Síndrome de Tourette
um caso em andamento - hipnose ericksoniana

Daniel Garbuglio

A    Síndrome de Tourette é um distúrbio neurológico genético, que foi inicialmente descrita pelo médico Jean Marie Itard, em 1825.Relatava o caso de um paciente que emitia sons semelhantes a latidos, além de verbalizar obscenidades nos momentos mais críticos da doença. É considerada uma doença grave, que causa grande comprometimento psicossocial, causando sofrimento aos portadores e seus familiares.

A Síndrome de Tourette se manifesta cerca de três a quatro vezes mais no sexo masculino do que no feminino. É encontrada independente da classe social.A análise de segregação de famílias mostra que a ST é herdada de acordo com o padrão autossômico dominante com penetrância variável dependendo do sexo.

A criança com Síndrome de Tourette exibe muitos tiques motores involuntários e um ou mais tiques vocais durante a doença, que necessariamente não são concomitantes.Os tiques são movimentos súbitos que vão desde os movimentos de cabeça, ombros, todo o corpo, caretas, piscar de olhos, ou comportamentos repetitivos de tocar coisas e piscar os olhos.Os tiques vocais aparecem em algum momento da doença como: fungar, tossir repetidamente, risos involuntários, pigarro e uma variedade de sons e gritos, havendo presença de ecolalia e coprolalia. O inicio da doença se dá antes dos dezoito anos. Um aspecto característico da doença é que os sintomas mudam com o passar dos tempos. Uma criança pode apresentar por uma determinada época ‘piscar os olhos e fungamento’ e mais adiante aparecer ecolalia ou fazer “cleques” com a língua. O diagnóstico é difícil e apresenta muitos sintomas associados à doença.O tratamento da ST consiste em duas abordagens associadas: o tratamento psicossocial e o farmacológico.

Relato de caso clinico:

J, 12 anos, sexo feminino, 6ª. série. Foi encaminhado ao meu consultório pelo seu médico neurologista, que já conhecia o meu trabalho em hipnoterapia. J. é filha única. Seu parto foi normal, sem intercorrencias. Apresentou desenvolvimento neuropsicomotor sem anormalidades. Há um caso igual ao seu na família do pai, sua irmã caçula que também apresenta a ST.

J. vem de uma família de classe média baixa, com educação bastante rígida. Seus pais são católicos. O pai é auxiliar de enfermagem, trabalhando em dois hospitais. A mãe era secretária, mas desde o aparecimento da doença de J. não está mais trabalhando.O casal chegou ao meu consultório descrente de todo e qualquer tratamento médico, pois durante esses cinco anos peregrinaram por consultórios e hospitais de vários profissionais da área de saúde, como também foram realizados vários tratamentos farmacológicos e terapêuticos sem sucesso.

 J. é uma menina educada, inteligente e amável e como é natural de sua idade, com todos os problemas típicos  de uma pré-adolescente, acrescidos dos da ST. J. manifestou a doença aos seis anos de idade, após presenciar uma briga entre sua mãe e a vizinha.Os tiques começaram de uma maneira discreta e depois foram se intensificando.No ultimo ano os tiques ocorreram sem parar, acrescidos de um piscar intenso dos olhos bem como o aparecimento dos tiques vocais que pareciam latidos e faziam com que J. estremecesse todo o corpo. Associados aos tiques vocais começaram a aparecer palavras obscenas (coprolalia) que ocorriam involuntariamente e fora de qualquer contexto, o que deixava os pais incrédulos e a paciente deprimida.Os tiques motores foram ao longo do tempo mudando de localização.Apresentou movimentos de nariz, caretas faciais e levantar dos ombros. Fungamentos e pigarros também eram presentes. 

O tratamento medicamentoso foi realizado por três anos com relativo sucesso. Atualmente todos os medicamentos utilizados apresentam uma serie de sintomas adversos tais como sedação, disforia, ganho de peso, vômitos, ânsias...Várias associações medicamentosas foram feitas sem sucesso. A cada troca de medicação os tiques aumentavam de intensidade ou apareciam outros. Segundo os pais e a paciente, os remédios não faziam mais efeitos como também ela passava muito mal ao tomá-los (sic).

Como a maior parte do dia J. fica na escola e grande parte dos seus problemas vem do convívio social iniciei o meu trabalho encaminhando os pais de J. para a ASTOC (Associação Brasileira se Síndrome de Tourette e Tiques), que é uma associação voluntária, e oferece palestras para pais, educadores e colegas de pessoas com ST.

 J. já havia trocado de escola três vezes e ia trocar pela quarta vez.Com o trabalho envolvendo toda a escola, J. se sentiu acolhida e pode falar do seu problema livremente, até arrumando entre os colegas, muitos aliados.

Para os professores foi importante conhecer á respeito da doença, pois muitos atribuíam aos tiques de J. indisciplina e gozação, fazendo com que ela fosse expulsa da classe por diversas vezes.Para tranqüilidade e surpresa de J. seus colegas reagiram positivamente às explicações da doença, pois muitos não entendiam as caretas e os movimentos de J. principalmente os tiques vocais .Assim a paciente pode ser vista na escola sem discriminação por parte dos alunos e professores, como também ficando claro que atitudes superprotetoras eram o que menos J. precisava.  J. não apresentava outros distúrbios associados a ST.Seu nível de atenção é bom e até o momento não se tem observado comportamentos obsessivos compulsivos e não há a utilização por parte de J. em rituais. Não há distúrbio de aprendizagem.

Com a família mais estruturada iniciei o meu trabalho no consultório com J. Na hipnose Ericksoniana cada paciente é único e as sessões são planejadas antecipadamente.Para o terapeuta ericksoniano é importantíssimo conhecer o funcionamento cerebral, já que os hemisférios cerebrais realizam funções diferentes, interconectados pelo corpo caloso. Na hipnose nossas funções estão mais orientadas pelo cérebro direito, que possui uma linguagem não-verbal, que inclui sensações, imaginações e fantasias, que são instrumentos que podem ser usados para a mudança do paciente. O cérebro direito, que é emocional e subjetivo, contrapõe-se ao cérebro esquerdo, cuja função é lógica, objetiva e formal. No transe a gama da consciência é ampliada facilitando que a percepção e a expressão sejam complementadas.

O primeiro objetivo no tratamento de J. é que ela conseguisse tomar a medicação, o que talvez fizesse com que a freqüência dos tiques abaixasse. Assim usando o principio da Utilização de Erickson, comecei a “Semeadura”, visando estabelecer mudanças futuras, por meio de aprendizados de J. adquiridos durante toda a vida.

 J. entrava em transe muito facilmente, pois havia um bom rapport e motivação para que o trabalho fosse realizado. Seu transe é de nível médio e acredito que é o transe que mais desenvolve a capacidade de abrir possibilidades para o inconsciente. Aqui J. participava de todo o processo, aparecendo todos os sinais físicos de uma constelação hipnótica. Durante a indução procurei usar a absorção, a ratificação e a eliciação.

 Na absorção usei o método da percepção cinestésica, fazendo-a perceber o calor, o tônus muscular,a temperatura,o conforto, misturando também alguma coisa da percepção visual incluindo imagens, lugares e cores. Truísmos foram associados, yes set utilizados com pressuposições e injunções simbólicas. A dissociação entre mente consciente e inconsciente também foi utilizada, aliando-se a dissociação o porquê de fazê-la.

 Na eliciação trabalhei a aceitação do remédio por parte do organismo da paciente, que era o principal objetivo do nosso tratamento. Aqui foram usadas várias metáforas, algumas conhecidas, mas todas adaptadas à realidade de J. Eis algumas das metáforas: A porta negra,... A borboleta,... Solos,... O que você quer ser?...Pintas de cores diferentes...

Com este trabalho o organismo da paciente começou a aceitar os medicamentos, o que fez com que os tiques reduzissem na ordem de 60%. A paciente estava mais calma e interagindo com o meio de uma maneira diferente, e seus pais também passaram a apreciar mais o trabalho feito com J.

Entretanto na Páscoa J. foi viajar. Fiquei sem vê-la por duas semanas. Sua mãe suspendeu a medicação o que fez com que os tiques voltassem numa intensidade violenta.Os olhos piscavam sem parar, o corpo balançava e estremecia a todo o momento, os tiques vocais estavam mais freqüentes e guturais, os cleques com a língua ocorriam sem parar...O médico de J. e eu suspeitávamos que não era a primeira vez que sua mãe alterava a medicação.

Assim readaptamos os objetivos no tratamento de J. Nossa intenção era que a paciente se tornasse responsável por tomar a sua medicação não tendo mais a atitude passiva de receber o remédio pelas mãos da mãe, que interferia no processo.Desenvolvemos todo um trabalho, no sentido de responsabilizar a paciente para o seu processo de cura .Novas técnicas foram usadas no tratamento de J. A paciente então teve uma melhora de 90% nos tiques, segundo o médico que a trata.Utilizamos os seguintes exercícios: eu aprendo o que se chama o que eu sinto..., a ensaiar o meu futuro...,a colaborar com minha cura física e emocional...confeccionar novos trajes para mim......(Autohipnose: Apriendendo a caminar por la vida)

Atualmente estamos com novas propostas no tratamento de J. É sabido que pacientes com a ST, ao menstruarem os tiques desaparecem.Como a paciente está na fase pré-menstrual, estamos desenvolvendo todo um trabalho usando todos os recursos da hipnose naturalista, no sentido que talvez o organismo dela elimine os tiques quando a menarca ocorrer. J. tem reagido muito bem nesta fase do tratamento, e atualmente sua única preocupação é o de uma adolescente que quer namorar.. ..

Daniel Garbuglio – Psicoterapeuta

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