Cotidiano

ONIRODRAMA
José Roberto Wolff

Considero, estas quatro Categorias - devaneio, dramatização, sonho e delírio - como pertencentes a um mesmo processo, diferindo apenas quanto ao grau de comprometimento da consciência do Eu e do vínculo com a realidade externa. Assim, entre o fantasiar e o viver integralmente a loucura estão a dramatização e o sonho. Este, ao fazer a ponte necessária entre o mundo interior e o exterior, traz, muitas vezes , indicações importantes ao sonhador. A dramatização constitui um instrumento de capital importância para o trabalho tanto do devaneio quanto do sonho e do delírio, pois os quatro utilizam a mesma linguagem das imagens e tem origem comum. Mesmo o devaneio pode ser utilizado no psicodrama, pois podemos dirigi-lo qual fosse urna dramatização em cena aberta. Nesse tipo de trabalho, a dramatização ocorre com as imagens internas e é chamado de psicodrama interno No trabalho psicoterápico com psicóticos, observei que estes tinham grande dificuldade em tratar seus conteúdos conflituoso , especialmente pelo temor de, mais uma vez, entrarem num 'surto psicótico', ou seja, perderem novamente os vínculos com a realidade objetiva. Assim notei que, nesses casos, um caminho mais viável para abordar os conteúdos inconscientes era o sonho. Surgiu, em seguida, a questão de como poderia o sonho ser trabalhado, e foi então que tomei contato com o onirodrama de Moreno. Passei a utiliza-lo com certa freqüência, e obtive resultados extremamente animadores, pois através dele conseguia atingir mais facilmente os conflitos internos e, as vezes, ate' os conteúdos de urna vivência psicótica delirante. Posteriormente estendi a aplicação do onirodrama a outros casos de psicoterapia com pessoas não - psicóticas, obtendo também ótimos resultados.

Escolhi para exemplificar a aplicação do onirodrama casos de minha experiência clinica, com diferentes diagnósticos (abrangendo, inclusive, casos de psicose), nos quais pude utilizar técnicas diversas, ou seja: psicodrama individual, com ou sem ego-auxiliar, e psicodrama de grupo em processo ou mesmo como ato terapêutico.
Após esses esclarecimentos, passo ao exemplo selecionado para a demonstração do trabalho com o onirodrama.

Exemplo: Vera
Vera teve dois surtos psicóticos e
fez um ano e meio de psicoterapia psicodramatica individual bipessoal. Na ocasião da sessão que descrevo, estava em psicoterapia psicodramatica individual com um ego-auxiliar há seis meses.

Nesse dia, logo ao chegar, Vera começa imediatamente a contar um sonho da noite anterior que muito a impressionara. Proponho a dramatização do sonho, pedindo inicialmente que a protagonista refaça o seu dia através de solilóquio. Vera fala de seu dia de maneira automática, chegando rapidamente ao momento em que vai dormir. Peço que monte o seu quarto, a sua cama, e aqui também sua produção é baixa, limitando-se a colocar os elementos de quarto, sem muitos detalhes e sem outras informações. Peço então que se deite, me avisando logo que comece a lembrar claramente das imagens do sonho. Quando me avisa, proponho que entremos no " mundo dos seus sonhos " , pedindo-lhe que coloque em cena todos os elementos. o sonho se passa num local escuro e o foco é um homem de costas, que ela julga ser seu pai. Ela quer se aproximar daquele homem, andando na direção dele mas, quando tenta faze-lo , ele se volta bruscamente e, ao invés do rosto do pai, ela vê o rosto do diabo. Vera fica muito assustada e até desesperada; começa a dizer que ela é Deus e todos os homens são diabos, principalmente seu pai, e que ela possuía poderes contra todos eles. Aqui ela esta revivendo um aspecto do seu último surto psicótico, no qual ela sentia exatamente isso. Aos poucos vai se tranqüilizando, então peço que assuma o papel do pai. Neste papel conta que, desde quando Vera tinha treze anos de idade, mantinha relações Sexuais com ela; diz ainda que muitas vezes ela era obrigada a faze-lo, embora não quisesse, pois quando ela nasceu a mãe morreu e Vera se sentia na obrigação de substituí-la.

Peço a Vera que volte a seu papel e proponho que traga sua mãe. No papel da mãe explica que não morreu por culpa da filha, pois sofria do coração, e ao mesmo tempo isenta. Vera de qualquer compromisso em relação ao pai. Coloco o ego-auxiliar no papel da mãe e Vera volta ao seu ; a cena de grande emoção, terminando ela e a mãe de mãos dadas.

A seguir, proponho que Vera volte à cena inicial do sonho. Ela pode agora aproximar-se do pai , vendo este como ele realmente é , não mais com "cara de diabo" e diz ao pai, com grande tranqüilidade, olhando-o de frente: " De agora em diante só manterei relações sexuais com você quando eu quiser..."

Trecho do livro Sonho e Loucura "(Editora Ática) de José
Roberto Wolff

JOSÉ ROBERTO WOLFF
PSIQUIATRA PSICODRAMATISTA


 

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