Aprendendo a ser Psicoterapeuta
                                   um caminho longo e para sempre 


Elizabeth Amelio Faleiros


1. Tomando o enfoque da visão Moreniana, que destaco nesta publicação, poderia dizer que ser psicoterapeuta é um modo de ser e estar no mundo, de se expressar diante da vida como uma totalidade, numa relação de encontro com a existência, sem separar o pensar do agir. Ainda o que legitimaria ser psicoterapeuta é o ser do psicoterapeuta.

Se ainda partirmos da etimologia da palavra terapeuta, que significa quem cuida e ajuda e que nos leva para seu significado real, “que é servir ou cuidar”, podemos assim pensar que aquele que exerce alguma forma de terapêutica e conhece as indicações desta é chamado por terapeuta.

Este papel é uma atividade exercida num contexto de relação de ajuda, por alguém com habilidades pessoais e técnicas reconhecidas legitimamente. Pinto (1997)

É claro que esta prática envolve um grau de espontaneidade, permitindo ao terapeuta o sentimento de realização pessoal a partir da conscientização de sua capacidade criadora ao dar características pessoais ao estereotipo social (papel de psicoterapeuta), levando-o a identificar-se com  ele e senti-lo  como criação própria.

A pessoa do terapeuta seria a variável mais importante no processo terapêutico, uma vez que sua personalidade e experiência atuam sobre os resultados. Vemos então que no desempenho de seu papel , precisa estar livre fazendo uso de suas potencialidades, além do conhecimento técnico escolhido, trazendo para seu trabalho um colorido mais pessoal para que a relação seja verdadeira, profunda e construtiva para o paciente.

Alguns requisitos indispensáveis costumam ser apontados por estudiosos deste tema como: “capacidade de lidar com as pessoas, compreensão, confiança, capacidade de empatia e de troca interpessoal, que deve ser genuína, conhecimentos especializados. No livre fluir destes aspectos, o terapeuta encaminha seu trabalho como agente facilitador, enquanto alguém que vai permitir o crescimento do paciente, na medida em que o processo psicoterápico deverá estar voltado para a experiência existencial do paciente, como ser no mundo”.

É então função do psicoterapeuta acolher o sofrimento humano e participar com o paciente da abertura apropriada para que este possa encontrar seu “lugar no mundo”, sob uma nova e mais salutar maneira de existir, respeitando sua imagem de mundo e de si mesmo.

Já que este profissional representa um forte instrumento de mudança, sua importância, esta na consciência que venha a ter sobre a abrangência e responsabilidade que lhe cabe em sua complexa tarefa de prestar auxílio profissional enquanto agente facilitador do crescimento do outro, em ajudar o paciente a se dar conta dos obstáculos à escolha de suas possibilidades na realização de seu projeto existencial, a conquistar a responsabilidade de sua existência que muitas vezes implica em modificar algumas situações de vida.
 

2. Nesta pesquisa junto aos entrevistados, estagiários da disciplina de psicologia clínica do curso da UCPel, onde abordo a concepção que os mesmos têm sobre o que é ser psicoterapeuta, revelaram que gostariam de se preparar melhor no início do curso para estabelecer uma relação terapêutica com mais segurança junto ao paciente. De modo geral, afirmam  que é preciso um treinamento maior para atuarem com naturalidade e eficácia.

Sobre algumas sugestões ara melhorar a qualidade do papel de psicoterapeuta colocam por exemplo:

Vivências em sala de aula enquanto sessões fictícias.

...que todo aluno possa ter experiência psicoterápica enquanto paciente.

Começar mais cedo com discussão de casos clínicos, maior treinamento para psicodiagnóstico, maior carga horária no estágio de clínica.

Num outro momento, os resultados revelam que os conhecimentos propostos pelo currículo são necessários, válidos, mas não suficientes para o desempenho da tarefa de ser psicoterapeuta. Sentem necessidade de conhecimentos mais amplos e atualizados no campo da psicoterapia.

Propõem que o processo de aprendizagem deva se voltar mais para o fazer, o viver na práxis essa interação terapeuta-paciente, com situações experiências, processuais e não tanto conceituais e de memorização onde tomam para si um produto final dado pelo professor.

Desejam um ensino, para que os sinais de conhecimento do currículo possam ser superados e concomitantemente se sintam mais aptos para a competência de suas ações.

3. A resposta 3 foi incorporada a 6.

 4. Antes de começar o seu trabalho, seria conveniente que todo psicoterapeuta passasse por uma psicoterapia, pois embora ainda com problemas, poderia ter consciência deles, evitando danos ao paciente, de maneira que a identificação não fosse excessiva, podendo tê-la sob controle.

Ainda o tratamento lhe daria condições de lidar com as fantasias do próprio poder, pois em muitas situações encontramo-nos com clientes que nos põe a prova, através do seu desafio verbal, de uma entrega total à nossa ação psicoterapeutica ou pela abrangência e complexidade do problema que temos de tratar.É aqui então que precisamos identificar a contra-transferência que poderá ser inútil ao tratamento.

Assim, é neste contexto de seu próprio tratamento que poderá examinar a dimensão da ansiedade e de suas preocupações. É indispensável estar atento a estes movimentos internos pois buscando a sua fonte, poderá encontrar o caminho para chegar aos focos das dificuldades quando diante de seu cliente.

A postura terapêutica não anula sentimentos, vontades, mas exige sim, que o mundo interior do psicoterapeuta não influencie ou oriente o mundo do cliente. Vem daí a importância de que o terapeuta tenha passado pelo seu próprio processo para estar com seu cliente numa relação fluida, espontânea sem contaminação pela sua realidade interna.

O tratamento também lhe daria condições de lidar com situações afetivo-emocionais que viessem a ultrapassar a finalidade dos laços afetivos propostos no tratamento.

5. Seria a capacidade do terapeuta estabelecer no processo terapêutico uma relação interpessoal junto ao cliente que contenha elementos básicos para o crescimento e o amadurecimento psicológico deste .

Ou seja, a proposta e predisposição de criar um clima terapêutico que Dias coloca ser composto de aceitação, proteção e continência por parte do terapeuta, aceitando e respeitando as qualidades e dificuldades de quem pede ajuda.

Em outras palavras, seria exercer o arquétipo de curador que é acessado através dos cuidados com a saúde, ligado a capacidade de amar e vincular-se.

 6. Como a supervisão contribui para o desenvolvimento deste papel emergir de forma criativa?

O supervisor na relação com o supervisionando, a partir do material trazido por este, poderá trabalhar nos moldes do princípio do método dialético-existencial com base na relação télica, viabilizando a possibilidade de encontro com o outro (supervisionando-paciente), como também, poderá propor a discriminação na relação terapeuta-paciente, sobre o que é de um  e de outro.

A supervisão nessa modalidade aparece como possibilidade de respostas a dificuldades, assim como, o despertar e a liberação da espontaneidade-criatividade enquanto respostas adequadas e/ou novas no papel em desenvolvimento de terapeuta.

Contribui ainda na medida em que se apresenta como um processo de formação de postura e desenvolvimento profissional, pelo qual, através de seu relacionamento supervisor-supervisando, este último adquire, exercita a desenvolve habilidades aprendendo a trazer na prática os conhecimentos adquiridos, acompanhados da adequação dos seus afetos.

Como instrumento pedagógico, o método psicodramático com algumas técnicas de intervenção, ao analisar os papéis atuais (terapeuta-paciente) e investigar suas possibilidades, entra num aspecto fundamental dos papéis em interação, realizando desta maneira seu trabalho de treinamento de papel de terapeuta. A riqueza dessas experiências exerceria “funções estruturantes” no desenvolvimento desse papel. Pinto (1997).

Assim, o supervisionando ao revelar seu verdadeiro eu que se dá na relação com o outro, estaria exercendo sua espontaneidade e criando no papel com respostas adequadas para o momento.

 7. Por ser uma prática onde está presente ser humano com suas histórias de vidas entrelaçadas pela existência. Por ser uma experiência que leva a um continuum em nível de crescimento pessoal e concomitante treinamento especializado pedindo do profissional uma adicionamento supervisor-supervisando, este último adquire, exercita a desenvolve habilidades aprendendo a trazer na prática os conhecimentos adquiridos, acompanhados da adequação dos seus afetos.

Como instrumento pedagógico, o método psicodramático com algumas técnicas de intervenção, ao analisar os papéis atuais (terapeuta-paciente) e investigar suas possibilidades, entra num aspecto fundamental dos papéis em interação, realizando desta maneira seu trabalho de treinamento de papel de terapeuta. A riqueza dessas experiências exerceria “funções estruturantes” no desenvolvimento desse papel. Pinto (1997).

Assim, o supervisionando ao revelar seu verdadeiro eu que se dá na relação com o outro, estaria exercendo sua espontaneidade e criando no papel com respostas adequadas para o momento.

 7.  Por ser uma prática onde está presente seres humanos com suas histórias de vidas entrelaçadas pela existência. Por ser uma experiência que leva a um continuum em nível de crescimento pessoal e concomitante treinamento especializado pedindo do profissional uma atitude de disposição aberta ao aperfeiçoamento constante. Portanto o estar pronto para esse papel, não tem fim.

Eu diria que a reafirmação de estar de posse de sua identidade como psicoterapeuta, na certa, é a disposição aberta para o aperfeiçoamento constante, pois este é um processo sempre em construção.

É necessário passar por processos de terapia e manter-se constantemente movimentando-se na busca do autodesenvolvimento pois a espiral de evolução é infinita.

Além de que a velocidade atual do crescimento dos conhecimentos é imensamente maior do que em qualquer tempo precedente ao nosso, a exigir essa habilidade de reaprendizagem atualizada do profissional não só nesta, mas em qualquer área de conhecimento.

8.  Sua importância está em favorecer uma relação de verdade e de suscitar um momento privilegiado, já que nessa dimensão aceita-se a relação terapêutica em termos de um novo vínculo, que será toda a intensidade presente que tanto paciente como terapeuta podem criar. Desmistificar a figura do terapeuta, contribuindo para desenterrar figuras mágicas e onipotentes da infância do paciente.

Transformar relações transferenciais em relações télicas para que possa se dar o encontro, a espontânea e verdadeira relação entre o eu e o tu.

Segundo Moreno, tele seria a capacidade de se perceber objetivamente o que ocorre nas situações e o que se passa entre as pessoas, como também, “percepção interna entre dois indivíduos”. (1983, p.33) Podendo ainda superar o afastamento entre pessoas que se relacionam.

Sendo assim, o livre fluir de emoções e sensações existentes entre paciente e terapeuta é um aspecto de fundamental importância, desencadeando o encontro, “fenômeno télico” para o êxito do processo terapêutico.

Já que em alguns momentos o paciente pode perceber corretamente seu terapeuta (tele) como também em outros momentos projetar (transferência) seus conflitos internos. Esta visão do psicodrama oportuniza atitudes terapêuticas onde se confirmará o paciente em suas apreciações corretas validando uma capacidade de percepção real.

Assim, nos caminhos fenomenológicos existenciais, o terapeuta, ao invés de priorizar a transferência, vale-se da experiência interpessoal que é o encontro, ou seja, uma dimensão comunicativa nova.

A preocupação maior é compreender a vivência do paciente, além de como esta se manifesta, também como ele a experimenta, sem alguma interpretação ou teorização em relação a mesma por parte do terapeuta, ou seja, põe-se em frente ao paciente sem fazer uso, aprioristicamente dos conceitos teóricos previamente elaborados à partir de sua formação.

No entanto as múltiplas dimensões em que se dá a relação terapêutica, considerando o eixo eu tu (télico) ou eu ele (transferencial) precisam ser constantemente considerados, estando o terapeuta atento para essa dinamicidade e suas alterações, tendo sempre por base a “presença dual tele-transferência”.

Nesta relação eu tu vemos acontecer uma relação mais inteira, com profundidade humana, onde “se produzem as verdadeiras modificações”.

 9. Seria impossível pois se perderia a dinamicidade real do  processo terapêutico. Porém de acordo com o pensamento de Moreno, diante do pedido de ajuda terapêutica, quando alguém está em conflito, estará com sua espontaneidade comprometida, com relacionamentos pouco télicos, conseqüentemente, um exercício de papéis empobrecidos pela repetição e cristalização.

Quanto ao papel do terapeuta, antes de mais nada é uma postura ideológica e filosófica que deve permear toda a atividade profissional. Na prática essa situação é vivida como nova para ambos os lados que não sabem o que e o como vai acontecer, deflagrando a quantidade de espontaneidade e a possibilidade de criatividade nos dois lados da situação.

Então, quanto mais espontâneo e criativo for o terapeuta, expressando sua inspiração momentânea com originalidade em suas ações, mais facilitará ao cliente mostrar-se em profundidade. Espera-se então, que crie um clima propício à situação desde o primeiro encontro, de tal maneira que ela se torne um “locus nascendi”  da espontaneidade do cliente. A constante perseguição à espontaneidade é que orientará o enquadre desse processo.

De outro lado, a tendência para o indivíduo apoiar-se na conserva cultural na relação com o seu papel, também é apontada por Moreno, como as ações de forma repetitiva, cristalizada. Em alguns momentos, essas conservas podem ser úteis para dar início a organização de uma ação.

 10. Quando iniciei minha dissertação de mestrado, escolhendo este tema, não tinha como objetivo atingir um público maior. Entretanto, no decorrer do processo o conteúdo do estudo qualitativo e a revisão bibliográfica das teorias mostraram aos meus orientadores e a mim própria que o trabalho poderia ser ampliado atingindo um número maior de pessoas.

Portanto imagino que possa ser útil nos meios acadêmicos, bem como aos profissionais da área saúde e todos aqueles que se dedicam a acolher o sofrimento psicológico no sentido de aprofundamento do entendimento humano e alternativas complementares da prática terapêutica.

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