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Vilene Moehlecke |
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Palavras-Chave:
Psicologia Estética, Plasticidade, Ensaio, Intervenção, Arte,
Vontade de Potência, Ética, Tempo Redescoberto. Abstract: As a dancer and a
psychologist, I intend to
discuss about the “Work in Psychology”, looking for
ressonances between Art and Psychology. I’m trying to identify
theories and practices, talking about experiences and self
understanding. Deleuze and Guattari
argument about the life as an art criation, the new existences
development or life styles. Nietzsche compare that with the eager
of power. Proust talk about the time in discovering who existis on
the art, like a new possibility of transmutation. Thinking like
that, I discuss the “Estetic Psychology”, beliving in her
difference and flexibility: it bring us different ways of working.
Training, we must try special things! And it may allow us to fall,
in order to create something new in phychology. Key Words: Estetic Psychology, Plasticity, Training,
Work, Art, Eager of Power, Ética, Time in discovering.
No início da formação acadêmica, minha concepção sobre
"Psi" era de uma personagem séria, correta, neutra, com
lugares muito definidos. Paralelo a isso, minha inserção na Arte
já era uma paixão antiga – dança e teatro. De um lado, estava
a personagem séria da "Psi", do outro, a Arte, com todo
o seu fervor. Mais do que isso: minha impressão era de que, em
algum momento, eu teria que optar. Ou partiria para os territórios
definidos do fazer "Psi", ou me lançaria nas
intensidades da Arte. Entretanto, a personagem “Séria Psi”
foi se transformando: ao invés do traçado definido, permitir-se
mais maleável, andarilha, polimorfa; em lugar de neutralidade,
implicar-se no processo e nas intervenções. A partir daí, fui
compondo um “fazer” no “entre”: Psicologia e Arte. Em
nossos estágios, usamos diversos dispositivos artísticos para
intervir. Isso possibilitou um fazer mais híbrido, mais
envolvente, instigante, novo... A
Arte me fascina através de sua porosidade, seu criar incessante,
sua efervescência. Ela é impossível de existir, sem que haja
paixão, envolvimento, coragem, subversão, graça, simplicidade,
sofrimento. Também podemos falar de uma Psicologia que produz
calor, sensibilidade, invenção, vida. Psicologia e Arte: caos,
rompimento, criação,
absurdo. O homem contemporâneo, segundo Nietzsche (1995), é
extremamente racional - um culto da linguagem verbal, uma procura
por verdades.Um homem contido em seus ressentimentos, naquilo que
quisera ter feito e não o fez, no que gostaria de ter sido e não
o foi. Subjetividades repleta de reminiscências... Em meio a
isso, Arte e
Psicologia podem propiciar subversões, já que rompem com a razão
e a moral vigentes, permitindo-nos chegar ao plano das
intensidades. Possibilita-se, então, um pensar fora das leis e
das certezas, abrindo espaços para os momentos imprevisíveis,
para o inusitado. Assim, uma intervenção Ético-Estética
parece-me interessante para lidarmos com os desafios de nossa
contemporaneidade. Na
primeira fase de sua obra, Nietzsche faz a oposição entre Arte e
conhecimento racional. A ciência, vista como um "valor
superior", uma "verdade absoluta",
um "ideal" a ser alcançado, procura instituir
uma dicotomia de valores entre a verdade e o erro. A Arte Trágica,
por sua vez, é apontada como um modelo alternativo para a
racionalidade. Portanto, a posição de Nietzsche, firmada no
primeiro momento de sua obra, era a seguinte: a Arte é mais
importante do que a ciência; a única relação possível entre o
homem e o mundo é a estética. Buscando viver com alguma segurança,
o homem se esquece de que é sujeito da criação artística. Ao
invés de lançar-se nas intensidades da Arte, o homem busca
conhecer o seu mundo, na tentativa de poder explicá-lo. O propósito
de "O Nascimento da Tragédia" era justamente examinar a
ciência a partir da ótica do artista e a Arte, a partir da ótica
da vida. Nesse sentido, Nietzsche (1992) salienta a idéia de
metafísica do artista. Ou seja, o mundo só se justificaria como
fenômeno estético. O artista estaria por trás de todo o
acontecer, completamente inconsiderado e amoral, desejando
construir e descontruir. O mundo visto como a eterna possibilidade
do criar, do vir a ser. O mundo, como sendo eterna nova visão do
ser mais sofredor, mais antitético, mais contraditório, que só
na aparência, na Arte, sabe redimir-se. A metafísica de artista
é uma concepção de que apenas a Arte possibilita uma experiência
da vida plena, como sendo no fundo das coisas indestrutivelmente
poderosa e alegre. Entretanto,
Nietzsche(1992) questiona o que ele mesmo havia dito. Assim, a
metafísica do artista poderia ser considerada arbitrária e fantástica.
O essencial, contudo, é que ela denuncia uma possibilidade que
vai contra a interpretação e a significação morais da existência.
Denuncia-se, pois, um pessimismo que vai além do bem e do mal.
Abre-se uma visão que desmistifica a moral e a verdade vigentes.
Se, por um lado, a metafísica da Arte pode assumir essa postura
de subversão da ordem, o que a tornaria, então, arbitrária e
fantástica? Talvez, quando, inicialmente, Nietzsche a coloca como
única possibilidade de subversão. Porém, no momento em que o
autor a vê como uma
possibilidade de, uma
alternativa, então, nesse caso, já não se corre o risco de
cair em radicalidades. Traçando
um paralelo à Psicologia Estética, também esta se propõe a
abrir espaços à alteridade, não tendo nenhuma pretensão de
buscar a verdade ou a moral. Trata-se de mapeamentos,
cartografias, interpretações de movimentos em cada intervenção
"Psi". O PsicoArte – intervenção realizada no meu
curso de Psicologia - busca
conexões entre Psicologia e Arte. Esta surge como dispositivo.
Tal ‘fazer’ foge às regras, criando possibilidades outras de
subversão, mais sutis, raras, arteiras. Assim, procura-se
trabalhar com a auto-gestão e auto-análise do grupo que intervém.
Busca-se uma ação diferente: Há,
também, outro instinto estético: o dionisíaco. O indivíduo caía
no esquecimento de si e perdia completamente a memória dos
preceitos apolíneos. A desmesura, a contradição e a volúpia
nascida da dor se expressavam de forma intensa. A Arte dionisíaca,
em sua embriaguez, expressava todo o seu sofrimento e sua dor. A
experiência dionisíaca assinala um sentimento místico de
unidade, ao invés de individualidade. Ao invés de autoconsciência,
ocorre uma desintegração do eu. Em vez de calma, tranqüilidade,
surge um êxtase, um enfeitiçamento, uma extravagância. Em vez
de sonho, visão onírica, é embriaguez, experiência orgiástica.
Há, também, um pesar, um desgosto pela existência, o sentimento
de que tudo é absurdo e impossível, que aparece com a volta ao
estado de consciência. Ao invés de escravidão ao sistema, o
estado dionisíaco significa homem
livre, rompimento das barreiras rígidas e hostis
estabelecidas pela sociedade ou pela 'moda': Apesar
das diferenças entre Apolo e Dionísio, ocorre a integração. Mérito
este da Arte. Dessa forma, a Arte dionisíaca, a Arte trágica é
um jogo com a embriaguez, sem a perda da lucidez. Ou seja, não se
trata de alternância embriaguez - lucidez, mas, sim, de
simultaneidade, em que se encontra o estado estético
apolínio-dionisíaco.
A Arte trágica, união entre aparência e essência, possibilita
uma experiência trágica da essência do mundo. Isso é
estabelecido através de uma integração: o apolíneo e o dionisíaco.
Essa
valorização dos instintos sobre a consciência é a afirmação
de que a perspectiva da vida é fundamentalmente a perspectiva dos
instintos, de um sistema hierarquizado de forças em relação.
Mais do que isso: fala-se de um perspectivismo do conhecimento,
que nega o caráter objetivo e neutro do conhecer. Conhecer, pois,
não seria explicar, e sim, interpretar. Sendo assim, não há,
pois, uma única interpretação possível e legítima.Não há
uma verdade universal. Portanto, se não há uma única interpretação,
se o conhecimento é perspectivo e as perspectivas são variadas,
ao conhecimento não cabe atingir
uma verdade. Critica-se, pois, a visão positivista, objetiva e
neutra da ciência e do conhecimento. O perspectivismo de
Nietzsche vai ao encontro de um fazer em Psicologia que não é
neutro, mas se implica no processo, buscando espaços ao plano
intensivo da diferença. Um fazer que não se limita ao plano
racional, mas que busca a produção de novos sentidos às
intensidades inconscientes. Um fazer para além do bem e do mal:
havendo espaço para afetos, desejos, paixões, vontade. Na base
do conhecimento, se encontra a perspectiva da vida definida como
vontade de potência. Falar de um conhecimento perspectivo seria,
então, falar de um saber que permite o interpretar, o compor,
juntamente ao sentir, ao vir a ser. Falamos, pois, de um saber e
um fazer plástico, híbrido, múltiplo, que supõe criação.
Isso não seria uma possibilidade de um saber estético aliado a
um saber racional? Ou, uma tentativa de produzir um conhecimento
aliado às sensações de quem o constrói? Referimo-nos a
alternativas, e não a uma única saída. Afinal, estamos falando
de perspectivas... Os
Signos Da Arte – Impressões Proust (1994) revela um modo de pensar a Arte enquanto fluxo, abrangendo impressões, percepções e sensações. Ele explicita diferentes signos, a matéria que os constitui, seus efeitos, sua multiplicidade, suas relações com o sentido e com as formas temporais nele implicadas: salienta o tempo enquanto redescoberta, mas não de um tempo passado, e sim do tempo puro, original. Os signos seriam variadas formas de mundos, com suas peculiaridades, seus modos, suas relações com diferentes temporalidades. Eles se organizam em círculos e se cruzam em certos pontos, formando unidade e pluralidade ao mesmo tempo: signos mundanos, signos do amor, signos das impressões e signos da Arte. Os signos mundanos seriam os signos vazios, estereotipados. Eles substituem ação ou pensamento. O aprendizado seria imperfeito e até mesmo impossível se não passasse por eles, pois adquire uma perfeição ritual, um formalismo, que é necessário no convívio social. Por outro lado, são os signos da futilidade e da mesmice. Através deles, somos facilmente "adaptados ao sistema". Os signos do amor, por sua vez, exprimem a intensidade dos afetos, o pluralismo das almas e dos mundos contidos em cada ser amado. Não são signos vazios como os mundanos, mas são mentirosos. Ou seja, não podem dirigir-se a nós senão escondendo o que exprimem, isto é, a origem dos mundos desconhecidos, das ações e dos pensamentos desconhecidos que lhes dão sentido. Tais signos trazem o sofrimento. Os terceiros signos falam das impressões ou das qualidades sensíveis. Trata-se de signos verídicos, que imediatamente nos dão uma sensação de alegria incomum. Após essa alegria inicial, passamos a uma fase de sentimento de obrigação, com o intuito de procurar sentidos no signo. E, finalmente, sentidos podem surgir daí. Por fim, Proust discorre sobre os signos da Arte. Estes seriam imateriais. Os outros signos, por sua vez, são materiais. Os signos da Arte se conectariam às essências. O mundo revelado da Arte reage com todos os outros signos, principalmente com os signos sensíveis. Mais do que isso: o plano estético integra o plano intensivo, dando-lhes o colorido de um sentido estético e penetrando no que eles tinham ainda de opaco. Isso significa dizer que, através da Arte, pode-se dar um espaço expressivo para o plano das intensidades, o plano da diferença. Proust traz, também, outra questão: o tempo perdido e o tempo redescoberto. O tempo perdido não é apenas o tempo que passa, mas o tempo que se perde. E isso significa dizer que não é um tempo enquanto criação e invenção, mas um tempo que passa, sem maiores produções. Já o tempo redescoberto caracteriza-se por um tempo que redescobrimos no âmago do tempo perdido e que nos revela a imagem da eternidade. É, também, um tempo original e absoluto. E essa eternidade pode se afirmar na obra de Arte. Seria o tempo enquanto criação, enquanto produtor de diferença. A cada signo corresponderia uma temporalidade específica. Embora cada signo tenha relação com um tempo em particular, isso não ocorre de forma separada. Ou seja, na realidade, os tempos e os signos se intercruzam, compondo variadas dimensões de tempo e sentido. O tempo que se perde prolonga-se no amor e mesmo nos signos sensíveis. O tempo perdido dos signos mundanos também pode surgir nos signos sensíveis. O tempo que se redescobre reage sobre o tempo que se perde e sobre o tempo perdido. Finalmente, é no tempo absoluto da obra de Arte que todas as outras dimensões se unem. Deleuze e Guattari (1992) argumentam que a memória intervém pouco na Arte. Não se comemora um passado, mas um bloco de sensações presentes que só devem a si mesmas sua própria conservação.Tais autores dizem que a fabulação criadora nada tem a ver com uma lembrança, mesmo ampliada, nem com um fantasma. O artista excede os estados perceptivos e as passagens afetivas do vivido. É um vidente, alguém que se torna. Da mesma forma, pode-se ficar preso a uma subjetividade que se faz de memórias e reminiscências, que seria o "sujeito-escravo" de Nietzsche (1994). Um modo de subjetivação que está sempre "remoendo" o que não se fez, o que não se teve, o que não se conquistou. Por outro lado, pode-se compor formas de existência que vão para além da memória e das reminiscências, aproximando-se das formas de criação presentes na Arte. Isso seria o sujeito-nobre de Nietzsche (1994), o tempo redescoberto do qual Proust nos fala. Essa diferença proustiana seria algo da ordem qualitativa da maneira pela qual encaramos o mundo, da mesma forma como Nietzsche nos fala da possibilidade da Arte trágica, como um prazer no desconstruir, como um criar incessante, com sofrimento e gozo, caos e estética, nas intensidades das sensações. A diferença, sem Arte, sem Psicologia, talvez seria o eterno segredo de cada um de nós. O tempo
redescoberto, enquanto criação, rompe com o tempo que passa,
perdido, sem sentido, contido em reminiscências, como nos diz
Nietzsche. Dessa forma, é preciso "esquecer" para
criar. O esquecimento que Nietzsche nos fala tem relação com o
que Proust argumenta do tempo redescoberto, no sentido de
possibilitar o vir a ser, rompendo com a ruminação, criando
outros percursos. Psicologia e Arte surgem como possibilidades
desse tempo que se redescobre. Na Arte, fala-se em
"ensaios", e não em treinos. Este último implicaria
uma repetição mecânica, buscando atingir um objetivo pré-definido.
Em esportes, treina-se com o intuito de vencer o jogo. Ao ensaio,
por sua vez, cabe a repetição que busca a diferença. O ensaio
permite invenção, possibilidade de transmutar o que se repete. Não
há uma objetividade da ação, algo se repete e, ao mesmo tempo,
de forma diferente. Isso seria o paradoxo entre diferença e
repetição na Arte e no fazer "Psi". Numa intervenção
em Psicologia, algo pode se repetir em relação a outras, mas,
cada fazer é singular. Dessa forma, estamos constantemente
"ensaiando" em nosso modo de intervir "Psi".
Estamos constantemente "intervindo" e "sendo
intervidos"... O Paradigma Estético
Na Psicologia - Ensaiar É Preciso Guattari (1996)
discorre sobre o “novo paradigma estético” em nossa
contemporaneidade, colocando-o numa posição privilegiada dentro
dos agenciamentos coletivos de enunciação de nossa época. Para
ele, o termo mais adequado seria o "Paradigma proto-estético",
visto que não se pretende falar de uma Arte Institucionalizada.
Isto é, não se tem o intuito de discorrer sobre as obras artísticas
enquanto tal, mas sim sobre uma dimensão da criação em seu
estado nascente, potência que tem a capacidade de emergir às
aleatoriedades das intenções de materializar universos
imateriais. Ou seja, trata-se de agenciar modos de virtualização,
dar espaços à diferença. Isso vem ao encontro do que Nietzsche
e também Proust discorrem sobre a possibilidade da via estética
dar formas de criação e expressão às multiplicidades. Nesse sentido,
Psicologia e Arte podem ter ressonâncias. A Psicologia estética
advém da tentativa de potencializar a diferença, o devir.
Trata-se de um intervir que vai se compondo e recompondo,
inventando formas de ação micropolíticas, no sentido de
subverter as linhas duras de existência. Esse fazer vai sendo
construído aos poucos, pelas bordas, visto que precisamos de
ensaios para irmos compondo novos territórios: uma "Psi"
que possibilite espaços à mutação, a formas de existência
jamais vistas, jamais pensadas. Ou seja, esse espaço a novos
sentidos, existente na Arte, pode estar presente numa determinada
concepção de pensar e agir "Psi". Procurando, pois,
escapar às modelizações adaptativas, engendrando-se nas mutações
de nossa época, a psicanálise procura abrir seu campo de
sentimento e de ação, buscando maior plasticidade em seu fazer.
Através de maior maleabilidade, nossas ações "Psi"
podem ser capazes de transformações políticas do desejo em
nossa contemporaneidade. Como diria Nietzsche, um fazer para além
do bem e do mal. A questão do
privilégio dado à palavra, por exemplo, não está só no campo
da análise, mas acaba ocorrendo em muitas práticas "Psi".
O que se discute, aqui, não é a abolição da palavra. Afinal,
somos seres humanos e, portanto, falamos. Entretanto, esse não é
o único modo de comunicação, de produção de subjetividade.
Precisamos estar abertos a outros jeitos de existência, além da
verbal. Nietzsche já nos disse que o homem contemporâneo produz
em excesso uma subjetividade extremamente racional, dando importância
em demasia às palavras, restando poucos espaços a outras vias de
expressão. Proust, por sua vez, argumenta que os signos da Arte
seriam primordiais e estariam regidos por impressões, sensações,
fluxos intensos. A Psicologia Estética procura acessar não
somente o plano racional, mas também o plano intensivo, das sensações,
dos fluxos, das impressões, do desejo, do corpo. Isso explicaria
por que se pretende uma intervenção polimorfa, múltipla,
variada. Portanto, o novo paradigma estético tem implicações
ético-políticas,
no momento em que a criação remete à responsabilidade da instância
criadora com respeito ao criado. Possibilitar, pois, uma expressão
de alteridade é, também, transformar as linhas de desejo no
campo social. Poderíamos pensar
nas linhas de desejo das quais Rolnik (1989) nos fala. A primeira
seria a dos afetos, do desassossego, das intensidades. A segunda
linha seria a dos ensaios, experimentações, tentativas. Já a
terceira seria a dos territórios. Na Arte, muitos podem ser os
afetos agenciados. Falar de perda de território é entrar na
questão da intensidade de algo que é, ao mesmo tempo, dor e
plenitude - um processo que pode ser potencializante. Quando nos
propomos a realizar uma intervenção em Psicologia que saia de um
fazer mais tradicional, standard,
somos tomados por inúmeras dúvidas, incertezas, não sabendo
muitas vezes ao certo onde está o "lugar da psi". Rolnik (1989)
questiona o que fazer, então, com o afetamento. Explicita-se, então,
a segunda linha de vida, que seria o campo da experimentação,
dos ensaios.Trata-se de um vaivém incessante, inconsciente e
ilimitado, que nos possibilita inventar outras formas de ser. O
ensaio não é repetir, mas criar, ir a fundo no campo das
intensidades. Possibilitar a expressão dos afetos, ainda que a
expressão seja diferente do afeto em si, pode potencializar um
engendramento de novas formas. Isso tem relação com o que Proust
nos fala da diferença e da repetição, sendo estas a potência
da essência. Isto é, através delas, ensaia-se novas
possibilidades, novos sentidos.
Da mesma forma, Nietzsche argumenta sobre a Arte trágica
como possibilidade de ensaiar a união entre aparência e essência,
dando espaços à diferença, ao devir. A terceira linha
seria a dos territórios. Trata-se de uma linha finita e limitada.
Uma segmentação dura, com territórios bem discriminados e
formas definidas. Rolnik (1989) nos fala que apenas essa poderia
ser considerada uma linha, pois é a única visível e mais estável.
As outras seriam fluxos intensos, que se movimentam
incessantemente. Assim, a formação
do desejo no campo social se dá através do exercício ativo
dessas três linhas. Entretanto, isso não ocorreria de forma
linear. Elas podem ser emaranhadas, imanentes umas às outras. Por
exemplo, podemos estar na linha de um território e, de repente,
perdê-la, ficando totalmente desterritorializados.Em nossa
contemporaneidade, o que acaba ocorrendo freqüentemente é um
salto da primeira linha à terceira: do plano dos afetos pula-se
diretamente aos territórios. Onde ficaria a simulação, o
ensaio? Nesse caso, podemos nos sentir num 'abismo', 'no vácuo',
'oco de sentidos', como nos diria Fernando Pessoa (1980). O homem
contemporâneo parece não se permitir lançar-se aos ensaios, às
incertezas, à imprevisibilidade da existência. Ele quer apenas
contar com o certo, com o previsível, com o já demarcado. A
linha dos ensaios permitiria exatamente esse pensar fora das leis
e das certezas, abrindo espaços ao inusitado, às tentativas de
produzir diferença. Proponho pensar uma
Psicologia que abre espaços ao plano da simulação. Guattari
(1996) fala de uma Psicologia mutante. É preciso, pois, ensaiar,
experimentar, até que algo novo se constitui. Podemos traçar um
paralelo quando assistimos a ensaios de um movimento artístico e
saímos com a impressão de que "cada ensaio foi igual ao
anterior, mas, ao mesmo tempo, diferente." Entretanto, não
se trata de um fazer de qualquer jeito, como se não fossêmos
levar em conta nenhuma concepção teórica, caindo em "achismos".
Há concepções teóricas que vão sustentar o fazer, mas a
intervenção vai para além do teórico, ensaiando novos passos,
de acordo com cada realidade. Retomo o PsicoArte
– intervenção feita em estágio. Dentro deste, nós criamos
uma peça teatral que problematizava a própria Psicologia. Nosso
grupo estava envolvido nesse fazer, que ia se compondo nos
variados momentos em que foi sendo apresentada. Em cada intervenção,
a peça nascia e morria. Num outro momento que a apresentássemos,
ela já seria outra, já falaria de outras formas, sobre outras
coisas. O grupo também já seria outro. Nas primeiras apresentações,
os movimentos eram mais rígidos, cada um sabia o caminho a
seguir, com o roteiro muito bem ensaiado e pré-estabelecido. Aos
poucos, entretanto, fomos discutindo e percebendo que a peça
poderia ser mole, Arteira, no sentido de estar em constante mutação.
Sendo assim, as apresentações seguintes passaram a ser mais flexíveis,
os movimentos mais soltos, imprevisíveis até. O que percebemos,
daí, é que nossa intervenção passava de um
"endurecimento" anterior, para uma possibilidade de criação
perante o inusitado. Além disso, passamos a interagir mais um com
o outro, diferentemente do início, quando cada um 'dava a sua
fala', de forma desconectada. As sensações que se engendravam na
equipe eram intensas. O grupo intervinha ao mesmo tempo em que era
intervindo. Seguidamente, surgiam discussões: era uma intervenção
"Psi", ou simplesmente teatro? Onde ficaria o lugar da
Psicologia? O que realmente produzíamos? Dessa forma, partir para
uma ação não estereotipada, quase inédita, não é tarefa fácil,
já que difere do que se aprende e do que se espera de 'estagiários
de Psicologia'. Guattari (1996) argumenta sobre uma política de
ética de singularidade, que possa romper com consensos, com
'seguranças infantis' provenientes da subjetividade dominante. Os
dogmatismos serviriam apenas para bloquear os pontos de
criacionismo que buscam sentido onde aparentemente não há
sentido, nas manifestações de curto-circuito entre a
complexidade e o caos. Foucault in
Deleuze (1992) discorre sobre a existência como obra de Arte,
regras que são éticas e estéticas, constituintes de modos de
existência ou estilos de vida. É o que Nietzsche (1992)
descobria como a operação artista da vontade de potência, a
invenção de novas "possibilidades de vida". Proust nos
fala do tempo redescoberto que há na Arte, como possibilidade de
transmutação. Do mesmo modo, penso numa "Psicologia estética",
no sentido de descobrir outras existências, outras formas de
intervir, outros sentidos para o que se estuda e
discute.Entretanto, seria a Arte sempre produtora de diferença?
Ou, de outro modo, há a possibilidade de ela também ser
capturada em nossa época? Quais seriam os rumos desta numa era
homogeneizante? E a Psicologia? Como tem se produzido em nosso
contexto social? Nietzsche apud
Marton (1983), no início de sua obra, já fazia críticas às
instituições teatrais da Europa. De um lado, havia os
espectadores, demandando somente prazer e diversão. De outro, os
artistas, pretensiosos e preconceituosos. Além disso, aos empresários
restava uma preocupação única com lucros. A cultura
encontrava-se subjugada pelas exigências do momento, pelos
caprichos da moda, pelos ditames da opinião pública.Portanto, a
Arte havia se tornado mercadoria de luxo à disponibilidade de uma
sociedade de luxo. As salas eram freqüentadas por tolos e fúteis,
que nunca se preocupavam com o povo, ou com questões sociais. O
que havia de mais puro na Arte havia sido esquecido: seus mitos,
melodias e danças. Esse conjunto de fatores compunham a atmosfera
morna e nociva dos meios artísticos. De certa maneira,
isso ainda ocorre. O acesso à Arte continua sendo mercadoria de
luxo. A uma minoria restrita fica a possibilidade de freqüentar
um teatro, cinema, ou atelier. Quem pode se dar ao luxo de freqüentar
aulas de dança, poesia ou Artes plásticas? Isso nos diz o quanto
a Arte acaba sendo possibilidade de uma minoria. Por outro lado, e
a Psicologia? Muitas vezes, também esta se torna artigo de luxo.
Quem pode se "beneficiar" de tal intervenção? Também
não se trata de uma maioria. Apesar das
dificuldades, encontramos possíveis subversões. Isso significa
dizer que, tanto na Arte como na Psicologia, procura-se encontrar
formas desses paradigmas não ficarem restritos a um número
reduzido de formas de atuação. Se pensarmos na Arte, existem os
artistas de rua, o teatro de rua, os programas de ensino
vinculados com algum tipo de ensino-aprendizagem ligados à Arte.
Em relação à Psicologia, também podemos buscar intervenções
que não se produzam apenas na elite, mas em todas as esferas
sociais. Pensamos, então, nos programas vinculados com
prefeituras e universidades, visando um estudo e um fazer que
envolva os membros da comunidade.
Apesar dos esforços nesse sentido, tudo ainda se dá de
forma reduzida, havendo, pois, a necessidade de se aumentar as
possibilidades de produção em Arte e/ou em Psicologia. Além disso,
discute-se a questão das capturas no campo da Arte e da "Psi".
Seria a Arte sempre ponto de mutação, de ruptura, ou ela também
está sujeita a capturas em nossa sociedade capitalística? Poderíamos
pensar, pois, que é difícil de se entrar na discussão do que
seria realmente Arte, ou, de outra forma,
o que seria mera reprodução de subjetividades já
capturadas pelo sistema. Concebemos, então,
a possibilidade de diferentes graus de intensidade produzidos numa
obra de Arte. Há produções, por exemplo, que mais parecem imitações,
que se tornam muito iguais a outras formas já vigentes. Existem
criações artísticas que parecem estar longe de um processo de
criação, caindo na mesmice e na futilidade de nosso contexto
atual. É como se estas nada dissessem, nada subvertessem. Assim
também podemos encontrar fazeres em Psicologia que nada
transformam, indo apenas ao encontro dos interesses do sistema,
sendo completamente capturados pelas formas vigentes e morais. Há, porém, as rupturas: um processo artístico que realmente crie, rompa com padrões, num ato micropolítico de transformação. Podemos pensar numa Psicologia que também se propõe micropolítica. Uma intervenção "Psi" que procura abrir espaços às intensidades, possibilitando formas de atualização às virtualidades:mutação de valores e existências já envelhecidas e enrijecidas pelas formas de captura de nossa contemporaneidade. É a isso que a "Psicologia estética" se propõe! Simulando Uma Saída Assim, precisamos
pensar e discutir sobre um fazer em Psicologia mais ético-estético,
abrindo mão do 'politicamente correto', dos cientificismos e
tecnicismos, 'para não morrer na praia': não procurar por
'curas', mas sim, por possibilidades de se potencializar a diferença.
Optar por uma Psicologia não pronta, híbrida, porosa, fala também
de uma forma própria de acreditar na transmutação do mundo e
das coisas, de preferir lidar com o inusitado, embora sabendo 'na
pele' o quão complicado isso possa ser. Acreditar na
multiplicidade da Psicologia significa acreditar na multiplicidade
do mundo, das formas de existência, na plasticidade da saúde, na
vida trágica. Sair de um dualismo: "Psi" ou
"Arte", optando por um fazer em Psicologia plástico.
Isso foi um processo que me demandou muitos e muitos ensaios, que
ainda me demanda e que continuará em movimento. Para além de uma
leitura das dicotomias, fui construindo vários sentidos que
passaram a percorrer meu 'mar' de sensações e
conhecimentos.Entre incontáveis simulações, pude ir descobrindo
que a dualidade das coisas não passa de uma ilusão de nossa
contemporaneidade, de nossa cultura. Ao invés de optar entre o
certo e o errado, entre o correto do profisssional ou o avesso da
Arte, fui descobrindo uma forma de compor no "entre". Em
vez de "ruminar o tempo perdido", procurar a
potencialidade que pode haver no tempo redescoberto, no tempo da
criação de Proust. Ao invés de procurar "regras",
buscar a "ética". Estudar e viver
Psicologia como uma Arte, sentindo as intensidades frenéticas no
corpo, nas dobras que vão se compondo. Não deixar que o tempo
passe, sem sentido, mas produzi-lo como criação, vivendo o trágico
de cada intervenção, cada forma de existência. Portanto,
lancemo-nos ao intempestivo de uma "Psi' Artística.
Arrisquemo-nos em problematizar uma intervenção que produza
momentos de incubação de novas línguas, de novos modelos de
subjetivação. A prática da "Psi" é, também, uma prática
política, podendo possibilitar realidades sociais diferentes.
Como simular saídas? Difícil de responder. Precisamos, pois,
pensar nas múltiplas respostas que pode haver, questionando
conhecimentos e formas de intervenções. Simulando ensaios,
lancemo-nos ao proibido! E que nos seja permitido cair, para que o
novo possa surgir daí... "A QUEDA |
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| Vilene
Moehlecke:
Osvaldo Aranha, 110 B.Centro. CEP 93010-040. São Leopoldo/RS Fone: 14 -5924405 E-mail: vicarte7@hotmail.com REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a Filosofia. Rio de Janeiro:Ed Rio, 1976. -- & GUATTARI, Félix, O que é a Filosofia? Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992. -- Proust e os Signos. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987. -- Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992. DJAVAN & Gabriel O Pensador. A Carta. Bicho Solto. Rio de Janeiro, Sony Music, 1998. FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 3a. ed. 1982. GUATTARI, Félix. O Novo Paradigma Estético. In: SCHNITMAN, Dora Fried. Novos Paradigmas, Cultura e Subjetividade. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade. São Paulo: Paz e Terra, 1999. MARTON, Scarlett. Friedrich Nietzsche. São Paulo: brasiliense, 1983. NAFFAH NETO, Alfredo. O Inconsciente como Potência Subversiva. São Paulo: Escuta, 1991. --- A Psicoterapia em Busca de Dioniso - Nietzsche visita Freud. São Paulo: Escuta, 1994. NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo - Como Alguém se Torna o que é. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. ---. O Nascimento da Tragédia, ou Helenismo e Pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. PELBART, Peter Pál. Da Clausura do Fora Ao Fora da Clausura - Loucura e Desrazão. Ed brasiliense, 1989. PESSOA, Fernando. O Eu profundo e os outros Eus. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. PROUST, Marcel. Nas Trilhas da Crítica. São Paulo: Imaginário, 1994. ROLNIK, Sueli. Cartografia Sentimental: transformações políticas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 1989. -- Cidadania e alteridade: o psicólogo, o homem da ética e a reinvenção da democracia. Fala proferida da mesa redonda "Cidadania e Alteridade", no IV Encontro Regional de Psicologia Social da ABRAPSO, em 30/05/92, na PUC, São Paulo. |
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