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Sergio
Gomes |
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ENSAIOS HOMOERÓTICOS I |
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O Homoerotismo na antigüidade clássica |
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| A sexualidade, ontem e hoje | ||
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Partindo
desta concepção, penso que de todos os seres vivos, o ser humano é o único
que possui, entre tantas, duas características básicas que o distingue
dos outros seres: a capacidade de raciocínio e a habilidade da fala,
através da linguagem. A
linguagem nos propicia a comunicação seja através da palavra escrita,
falada ou através de códigos, gestos ou sinais. Somos capazes, então,
de nomear o que ainda não tem nome, de modificar e redescrever o que já
foi nomeado, ou de dizer aquilo que não queremos dizer, já que “não
somos senhores nem mesmo na nossa própria casa”. Para
aquilo que ainda não possui nome, logo, logo, conseguimos inventar
palavras novas para determinados objetos, atos ou situações do
cotidiano, de acordo com a nossa crença e moral vigentes, e compreendê-los
a partir de então como uma verdade única e universal. E quando não
temos a compreensão científica de determinado fenômeno, nossa tendência
é procurar de imediato uma explicação lógica e daí, ou o aceitamos ou
o reprimimos, afastando-nos o mais que possível, senão, exterminando-o. Na
época da inquisição, que se estendeu do século XIV até o século
XVII, para aquilo que cientificamente ainda não se tinha compreensão
causal do fato de algumas mulheres apresentarem comportamentos estranhos
à maioria da população, a acusação era de bruxaria
ou possessão
diabólica contra essas mulheres, condenando-as a morrerem
queimadas na fogueira. No
início do século XX, os mesmos fenômenos antes concebidos como bruxaria
ou manifestações do diabo, poderiam ser explicados, por exemplo, como
“ataques histéricos”, após o advento da psicanálise. O mesmo fato e
duas explicações. De
acordo com o psicanalista Jurandir Freire Costa, em seu artigo
“Homoerotismo: a palavra e a coisa”, “toda
época produz crenças sobre a “natureza” do bem e do mal, do sujeito
e do mundo, que aos olhos dos contemporâneos,
sempre aparecem como óbvias e indubitáveis. Os séculos XIV, XV,
XVI e XVII criaram as feiticeiras. E, porque a crença na bruxaria
existia, existiam bruxas. As bruxas eram um efeito da crença na bruxaria.
Sem a crença em bruxas, não haveriam mulheres que sentissem, agissem, se
reconhecessem e fossem reconhecidas como bruxas”. Para compreender o
que o autor fala, vejam o filme As
Bruxas de Salém. |
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Ora,
na antigüidade greco-romana não havia a compreensão do sexo a partir do
que aprendemos nos últimos 200 anos. Portanto, enganamo-nos ao projetar hábitos
mentais do presente na relação pederástica que havia na Grécia,
semelhante à moderna relação homossexual dos nossos dias. “Na Grécia antiga não existiam palavras
para designar o que chamamos de “homossexualidade” e
“heterossexualidade” porque simplesmente não existia a idéia de
“sexualidade”. A sexualidade é uma construção cultural recente (...). No mundo
helênico havia um eros múltiplo e heterogêneo, sem contrapartida no
imaginário de hoje. Assim, o eros da “pederastia” era, em sua
“natureza”, diverso do eros presente entre homens e mulheres ou
mulheres e mulheres (e eu acrescentaria entre homens e homens). Por princípio
era virtuoso, ao contrário da “homossexualidade” contemporânea, tida
como vício, doença, “degeneração” ou perversão, desde que foi
inventada pelas ideologias jurídico-médico-psiquiátricas do seculo XIX”,
conforme nos informa Jurandir Freire em seu artigo “Os gregos antigos e
o prazer homoerótico”. O
que estava em jogo era a educação do cidadão e toda conduta que
evocasse excesso ou passividade entre o erastes e o erômeno, era
considerada indigna, sem valor, podendo inclusive, no caso deste último,
perder o “status” social que
possuía. O
eraste, “pedagogo”, “amante” ou “homem adulto”, como queiram,
jamais poderia ser “passivo” na relação amorosa, e isso significava
não poder ser penetrado, pressionado física ou moralmente a ceder os
avanços sexuais do erômeno ou erômenes, ou de nenhum outro cidadão,
nem muito menos de um escravo, ou ser subordinado com presentes, promessas
ou com dinheiro. A virilidade era reforçada, os atos dos amantes deviam
ser comedidos, evitando exageros apaixonados. O prazer devia estar a serviço
do cidadão da polis grega, já
que a vida pública era destinada à política, ou seja, entre dois homens
adultos, era impensável que se mantivesse contatos físicos, coito anal e
manifestações apaixonadas, pois a pederastia era a forma mais nobre de
amor entre os gregos. |
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Jean-Philippe
Catonné, em seu livro “Sexualidade: ontem e hoje”, ainda
complementaria nosso pensamento, ao afirmar que “para
um cidadão, a passividade sexual é que representa problema. Desde então,
o amor entre rapazes confronta-se a uma situação contraditória, que
Foucault qualificou de “antinomia do rapaz”. O amado, o eromenes, o
rapaz, ocupa uma posição passiva, e o homem adulto, o amante, o erastes,
uma posição ativa. Ora, a função social da pederastia é a de ensinar
ao rapaz a tornar-se um cidadão, consequentemente, um homem sexualmente
ativo, por meio de uma situação paradoxal de passividade na relação
amorosa. A contradição se resolve na distribuição dos prazeres. O
rapaz é levado a dar e a não obter, ou, ao menos, não muito
ostensivamente. Além disso, ela se desfaz num processo de passagem
determinando a idade. A relação cessa quando o jovem rapaz deixa de sê-lo:
o sinal da metamorfose é indicado pelo surgimento de pêlos, no queixo e
nas pernas. Via de regra, se é rapaz entre os doze anos, a idade da flor,
e os dezessete, a idade dos pêlos”.A
pederastia, era então, um rito de iniciação daquela sociedade, que
demarcava a passagem da infância para adolescência, e desta, para o
mundo adulto. |
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O
que grande parte da literatura nos mostra é que o amor na forma de eros
era buscado da forma mais sublime, na virilização dos corpos, na
contemplação do belo, nas múltiplas formas de se alcançar eros, e esta busca estava dedicada diretamente à população
masculina, já que a mulher, assim como os escravos, crianças ou serviçais,
gozavam de menos prestígio e estava a serviço da reprodução da casta
grega. No que compete à civilização romana, poucas mudanças poderíamos
notar na dinâmica dos papeis masculinos e femininos. Deste
modo, assim como não existia uma homossexualidade inerente aos gregos, da
forma como a compreendemos hoje, bem entendido, onde há definições e
escolhas dos papéis dicotômicos ativo/passivo, desejo sexual, amor e
respeito mútuo entre os(as) parceiros(as), valorização dos atos e jogos
afetivos, fantasias ou qualquer outra manifestação amorosa que também
sirva para descrever a pluralidade da vida afetiva e sexual entre um homem
e uma mulher, a sociedade greco-romana era uma sociedade predominantemente
“masculinista”, ou seja, onde só os homens gozavam dos direitos
enquanto cidadão (apesar de haver relatos acerca da comunidade formada
por mulheres na ilha de Lesbos – no qual resultou a derivação do termo
lesbianismo/lésbica, para referir-se à homossexualidade feminina – e
que tinha na poetisa Safo sua principal representante). Vimos,
assim, que o uso dos prazeres na antigüidade devia estar a serviço da
honra do cidadão, pois era impensável na Grécia antiga uma liberdade
sexual privada na forma como as múltiplas homossexualidades são vividas
na contemporaneidade. A
“homossexualidade” grega, retomando as palavras de Jurandir Freire,
era uma sociedade onde “a
pederastia era não só recomendada como louvável e praticada por toda a
elite moral, intelectual, política, artística, guerreira e religiosa de
uma sociedade culturalmente sofisticada como a grega”. Portanto,
cair no erro crasso de nomear a pederastia grega do que hoje compreendemos
como sendo a mesma homossexualidade vista por juristas, médicos,
psiquiatras e higienistas do século XIX, é cair no mesmo erro crasso de
se pensar que na antigüidade existia uma patologia ou um distúrbio
sexual inerente dos desejos afetivos e sexuais do erastes e do erômeno,
concebendo-os como seres desviantes, doentes, “perversos”,
“degenerados”, de personalidade “anormal” e passíveis de cura. Precisamos
ter cuidado com as armadilhas que a cultura do sexo rei nos preparou e
possibilitar ver o mais longe quanto possível as armadilhas “lingüísticas”
que “a vontade do saber” nos deu como legado. |
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Sergio Gomes
é Psicólogo, com Especialização em Sexualidade Humana pelo Centro de
Educação da |
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