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Sergio Gomes da Silva |
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O
longo trecho pertence ao livro "Um Estranho em Mim" (Ed. UFPB,
1999), do autor paraibano Marcos Lacerda, nas palavras do seu personagem
principal, Eduardo, ao final do livro. Eduardo,
de certo modo, nos diz que viver também é sonhar, é ter fantasias, é
desejar, é preciso ter ilusões, pois só assim é que podemos viver, só
assim podemos tentar buscar a tão almejada felicidade, se é que ela
existe. Sem sonho, fantasia, desejo ou ilusão, o homem não seria nada.
É preciso que nos agarremos a alguma esperança, mesmo que esta seja
uma "doce ilusão". Parte daí, talvez, o medo da perda, da
falta que nos remete direto ao poço sem fundo, a um estado inevitável
de desamparo afetivo e sexual, tão comum em tempos sombrios de descrença
emocional no outro, do mito de infelicidade tardia, da falta de amor, de
carinho, de humildade, hombridade, respeito por si e pelo outro, da
infinita contingência das nossas subjetividades. Juntamente
com o sexo, a sociedade contemporânea ocidental transformou um outro
mito, o do amor romântico, em apanágio da nossa felicidade. Para
viver, é preciso amar ou então sentir o enorme vácuo que é não ter
esse amor, ou o que é pior... perdê-lo! Fica a pergunta no ar:
tornamo-nos infelizes porque nunca aprendemos a amar direito, ou
justamente porque não nos conformamos com a perda desse amor é que nos
tornamos infelizes? Sofremos porque sentimos um certo vazio quando
percebemos que deixamos de ser objeto de desejo do outro, ou porque
temos a impressão de que nada valeu a pena depois de tudo o que passou,
de ter sido ilusoriamente
desejado? "Um
Estranho em Mim" não trata apenas e diretamente de uma história
de amor (romântico), porém, lembrei vividamente ao lê-lo, das
palavras de um outro autor, o psicanalista Jurandir Freire Costa em seu
livro "Sem Fraude, nem favor: estudos sobre o amor romântico".
Neste livro, Jurandir reflete acerca do imaginário social contemporâneo
no que diz respeito ao ideário amoroso dos nossos dias, afirmando que
"sem amor, estamos amputados
de nossa melhor parte", no entanto, prossegue ele, "o
amor deixou de ser puro momento de encanto para se tornar uma corvéia,
pois quando é bom, não dura, e quando dura, já não entusiasma". Essa
parece ser então, a medida exata que melhor descreve a história de
Eduardo e Alexandre, o outro personagem do livro, por quem Eduardo se
apaixonará perdidamente. Em
breves palavras, Eduardo é um homem que jamais aprendera a amar ou a
ser amado. Morre, deixando de legado para um irmão que jamais chegara a
conhecer pessoalmente, a sua própria história. De
infância pobre, mãe prostituta e pai ignorado, Eduardo durante boa
parte de sua infância e adolescência viveu sob a sombra das três
mulheres que mais marcaram a sua vida, cercado pelos desafetos de sua avó
e sua tia por sua mãe, a quem chamavam de "prostituta", e a
ele, de "filho bastardo". A
falta de uma figura paterna em sua vida o faz buscar no exército, através
das ordens de seus superiores, a ordem de um homem que lhe faltara
durante muitos anos na figura de pai. "Era
reconfortante escutar os gritos e as ordens dos meus superiores;
finalmente um homem me dizia o que fazer, que caminho seguir".
E em corpos jovens e perfeitos, a imagem de mulher perfeita que jamais
aprendera a admirar. Torna-se médico, em parte para realizar o desejo
de curar as pessoas e fechar suas feridas, reflexo de sua ânsia de
encontrar alguém que sanasse a hemorragia do seu espírito. A
segunda parte da vida de Eduardo tem início tempos depois da morte de
sua mulher. Não sem motivos, mesmo porque não acredito que estes
existam de forma tão ordenada na construção da uma identidade
(sexual), Eduardo "sucumbe" aos desejos homoeróticos de
jovens rapazes (os corpos belos e perfeitos que só a juventude é capaz
de ter). "Sentia
como se durante todos os anos de minha vida eu tivesse fugido daquele
momento; mas ele sempre estivera ali, a me cercar, e agora eu não era
nada além de uma presa fácil nas mãos de um predador interno e feroz
que me perseguia exaustivamente, finalmente me acuava, arremessando-me
contra as muralhas do meu desejo". E
nesse frenesi, nessa insustentável dureza de ser um homem cujo destino
lhe reservara até mesmo perder as ilusões, onde jamais aprendera o que
é amor de mulher ou homem, pai ou mãe, que Eduardo conhece o jovem e
belo Alexandre. "A
princípio, o corpo jovem de Alexandre era uma espécie de espelho onde
eu imaginava estar me vendo, e isso fazia com que eu não sentisse a
diferença de idade que existia entre nós. Trincado o espelho, víamos,
face a face, nossas diferenças. Não havia como reconstituir a unidade
imaginada. (...) Ele era, em minha fantasia, meu menino, e eu precisava
que se mantivesse nesta condição para sempre”. Eduardo
e Alexandre têm então um longo e tumultuado relacionamento afetivo,
marcado por muito amor e paixão, ora por ciúmes, ora pelo medo
obsessivo de desejar tanto alguém ou acima de tudo, perdê-lo. E assim
acontece. Eduardo,
como que imitando o mito de Eurídice e Orfeu, desce até o inferno para
tentar resgatar esse amor, nem que para isso não perceba que vida e
morte, amor e ódio estejam caminhando lado a lado, separados por uma tênue
linha divisória e imaginária, cujo seu reverso traria efeitos catastróficos.
Na verdade, Eduardo desejava a morte para si. Desejava a morte como se
ela fosse mulher. A única mulher a quem ele poderia entregar-se de fato
e que saberia cuidar dele, que saberia fazer a dor passar. Pesa
em Eduardo a dor dos passantes, a dor de ter perdido o único homem a
quem aprendera de fato a amar, restando então a ilusão...duas ou três,
como ele disse, talvez mais, talvez menos, quem sabe nenhuma... "Aprendi
que o desespero só aparece quando a gente se sente sem um amanhã". Várias
são as ilusões possíveis de serem imaginadas em sua história: a de
que o amor é eterno, a de que a juventude é o tônus para recuperar a
sua alma perdida, a ilusão de que a vida com "Alexandre
menino" e "Alexandre adulto" duraria para sempre, até
que a morte os separasse, a ilusão de que amor, sexo e desejo, pudessem
ser naturalmente figuras reais de nossa felicidade imaginária, e que o
acesso a essa felicidade pudesse ser por uma via onde não existisse
dor, sofrimento, amargura, desespero, desesperança, desafeto,
desamor... uma ilusão onde o confronto entre vida e morte, prazer e
desprazer, realidade e fantasia, ilusão e desejo não pudesse ser esse
"estranho em mim"... "estranho em nós", eu diria.
"(...) O amor tem dessas qualidades; ele permite o domínio. Ou, pior, a
ilusão de ser poderoso, quando na verdade se é o submisso. (...) Fecho
meus olhos e ainda penso, sorrindo, imperceptivelmente, no que disso
tudo extraí e hoje sei: se há uma possibilidade humana tola e abjeta,
essa é o amor" A
vida ensinou a Eduardo que "viver
é foda, morrer é difícil, mesmo que ver o outro seja uma necessidade".
Mas esqueceu de ensinar-lhe, como se pudesse, que o amor também pode
ter sido inventado e ser uma "crença
emocional, e como toda crença, pode ser mantida, alterada, dispensada,
trocada, melhorada, piorada ou abolida (...)". Esqueceu também
de ensinar-lhe que "aprender
a valorizar o amor como um bem desejável é aprender, ao mesmo tempo a
não duvidar de sua universalidade e de sua naturalidade".
Esqueceu de ensinar-lhe por fim, como diria Contardo Calligaris, que
"o que nos excita
sexualmente, de fato e apesar de nossos convencimentos, não é tanto o
parceiro ou a parceira com quem nos debruçamos, quanto uma fantasia,
consciente ou inconsciente que seja, organizada ao redor de um objeto
parcial, qualquer coisa, como um olhar, um cheiro, um gosto, uma frase,
uma gota de sêmen, de saliva ou suor". Mas
acima de tudo, o que Marcos Lacerda nos ensina (sem tanta obviedade
assim), é o quão suscetível é a nossa frágil natureza humana, e que
na vida real, assim como na ficção, estamos cercados de Eduardos e
Alexandres, que ora podem estar padecendo de dores de amor, ora podem
estar abraçados, sorrindo por ter um ao outro. Esse "estranho em
mim", esse isso que tão
bem foi objeto de estudo do velho e bom Freud, tem razões que até
mesmo a própria razão desconhece. Marcos
Lacerda de forma sublime nos presenteia com o que de melhor poderia
produzir o primeiro trabalho de um "Jovem Autor Paraibano", prêmio
este que lhe valeu "Um Estranho em Mim". Lembro
por fim, depois de ler seu livro em um só fôlego, de nos encontrarmos
e comentarmos juntos sobre sua cria, e Marcos, como todo pai coruja,
deixar escapar que o que lhe mais lhe deu prazer ao ver o seu livro
publicado, é o fato de saber que seus personagens, Eduardo e Alexandre,
não mais lhe pertence, que ganharam vida própria, e mesmo que ele
morra, permanecerão vivos, descansando no inconsciente de seus
leitores. De
fato, Eduardo e Alexandre saem da mente de um jovem psicanalista para
descansar e viver em nossas mentes. Que descansem em paz, mas que também
tenham vida eterna. (2)
Contatos
pelo email sergiogsilva@uol.com.br
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