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A PSICOSSOMÁTICA REICHIANA
Arthur Thiago Scarpato
A Psicologia tem origens
que se perdem nos campos da medicina, da filosofia e da religião.
Mas a Psicologia que praticamos hoje, nos consultórios, grande parte
dela derivou da medicina no século passado, numa tentativa de dar
conta de fenômenos que os recursos médicos não davam conta na época:
a histeria, a psicose, etc. Assim, Freud, um neurologista, vai se
aventurar pelo mundo psíquico. Como ele, muitos outros médicos deram
início a algumas das principais correntes da Psicologia. Neste contexto,
é possível entender que a Medicina tente hoje retornar a Psicologia
ao Biológico, numa tentativa de fazer o psíquico retornar à sua "origem",
ao cérebro. Como se a Psicologia tivesse sido um recurso provisório
da medicina, enquanto os avanços das neurociências não pudessem controlar
as variáveis anímicas. No entanto, parece que o filho cresceu e adquiriu
autonomia. Há uma concepção dualista dominante na cultura ocidental,
que separa o corpo da alma. Aliás o dualismo é que tornou possível
o surgimento da Psicologia como temos hoje, como ramo terapêutico
separado da Medicina. Temos, portanto, a Medicina como ciência que
estuda os fenômenos orgânicos e a Psicologia, como ciência que estuda
os fenômenos psíquicos. A própria medicina na antiguidade já foi diferente:
em Hipócrates e Galeno, por exemplo, temos uma concepção psicossomática,
onde os sonhos eram usados como indicadores do estado de saúde do
sujeito, saúde física e emocional, integradas. Hoje observamos uma
tendência nas áreas biomédicas de explicar os fenômenos psíquicos
e seus "distúrbios" recorrendo à modelos de funcionamento bioquímico
cerebral e à genética. É um movimento de "biologização" da dimensão
psíquica. Por outro lado, na Psicologia, está crescendo uma abordagem
dos fenômenos biológicos e das doenças orgânicas, pela recorrência
a símbolos, mitos, metáforas e modelos psicológicos. "Psiquisações"
curativas, processos de cura e mutações que contrariam a concepção
tradicional médica de doença. É um movimento de "psicologização" da
dimensão biológica. Além disso temos visto o fenômeno das curas espirituais
dos problemas do corpo e da alma, contrariando os princípios das ciências
psicológicas e médicas. Os "milagres" explicam um processo de "espiritualização"
do psíquico e do somático. Há portanto movimentos antagônicos de "biologização"
do psíquico, "psiquização"do corpo e de "espiritualização" de ambos.
A mídia tem refletido estes movimentos de forma interessante, um tanto
cindida, onde cada artigo fala das últimas tendências seguidas por
uma parcela do público e defendida por parte dos profissionais. Os
caminhos da Medicina e da Psicologia cada vez mais se encontram, se
conflitam porque os limites estão ficando tênues, difusos, o avanço
dos conhecimentos tanto nas áreas médicas como psicológicas têm permitido
vislumbrar conexões antes insuspeitas entre o corpo e o psiquismo.
Pesquisas sobre bioquímica, neuro-transmissores, genética, demonstram
que o chamado mundo psíquico tem fortes raízes no biológico. Avanços
na Psicologia desvelam um corpo emocional, erógeno, simbólico que
é constitutivo do psiquismo e fortemente ativo nos fenômenos biológicos.
Portanto cada área está começando a dar conta de fenômenos que eram
da outra área. Pesquisas recentes têm demonstrado que tanto um medicamento
quanto uma psicoterapia "focal"tem efeitos semelhantes sobre o cérebro
na cura de alguns transtornos como o Obsessivo-Compulsivo, a Síndrome
do Pânico, etc. Estamos falando de uma perspectiva sintomática, pois
as implicações psicodinâmicas destes fenômenos tem raízes mais amplas
e de difícil mensuração cerebral. Está havendo também uma cisão no
campo do conhecimento, onde a Medicina acadêmica e algumas abordagens
na Psicologia cada vez mais se afastam quanto à linguagem, metodologia,
objetivos. Valores como auto-conhecimento, desenvolvimento pessoal,
desenvolvimento espiritual, estão substituindo na Psicologia o valor
médico de cura das patologias. Não é a abordagem psicológica ou biológica
que está certa ou errada; o problema é de outra ordem. O que falta,
isto sim, é uma abordagem que lide com a lógica interna da unidade
psicossomática. No entanto, uma perspectiva "de dentro", "unitária"
já foi desenvolvida. Talvez o melhor modelo disso que chamo lógica
interna da unidade psicossomática nos tenha sido legado por Wilhelm
Reich. A psicossomática em sua funcionalidade. A abordagem reichiana
não busca nem a "psicologização" nem a "biologização", mas insere
um terceiro elemento nesta relação, e faz os outros dois, psique e
soma como derivações da energia. Os fenômenos psicológicos e orgânicos
são articulados como manifestações em níveis diferentes de um mesmo
princípio comum: a energia orgone. Poderíamos dizer que Reich faz
uma "energetização". Há uma vantagem epistemológica neste modelo ao
permitir operar com a unidade psicossomática. Psique e soma não estão
separados, pois apresentam um funcionamento integrado, uma inter-relação
intrínseca. Derivam do mesmo princípio comum, são expressões da realidade
energética. O corpo sem a psique, o corpo-objeto, desprovido de sua
fenomenologia vivencial não é corpo reichiano. A psique sem corpo,
alma desencarnada, não é a psique reichiana. A energia quando presente
no organismo vivo torna-se bioenergia, ou mais precisamente, biopsicoenergia
e então, passa a adquirir algumas leis próprias de funcionamento:
as leis da unidade psicossomática. Reich faz uma "biopsicoenergética".
Há também um espaço possível de ver a espiritualidade nesta vinculação
energética de todo ser vivo com o cosmos. Reich não segue este caminho,
ele era muito comprometido com os valores científicos, mas sua obra
permite este salto. Neste sentido a obra reichiana oferece-se com
uma possibilidade de resposta à esta cisão moderna de que eu falava:
a aparente incompatibilidade entre a Medicina e a Psicologia, e também
com a espiritualidade. Podemos afirmar que a neurose é um estado de
ser comprometido em seus aspectos biológico, psicológico, social e
espiritual. Qual o preponderante? O psiquiatra organicista, o psicólogo,
o sociólogo e o padre provavelmente vão divergir na hora de montar
uma hierarquia destes fatores. A obra de Reich é um longo percurso
de pesquisas e experiências buscando dar conta de uma concepção de
neurose que abarque todos estes terrenos. Há uma preocupação com as
raízes sociais dos problemas emocionais que percorre toda a obra de
Reich. EMOÇÃO A conexão corpo-psique deve começar primeiro a ser entendida
através do conceito de emoção. Há um plano psíquico e outro somático
pelo qual podemos perceber qualquer manifestação emocional. Juntos
formam uma unidade funcional. Não existe emoção que não seja manifestação
fisiológica e psíquica simultaneamente. Toda emoção acompanha-se de
alterações do fluxo sangüíneo, alterações elétricas na superfície
da pele, mudanças respiratórias, bioquímicas, posturais, enfim, de
mudanças que envolvem o corpo em seus diversos sistemas e aparelhos.
Ao mesmo tempo apresentam-se como vivência psíquica, que permite a
quem sente reconhecer o sentido do que está sentindo; se raiva, medo,
tristeza, alegria. A emoção, portanto, existe a partir de um movimento
corporal interno e da percepção. No caso da psicose, por exemplo,
parece que há uma cisão entre os planos psíquicos e corporais; assim
uma manifestação energética emocional não é percebida pelo sujeito
como lhe sendo própria. O delírio e a alucinação são construções que
visam dar sentido a esta excitação que o sujeito sente, mas não consegue
reconhecer como sua. Há uma dificuldade na integração entre as vivências
psíquica e corporal. Está em ação o que chamamos de couraça vegetativa
visual. No trabalho com pessoas que apresentam traços esquizo, é interessante
notar como as alucinações diminuem conforme você vai trazendo estas
pessoas para a presença no corpo. Ao mesmo tempo vai aumentando o
nível de angústia e de excitação emocional que estas pessoas não suportam
muito. É um trabalho lento, delicado e difícil. FASES DO DESENVOLVIMENTO
Há vários recortes possíveis no desenvolvimento infantil. Podemos
mapear as fases do desenvolvimento da inteligência, as fases do desenvolvimento
motor, as fases de interação e sociabilidade ou as fases do desenvolvimento
emocional. Dentro do desenvolvimento emocional realçamos o desenvolvimento
da sexualidade na criança. Por que esta primazia do sexual sobre os
outros aspectos da vida emocional? Antes de mais nada é pertinente
afirmarmos que quando falamos de sexual, estamos falando de um aspecto
que é energético e relacional ao mesmo tempo. Talvez haja uma única
temática que seja comum a todos os clientes e apresente ao mesmo tempo
muitas variações na forma com que se apresenta: as questões afetivas
do relacionamento humano. O amor, se fosse para resumir em uma única
expressão poderíamos dizer que todos padecemos pelo amor. Basta ouvir
os clientes. Ouvir suas queixas, associações, lembranças, seus insights,
devaneios, suas imagens, suas dores. As fases do desenvolvimento afetivo-sexual
são cinco. A fase visual relacionada às primeiras semanas de vida,
a fase oral, a fase anal, a fase genital infantil e a fase do controle
do diafragma ou "fase do poder" que se organiza ao redor dos 7 anos
de idade. Estas fases se estruturam primordial mente em torno de zonas
erógenas e zonas erógenas são zonas corporais. Dizem respeito à vivências
corporais erógenas e à modalidades de relacionamento afetivo. As zonas
erógenas se diferenciam das outras partes do corpo pois se constituem
também como organizadores psíquicos. Cada fase está relacionada também
a uma organização afetiva, motora e cognitiva. A vivência relacional
é uma vivência emocional, portanto psicossomática e não apenas psíquica.
Logo não deveria estranhar o fato de eu falar que as marcas destas
experiências deixam inscrições corporais tanto quanto psíquicas. A
observação do corpo na terapia reichiana ocupa o lugar que a interpretação
dos sonhos vai ocupar na visão junguiana. O corpo revela aspectos
vísiveis do mundo inconsciente CARÁTER Na visão reichiana caráter
é o jeito de ser de cada um e está relacionado à dinâmica emocional
das fases do desenvolvimento, à utilização de certos mecanismos de
defesa, à estruturação mental de crenças internas, enfim, à um funcionamento
energético, emocional e corporal. Há cinco tipos principais de caráter:
esquizóide, oral, masoquista, rígido (fálico-narcisista, histérico
e passivo) e psicopata. Cada um deles relacionado principalmente a
uma das fases do desenvolvimento afetivo-sexual: visual, oral, anal,
genital e diafragmática respectivamente. Quais os traços corporais
de uma oralidade, por exemplo? Vamos utilizar um exemplo para tornar
as coisas mais claras, acentuando as coisas para ficar mais visível.
Um cliente chega ao nosso consultório e numa situação hipotética nós
podemos olhar bem o seu corpo antes que ele comece a falar. Observamos
os seguintes sinais corporais: apresenta pouca musculatura geral no
corpo, tônus muscular da região da boca alterado, fraqueza nas pernas,
peito afundado, braços com pouca energia e respiração superficial.
Depois conversando e ouvindo esta pessoa percebemos seu jeito de ser:
é uma pessoa que se queixa muito, ser queixoso é uma característica
básica sua. Sempre espera receber tudo dos outros, mas ao mesmo tempo
tem uma convicção interna de que nunca receberá o suficiente. Muitas
vezes quando recebe não dá valor a isso e não consegue acolher o que
lhe é dado. Vive uma sensação interna de ser injustiçada pela vida.
Tem também a capacidade agressiva fraca, lutando pouco pelo que quer,
como se esperasse que as coisas chegassem à ela apenas pelo seu merecimento.
É uma pessoa que parece ter uma imagem de si muito valorizada, mas
incompatível com a sua realização. Vamos ficar só com estas características.
Agora vamos "ler"alguns daqueles sinais corporais: Tônus muscular
da região da boca alterado: este traço tem o significado mais claro,
já que, quando criança, esta pessoa deve ter sentido falta, carência
erógena no contato com a mãe na fase oral. A alimentação deveria satisfazer-lhe
tanto as necessidades de comida como de afeto. Fraqueza nas pernas:
Se a energia ficou aí, paralisada nesta insatisfação oral, menos energia
desceu na ativação das pernas e da autonomia características da fase
seguinte que é a fase anal. Este traço pode prejudicar o contato desta
pessoa com o chão, com a realidade. Peito afundado: O peito afundado
reflete o estado de carência de afeto e estas pessoas freqüentemente
relatam uma sensação de vazio no peito. Isto pode trazer uma intensa
vivência de fragilidade. Braços com pouca energia: Os braços indicam
baixa capacidade de ação e realização características destas pessoas,
o seu baixo nível de agressividade. Respiração superficial: A respiração
está relacionada à carga energética e emocional e uma pessoa com fortes
traços orais vive num nível energético bem baixo precisando portanto
receber. Receber energia, amor, atenção. Este foi só um exemplo ilustrativo;
a oralidade apresenta uma complexidade grande em sua caracterização
corporal e suas implicações psicodinâmicas. Normalmente as pessoas
apresentam mais de um traço de caráter. Assim uma pessoa com caráter
rígido predominante pode apresentar também traços visuais e orais.
Ou seja, tipos puros são raros. Há uma relação muito próxima entre
os traços corporais e o jeito de ser de uma pessoa, o que envolve
a sua modalidade de relacionamentos, os seus afetos predominantes,
suas crenças internas, a sensibilidade que essa pessoa tem de seu
próprio corpo, sua imagem corporal, sua identidade, sua sexualidade,
etc. O corpo e a postura tem uma relação íntima com os mecanismos
de defesa e com as fases de desenvolvimento emocional. É curioso como
as modalidades relacionais que se estruturaram na infância passam
a fazer parte do repertório automático no dia a dia do adulto. Mostrando
como ainda está ativa a criança nele; naquele momento quem está reclamando,
quem está se boicotando é esse outro eu que nos habita e que tem profundas
relações com a vida emocional infantil, a criança em nós. Se fizermos
um corte apenas no momento presente podemos perceber que as pessoas
apresentam uma sensibilidade corporal seletiva. Partes do corpo que
sentem mais, outras que sentem menos ou até que não sentem. Sensação
não apenas muscular, mas visceral, de ondas de prazer, de emoção.
Em toda neurose há uma certa anestesia do corpo. Sentindo mais o corpo,
sentimos mais a angústia, a dor. O que é próprio do encouraçamento
é justamente a diminuição da sensibilidade e da motilidade corporal.
Uma forma de reduzir a dor profunda e a angústia através da diminuição
da sensibilidade geral. Couraças são mecanismos de proteção necessários
para a integridade do ego ou da vida. Trabalhamos para atenuar a utilização
de soluções anacrônicas, de recursos defensivos e protetores que foram
fundamentais num determinado momento da vida do sujeito, geralmente
em sua infância, quando seu ego era mais frágil mas que atualmente
ainda restringem a vida. No geral as couraças apresentam as seguintes
funções: · Diminuindo a vitalidade: respirando menos, sentimos menos
· Limitando a mobilidade e a motilidade, levando a um agir e sentir
controlado através da diminuição e contenção das reações emocionais
no corpo. · Estruturando o pensamento: crenças internas que reforçam
as defesas: "Eu não mereço", "eu não pertenço a este mundo", "eu não
confio em você". · Estruturando a percepção: não percebo em mim o
que não posso sentir. Isto não é meu, é dele: projeção. As couraças
levam a uma restrição motora, sensorial e emocional. A restrição sensorial
leva diretamente a uma restrição perceptiva. Como diz Reich: "o organismo
pode sentir somente o que ele por si mesmo expressa". Não podemos
perceber o que não podemos sentir e expressar em nós mesmos, ou, se
percebemos, não conseguimos compreender. Quando calamos uma voz dentro
de nós, temos dificuldade em ouvir esta voz vindo de outra pessoa.
Assim a couraça vai construindo um campo de coisas percebidas pela
pessoa, organizando valores, um jeito de ser e responder às situações,
e principalmente, uma visão de mundo. A terapia reichiana se desenvolve
a partir da relação cliente-terapeuta, utilizando-se de referências
psicodinâmicas. Há uma organização do trabalho prático, das técnicas
de mobilização corporal, que são feitas de acordo com os traços de
caráter do cliente, das defesas utilizadas, das couraças ativas, etc.
Apresenta tanto um caráter analítico, desconstrutivo das estruturas
cristalizadas, como sintético e construtivo de modos de ser mais positivos
e vitais. Reich é um autor muito pouco lido e mal compreendido. Felizmente
este panorama está se modificando, o que permite a um número maior
de pessoas entrar em contato com um conhecimento tão rico e exemplar
na profundidade com que aborda a vida emocional. Um conhecimento que
integra as dimensões psíquicas, somática e energética numa concepção
de ser humano que está faltando às ciências da saúde e ao universo
terapêutico. A prática clínica reichiana fala por si, em seu eficaz
trabalho a favor do maior valor de todos: a vida. Espero ter podido
passar um pouco deste vasto território reichiano.
Artur Thiago Scarpato Psicoterapeuta com especialização
em Cinesiologia pelo Instituto Sedes Sapientiae e Formação em Teoria
e Técnica Reichiana pelo Pulsar - Centro de Estudos Energéticos
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