Sócio-Psicodrama  Transpessoal

Maria Victória, "A história de um Milagre"

Débora Pena

Para trabalhar em Socio-Psicodrama Transpessoal é fundamental compreender o homem se desenvolvendo, evoluindo e interagindo em lugares de acontecimentos em contínua modificação e troca (Locus). É assim que J.L.Moreno define as matrizes, que categoriza em matriz de identidade, familiar, social e cósmica.

Quando o protagonista, seja um indivíduo ou um grupo, desdobra uma cena psicodramática, é fácil observar um corpo em movimento comprometido com o trabalho, assim como o indivíduo em seu momento psíquico e um grupo que acompanha, contem e interage, mas existe também um corpo energético formado por energia física, psíquica, grupal e cósmica. Tanto no físico como no psíquico e no grupal podemos inferir um potencial energético. Esta energia está contida e por sua vez interagindo num espaço energético cósmico: a Matriz Cósmica. Entender esta energia é compreender que hoje tem haver com ontem e por sua vez com um amanhã; esta energia é a criação em movimento, é evolução, é o equilíbrio do qual fazemos parte, cumprindo uma função energética em interação constante.

Em suma, compreender que o homem, assim como cada espécie, planeta, etc..., está comprometido em cada um e em todos os movimentos do universo, faz com que quando observamos uma cena tentemos compreendê-la não só no corporal, no individual e no grupal, mas um entender mais amplo, com o qual esta cena está transcorrendo numa tarefa cósmica, que interage e modifica tanto o micro quanto o macro, onde esta história, contada no aqui e agora do cenário, é uma síntese, que resulta em uma forma particular de um indivíduo expressar um instante, em um contexto grupal determinado, imerso em um momento universal, através da sua forma particular de interagir.

Em geral, para os psicodramatistas não é difícil diferenciar quando uma cena está localizada no corpo, no psíquico ou no grupal; e mais, eles desenvolveram aquecimentos específicos para acessar as cenas localizadas nas diferentes matrizes. Também entendem um corpo interagindo com uma história e um grupo, mas é difícil compreender uma cena interatuando ou emergindo na matriz cósmica. Existem cenas que ocorrem na matriz cósmica e a única maneira de elaborá-las é agindo diretamente nesta matriz com técnicas dramáticas específicas.

Vou ilustrar este último com uma experiência que compartilhei com um grupo de alunos que cursavam a matéria de psicodrama no curso de Psicologia Corporal:

Nas primeiras aulas, trabalhamos sociodramaticamente a organização da matriz grupal, já que nem todos os membros do grupo se conheciam. Na terceira aula, já estruturada a matriz, emerge com clareza a necessidade de um ritual de incorporação, já que no grupo se fala repetidamente de nascimentos. A partir deste tema monto um aquecimento específico para que o grupo, organizado em pequenos grupos, gere imagens em torno deste tema específico.

Surgem três cenas:

-      o Sol interagindo com a Terra;

-      o nascimento de uma planta;

-      a imagem que o grupo denominou de “Adoração”.

A última imagem representa um bebê em seu berço rodeado por seus familiares. Quando pergunto o nome do bebê aos familiares, respondem: “José e Maria”. Desdobrando a cena surge o nascimento do menino Jesus em Belém, com os Reis Magos, a estrela, os animais, o presépio com toda sua beleza e o canto noite de paz. Como o grupo se achava frente a necessidade de elaborar a possibilidade de cada um de seus membros de se incorporar e de se tornar parte do mesmo, isto os levou a construir um ritual arquetípico que falava de incorporação. O nascimento de Jesus nos fala de como um bebê se incorpora a comunidade através do amor e da adoração, nos fala do milagre de nascer e poder pertencer.

Uma aula mais tarde compreendi mais profundamente esta cena. O grupo não só expressava o milagre de nascer e o pertencer, mas estava também se preparando para gerar um milagre na realidade.

Na quarta aula volta ao grupo Fabiana, uma jovem grávida que havia faltado a aula anterior. Fabiana me conta, com muita dor, que seu bebê de 23 semanas de gestação havia sido diagnosticado como hidrocefálico.

Eu lhe pergunto se existe alguma esperança, a esta altura da gestação, de que a hidrocefalia cedesse. Ela me conta que se isto ocorresse devia acontecer nos próximosquinze dias.

Ante esta probabilidade, pequena, mas possível de acontecer, de que a patologia desaparecesse, me atrevi a oferecer-lhe um trabalho com a cena em psicodrama para tentar ajudar ao seu bebê.

Ela aceita e começamos a trabalhar.

A hipótese que mantive ao longo do trabalho foi a de que o psicodrama, através do desenrolar de uma cena, mobiliza energia em todos os níveis: físico, psíquico, grupal e cósmico. Portanto, quando desenvolvemos uma cena nos conectamos com as distintas formas de energia. Se a energia tem sua expressão física na linguagem corporal, psíquica na linguagem do pensamento e grupal através do coinconsciente que se expressa no desenrolar dos distintos papéis, deve haver uma expressão específica desta mesma energia no cósmico.

Mesmo que esta energia não seja observável no consciente, talvez no inconsciente tenha distintas formas de se expressar; mas com certeza esta energia tem que ser, em si mesma uma forma universal de linguagem, passível de ser captada pelo mais profundo de nosso ser, a essência.

Em resumo, a energia que se desprende de uma cena psicodramática, seria em si mesma uma linguagem universal e que, por ser assim, nos possibilitaria a comunicação com o bebê de Fabiana.

Para isto era necessário desenvolver uma cena que transmitisse ao bebê a possibilidade de recorrer a sua memória genética de forma que pudesse saber como poderia permeabilizar a membrana que impedia a liberação do líquido, cuja compressão lhe provocava sofrimento cerebral.

A partir desta hipótese comecei a dirigir o psicodrama.

 Minha primeira sensação foi a de que a cena anteriormente desenvolvida pelo grupo não havia sido apenas um ritual de incorporação, mas que através deste ritual, o grupo havia se conectado com energia crística, “energia do milagre”.

Me pareceu importante voltar a invocar esta energia, organizando uma matriz que a contivesse, mas que ao mesmo tempo fosse a indicada para conter esta mãe e ajudar seu bebê.

O aquecimento que utilizo consiste em pedir ao grupo que forme uma estrutura, onde cada membro sinta qual o melhor lugar para acompanhar este processo.

O grupo cria uma escultura que contém mensagens de amor, fé e esperança.

Para a Fabiana, que até este momento estava fora do grupo observando tudo, peço que se coloque no espaço do cenário aonde Jesus havia começado seu caminho na cena anterior e que se conecte energeticamente.  

Elegi esta consígnia por considerar que este lugar do cenário não apenas simbolizava, mas continha o início de um caminho energético e facilitava o aparecimento da energia crística, expressada no nascimento de Cristo.

Logo peço ao grupo que organize uma imagem que sintam que contém a energia de cura; o grupo arma um círculo.

Sendo Fabiana seu ventre, lhe peço que dê uma mensagem a seu bebê, antes de tomar seu papel. Ela lhe fala de fé e esperança.

Peço que tome o papel do bebê no centro do círculo escutando a mensagem de amor e esperança. Fabiana se conecta corporalmente com o papel de seu bebê. A imagem corporal que apresenta é um corpo rígido, seu colo dobrado e seus olhos salientes.

Peço ao bebê que se conecte com o que está ocorrendo em seu cérebro e que, se possível, o represente. O bebê nos mostra um cérebro comprimido por um líquido que não pode ser liberado devido a um tampão. Lhe peço que tome cada um dos papéis e que faça um solilóquio em cada um deles.

Quando chega ao papel do tampão grita: “Não dói mais!”; lhe peço que acompanhe este grito com um movimento. Jogando com esta insígnia disse liberar o tampão. A imagem que surge é a do líquido sendo liberando lentamente e indo ao encontro do líquido amniótico, como se fosse um jogo.

Peço a Fabiana, no papel de seu bebê, que volte ao centro do círculo e que deixe que este processo ocorra em seu cérebro. Na medida em que isto vai ocorrendo surge a imagem de um bebê em posição fetal relaxando cada vez mais e dirigindo seu polegar para sua boca em atitude de sucção.

Logo lhe peço que coloque um ego auxiliar no papel de seu bebê para que ela possa novamente ser parte de seu ventre e daí possa ver seu bebê.

Finalmente lhe pergunto como deseja terminar a cena. Fabiana abre o círculo e assume espontaneamente a posição de parto. Antes de deixar que o parto ocorra, peço a ela que monte a imagem que vai acompanhar seu parto. Ela já havia me falado sobre a angústia de seus familiares diante da possibilidade de hidrocefalia, logo era muito importante para ela ter a possibilidade de integrar sua família na imagem final.

Fabiana monta três imagens:

-      seu útero antes do parto;

-      a sala de parto onde estava a parteira e seu marido ansiosos;

-      um cômodo de sua casa, onde estavam jogando seu outro filho com seu avo esperando a notícia do nascimento.

Fabiana põe em movimento simultâneo as cenas, no qual nasce seu bebê com parto normal; é recebido por seu papai e logo é levado para casa, onde é colocado em seu berço e rodeado por sua família.

Fabiana, sem saber, havia escolhido como ego auxiliar para o papel de seu bebê a mesma pessoa que havia jogado o papel de Jesus. Portanto, nos encontrávamos novamente em frente a imagem “Adoração”. Esta imagem já nos falava de Maria e José adorando seu filho, e agora nos fala de Fabiana junto à sua família adorando Maria Victoria, um bebê saudável que levaria este nome por haver superado vitoriosamente sua hidrocefalia.

Maria Victoria foi artífice de sua própria cura, acompanhada por seu grupo, sua comunidade que através da energia do amor deram-lhe a possibilidade do milagre.

Desta forma, dei por finalizado o psicodrama e muito emocionados compartilhamos nossas impressões.

Quinze dias mais tarde, novas ecografias nos revelaram que não haviam mais rastros da hidrocefalia. Meses depois nasce uma linda menina sadia que se chama “Maria Victoria”.

Débora Pena é psicodramatista na Argentina.


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