catharsis
- O que é a crise da percepção?
Maria Cristina - A crise
atual, a crise da percepção decorre da nossa insistência em manter
antigos conceitos mecanicistas e uma visão de mundo ultrapassada, não
percebendo que fenômenos biológicos, psicológicos, sociais e
ambientais se interrelacionam. Essa nova visão exige mudança em nossos
pensamentos, percepções e valores. Da segunda metade do século XVII
até o final do século XIX, a visão mecanicista da física clássica
era a forma julgada correta para descrever a realidade. Porém na ciência,
e principalmente na física, do século XX, em que o universo passou a
ser visto e percebido como um todo indivisível e harmonioso, uma rede
de relações que na sua dinâmica inclui observador e observado, onde
um transforma o outro, vem provocando uma revolução em todas as ciências.
Para nós, este momento requer uma cuidadosa reflexão que já está
ocorrendo, no campo da medicina e da
psicologia, sobre o significado de nascer, viver e morrer, bem como
sofrer e envelhecer.
Tais
questões propõem novos paradigmas, a revelação do novo, do nunca
vivido, da probabilidade-incerteza, ampliando nossa consciência. É nos
reconhecermos como co-criadores, unindo criador e criatura na
co-responsabilidade, em que o universo - e o planeta - é o que é,
porque somos o que somos.
Catharsis
- O que você acha mais importante passar para o público neste momento?
Maria Cristina - É que
possamos, no atual momento, criar espaços grupais para trocar nossa
história, idéias, através de experiências vivenciadas por meio da ação
e expressa pelos nossos corpos. Entrarmos na vida nos associando e de
corpo presente desfaz o isolamento e nos abre a possibilidade de
reconhecer-nos no outro, encontrando assim a verdadeira dimensão do ser
humano.
É
e sempre será assim. Carregamos em nosso corpo nossa história vivida e
sentida, a história do nosso povo, a história cósmica, o nosso drama.
Se pudéssemos neste exato momento - "aqui e agora" como dizia
Moreno, criador do psicodrama - visualizar-nos neste ponto do planeta,
unidos, como um único povo que se reconhece na sua essência e que
caminha como os nossos ancestrais caminharam, na busca da unidade e
compreensão da experiência existencial de ter um corpo e uma alma,
integrando-nos como uma unidade, tornando-nos assim conscientes e
responsáveis, bem como co-participantes dessa dinâmica energética que
tanto pode nos curar como nos levar a adoecer, talvez pudéssemos entrar
em um novo tempo em que possamos escolher e assumir a autoria da nossa
história.
Catharsis
- Suas considerações
finais.
Maria Cristina
- É uma proposta de realizarmos neste momento uma
prática para despertar o ato criativo
em cada um de nós e assim possibilitar o renascimento e resgate de
nossa energia espontânea e, criativa
- 1 -Feche
os olhos, e sentindo-se confortável, abra-se para as sensações.
Sinta, não critique, não avalie. Só sinta.
2º
- Imagine agora uma folha branca, sinta o ar à sua volta, perceba que o
nada existe, observe o que nunca observou. Use para isso as sensações,
visão, audição, olfato, paladar, sensações internas e externas ao
seu corpo.
3º
- Agora perceba quanta energia você acumulou e comece a usá-la. Crie o
clima, o espaço, os meios necessários para essa experiência.
4º
- Usufrua a sua criação. Quando terminar o seu ato criativo, perceba
como você está. Caso julgue não ter conseguido sua expressão
criativa, lembre-se que ela pode ser impedida pelos medos: medo de
perder a vida, de perder formas conhecidas de sobreviver, ou até mesmo
de perder conquistas antigas, e muitos outros fantasmas.
Resgatar
e redirecionar nossa energia criativa vital, que muitas vezes está
direcionada alimentando os impedimentos em um ato criativo, é optar
pela vida, e assim encontrar-nos com nossa natureza espiritual.
Agradeço,
a oportunidade do espaço da
Catharsis para expressar meus pensamentos . |