| Abordagens A VELHICE NOS TEMPOS ATUAIS
Mesa Redonda no 11o.Congresso Brasileiro de Psicodrama
Dirce Fátima Vieira
Psicoterapeuta
Refletindo sobre o tema proposto esta mesa: "Encarando a velhice nos
tempos atuais", optei por falar sobre a melhoria da qualidade de vida do idoso,
apesar do preconceito, discriminação e isolamento da sociedade para com o idoso e, da
velhice ser encarada como decadência, doença e peso social. Notamos felizmente um tênue
movimento da sociedade para rever esta cegueira política em relação a esta fase da
vida. Sabemos como nós, "multiplicadores"podemos criar, sempre a corrente de
sensibilização, por um lado na estrutura social e por outro no idoso pois este aceita
passivamente esta relação. Neste processo, nós especialistas devemos ajudar a sociedade
na quebra de preconceitos; na criação de novos conceitos; na importância de engajar o
idoso através de sua sabedoria e experiência; dar apoio e incentivo através dos
familiares e amigos e encorajar atitudes que esses pensam de que são capazes. Podemos
também auxiliar os idosos, conscientizando-os de sua ampla responsabilidade pelo seu
próprio envelhecimento: na importância de lutarem por um espaço nesta sociedade onde a
valorização está no avanço tecnológico e no jovem. Nas últimas décadas, houve uma
mudança no quadro populacional; é notável um aumento da população idosa em todo o
mundo. Em decorrência deste crescimento e sua demanda houve um avanço da ciência em
relação à velhice contribuindo e muito para a melhoria da qualidade de vida para as
pessoas que adentram esta fase. Na virada do século, a expectativa de vida se ampliou de
50 para 80/90 anos; isto significa que podemos viver 1/3 a mais. A duração máxima da
vida atualmente é de cerca de 120 anos. Esta longevidade se deve a melhoria da qualidade
das condições econômicas e sociais e ao aumento dos níveis gerais de higiene e saúde.
Estima-se que até o ano 2025 ocorrerá um aumento de 30% na população de idosos. O
país -estado precisa urgentemente rever a sua postura com este ex-jovem participativo na
engrenagem social. Para esse, a imagem da velhice ainda é associada ao sofrimento, à
decadência, às doenças e às filas do INSS. Salvo ocorram profundas mudanças na
política governamental tanto no que diz respeito à assistência médica quanto à
previdência, ocorrerá forçosamente um agravamento das condições da previdência dando
o aumento previsto da população idosa. A nossa estrutura hospitalar está voltada para a
população infantil. O modelo de previdência é inconsistente. As possíveis mudanças
estruturais responderão pela melhoria da qualidade de vida da população, mas também,
haverá necessidade de novos conceitos quanto à velhice, pois só esses, ancorados na
moderna ciência do envelhecimento ajudarão a construir condições sócio-culturais
favoráveis à uma boa velhice. Mas felizmente já é possível identificar um outro
movimento expressivo e crescente dos próprios idosos, conscientes, atuantes, que não
aceitam esta relação de total abandono, conseqüentemente não o contemplam tão
passivamente. Com mais energia e disposição participam de pequenos grupos da vida
familiar, da comunidade: e a sociedade como um todo terá que forçosamente rever esta
relação. Será lamentável se a cegueira política impedir a consciência desse
fenômeno. Espero anciosamente que, os idosos não sucumbam inconscientemente à antiga
postura cada vez mais conscientes e unidos provoquem tal mudança. Podemos observar que
seguimentos da sociedade, timidamente, se abrem para esta nova demanda. A mídia começa a
utilizar o idoso como parte atuante no seu merchandising, o turismo descobre uma
população com recursos econômicos, tempo disponível, querendo diversão oferecendo
produtos direcionados para os mesmos. As telenovelas começam a usar homens e mulheres
maduras como símbolo de sensualidade; mostra núcleos familiares com modelos de idosos
centrados, equilibrados e participativos na dinâmica familiar, profissional e pessoal. Na
publicidade e na moda surgem modelos de 3ª idade como integrantes em seus books. Cria-se
concurso de rainha da 3ª idade. Nos programas de auditório dá-se espaço para que as
mulheres idosas falem de suas necessidades, carência afetiva à procura de um
companheiro. Os clubes, bingos, salão de baile direcionam-se para esta faixa etária. As
universidades abrem suas portas criando as universidades abertas para 3ª idade.
Psicólogos, críticos de cinema e arte, professores de história, história da arte,
academias etc., oferecem conhecimento para os mesmos. Cada vez mais encontramos
bibliografias especializadas, revistas e jornais dando destaque e espaço para matérias
referentes a esta faixa. O processo iniciou-se. O idoso hoje, encarando a velhice como uma
etapa da vida, assim como foi a infância, a adolescência e a fase adulta e, quebrando o
mito - declínio fisiológico e neurológico - não mais necessita esperar depressivamente
a morte; conscientiza seus direitos, reconquista seu espaço e exerce sua cidadania. Tais
pessoas não mais abrem mão de escolher o seu representante político, apesar de terem
autorização de não fazê-lo. Tendo a consciência de que a leitura e estudos estimulam,
mantendo seu tônus de raciocínio e de memória se atualiza e recicla. Com as descobertas
de que a prática de esportes embora não retarde a senescência dos órgão, mas favorece
o bom funcionamento de seu organismo, tanto quanto a alimentação adequada retarda estes
declínios, os idosos se sentem mais potentes para envelhecer saudavelmente. A mulher,
dada a quebra do mito da menopausa, fim da vida sexual e afetiva, ganhou mais autonomia e
equilíbrio para entrar no período pós-menopausa com dignidade e feminilidade. Com base
em seus recursos pessoais cria uma nova identidade social. Tem a possibilidade de utilizar
a reposição hormonal, quando necessária, além de se utilizar da medicina preventiva,
ginecológica e ortomolecular (método terapêutico que vê na diminuição de radicais
livres um meio de desacelerar-o processo de envelhecimento e para tal usa doses elevadas
de vitaminas). No homem, não resta dúvida que o envelhecimento é acompanhado por
mudanças que podem ser sinais de insuficiência de testosterona; o tamanho e a força dos
músculos declinam, a gordura corporal aumenta, os ossos lentamente perdem o cálcio e, o
desempenho sexual diminui. Discute-se hoje a utilização da reposição da testosterona,
assim como a reposição através da medicina ortomolecular, assim como o Viagra. Apesar
de ainda não ter um consenso, pois tais estudos são muitos recentes, podemos afirmar que
abriu um espaço importante para a discussão de assuntos tidos como tabus. Parafraseando
o gerontólogo Marcelo Salgado é "Mais importante do que acrescentar anos à vida é
preciso proporcionar vida aos anos". Apesar das alterações hormonais produzirem
mudanças no corpo consequentemente na imagem corporal e na sua auto-estima, a pessoa
idosa que consegue superar esta crise e criar, sua nova identidade corporal acaba
diferenciando estética de beleza o que os faz sentir-se seguros e bonitos. Esse processo
psicológico, bem elaborado pode proporcionar uma evolução afetivo-emocional. Essa nova
energia leva o idoso a criar um novo estilo de vida, abertos a novas experiências,
interesses específicos, relacionamentos qualitativos e mais dispostos para participar de
atividades culturais. Apesar de cada vez mais grupos, pesquisadores e instituições
constituírem um movimento de estudo com relação a velhice, podemos afirmar que estes
avanços ainda estão na infância. Não obstante verificamos uma crescente participação
da psicologia, das ciências sociais, da filosofia e da gerontologia. Considero velhice
bem sucedida como uma condição individual ou grupal de bem-estar físico, social,
emocional e espiritual. Trata-se de um delicado equilíbrio entre limitações e
potencialidades, equilíbrio este que lhe permitirá lidar em diferentes graus de
eficiência como o status quo. Esta fase propicia viver a plenitude humana: hamonizar suas
vicências de amor, de trabalho e lazer. Infelizmente essa harmonia é vivida por uma
pequena parte da população. O envelhecimento, nesta fase, abre então um possível
período de florescimento de sua pessoa social, o acesso a um "saber" feitos de
experiência e acompanhado de lúcida indulgência. ver e tratar o idoso como improdutivo
e incapaz, pois isto dificulta a integração social do idoso, evitando novos conceitos
sociais sobre a velhice. Quanto à família espera-se que entendem a dependência do
idoso, propiciando a este relações afetivas necessárias para a sua segurança e
considerando as oscilações entre dependência e autonomia. Ao dar melhores condições
de acesso a atividade física, profissionais e sociais, por parte da família e dos
amigos, muito se contribuirão para o equilíbrio físico, intelectual, afetivo-emocional
e espiritual não final da vida. Caso contrário estamos contribuindo para uma velhice
neurótica que traz consigo a máscara do horror, do sofrimento, da solidão e depressão.
Como a última contribuição gostaria de reafirmar como psicoterapêutas de idosos, temos
que reconhecer a realidade solitária destes e, oferecer uma real aceitação, pois só
assim podemos assegurar que, como nós, a sociedade também poderá ter interesse nele.
Caso contrário, estamos repetindo o que a sociedade-família faz: cumprimenta-o com um
olhar caridoso e cheio de pena, para em seguida abandoná-lo. Ajudá-los também, a
entender que apesar da doença e da morte estar sempre ameaçando seu futuro, a qualidade
de vida pode intensificar o seu presente. Dar ensejo ao idoso para que se orgulhe de sua
existência em nome de seu passado, que é muito desvalorizado pela sociedade sem
tradição. A sociedade deve ser platéia para que o idoso possa transmitir sua caminhada
existencial e a sabedoria decorrente.
Dirce F. Vieira Psicoterapeuta, Prof. Supev pela
FEBRAP, Sedes Sapientiae e SOPAV
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