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- PATERNAGEM : UMA TRAJETÓRIA CULTURAL
Psicóloga Raquel Alvim
A
preocupação com a educação dos filhos enquanto
formação integral, independente das particularidades de
cada cultura, manifesta-se desde os primórdios do
surgimento da civilização ocidental.
Na Grécia Arcaica por exemplo, já eram claras as
definições das funções do papel pai / mãe , homem /
mulher. Cabia ao pai mediante a uma autoridade despótica
exercida no espaço privado, manter a ordem e a
estabilidade do grupo familiar e provê-lo material
mente. A mulher quando pudesse delegar suas funções de
mãe a uma figura materna substituta, executava as
tarefas domésticas, senão acumulava-as. Assim as
funções da mulher e mãe já eram atreladas uma a
outra. Desde então propaga-se a idéia de que a
educação dos filhos é um problema mais da mãe /
mulher do que do pai / homem.
Esse esquema de organização e funcionamento das
relações pais - filhos vai se perpetuando em seus
princípios básicos no decorrer de todos os séculos da
civilização ocidental cristã, e , apenas alguns
aspectos é que vão se modificando, através de
diferentes roupagens. Mas somente nas últimas décadas
do século XX é que percebemos mudanças mais
significativas quanto ao desempenho das funções
paternas e maternas, em decorrência de alguns fatores :
entrada da mulher no mercado de trabalho , controle
procriativo (pílula)... etc.
Com isso a mulher passa a dividir com o homem as
funções provedoras, e acaba na maioria das vezes
acumulando tarefas que tradicionalmente já eram
delegadas a ela. Estabelecendo-se uma desordem, que gera
instabilidade e conflitos até que surja uma nova ordem.
Vivemos num período de transição onde as quebras de
valores tradicionais provocam uma organização, nos
meios micro e macro sócio - culturais. As transições
no meio micro - social referem-se à família : tarefas ,
valores e tradições que a ela se vinculam ; ao macro -
social seriam as questões éticas , políticas e morais
da sociedade . Assim , instaura -se uma busca na
redefinição dos papéis homem / mulher na sociedade (
macro ) e nos papéis pai / mãe na família ( micro ) ,
acompanhada de incertezas , inquietações , angústias ,
etc .
Que geram conflitos entre : passado / presente , certo /
incerto, pois a familiaridade com os valores antigos /
passados nos colocam numa posição confortável de
" previsibilidade " que por sua vez, é oposta
ao novo imprevisível .
Talvez por isso, que nos últimos anos percebemos uma
maior movimentação dos pais na busca de leituras,
instituições, escolas e profissionais que esclareçam
essas dúvidas e incertezas com novas propostas ou até,
confirmando a prática antiga, referimo-nos aqui aos
dogmas. Com isto uma variedade muito grande de materiais
e trabalhos vem sendo desenvolvido e aplicados nos meios
"científicos". Mas também percebemos que
muitos desses recursos são pouco profundos, outros
apresentam-se em novas formas mas veiculam as mesmas
práticas passadas.
Os meios de comunicação de massa também contribuem ao
veicular informações estereotipadas, baseadas em
crenças infundadas sobre educação e relacionamento
familiar. Por outro lado, as incertezas no desempenho do
papel de pai e mãe referente ao que possa ser mais
adequado na formação dos filhos tem sido uma
constância.
Acreditamos que várias informações e/ou orientações,
possam ser esclarecedoras para muitos dos problemas que
são comuns a todos os pais, mas existem determinados
cuidados que são específicos a alguns indivíduos e/ou
situações.
Com esta concepção entendemos que as questões ligadas
ao relacionamento pais / filhos carecem de um trabalho
mais profundo e reflexivo, onde as diferentes dinâmicas
peculiares as vivências próprias dos pais e de cada
família encontrem eco num mesmo espaço, e que estas
experiências possam ser compartilhadas , orientadas e
por conseguinte desenvolvidas a luz das idéias novas que
permitem a criação de novos caminhos e possibilidades.
Nós do C.E.O.P. reconhecemos as dificuldades inerentes
ao desempenho dos papéis pai/mãe no momento atual.
Temos consciência de que esta é uma passagem delicada
de difícil resolução, pois rever os próprios
padrões-hábitos familiares calcados em crenças que
foram aprendidas como leis inexoráveis é muito
complicado, quiçá enfrentar as possibilidades de
mudanças destes mesmos padrões - nas maneiras de se
pensar, sentir e expressar - que trazem em seu âmago
ganhos e perdas. Precisamos resgatar a concepção de
vida, como ação, luta, com movimento de ir e vir,
desfazer refazendo; como busca das relações
"Belas" e "Justas" , onde exista
espaço para as vivências coletivas e sociais, que foram
gradativamente se esfacelando, favorecendo o surgimento
do individualismo. Indivíduos, pais, filhos, etc.,
centrados em si, e por si.
Esta é, a nosso ver, a questão crucial. Como é que,
poderemos reorganizar a família, a sociedade, as
relações entre as pessoas, dentro de um contexto social
que enfatiza o individualismo e a auto-suficiência? É
um problema extremamente complexo de se resolver.
A equipe multidisciplinar do C.E.OP., tem procurado, e
encontrado em seu exercício prático e teórico,
respostas a algumas questões. Uma delas, que nos
propomos a trabalhar, é a reconstrução das relações
grupais sociais e familiares que possam encorajar as
potencialidades criativas dos seres humanos em fazer
existir o que antes não existia; ou seja, encontrar as
novas alternativas para problemas que pareciam
insolúveis, descartando as idealizações que são
utópicas, criando o possível.
Equipe CEOP ( Centro de Estudos/ Pesquisas de
Orientação de Pais): Judith Berenstein, Luís Russo,
Maria Inês Fatio, Rachel Alvim, Rosana Machado e Rubens
Wajneztejn.
Psicóloga Raquel
Alvim
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