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Durante
muito tempo as pessoas pensavam que se cuidassem bem de seus filhos,
dando-lhes o melhor, amando-os, superprotegendo-os dos perigos do
cotidiano, tudo daria certo, o sucesso deles como pessoas estaria
garantido, que apenas aqueles abandonados ou deixados de lado
apresentariam problemas. Com o passar dos tempos, com o crescimento dos
filhos, com a mudança do mundo os pais começaram a notar que não é
assim que acontece. Hoje
todos precisam estar bem informados, atualizados, envolvidos na sua vida
e na dos jovens. Precisam perceber e aceitar que as dificuldades e
diferenças ocorrem, independentes do preparo ou do desejo. Não podem
esquecer que durante a vida aprenderam uma equação bastante simples,
que servia de base do bem estar: existe um remédio, pelo menos um, que
propicia alívio imediato para qualquer mal, seja ele físico ou
emocional. Na infância, na farmácia caseira havia uma panacéia que
servia para aliviar todos os desconfortos. Ficou registrado desde
pequeninos isso: desconforto mais química igual a Alívio propiciado
pela droga, que leva rapidamente ao bem estar. Hoje cada vez mais cedo,
as pessoas buscam repetir isso. Na adolescência buscam drogas para
minimizar seus descontentamentos, seus desapontamentos, suas
dificuldades com a vida. Os jovens na sua maioria buscam o modo mais fácil
de equilibrar-se, mesmo que este alívio seja por pouco tempo. A experimentação
é característica dessa fase, é na adolescência que os limites são
expandidos, o mundo é testado e tudo o que ele pode propiciar. O
adolescente encontra a droga, não vê nela um risco verdadeiro e aos
poucos, vai se isolando em seu mundo e
deixando de lado todas as outras coisas: amigos, família, educação,
saúde, esporte, diversões, futuro. Para alguns, é
para sempre. Essa história é ouvida com freqüência, mas parece estar
longe, na TV, nas revistas na casa dos outros. Não afeta diretamente,
então a família finge que não vê, não sabe. Até que um dia chega a
sua vez. Aí percebe forçosamente. Tem que admitir e passa a viver com
o desamparo, com o descaso, com a podridão, a escravidão de uma
sociedade sem rumos, sem valores positivos, egoísta, impune e muitas
vezes reforçadora de tudo aquilo que lutou a vida toda para ver e
aceitar. Conversas, afeto,
missas, terapias, cultos, viagens, mudanças de casa, lágrimas,
dinheiro, carro, gritos, tapas, beijos podem até ajudar, mas não são
suficientes. Existe um mundo aí fora e o jovem tem que sair por ele,
tem que conquistá-lo. Este mundo está doente. Os pais precisam ajudar
os jovens a viver nele, sem que se contaminem, fazer escolhas que não
irão, com certeza retirar a podridão do mundo, mas certamente irão
afastá-los de seu mundo. Os trincos, cadeados, muros, portões eletrônicos,
celulares, remédios , motoristas particulares, super proteção, não
os deixa imunes aos perigos e sujeiras. Os jovens vão aos poucos
conhecendo, entrando e minando os sistemas de defesa e quando os pais dão
se conta percebem que tem que lutar sozinhos. As
drogas andam soltas pelas ruas. Vão a escola, danceterias, clubes,
igrejas, bares, residências. As pessoas pensam que para adquirí-las é
preciso enfrentar a marginalidade, mas isso não é real. Vivemos
no mundo do “DELIVERY” também em relação às drogas. Basta
um telefonema e elas chegam às nossas mãos com a mesma facilidade com
que pedimos uma pizza no final de semana. A dependência química
é uma doença que afeta cerca de 10 a 15% da população. Nem todos os
adolescentes que experimentam drogas, tornam-se dependentes. É preciso
avaliar o grau de
envolvimento para sugerir, o tipo de tratamento necessário. Um
adolescente funcional, que cresceu aprendendo com sua família que as
dificuldades só podem ser superadas através do próprio esforço,
dificilmente se tornará um dependente, pois saberá fazer escolhas
acertadas. Um dependente precisa ser tratado, dirigindo-se
o foco do processo à sua doença. Ele tem todo o tipo de disfunção e
dificuldades, mas elas fazem parte do quadro geral de sua doença, não
são as suas doenças. Droga é causa e não conseqüência de disfunções
de qualquer ordem na vida de uma pessoa. Como terapeutas,
precisamos buscar compreender a dependência em si, bem como seus
reflexos, na família, nas relações entre seus membros e sua relação
com o mundo. Quando uma pessoa manifesta algum tipo de dependência é
um contexto social e familiar que isso ocorre. A família que consegue
se organizar com eficácia, buscar ajuda e reconhecer sua dificuldade, não
transferindo ao dependente toda a carga, fazendo dele o “saco de lixo
da família”, consegue crescer, avançar e encontrar novas formas de
relacionamento intra e extra familiar. Uma família
funcional aceita mais facilmente o ciclo da vida e percebe o crescimento
e a busca necessária da independência por seus membros. Trabalha as
dificuldades mais facilmente. Consegue agir, de forma mais adequada
quando as dificuldades aparecem. Os problemas são encarados como
oportunidades de crescimento e de repensar as relações. Não é essa família
que chega ao consultório. É sempre uma família
fragmentada, culpada, desorientada, trocando acusações e
buscando explicações para entender o que está acontecendo, como se
o entendimento fosse suficiente pára resolver a situação... A
vergonha impede que o problema seja colocado de modo transparente. Ter
“um drogado” em casa não é motivo de orgulho para nenhuma família,
mas a crescente aceitação da dependência
como uma doença, permite que todos se mobilizem e possam trabalhar para
resgatar o dependente e a harmonia familiar, reconhecer suas
necessidades e limites. Os pais desejam
uma solução mágica, mais uma panacéia que expulse os problemas de
sua vida. O descontrole da vida do dependente desenvolve como
contraponto, uma falsa sensação de controle por parte dos familiares.
Mecanismos de defesa são criados para dar sensação de que algo está
sendo feito. O problema não pode ser atacado diretamente, então todos
dirigem sua atenção para qualquer coisa, pois assim sentem que estão
fazendo algo. Esses mecanismos precisam ser trazidos à tona na terapia. A família precisa
aceitar que não pode controlar a vida do dependente, pode ajudá-lo a
encontrar o equilíbrio, mas se essa não for
a sua escolha, não pode viver refém de sua conduta insana. A família precisa
continuar a existir e exercer suas funções. Quando todos caminham
juntos na recuperação, os problemas, prazeres, necessidades e
sentimentos podem encontrar novamente lugar na vida de cada um ao invés
da família fazer do sofrimento o motivo da sua vida. A visão que antes
estava centrada somente em si mesmo, caminha para uma sensibilidade
maior aos outros e a uma busca de relações mais sadias. A dependência é uma doença que afeta as pessoas em todas as dimensões de sua vida. Seu tratamento torna-se mais eficaz quando podemos, como psicólogos, contar com a ajuda de outros profissionais e também dos Grupos de Apoio. A ajuda de cada profissional tem âmbito limitado de ação. Assim como a família precisa buscar integração entre seus membros, quando nos abrimos para fazer o mesmo, potencializamos o resultado de nosso trabalho. DROGAS
A BUSCA DE RESPOSTAS Não
há possibilidade de um jovem hoje chegar a idade adulta sem ter contato
com as drogas. O livro procura dar uma visão geral do processo da
doença da dependência química numa linguagem que possa ser entendida
tanto por um jovem e sua família, como para um profissional.
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