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1-Introdução
Esta
reflexão surge a partir das minhas inquietudes vivenciadas no âmbito
do meu consultório onde
atendo adultos,
casais e famílias.
Inquietudes referidas
ao contexto dos valores queregem nossas relações num
momento histórico que se caracteriza pela busca
de uma
nova ética;
ética que se afaste dos códigos de uma
moral rígida
por uma
parte e de
uma ausência de códigos por outra. Esta revolução de
valores se
manifesta nas demandas terapêuticas diferentes daquelas
predominantes até a década
do 80.
A
minha discussão terá como pano de fundo as idéias de Gilles
Lipovetsky acerca Dos caminhos seguidos pela ética no ocidente e as reflexões do dr.
Victor R.C.S Dias acerca das mudanças
do perfil
dos clientes
que procuram
atendimento psicoterapêutico nas últimas décadas.
2-O
Caminho da Ética no Ocidente
Darei início a esta reflexão trazendo a definição que o dr.
Dias (2000) dá de Ética:
“Entendemos
ética como um conjunto
consensual de valores que influencia
os procedimentos dos indivíduos dentro
da sociedade, que é também dinâmico
e vai sendo mudado de acordo com a
evolução da comunidade.(Dias, Victor.2000, p188)
Uma
vez definido o conceito de ética que norteará a minha reflexão
passarei a analisar o contexto atual
dos valores na nossa
sociedade atual. Não é novidade para ninguém que no ocaso do século
XX e no início do século XXI, ouvimos
clamores vindos
de todos
os setores
que nos
trazem um
pedido comum. O
pedido de uma
Ética já
seja na
política , na
economia , na justiça etc. Nos
parece contraditório
este chamado
pois, até pouco
tempo as nossas sociedades reivindicavam uma liberdade individual
e coletiva,
sendo a moral sinônimo de
repressão burguesa. Entretanto, nossas sociedades
contemporâneas apresentam-se contraditórias nos seus
discursos, por um lado o renascimento
da moral e por outro a decadência que podemos observar
na escalada da delinqüência, violência, drogas ,
analfabetismo.
Lipovetsky
( 1994 ) sugere que
no nosso atual contexto
histórico , carente de grandes ideologias, existe um vazio
que faz com que surja um desvio em direção a ética o que constituiria uma oportunidade
para a humanidade e principalmente para as democracias
tomarem consciência da
responsabilidade da humanidade em relação ao futuro reforçando
os valores humanos.
Lipovetsky
( 1994 se
pergunta qual
é a natureza desta reativação moral, acreditando que certamente
não há um desejo de retorno
a velha moral
nem uma invenção de novos valores. Para
dar resposta a esta pergunta Lipovetsky ( 1994 ) faz um
estudo histórico da
ética a partir do século XVIII até o
fim do século XX. Distinguindo
ao longo deste percurso as formas que a ética foi tomando
conforme as mudanças da sociedade foram acontecendo.
2.a-
Ética do Dever
É
a ética predominante entre 1700 e 1950, Surge independentemente
dos dogmas religiosos no contexto de laicização da
sociedade. A ética do dever se
caracteriza pelo enaltecimento da obrigação, o sacrifício
pessoal, em função da família, pátria e sociedade. Estimula os
deveres do homem
e do cidadão, impondo
normas austeras repressivas,
disciplinares na vida privada
das pessoas. Transfere
as obrigações em relação a Deus, próprias da ética
religiosa, para a esfera humana.
2.b- Ética da
Contracultura nos anos 60 e 70.
O
discurso moral
válido por
mais de dois
séculos é recusado
em nome
da liberdade individual e coletiva. A utopia da boa alma já
não é mais valorizada e os valores
de amor à pátria
e família são substituídos
pelo discurso
de liberdade individual. A família burguesa é injuriada
por ser a responsável pela
transmissão de valores
obsoletos que
impediam o
usufruto de
uma liberdade plena. O progresso humano se identificava com o
direito da mulher a dispor
do seu corpo.
Lutava-se então a
favor do aborto e da liberdade sexual.
2.c-
Ética da Felicidade a partir dos 80
A
crise das utopias,
a queda
do muro
de Berlim, e
a instauração do Neo Liberalismo configuram uma sociedade pós-moralista
que repudia a retórica
do dever austero e que se
caracteriza, pela falta de obrigação
de consagrar
a vida ao
próximo, a família ou
a nação.
A idéia
de sacrifício de
si mesmo está deslegitimada, sendo estimulado o usufruto
do presente o templo do eu e do corpo Nesta sociedade pós-moralista
a felicidade substitui o mandamento moral, o prazer substitui a
proibição, a sedução substitui a obrigação, o
desejo substitui
o dever.
As
relações entre os homens são menos valorizadas que as relações
dos homens com as coisas. Sendo
assim, a ética
contemporânea não
aceita resignada a
passagem do tempo, sendo
estimulada a eterna
juventude e a exigência de
conservação e valorização do capital corpo. Os
imperativos da ética da felicidade
são juventude, saúde,
elegância, lazer
e sexo.
Lipovetsky(1994)
assinala que
na época da
felicidade
narcísica “tudo é permitido”, “moral sem obrigação
e sem sanção”.
No
contexto da
sociedade pós-moralista,
nós deteremos no exame de como se configuram os valores que dizem
respeito à
família. Tentaremos
dar resposta à pergunta: “Existe uma família diferente
na sociedade pós-moralista?” Pois, a partir da caminhada histórica
que realizamos junto
com Lipovetsky observamos
que os valores
a respeito da família foram mudando conforme as mudanças
sociais. O valor dado na ética do dever era absoluto contrariamente ao
dado pela ética da contra cultura
que questiona
a família
como instituição burguesa
reprodutora dos valores de uma moral obsoleta.
Na
contracultura associava-se a família
a uma
instância alienante
reprodutora das relações de propriedade e das dinâmicas
da repressão. “Família
odeio vocês”.
Na
cultura da felicidade ocorre
um esvaziamento
das preservações
moralistas em
beneficio da realização pessoal e do direito do sujeito livre:
direito a concubinagem, direito a separação dos cônjuges,
direito a maternidade fora do casamento, direito a ser fecundado
por um genitor anônimo ou por um falecido. A família deixa
de ser uma
instituição transmissora dos deveres para se transformar
em uma instituição emocional e flexível ao serviço da realização
pessoal.
Em
nossa sociedade individualista
há uma
cultura centrada
na criança. Portanto, ela é
a primeira
responsabilidade
dos adultos. “A criança é rei e a sua felicidade é legítima”.
Sendo assim
a família
torna-se um espaço hiper- emocional, transforma- se
em uma
empresa a
ser gerida
de forma
otimizada em
todas as
suas dimensões,
nada deve
ser negligenciado:
saúde, estudos,
férias, programas de tv, etc.
Para
continuarmos com o
pensamento de Lipovetsky
voltaremos a
pergunta colocada
por ele
no início
de nossa
reflexão: “Qual é
a natureza
desta nova reativação
moral?”. A
resposta é,
cada vez
mais devemos
abandonar o amoralismo como o moralismo rígido para promover a ética
da responsabilidade.
2.d
Ética da Responsabilidade
A
ética da responsabilidade
surge na
cultura pós-moralista. Animada pelo esforço
de conciliação entre os princípios dos
direitos individuais e as
obrigações sociais,
econômicas científicas.
Sua aspiração não é
desconhecer os
valores individualistas,
entretanto promove a extenuação da cultura
“tudo é permitido”.
exigindo
a fixação de
limites e reagindo contra os excessos
de permissividade individualista, tecnológica,
capitalista da
mídia. Seu objetivo é o
reforço do espírito
de responsabilidade, pois Lipovetsky
( 1994) acredita
que é o único capaz de estar á altura dos
desafios do futuro.
Uma vez examinados o
contexto dos valores sociais e familiares propostos pela
ética pós-moralista . Cabe refletirmos sobre o contexto
terapêutico.
3.Perfil
do Cliente
Segundo
Dias (2000) o perfil
de nosso
cliente a partir da última década muda e nos obriga a
mudar de postura.O cliente da década do 90
comparado com
o da
década do 50, por exemplo,
apresenta diferenças
notáveis quanto
a construção do conceito de identidade e a internalização
dos valores.
O
jovem da década do 50 provinha de um contexto familiar
que lhe
permitia um contato mais próximo com os adultos
da sua família.
Dos quais
adquiria os valores morais que regeriam sua vida. Tinham ,
segundo Dias, uma “receita pronta” para sair para a vida,
mesmo imaturo nas suas vivências, tinha
internalizada uma diretriz de conduta.
O
panorama familiar do jovem dos anos 90 muda, a mãe sai
para trabalhar e o filho
tem menos
contato com os
adultos da sua família. Deste modo
aumenta a presença
da escola que se inicia precocemente:
família e
religião deixam
de ser veículos de
transmissão de
valores sendo esta função
exercida pela mídia
e pela escola. Esses veículos são menos específicos
e individualizados, além
disso a
forma frouxa pouco
definida e convicta. A falta de modelos internalizados faz com que
esses jovens, segundo Dias, não
tenham dentro
de si uma força
diretriz. Sem uma “receita pronta” apresenta
dificuldades na
integração com as normas e os valores sociais.
As
estratégias terapêuticas,
segundo Dias ( 2000) , são diferentes para
os clientes nesta
década ao
comparamo-los com
as décadas anteriores. Neste
momento o jovem precisa conhecer seu desajuste entre
o individual , social e profissional. O trabalho deve
ajudar este jovem a
uma elaboração
de condutas
e normas que lhe
permitam lidar com
o dar e receber,
com as hierarquias, e
com a disciplina.
Cabe
salientar que estas condutas
estavam nos
jovens das
décadas anteriores, porém
não se
trata de
voltar á
antiga moral senão
ajudar o jovem a refletir sobre a busca de uma nova ética.
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